Vila Franca de Xira, um pouco de história e cultura

Vila Franca de Xira (VFX) é para mim um dos concelhos mais agradáveis e interessantes da área metropolitana de Lisboa. Paisagem, lazer, cultura, tradição – com a tauromaquia e a gastronomia à cabeça -, aqui tudo encontramos. Desenvolvendo-se à beira Tejo, o rio sempre foi um elemento fundamental nestas paragens, quer pela sua riqueza em recursos naturais quer enquanto via de transporte.

Para além da natureza ter criado a navegabilidade do Rio Tejo, permitindo uma comunicação fluvial com mais de 1000 kms, também desde a Antiguidade uma longa via romana que atravessava o território hoje conhecido como Vialonga permitia um acesso mais facilitado à região. Apesar de vestígios arqueológicos atestarem a ocupação humana na região desde o Neolítico, os esforços numa ocupação mais forte aconteceram, no entanto, apenas a partir da conquista de Santarém e de Lisboa aos mouros, em 1147, quando cruzados ingleses receberam de D. Afonso Henriques a doação de terras no que hoje conhecemos como VFX como recompensa pela ajuda nas conquistas. O povoamento não foi fácil nem imediato, mas foi se fazendo ao longo dos séculos, muito graças às terras férteis do lugar. E nos dias de hoje, já se sabe, a Auto-estrada do Norte, a A1, começou por ver o seu primeiro troço de 25 kms, construído em 1961, a ligar Lisboa a VFX.

Servem estes dados para se perceber a localização estratégica do lugar. E a eles podemos acrescentar o seu papel decisivo na protecção de Lisboa e da linha do Tejo aquando das Invasões Francesas, tendo sido construído entre 1809 e 1812 um conjunto de fortificações para essa defesa, o que ficou conhecido como as Linhas Defensivas de Torres Vedras, construções essas ainda hoje visíveis e visitáveis em vários pontos do concelho de VFX.

E, depois, a região foi há séculos procurada pela nobreza, atraída pela proximidade da corte e pelos bons ares do Tejo e serras que o acompanham, para estabelecer aqui as suas quintas de recreio. Vários exemplos seguem de pé, nomeadamente alguns transformados em quintas municipais, e muitos outros em ruína. A eles voltaremos em post seguinte.

Em tempos dedicámos um post https://andessemparar.com/2018/09/14/a-frente-ribeirinha-de-vila-franca-de-xira-de-vila-franca-de-xira-a-povoa-de-santa-iria/ à fantástica frente ribeirinha de VFX, quase toda ela ciclável, e outro https://andessemparar.com/2015/11/13/a-povoa-e-o-rio/ à relação da sua Póvoa de Santa Iria com o Rio, mais especificamente enquanto terra de migrações de Varinos e Avieiros, respectivamente pescadores de Ovar e pescadores de Vieira de Leiria, que no século XVIII e XIX aqui se estabeleceram sazonalmente como comunidades piscatórias em busca do sustento que não encontravam nas suas povoações de origem durante os invernos rigorosos. O cais palafítico da Póvoa aí está para nos lembrar esse passado imortalizado por Alves Redol na sua obra “Avieiros”, aqueles a quem chamou os “ciganos do rio”. Em Gaibéus, a sua obra mais famosa, já Redol, nascido em VFX, se tinha dedicado a dar-nos conta da dureza do trabalho dos camponeses ribatejanos e beirões na lezíria. A fertilidade das terras da lezíria, que para além da pesca é rica em cereais como trigo e centeio e azeite, trouxe também alentejanos e até transmontanos. Outro escritor para sempre ligado a VFX, embora nascido em Baião, foi Soeiro Pereira Gomes, que residiu em Alhandra. Em “Esteiros” debruçou-se sobre a vida dos “homens que nunca foram meninos”, um grupo de crianças que nunca foram à escola mas trabalhavam como gente grande sem que saíssem do ciclo da pobreza. Uma dessas crianças foi inspirada em Baptista Pereira, o mítico nadador de travessias que Alhandra até hoje faz questão de homenagear.

As obras literárias de Alves Redol e de Soeiro Pereira Gomes são marcadamente de oposição ao regime do Estado Novo, opressor e cego relativamente à pobreza que se vivia na região. Ambos os autores eram comunistas e fizeram-se ler e ouvir quanto à exploração dos mais fracos pelos mais fortes. Não surpreende, pois, que seja em VFX que encontramos o Museu do Neo-Realismo, um movimento não apenas literário mas também de outras expressões artísticas, como as artes plásticas e o cinema, de resistência e oposição política e afirmação estética que emergiu na Europa nos anos 30 do século passado.

A ideia de criar um Museu do Neo-Realismo foi sendo desenvolvida na década de 1980 e em 2007 ganhou um belo edifício projectado pelo arquitecto Alcino Soutinho mesmo no centro da cidade. Para além de arquivo de documentos e obras da corrente neo-realista e da exposição residente, aqui decorrem exposições temporárias, como a que no ano passado pudemos apreciar dedicada a Cândido Portinari, o meu amado neo-realista brasileiro. No interior do edifício, numa parede de alto a baixo, vemos um enormíssimo desenho com o traço de Júlio Pomar.

Outro dos novos edifícios na paisagem arquitectónica da cidade é o da Fábrica das Palavras, a biblioteca mesmo à beira Tejo. O lugar é incrível. A antiga fábrica de descasque de arroz deu lugar a um ícone projectado pelo arquitecto Miguel Arruda que está ao nível dos grandes escritores neo-realistas acima citados, aos quais podemos juntar ainda outro dos grandes nomes de VFX, Álvaro Guerra. O pequeno largo deste edifício, que tem uma ponte elevada que liga directamente a cidade ao rio, passando sobre a linha do comboio, foi pensado para ser um lugar de convívio e recreio, integrando na perfeição o casco antigo com as linhas contemporâneas da nova biblioteca.

Terminamos este texto com uma sugestão de filme, A Fábrica de Nada. O comboio que na segunda metade do século XIX iniciou a ligação de Lisboa ao Carregado, passando por VFX, trouxe à boleia a chegada da indústria. Muitos dos edifícios onde as fábricas de várias actividades se instalaram são hoje apenas ruínas, mas outros continuam o seu labor. É lembrar a fábrica da Cimpor que qualquer um de nós já deu conta quando atravessa a A1 pela zona de Alhandra. O movimento operário sempre foi activo. E o filme Fábrica de Nada representa, precisamente, esta decadência inexorável da indústria, mas, sobretudo, a força e a persistência dos operários que teimam em não deixar desaparecer os seus empregos. A não perder, se se quiser saber mais sobre a carismática VFX.

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