Robert Byron – A Estrada para Oxiana

Em Novembro do ano passado foi-me anunciada uma viagem que me impossibilitou de dormir a noite toda, tal era a ansiedade e entusiasmo. Iríamos, eu e os meus colegas de língua persa, dez dias para o Irão, com transporte, alojamento e refeições incluídos por conta de alguém que não nós. O visto ficaria a meu cargo e não hesitei em ir de imediato renovar o passaporte. Nem por um momento duvidei de tanta esmola. Os dias foram passando sem que surgissem novidades sobre a nossa viagem. Era para Janeiro, depois para o Carnaval, depois não era para a altura do Novo Ano Persa, mas era para logo de seguida. 
Quando há uns anos a editora Tinta da China anunciou a sua colecção de viagens lembro-me de ver logo referido que uma das primeiras obras a lançar seria o clássico “The Road to Oxiana”. Demorou e só no fim do ano de 2014 foi disponibilizada aos leitores em português.
A minha viagem ao Irão não aconteceu e a ter lugar (e terá) será por minha iniciativa, logo, o melhor que fiz foi mesmo iniciar e terminar a leitura de “A Estrada para Oxiana”, de Robert Byron. 
Este livro influenciou muitos pelo mundo fora, escritores ou não, aventureiros ou apenas indivíduos que gostam de viajar pelas letras. Publicado em 1937, na sequência da viagem de dez meses de Byron pelo Médio Oriente, entre 1933 e 1934, este é considerado o primeiro exemplo do quão grandiosa pode ser a literatura de viagens. O escritor Paul Fussell afirmou mesmo que “A Estrada para Oxiana” está para a literatura de viagens o mesmo que “Ulisses”, de Joyce, está para o romance entre guerras e “Terra Devastada”, de T.S. Eliot, está para a poesia. Já Bruce Chatwin, o herói de qualquer um de nós que começou a viajar nos anos 80 / 90, escreveu na sua introdução para o livro de Byron que este era “um texto sagrado, para além de qualquer crítica”, fazendo-se acompanhar desta obra nas suas viagens. Em resumo, Byron e o seu “A Estrada para Oxiana” fez com que muitos quisessem ser escritores de viagens. 
A Oxiana do título deste livro é a região de fronteira do norte do Afeganistão, mas o seu autor viajou pelo Chipre, Palestina, Síria, Iraque, Pérsia e Afeganistão, até chegar a Peshawar (então India, hoje Paquistão) e retornar para a sua Inglaterra. O objectivo inicial de Byron era o de visitar as jóias arquitectónicas da região. O autor possuía um enorme conhecimento sobre arte e as civilizações e não se coíbe de descrever as pessoas e lugares por onde foi passando. Mas, sobretudo, uma enorme sede de sair e conhecer o mundo.
Byron lembra logo ao início deste livro, a propósito das memórias da uma sua anterior viagem a Itália, “eu podia ter sido dentista, ou uma personalidade pública, se não fosse aquele primeiro vislumbre de um mundo maior”.
Mundo esse que o levou mais além, fora da Europa, pela Pérsia, por terras de Babur, o descendente de Tamerlão e Gengis Khan, que fundaria o império Mogol. As cores de mosaicos e azulejos de azul cor de uva foram-lhe marcantes e é por eles que sonho também. Aliás, diz Byron a certo passo, a cor e os motivos são um lugar comum na arquitectura persa.
É precisamente a apreciação da arquitectura e dos monumentos o seu forte. Seja na descrição da beleza de Ispaão (onde “as suas imagens entram subtilmente para a galeria de lugares que todas as pessoas reverenciam no fundo do seu coração”), das ruínas de Shaour (sobre as quais escreveu que “quem admira a força sem arte, e a forma sem alma, vê neles beleza”) ou da por si odiada arquitectura de Bombaim (“absolutamente horrível: indiana, chalet suíço, castelo francês, torres de Giotto, catedrais de Siena e São Pedro podem ser encontradas todas juntas em quase qualquer edifício”; para Byron a Índia Britânica era “uma gigantesca conspiração para fazer acreditar-nos que estamos em Balham ou Eastbourne”, enfim, “num país cheio de bons exemplos, os ingleses deixaram a marca da besta”).
A ironia de Byron é uma das constantes ao longo desta sua obra. A tal ponto que confidencia que “hoje em dia, negligenciar um pôr-do-sol constitui uma indiscrição política” e “elogiá-lo produz igual efeito”. Quebremos, então, “os tabus do nacionalismo moderno, no interesse da razão humana”, e deixemo-nos levar pela leitura snob mas sempre erudita e divertida de Byron por terras de Oxiana.

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