Santarém

“Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica. Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas.”

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra

Não me lembrava se já havia estado em Santarém, mas tinha a certeza de não conhecer Santarém. A meros 45 minutos de Lisboa, ia adiando sempre a visita. Mas então surgiu o pretexto perfeito: tinha de renovar o passaporte com alguma pressa e a Loja do Cidadão de Santarém era a mais próxima em data. Obrigada serviços do Estado por andarem tão entupidos.

A primeira impressão que Santarém me deixou foi uma comparação com Goa. Pensei, um lugar com tantas igrejas só na Velha Goa, mas depois pensei melhor e caminhando pelas ruas do Chiado decidi incluir o bairro lisboeta no concurso “quem tem mais igrejas por m2?”.

Diz-se que em Santarém chegaram a coexistir 14 conventos e 36 igrejas e, por isso, é inevitável começar este passeio por uma igreja. Mas apesar de esta ser a “capital do gótico” vamos começar pela , a Igreja do Colégio dos Jesuítas, que de gótico não tem nada e foi construída entre o século XVII e XVIII, numa época em que Santarém não estava já no seu apogeu. Na Praça Sá da Bandeira, coração da cidade, a sua fachada maneirista é belíssima. O interior da igreja é o deslumbre a que os jesuítas e o barroco nos habituaram, com reluzente talha dourada e mármore nos altares e capelas. Aqui pode ainda visitar-se o Museu Diocesano de Santarém.

À Praça Sá da Bandeira acede-se pelo Jardim da Liberdade ou pelo Jardim da República, e à sua entrada temos logo mais outra Igreja, a do Rosário (pequena, bonita, aconchegante e colorida). Desta Praça harmoniosa, com todos os seus edifícios de cor branca, incluindo um com uma discreta janela manuelina, saem diversas ruazinhas que irradiam para configurar aquele que é o centro histórico da cidade. Ruas estreitas de traçado irregular, com uma série de becos, edifícios maioritariamente de dois pisos, nem sempre bem conservados, comércio e restauração aqui e ali. Por aqui fica o Teatro Sá da Bandeira e mais uma mão cheia de igrejas.

Andemos, porém, aos ss por Santarém e escrevamo-lhe um pouco de história, porque, como escreveu Almeida Garrett, “Santarém é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poética parte das nossas crónicas está escrita”.

Scalabis foi instalada num morro fortificado, o Escalabicastro, elevado face ao Rio Tejo e à fértil lezíria. Terra muito antiga, antes dos romanos foi lugar dos fenícios. Conquistada definitivamente pelos reis de Portugal aos mouros em 1147, a partir daqui viveria a sua época de maior esplendor, ao que não foi alheio o facto de ser a vila favorita de muitos reis e a aristocracia a escolher para as suas caçadas, com a construção de igrejas que são verdadeiras obras artísticas. E também ao facto de este ter sido o período áureo dos descobrimentos que trouxe o desenvolvimento a todo o país. Foi a partir de finais do século XV e ao longo do século XVI que Santarém viria a perder parte da sua relevância, não só pelo porto de Lisboa nessa época ter alcançado um grande desenvolvimento, mas também pela morte acidental do herdeiro do trono. Os seus pais, D. João II e D. Leonor, não mais quiseram voltar a Santarém, optando antes por Almeirim. Mais tarde, com o advento do liberalismo em meados do século XIX e o fecho dos conventos, o abandono de Santarém passou a ser uma realidade e apenas a inauguração em 1881 da ponte D. Luís, ligando Santarém a Almeirim, e a chegada do comboio lhe voltaram a trazer algum crescimento e progresso. De qualquer forma, foi aqui que D. João II foi aclamado rei, foi esta a cidade transformada em quartel-general para defesa das Invasões Francesas e de D. Miguel nas lutas liberais e foi de Santarém que, na madrugada do 25 de Abril, saiu a coluna militar de blindados comandada por Salgueiro Maia rumo ao Quartel do Carmo para derrubar a ditadura que há décadas perdurava em Portugal.

E por que terá mudado a antiga Scalabis de nome para Santarém? Diz a lenda que uma bela noviça de Tomar era disputada por vários rapazes, entre os quais o príncipe Britaldo que, conformado, havia aceitado a sua decisão de se devotar a Deus. Mas quando este soube que a rapariga tinha quebrado os seus votos e mudado de decisão para se entregar a outro rapaz, o príncipe, inconformado, assassinou-a e o seu corpo, lançado à agua, foi transportado pelos rios Nabão, Zêzere e Tejo, até pousar na Ribeira, incorruptível. O milagre fez com que a povoação passa-se a Santa Irene e, com o tempo, o nome evoluísse para a actual Santarém.

Feito um breve apanhado histórico, resta a memória. E o que é mais visível dessa memória são, lá está, as igrejas monumentais da cidade, sobretudo as que fazem de Santarém ser reconhecida como a “capital do gótico”.

A Igreja de São João de Alporão foi construída no século XII, uma das primeiras da época medieval, e terá sido esta que inspirou o historiador Vergílio Correia no apodo “capital do gótico”, embora aqui coexistam não apenas influências góticas, mas também românicas. A sua rosácea é belíssima. Ao seu lado encontramos a Torre das Cabaças, ou Torre do Relógio, do século XV. O seu nome dever-se-á ao facto de sete vasilhas de barro ocas, as cabaças, terem disso colocadas no cimo da torre representando as cabeças ocas de quem havia mandado construir um sino na torre que era para ser do relógio.

A Igreja do antigo Mosteiro de Santa Clara e o Convento de São Francisco, situados numa das saídas da cidade, são dois exemplos do gótico mendicante. Ambos do século XIII e ambos com a característica rosácea na fachada, no último visitei os claustros e as ruínas da sua imponente mas austera igreja, despida de quaisquer elementos e onde apenas se faziam ouvir as pombas para lá dos tapumes.

Mas a mais fantástica das igrejas góticas de Santarém é a de Santa Maria da Graça, considerada uma obra-prima do gótico flamejante. Pertencente à Ordem de Santo Agostinho, a sua construção iniciou-se em 1380 mas foi concluída apenas no princípio do século seguinte por dificuldades financeiras suplantadas pela família Teles de Menezes, que aí mandou erguer o seu panteão. Atente-se, uma vez mais, à sua exemplar rosácea na fachada.

O interior é majestoso e impõe respeito. Aqui encontramos vários túmulos com belos motivos decorativos. Mas o túmulo mais famoso e procurado é aquele onde jaz Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil que faleceu em Santarém em 1520. Na outra esquina da Igreja da Graça fica a Casa do Brasil, um edifício setecentista construído sobre um outro que pertenceu à família de Pedro Álvares Cabral. Hoje este é um espaço museológico que se propõe a dar a conhecer a relação de Santarém com os Descobrimentos.

Continuado o périplo pelas igrejas, menção mais para a Igreja de Marvila com o seu portal manuelino (fechada à minha passagem, mas o seu interior é quase totalmente revestido a azulejo) e para a Igreja do Santíssimo Milagre, a que se acede vindo da Igreja da Graça por uma ruazinha com uma escadaria (interior renascentista com vários quadros). Mas, sobretudo, para a Igreja da Misericórdia, o melhor exemplo renascentista de Santarém. Construída no século XVI, o seu interior é austero, mas belíssimo, ao estilo das igrejas-salão.

À sua frente, do outro lado de uma rua estreita, vemos um edifício com motivos arabescos e ao seu lado uma varanda quinhentista em cunha.

Com as palavras de Miguel Torga em mente, “O Ribatejo deve ser visto das Portas do Sol de Santarém, num dia de cheia, ou das bancadas de uma praça de touros numa tarde de Verão”, mas sem que pudesse cumprir todos os elementos, seguimos agora em direcção ao Jardim das Portas do Sol. Passamos pelo edifício do Cine-Teatro Rosa Damasceno em ruína e pela Avenida 5 de Outubro e seus chalets e palacetes do princípio do século XX, alguns deles hoje decadentes. Ao contrário da soberba vista que a alcáçova do castelo conquistado por D. Afonso Henriques aos mouros nos dá, a qual nunca ruirá ou decairá. Do miradouro das Portas do Sol assiste-se a todo o esplendor da situação geográfica da antiga Scalabis e da actual Santarém em relação à lezíria. São campos verdes de agricultura a perder de vista, apenas interrompidos pelo corte que o Rio Tejo lhes provoca.

O Jardim é aprazível e podemos caminhar por parte das muralhas do antigo castelo.

A não perder, ainda, o Miradouro de São Bento, mais uma vista privilegiada desde uma das várias colinas da cidade, agora com Santa Iria da Ribeira de Santarém e a estação mesmo abaixo de nós, mas com os mesmos protagonistas que o anterior miradouro, a lezíria e o Tejo.

Não abandonamos Santarém sem uma paragem no seu mercado. O Mercado de Santarém é obra do arquitecto Cassiano Branco e um exemplo do modernismo na cidade. Construído em 1930 no antigo Chão da Feira, é uma longa estrutura em ferro com a sua fachada revestida com painéis de azulejo representando os monumentos e cenas do quotidiano da região. As cenas tauromáquicas não poderiam faltar, claro, e elas fazem-se representar ainda num registo mais contemporâneo no Jardim da Liberdade, onde deixamos a capital do Ribatejo.

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