Constância

Constância é onde o Zêzere se junta ao Tejo.

Não é, pois, de estranhar que a vila tenha desde sempre visto a sua vida ligada aos rios e à actividade fluvial que eles permitem. Construção de barcos, transporte fluvial, pesca, todas elas fizeram historicamente parte da economia de Constância.

A antiga Punhete mudou oficialmente de nome em 1836 por iniciativa da rainha D. Maria II como forma de agradecer a constância do apoio que os seus habitantes deram à causa liberal. Ninguém deve ter ficado com saudades do anterior nome e este pequeno facto não deixa hoje de provocar sorrisos quando pensamos em tal calão.

A actividade fluvial foi perdendo importância com a chegada do caminho de ferro e das estradas no século XIX, e o concelho virou-se para o turismo, não esquecendo o seu passado.

Constância faz questão de lembrar que Luís de Camões aqui viveu por altura do seu desterro, provavelmente por volta de 1546 ou 1547. A toponímia não o esquece, uma estátua lembra-o e a sua pretensa antiga residência, hoje Casa-Memória de Camões, cá está para o recordar.

Mas é a beleza da sua envolvente paisagística e o seu centro histórico feito de ruas estreitas e inclinadas e casario branco com riscas coloridas e muitas flores a decorarem-na que fazem de Constância um lugar intemporal e de visita obrigatória.

Algumas fotos.

Vista da Igreja Nossa Senhora dos Mártires (Igreja Matriz de Constância)

Parque fluvial onde os rios Zêzere e Tejo confluem

Igreja da Misericórdia

Torre do Relógio – Miradouro do Tempo. Parte integrante da antiga capela de São Pedro, aqui encontramos um dos mais antigos relógios públicos do género ainda a funcionar. Datado do século XVIII, como curiosidade registe-se o facto de só ter ponteiro das horas.

Pelourinho, antiga Cadeia, Praça Alexandre Herculano

E o casario:

Arte Pública em Vila Nova da Barquinha

Vila Nova da Barquinha é um pequeno concelho à beira Tejo. Pequeno em área mas com pontos de interesse em número tal que nos faz deixar de duvidar que aquele pequeno núcleo urbano que é sede de concelho possa ter à sua volta tanta história, arte e natureza.

O Castelo de Almourol fica aqui, assim como aqui fica a pitoresca aldeia de Tancos e sua Praia do Ribatejo. Mais afastado do Tejo temos desde o último mês uma obra de Vhils: uma homenagem aos oleiros do concelho com a sua técnica característica marcada na fachada de um posto de transformação da EDP na aldeia da Atalaia. Integrado no projecto Arte Pública da Fundação EDP, esta é a primeira intervenção artística de dez que durante o ano irão surgir em diversos pontos do concelho de Vila Nova da Barquinha.

Mas se a obra de Vhils é o mais fresco exemplar de arte urbana numa zona rural do concelho, o Barquinha Parque e seu Parque de Escultura Contemporânea de Almourol já por aqui anda há mais tempo.

Uma autêntica galeria a céu aberto que segue o correr do Tejo, este parque público com um extenso relvado inaugurado em 2005, da autoria dos arquitectos paisagistas Hipólito Bettencourt e Joana Sena Rego, é uma preciosidade quer pela sua implantação e integração na paisagem natural quer pela sua qualidade paisagística e artística, para além de espaço de lazer.

Posteriormente, em 2012, foi criado o referido Parque de Escultura. Talvez nem nos melhores museus portugueses se reúnam tantos artistas de renome: Alberto Carneiro, Ângela Ferreira, Carlos Nogueira, Cristina Ataíde, Fernanda Fragateiro, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes, Xana e Zulmiro de Carvalho.

São, pois, onze esculturas que nos surpreendem à beira Tejo (entretanto acompanhadas por outros apontamentos artísticos).

Alguns exemplos em foto:

Rega, de Ângela Ferreira (a obra que mais evidentemente se inspirou nas vidas da comunidade local, um instrumento de rega de campos transformado em baloiço)

Rotter, de Cristina Ataíde (a merujona, instrumento de pesca local re-interpretado)

Contramundo, de Rui Chafes

Linha da Terra e do Rio, de Zulmiro de Carvalho, e Casa no Céu, de Xana

Casa Quadrada com Árvore Dentro, de Carlos Nogueira

Castelo, de Pedro Cabrita Reis

Sem Título, de José Pedro Croft

Concrete Poem, de Fernanda Fragateiro, e Trianons, de Joana Vasconcelos

Sobre a Floresta, de Alberto Carneiro

De Dornes ao Lago Azul

Dornes é uma vila no concelho de Ferreira do Zêzere. Mas é muito mais do que isso, já sabe quem a conhece ou ficará a saber quem a vier a conhecer.

Pode ser vila no papel, mas no nosso imaginário é uma aldeia e logo uma das mais bonitas de Portugal.

Instalada numa pequena península à beira do rio Zêzere e da Barragem de Castelo de Bode, é a sua envolvente paisagística que nos seduz logo de imediato. O casario é pequeno, mas destaca-se naquela imensa paisagem de água e verde que a envolve.

Assim como se destaca a Torre de vigia que os templários aqui ergueram. De raiz romana, os templários deram-lhe forma pentagonal, algo raro no nosso país, e foram desenvolvendo a aldeia medieval à volta desta torre de defesa da linha do Zêzere – Tejo contra os mouros, num lugar estratégico perto de Tomar, a sede da Ordem do Templo. No tempo de D. Manuel a Torre de Dornes foi adaptada a torre sineira.

Crê-se que Dornes seja até anterior à fundação da nossa nacionalidade. As suas origens assentam em lendas, a acrescentar à construção do carisma da bela Dornes. Conta-se que há muito tempo atrás vozes de choro eram ouvidas no cimo do cabeço. A Rainha Santa Isabel, mulher do rei D. Dinis, mandou construir aí uma igreja e já desde os finais do século XIII que muitos ali acorrem na Romaria do Pranto.

A igreja foi entretanto muito modificada, mas o seu interior segue cativante com o altar em talha dourada, azulejos e pequenos vitrais. E a Romaria do Pranto perdura, como testemunham os 13 cruzeiros de pedra com motivos azulejares que representam cenas da Paixão de Cristo que vamos vendo desfilar à medida que nos aproximamos de Dornes.

O enchimento da barragem de Castelo de Bode nos anos 80 levou a uma tal subida das águas do Zêzere que o cabeço onde se situa Dornes se transformou numa península. Logo, tudo à sua volta é água. Para além do turismo, a economia da aldeia limita-se a uma pequeníssima escala de construção de barcos em madeira.

A gastronomia é também uma atracção por aqui. No fim de semana em que visitámos Dornes decorria no concelho de Ferreira do Zêzere o Festival do Lagostim de Rio. No sentido de promover os produtos locais são muitos mais os festivais a que aderem vários restaurantes da região: neste mês de Maio decorrerá o da fava, em Junho o do ovo, em Novembro o da abóbora e em Janeiro o das migas.

Os “dornitos” são umas bolachas com a característica cruz templária nelas desenhada comercializados e bem saboreados em Dornes.

De volta à paisagem, vale a pena deixar Dornes e continuar junto ao Zêzere e barragem, com o pinhal a envolver-nos, até Vale Serrão e Rio Cimeiro para presenciar mais vistas tranquilas. Um olhar atento descobre até umas gigantescas laranjas num quintal e a curiosidade de mãe faz o braço esticar alto para conquistar o alheio.

Ferreira do Zêzere, sede de concelho, tem como seu grande atrativo a Pastelaria Pérola do Zêzere, ideal para abastecer de doçaria local. Doces com a tijelada e outros com nomes improváveis como “bons maridos” ou “boas esposas” estão à nossa disposição para serem devorados.

Daqui até ao Lago Azul, onde pernoitámos, é um pulinho.

A Barragem de Castelo de Bode era a maior albufeira de Portugal até ao enchimento do Alqueva. São cerca de 60 kms que vão desde os arredores de Tomar até Cernache do Bonjardim. O nome “castelo” faz crer na existência de uma fortificação antiga que por ali haveria e o nome “bode” será referência ao ídolo dos templários, o bafomet, que possuía a forma de um bode.

Construída nos anos 50 do século passado, a intenção inicial deste projecto era a de reter as águas provenientes do maciço central da Serra da Estrela para a produção de energia eléctrica. Mais tarde, com o crescimento exponencial de Lisboa e sua área metropolitana, a sua função passou a ser a da captação de água potável e seu abastecimento à Grande Lisboa.

No entanto, o bonito Zêzere (o segundo maior rio exclusivamente em território português) e a sua envolvência fazem da Barragem e desta região um local ideal para o lazer, a fruição da natureza e o exercício de inúmeras actividades náuticas.

A Estalagem do Lago Azul tem uma das paisagens mais bonitas que se pode obter desde um quarto de hotel.

(tristemente, por esta época ainda se vê a paisagem queimada em consequência dos terríveis fogos do ano passado)

A praia fluvial da Castanheira tem muito boas condições para se nadar e um pouco mais adiante é o paraíso para todos aqueles que se quererem aventurar em desportos aquáticos que nunca vira ou ouvira falar.

Estes braços do Zêzere que vão furando tranquilamente a terra e moldando-a de forma surpreendente são sobretudo ideais para se descobrir recantos escondidos, seja na água ou fora dela.

A voltar, repetidas vezes.