NY – Domingo no Harlem

O dia escolhido para visitar o Harlem foi o domingo.
Lá como cá, domingo é dia de ir à igreja e um dos objectivos desta visita era, precisamente, a ida à igreja.
Serei assim tão religiosa? Nada disso. Pensava no Gospel. Eu e mais centenas (milhares?) de turistas – brancos – que para lá foram em romaria. Aliás, a pensar neles, as sempre atentas agências de viagens incluiram este passeio de domingo nos seus pacotes.
O mítico Harlem fica, surpreendentemente, logo após o Central Park (para norte), a poucas estações de metro do centro. Se tivesse olhado mais cedo para o mapa não teria ficado surpeendida com esta proximidade. A questão é que nos habituámos a ouvir falar do Harlem como um bairro problemático cuja visita chegava até a ser desanconselhada. Até aos anos 80, aqueles que gostavam de NY só pelas compras na 5.ª Avenida tinham uma boa desculpa para não se darem ao trabalho de ir conhecer este enclave dos negros na cidade. Hoje, após os esforços das autoridades locais para re-desenvolver o bairro, não existem mais desculpas e quem não vai ao Harlem não sabe o que perde.
Desde logo, e Gospel à parte (lá voltaremos), lanço mão do chavão: o Harlem é o coração da cultura negra. Escritores e músicos como Louis Armstrong e Duke Ellington viveram e tocaram aqui, no Cotton Club e no Apollo Theater. Para mim, que não estou minimamente ligada ao jazz (carência educativa de que culpo os meus progenitores), o Cotton Club é o nome de um filme com o Richard Gere. E o Apollo Theater não deixa de ser mítico por ter ouvido falar nele apenas em 2004 quando Ben Harper (cada um com o seu Deus da música negra) lá tocou com os Blind Boys Of Alabama. Passando à sua porta, claro que é um edifício como outro qualquer, não muito cuidado no seu exterior, e o seu interior… bom, confesso que infelizmente não tive oportunidade de sentir o carisma daquela sala.
O Harlem foi também um bairro onde se presenciou directamente um activismo em termos sociais, tendo visto erigir líderes defensores dos direitos cívicos. Daí que as ruas do bairro homenageiem “African-Americans” ligados a estas causas, como Martin Luther King, Jr, Malcolm X, Adam Clayton Powell, Jr, e Frederick Douglass.
Naquele domingo de Setembro pelo bairro, dificilmente se viram brancos (os turistas ficaram-se todos pela igreja), mas viram-se muitos vendedores ambulantes que ocuparam os passeios a vender de tudo, roupa, sapatos, lenços, óculos, todo o tipo de comida. O pessoal que vagueava pelas ruas parecia estar a fazer horas para a parada que começaria às 14:00, celebrando a mãe África, e muitos levavam lancheiras e cadeiras para se acomodarem o melhor e mais próximo possível do evento preferido dos americanos (coisa estranha esta de se fazerem paradas por tudo e por nada. Com tanto para comemorar, é sempre em festa, que é o que é preciso).

Voltando à igreja. O ambiente era me familiar. Já vi pessoas assim vestidas em filmes americanos de época. Os crentes vestem as suas roupas de domingo, com cores fortes, não esquecendo os chapéus e bengalas. Só me lembro do “E Tudo o Vento Levou”. Esta realidade é tão distante da minha como os tempos da Guerra Civil Americana o são de 2005. E, no entanto, é de experiências destas que qualquer um que viaja gosta de vivenciar. Outras culturas. A diferença.
A maior parte das Igrejas do Harlem são baptistas. A principal delas é a Abyssinian. A turba de turistas (na qual me incluo) é interminável e dá praticamente a volta ao quarteirão onde a Abyssinian tem morada. Negros para aqui – com entrada directa – brancos para ali – ficam à espera, uma vez que não vão participar dos serviços.
Não aceito a espera e envergonho-me do meu estatuto de reles mirone. Como existem muitas mais igrejas nas imediações sigo para a próxima, na certeza porém de que o melhor coro de Gospel fica na Abyssinian. Foi assim que fui ter à Mother African Methodist Episcopal Zion Church, logo na rua de trás. Aqui não havia muita gente representativa das duas espécies acima referidas: crentes e turistas. Missa calma, com os crentes a discursarem sobre as suas experiências de vida, conjugal incluida, com o coro a irromper amíude entre as palavras. A calmaria terminou com a intervenção do pastor cujo tom de voz foi num crescendo até que no final do seu discurso certamente se ouviu pelo Central Park afora. Enquanto o pastor falava, o diálogo com os crentes era possível através dos “Yeeh, Yeeh, That´s It” proferidos pelas damas nas primeiras filas. Muita acção, como se vê. A soneca aqui não é tão fácil de tirar enquanto o padre fala.
5 estrelas para o Harlem, o local em NY onde, ao mesmo tempo em que nos sentimos bem, sentimos também que não somos daquele filme.

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