A Póvoa e o Rio

A Póvoa de Santa Iria, concelho de Vila França de Xira, possui desde o Verão de 2013 dois Parques Ribeirinhos capazes de encantar e entreter qualquer um de nós, mesmo que não habitemos esta freguesia ou as freguesias vizinhas. Quer isto dizer que vale a pena uma visita de propósito ao local? Sim, muitas vezes sim.
Encravados entre o rio Tejo e a imensidão da construção urbana, com a linha férrea de permeio, encontramos o Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria e o Parque Linear Ribeirinho Estuário do Tejo.

Este último ocupa três freguesias: Póvoa de Santa Iria, Forte da Casa e Alverca. Aqui fica o Centro de Interpretação do Ambiente e da Paisagem, uma cafeteria e várias possibilidades de trilhos que partem da “Praia dos Pescadores”. A fauna por aqui é especial, assim como o é a imensa pacatez do sítio, com as águas do Tejo como companhia perfeita para momentos que se querem de sossego entre a natureza, seja numa caminhada, corrida ou passeio de bicicleta ou até num piquenique. 

Para se chegar a este Parque Linear, como ao Parque Urbano, há que atravessar a linha do comboio e entrar num mundo de abandono: as antigas fábricas estão deixadas à ruína sendo possível ver os destroços dos seus interiores e os grafittis que tomaram conta do lugar.
O Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria – ligado por trilho e estrada ao Parque Linear – tem igualmente uma cafeteria, bem como um parque infantil e zona desportiva com circuito de manutenção. Parece ser mais popular e mais frequentado do que o Parque vizinho. Os prédios altos e muito juntinhos da Póvoa estão ali bem perto mas é todo um mundo que os separa. Viramos-lhes as costas, mas nem assim eles nos largam, ali reflectidos mas janelas do Núcleo Museológico “A Póvoa e o Rio”. 

Pese embora a beleza destes Parques, numa zona do Tejo acolhedora, quer pelas suas águas, quer pelo enquadramento que o mouchão e pequenas construções aí instaladas lhe confere, a grande descoberta é a história das relações que ao longo do tempo se foram estabelecendo entre as pessoas e o rio. E nisso o Núcleo Museológico “A Póvoa e o Rio” é um elemento decisivo e muito interessante, dando-nos a conhecer esta terra que foi crescendo junto ao Rio Tejo e desde cedo se dedicou à extração do sal (desde o século XIII que há registo desta actividade, tendo as salinas deixado de ser exploradas no final do século XIX), vendo o transporte fluvial como um meio de comunicação privilegiado no transporte de pessoas e bens (ou não estivesse a Póvoa localizada próxima da entrada do grande estuário e da foz do Tejo) e, mais tarde, no fim do século XIX, assistindo à forte industrialização da sua zona ribeirinha (num lugar entre o Rio Tejo e a linha ferroviária, às portas da capital). 

Mas é sobretudo a descoberta da actividade piscatória ligada a uma comunidade não muito conhecida que nos enriquece: os Avieiros
Alves Redol, escritor ribatejano, escreveu nos anos 40 um livro de nome “Avieiros” cuja temática versa sobre esta comunidade, tendo apelidado as suas gentes de “nómadas do rio”.
Originários de Vieira de Leiria – daí a designação Avieiros -, no século XIX muitos dos que se dedicavam aí à labuta no mar passaram a vir para as margens do Tejo (e também do Sado) a partir dos meses de Novembro, quando a agitação do mar impossibilitava a faina. No Tejo, de águas mais calmas, encontravam peixe em abundância (sobretudo o sável) e por cá ficavam até à Primavera, regressando então para as suas terras. Com o passar dos anos, o tempo de vida no Tejo destes migrantes aumentou e acabaram por fixar-se aqui definitivamente em meados do século XX, passando a dedicar-se não apenas à pesca, mas também ao trabalho agrícola.

Estas migrações internas motivadas pela busca de trabalho e melhores condições de vida trouxeram para várias povoações à beira do Tejo, entre as quais a Póvoa de Santa Iria, um conjunto de pessoas que se fizeram acompanhar dos seus costumes e de um estilo de vida muito próprio. O rio era para elas o centro de tudo, de tal forma que no início viviam mesmo no interior dos seus barcos, o barco-morada, aqui dormindo, trabalhando e fazendo as refeições. Mais tarde passaram a construir pequenas casas, muitas feitas de canas, outras de madeira, na maioria assentes sobre estacaria, as chamadas casas de palafita. Ainda hoje é possível observar algumas delas no Parque Urbano da Póvoa de Santa Iria, com os seus barquinhos “à porta”. 

Preservando a memória da vida e do trabalho desta comunidade, para além de uma associação que leva o nome de Avieiros, encontramos ainda neste Parque uma série de pequenas casas de madeira que são hoje arrecadações de apoio à pesca desta comunidade. Não faltam sequer cais. Nem os assadores à porta.
Na procura de reconhecer e manter viva a memória dos Avieiros, o povo do rio de vida dura, possuidores de uma cultura distinta, seja pelos seus barcos, utensílios de pesca, traje, cante e cultura palafitica, tem vindo a ser colocada em marcha a sua elevação a património nacional. Bem merece ser conhecida a sua história e cultura.

Um pensamento sobre “A Póvoa e o Rio

  1. Pingback: A frente ribeirinha de Vila Franca de Xira – de Vila Franca de Xira à Póvoa de Santa Iria – Andes Sem Parar

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