A Velha Delhi

A chegada a Delhi mostra-nos um aeroporto moderno, mas sem que a carpete deixe de reinar por todo o chão dos longos corredores. Optámos por ficar num hotel na zona de Paharganj, qualquer coisa como a meio caminho entre a Velha Delhi e a Nova Delhi. Pensava eu que do hotel até à Chandni Chowk, a rua de todas as lojas que levam a todos os mercados e até ao Lal Qila (Forte Vermelho), seria uma caminhada fácil. Desgraçadamente não consigo deixar de pensar como europeia, com cidades centrais e com tudo a pouca distância. Nada. Isto é Índia, mais propriamente uma cidade com 12 milhões de habitantes que apenas consegue o lugar de terceira maior do país. Cidade com carros, motas, auto-riquexós, táxis-bicicleta, pessoas em todo o lado, vacas aqui e ali. E uma temperatura de mais de 40 graus. A juntar a isso coloque-se uma noite a dormitar alguns minutos salteados num avião durante um voo de oito horas e tem-se um prefeito primeiro dia de férias de verão temporada 2012.
O primeiro dia em Delhi foi um domingo. Parece que uma grande parte das dezenas de milhões de habitantes da cidade tiraram o dia para visitar, primeiro, a mesquita Jama Masjid, depois, o Forte Vermelho. Mas antes fomos também todos almoçar ao Karim’s, restaurante que serve comida mughal há mais de uma centena de anos. Molho de caril picante, claro, mas nada que o delicioso pão naan não trave. E, sim, comemos com a mão direita e com a esquerda devidamente posta de lado, meio que escondida para debaixo da mesa, como vimos fazer os locais (as doses industriais de filmes indianos a que venho assistindo também prepararam para a coisa).

A mesquita Jama Masjid é a maior de toda a Índia. Dá para acolher cerca de 25000 muçulmanos, essa imensa minoria de indianos que faz com que sejam muitos mais do que os habitantes de muitos países maioritariamente muçulmanos. Construída no século XVII, é muito ampla, com um pequeno lago no meio. Todos temos que deixar o calçado à entrada, mas o problema aqui não é apenas o chulé e sujar os pés – uma lembrança para quem se esqueceu já do início deste belo naco de prosa: estão 44 graus, os pés ardem, muito. Mas deixam de arder quando subimos ao minarete de cerca de 40 metros e aí o problema passa a ser o fôlego para vencer os degraus sob o calor.

A vista lá de cima mostra todo o poder do caos numa cidade. Edifícios sobre edifícios, e os poucos espaços que não foram por eles açambarcados logo vêem instaladas pessoas e mais pessoas que tudo vendem. Daqui vê-se bem o vizinho Forte Vermelho onde, contrariando o acima dito, há finalmente espaço para se estar, mesmo se esta parece ser a maior atracção de domingo em Delhi (15 cêntimos de entrada para os indianos, 3,80 euros para os estrangeiros). Chegou o momento de dizer que se vêem muito poucos turistas não indianos e deve ser por isso que os jovens indianos nos confundem com ETs e não tiram os olhos de nós. A sério. Desta vez não somos só nós que disfarçadamente tentamos tirar fotos aos locais. Eles também o fazem, mas a nós.

O Forte Vermelho tem a cor ocre que também a mesquita toma. Mas lá dentro das intermináveis muralhas há ainda uma série de outras construções em mármore que os Mughals erigiram no seu tempo áureo do mesmo século XVII, com o propósito de transferirem a capital de Agra para Delhi. O Forte foi, assim, mandado construir pelo imperador Shah Jahan, entre 1638 e 1648, o mesmo que mandou construir o Taj Mahal. Estando aqui nos dias de hoje, não é difícil imaginar os imperadores ou os marajás do passado passeando-se imponentes nos seus elefantes ou palanquins por esta cidade dentro da cidade, pelos jardins que envolviam os seus palácios, mesquitas, hammans, bem como os salões dedicados às audiências.

Com a queda dos Mughals, os britânicos adulteraram o espaço construindo quartéis para servirem o seu exército. Desde a independência da Índia face aos britânicos, em 1947, o Forte é o local da comemoração oficial anual daquela data. Hoje, em permanência, como que a lembrar quem é que governa, vemos a bandeira indiana ao vento lá bem em cima da Porta Lahore. Dentro desta fortificação não falta sequer um bazar onde podemos trazer para casa o pitoresco Ganesh. Ou Shiva. Ou Vishnu. Ou qualquer outra divindade hindu. Ou budista. Deuses protectores não faltam.
Saindo do Forte seguimos a Chandni Chowk, rua das compras que começa com o templo jainista de Digambara e termina com a Mesquita Fatehpuri. Ao lado desta fica o bazar das especiarias. Mas antes disso já passamos por muita confusão e muitos outros mercados. Uma boa introdução à capital indiana, à qual voltaremos daqui a uma semana.

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