Varanasi

De Delhi a Varanasi de avião é pouco mais de uma hora, tempo poupado de forma imbatível quando comparado com as 12 horas de viagem de comboio.

Varanasi, a Kashi ou Benares, é um dos locais mais sagrados de toda a Índia. Uma das cidades do mundo habitadas há mais tempo, hindus de todo o país vêm aqui morrer ou para aqui são trazidos depois de mortos, pois aqui se alcança a moksha, a libertação da samsara, da roda da vida e da morte. O rio Ganges espalha fertilidade por onde corre e em Varanasi são lhe dedicados todos os rituais de celebração, quer sejam da vida ou da morte.

Ao longo de cerca de 6 kms estendem-se dezenas de ghats, as escadarias que dão acesso ao rio. Para dentro fica a cidade fervilhante de confusão, das ruas estreitas onde todos parecem caber: carros – poucos -, autoriquexós, bicicletas, pessoas, macacos e vacas, e bosta destas, muita bosta, há que olhar com atenção onde se pisa. Aqui não há beleza especial, só uma introdução ao que já esperávamos ser a Índia. Mas, aqui como cá, as crianças aproveitam as ruas para brincar. O cricket é senhor e as paredes dos edifícios nas ruas estreitas amparam a bola tacada. Pior quando jogam junto aos ghats, pois o destino frequente da bola é a água do Ganges.

Mas é precisamente para estar no Ganges, ou tão somente para ver e sentir o Ganges, que pessoas de todo o lado chegam a Varanasi. Esta é a época de monções e, entre os riscos nada sérios, corremos o de não poder andar ao longo da beira do rio junto aos ghats quando o nível do rio está alto. Mas, felizmente para nós, e infelizmente para os indianos para quem monção é um ciclo natural, sobretudo de fertilidade, choveu pouco até agora e o caudal do rio está estranhamente baixo para esta altura do ano.

Os melhores momentos para se ver os ghats e edifícios de Varanasi junto ao rio é ao amanhecer e ao pôr-do-sol. Pela luz, claro, mas sobretudo porque é nesta altura que todos saem para se banhar, para fazer os seus rituais, para lavar a roupa. Todos convivem animadamente, homens e mulheres, muitos mais os primeiros do que estas, e vacas. Os barcos com os (poucos) turistas e (muitos) indianos vão passando junto aos crentes, tão perto que quase é possível partilhar as suas preces, as suas braçadas na água, levar até com os espirros da roupa molhada que está a ser lavada a bater nas pedras.

O ghat mais animado é o de Dasashvamedha, bem central e colorido. É para aqui que todos vêm, sobretudo por volta das sete da tarde quando acontecem cerimónias hindus com dança e música. Muitos ficam nas escadarias, mas muitos outros assistem desde os barcos.

De entre as dezenas de ghats existem dois que são usados para cremação. O de Manikarnika éo maior deles e vemos pilhas de madeira espalhadas, umas à espera dos corpos para serem usadas, outras já a arder em pequenas fogueiras. Os familiares, apenas masculinos, acompanham a cerimónia fúnebre junto ao seu ente ido. Isto porque o morto só se libertará feliz desta vida se não tiver lágrimas por perto, e ao que parece as mulheres são muito choronas. Primeiro o corpo, com roupa de cerimónia colorida vestida, é mergulhado no Ganges. Depois de aguardar secar nas escadas é colocado na fogueira. A madeira aqui utilizada diz-se que é da melhor qualidade, de lenta combustão, e o corpo pode demorar cerca de três horas a queimar. Após isso, as cinzas são lançadas ao Ganges e os familiares (normalmente o filho mais velho ou a viúva) observam uma série de rituais, entre os quais o corte do cabelo – rapado – e a veste de roupas brancas. Cerca de 300 a 400 cremações diárias são efectuadas aqui.
Existe ainda um lazareto ao cuidado de padres e outros voluntários que se ocupa de pobres de todo o lado a quem, sem família, só lhes resta aguardar a morte. A alguns deles é-lhes permitido cumprir estes rituais de purificação, de morte mas ao mesmo tempo de vida, no sagrado Ganges porque, há quem defenda e fica bem, na morte somos todos iguais, pobres e ricos, hindus, muçulmanos ou cristãos.

É este ambiente que nos é permitido sentir ao longo do Ganges e em Varanasi. Caminhar entre indianos, sentir claramente que estamos num mundo não ocidental, mesmo estranho para nós, e sentirmo-nos em paz, integrados. Escolher a pedra ligeiramente saída de um edifício no alto de uma escadaria que nos transporta a um beco e deixarmo-nos ficar aí sentadas, com o Ganges lá em baixo, movimento total, banco de areia branco na outra margem ali tão estreita ainda não inundado pela monção. E ver que de repente a atracção somos nós, olhos que se nos dirigem, comentários trocados, telemóveis apontados para nós para tirar fotografias. Afinal parece que tudo se reduz a um diferentes, mas iguais.

Uma palavra mais para o templo de Vishwanath, dedicado a uma encarnação de Shiva. Para se chegar látemos de ir adentro da cidade, afastando-nos dos ghats e do rio, por umas ruelas apertadas e sujas, mas sempre seguras. A polícia é presença constante por aqui, ao que parece por causa de algumas tensões religiosas. A nós, não hindus, não nos é permitida a entrada no templo, ficando apenas disponível uma vista muito de fugida e apertada das cores douradas das suas torres. Parece ser lindíssimo, mas provavelmente teremos que esperar por outras vidas para o conhecermos de forma plena.

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