Evoa

O Espaço de Visitação e Observação de Aves – Evoa – está instalado em Vila Franca de Xira, em plena Reserva Natural do Estuário do Tejo e lezíria, uma zona de pura paisagem natural.

Para lá chegarmos seguimos por alguns quilómetros em estrada de terra batida na companhia de pastagens e arrozais. Sem perder de vista os equipamentos industriais que são a imagem de Alhandra, em terra firme numa das margens do Tejo, e a castiça igreja de Alcamé, em plena lezíria. Pura paisagem natural? Sim, mas a presença do Homem faz-se notar, e bem, num interessante convívio contrastante.

Inaugurado em 2012, o Evoa é o resultado de uma parceria entre a Companhia das Lezírias (dona dos terrenos) e a Brisa. À entrada do Evoa recebe-nos o seu belo Centro de Interpretação, numa arquitectura bem integrada na paisagem. Projecto de Maisr Arquitectos, o edifício desenvolve-se em plataformas e utiliza a madeira como material, remetendo para a ideia de juncos e paliçadas e de ambiente natural. Lá dentro, a exposição permanente dá-nos um enquadramento da história e do ecossistema da lezíria. Ficamos a saber que a abundância de recursos, o clima ameno e a localização do estuário e da lezíria atraíram desde sempre tanto as aves como o Homem. A fertilidade da lezíria, graças ao rio Tejo, era já gabada na Antiguidade e tem permitido diversas actividades como a pesca, a agricultura, a pecuária, a apanha de ostras e a extracção de sal. E o sapal e a dinâmica das marés são decisivas no equilíbrio deste ecossistema.

Mas porque ao Evoa vimos para observar aves, vamos então a elas. No dia em que o visitámos, antes de sairmos rumo à descoberta de parte dos 70 hectares das 3 lagoas de águas doce – a Principal, a Rasa e a Grande – que vão até à Ponta da Erva, na confluência dos rios Sorraia e Tejo, tivemos a sorte de ver libertar uma ave. Um guarda-rios tinha caído logo de manhã na rede propositadamente existente no Espaço para permitir a apanha das aves e seu posterior anilhamento, de forma a monitorizar os seus percursos, permitindo saber quantos quilómetros percorrem estas aves migratórias e até onde vão, incluindo a velocidade média que gastam a ir de um ponto para o outro. Com isso ficámos a saber que algumas das aves, se apanhadas pelos radares das nossas estradas, seriam imediatamente multadas ao voarem a mais de 180 kms/h.

Voltando ao guarda-rios, um passarinho com umas cores lindas, foi primeiro colocado na palma da mão de uma das responsáveis do Espaço onde se aninhou até sentir o conforto e a confiança para iniciar a sua jornada.

O Evoa é um importante ponto na rota das migrações das aves. É a mais importante zona húmida de Portugal e uma das mais relevantes da Europa e aqui se podem ver as aves no seu habitat. São mais de 120 mil aves e 200 espécies diferentes que aqui têm um lugar de refúgio e nidificação.

Existem vários percursos pedestres e outro em carrinho eléctrico – apenas com este último atingimos a Ponta da Erva, o lugar mais distante do centro de interpretação, onde se avista bem ao longe Lisboa com a sua Ponte Vasco da Gama. As visitas podem ser guiadas ou não, mas para leigos em avifauna, como eu, a visita guiada é totalmente aconselhada. Vejamos, já quase passei o estágio de distinguir um melro de uma melra pelo tom do bico, mas como identificar um banal rouxinol, seja pela silhueta ou pela cantoria? Com guia somos alertados quer para a presença física quer sonora das diversas aves. Ao rouxinol, no Evoa, ouvi-mo-lo, embora não o tenhamos visto.

O primeiro desafio na observação das aves é saber usar os binóculos. No Evoa há aves em abundância, mas elas não são facilmente apreciadas de perto e a olho nu. Há que usar os binóculos e até o telescópio em cada um dos postos de observação junto a cada uma das lagoas ou a céu aberto. Depois é aguardar que as aves, incluindo águias, voem sobre nós ou apontar os binóculos para aquelas que se deixam estar pacatamente pelas zonas húmidas. E aí, o melhor momento para as observar é na maré cheia do rio, quando elas deixam o estuário para se recolherem nas lagoas artificiais do Evoa. Quanto à época do ano, embora o Inverno reúna mais diversidade de espécies, é na Primavera que as aves aparecem em maior quantidade.

O guia lá vai descobrindo e anunciando a localização exacta de determinadas espécies, depois melhor identificadas pelos visitantes. Patos são aos magotes, em especial na Lagoa Rasa. O que não sabíamos é que havia assim tantos tipos de patos, incluindo um com o nome pipoca de marrequinha. Mas a ave de que mais gostei de observar foi o abibe, com a sua poupa elegante. Deu ainda para apreciar o pernilongo com suas patinhas fininhas alaranjadas, o alfaiate com o seu fato branco com listinhas pretas e as sempre esbeltas garças, igualmente com montões de espécies dentro delas. Vimos ainda o cartaxo, gerando a confusão de como de Vila Franca se pode observar o Cartaxo. Infelizmente não pude vislumbrar o colhereiro e seu bico em forma de colher. A piada de observar aves é ver as diferentes especificidades que tomam e também apercebermo-nos dos curiosos nomes que lhes atribuem.

Um lamento, porém. Para registar fisicamente estas encantadoras espécies há que dispor de equipamento adequado, ou seja, uma máquina fotográfica com objectivas de longo alcance, o que não é, pode ver-se pelas fotos, manifestamente o meu caso. Fica o registo da paisagem que as acolhe, igualmente imensa.

Um passeio por terras de Vila Franca de Xira

Depois da vista de pássaro desde o miradouro do Monte Gordo, donde se observa a paisagem imensa do Estuário e Lezíria do Tejo (e até um enormíssimo palácio em ruína nas suas costas, o Palácio de Farrobo perdido na ruralidade), começamos o nosso passeio pela cidade e alguns pontos do concelho de Vila Franca de Xira (VFX) pela sua marina.

Foi nos antigos estaleiros de Povos, ainda hoje a dois passos do centro, que foi construída a armada que levou Bartolomeu Dias a dobrar o Cabo da Boa Esperança, tendo esta saído do porto de VFX em Agosto de 1487 para cumprir o seu histórico destino.

Muitos séculos depois haveria de ser outro tipo de embarcações a ganhar protagonismo. Já no século XX, era a bordo de um dos vários barcos de pesca varinos típicos desta frente ribeirinha que opositores ao Estado Novo se reuniam para conviver e conspirar, aproveitando a inspiração que o Tejo lhes trazia. Aqui, navegando as águas do rio, podiam falar à vontade sem receio da PIDE. A Câmara Municipal comprou um destes barcos que tradicionalmente tinham por função não a conspiração mas antes o transporte de mercadorias e pessoas, deu-lhe o nome “Liberdade” e organiza passeios de puro desfrute do Tejo.

Seguindo ainda pela lezíria, palavra derivada do árabe “al-jazirâ“, com o significado de “ilha”, o Evoa – Espaço de Visitação e Observação de Aves é uma paragem de destaque. A provar que a lezíria não é feita apenas de campos férteis, mas também de uma rica avifauna, este é um espaço privilegiado para a observação de aves em plena Reserva Natural do Estuário do Tejo.

À porta do centro da cidade de VFX fica a pitoresca Alhandra, instalada à beira Tejo. É uma terra de tradição de desportos náuticos que, já se disse no post anterior, honra os seus, como Baptista Pereira, nadador de travessias, e aqueles que a adoptaram, como Soeiro Pereira Gomes, autor de “Esteiros”.

Por detrás da escultura que é dedicada aos seus “homens que nunca foram meninos” vê-se, altaneira, a igreja matriz São João Baptista. Daqui do adro da igreja obtém-se uma boa vista para o casario de Alhandra, mas é mais acima que a panorâmica se torna grandiosa.

Do lugar onde se construiu o Reduto da Boa Vista, parte das fortificações que constituíam as Linhas de Torres de defesa aos ataques das tropas de Napoleão do início do século XIX, foi levantado em 1883 um Monumento a Hércules e aos Defensores das Linhas de Torres Vedras. Temos Alhandra logo abaixo (e a monstruosa fábrica da Cimpor), VFX mais esquerda, a Ponte Vasco da Gama bem ao fundo à direita e a Lezíria por todo o lado.

É curiosa a forma que a terra toma aqui. Não muito longe do rio a encosta agiganta-se e os montes vão-se sucedendo, quebrados aqui e ali por vales. Nomes como São João dos Montes e Subserra marcam a toponímia.

É por aqui que encontramos a Quinta Municipal de Subserra. Mandada erguer em 1633 por Diogo da Veiga, um mercador das Índias, o terramoto de 1755 destruía-a em grande parte, mas acabou por ser reedificada em 1821. À medida que vamos subindo a serra vamos percebendo uma longa fachada branca e ficamos convencidos de que estamos no bom caminho para a alcançar. O edifício do seu palácio destaca-se de imediato, mas depois percebemos que tem a companhia de outros edifícios mais pequenos, hoje disponíveis para eventos e até para alojamento turístico, e de uma vasta área de vinha instalada numa das vertentes.

Daqui do alto temos mais uma vez umas belas vistas para a Lezíria, agora acompanhadas pelo latido incessante dos cães das povoações à volta. A alta nobreza de Lisboa do século XIX procurava esta zona pelas suas águas e bons ares, mas pelos vistos a acústica do lugar também não lhes fica atrás.

Outra quinta hoje tornada municipal não muito longe da Subserra é a do Sobralinho. Construída no século XVII como residência de veraneio do Conde de Vila Flor, era aqui que a aristocracia, incluindo a família real, se juntava nos seus momentos de lazer fora da capital. Esta é para mim a mais bonita das quintas de VFX que chegaram intactas aos nossos tempos. Tem um palacete pintado a rosa vivo que sobressai no meio do verde que o rodeia, nomeadamente do jardim e da mata.

E tem uns apontamentos artísticos como os azulejos que decoram os muros / bancadas – com cenas do quotidiano e ao gosto chinoiserie – e uns apontamentos bucólicos materializados no pomar, em especial nas laranjas. No seu interior, para além do tranquilo pátio, as salas possuem os tectos e paredes forrados com pinturas. Tão irresistível é o lugar que, diz-se, até Salazar tinha aqui um esconderijo secreto enquanto mantinha Portugal sob ditadura.

Em região de muitas quintas e palacetes, outra em destaque é a Quinta Municipal da Piedade, já na Póvoa de Santa Iria. Antigo latifúndio com olival, vinha e pomar criado em 1318, a povoação da Póvoa foi-se desenvolvendo à sua volta. Hoje o espaço é ainda generoso em termos de área circundante ao palacete do século XVIII que, diz-se, chegou a ter mais 20000 azulejos entre palácio e quinta. Aqui funcionam alguns serviços da Câmara Municipal, uma galeria, um bar, uma Quinta Pedagógica com animais e espaços verdes recreativos com vista para o Tejo.

Com tantos palacetes não espanta que antes de ser Vila Franca de Xira, Vila Franca fosse da Rainha. Com o golpe de estado de 1823 que ficou conhecido na História por Vilafrancada o seu nome chegou a mudar episodicamente para Vila Franca da Restauração, mas logo voltou a Xira. A palavra “xira” derivará do português arcaico “cira”, sinónimo de matagal, por referência a um bosque de castanheiros que dominava a região. Outros, ainda, atribuem a toponímia a uma derivação da palavra árabe “as-Shirush”.

Não podemos deixar VFX sem dedicar umas palavras à tauromaquia. A cultura tauromáquica está por todo o lado, desde o monumento ao toureiro instalado no Largo da Estação de Comboios, passando pela Casa Museu Mário Coelho dedicada ao toureiro local que foi amigo de Pablo Picasso e pelo busto dedicado ao matador Júlio José à frente do Mercado, continuando pelo monumento ao campino no centro da cidade, terminando com a icónica e já centenária Praça de Touros Palha Blanco à entrada de VFX.

Vila Franca de Xira, um pouco de história e cultura

Vila Franca de Xira (VFX) é para mim um dos concelhos mais agradáveis e interessantes da área metropolitana de Lisboa. Paisagem, lazer, cultura, tradição – com a tauromaquia e a gastronomia à cabeça -, aqui tudo encontramos. Desenvolvendo-se à beira Tejo, o rio sempre foi um elemento fundamental nestas paragens, quer pela sua riqueza em recursos naturais quer enquanto via de transporte.

Para além da natureza ter criado a navegabilidade do Rio Tejo, permitindo uma comunicação fluvial com mais de 1000 kms, também desde a Antiguidade uma longa via romana que atravessava o território hoje conhecido como Vialonga permitia um acesso mais facilitado à região. Apesar de vestígios arqueológicos atestarem a ocupação humana na região desde o Neolítico, os esforços numa ocupação mais forte aconteceram, no entanto, apenas a partir da conquista de Santarém e de Lisboa aos mouros, em 1147, quando cruzados ingleses receberam de D. Afonso Henriques a doação de terras no que hoje conhecemos como VFX como recompensa pela ajuda nas conquistas. O povoamento não foi fácil nem imediato, mas foi se fazendo ao longo dos séculos, muito graças às terras férteis do lugar. E nos dias de hoje, já se sabe, a Auto-estrada do Norte, a A1, começou por ver o seu primeiro troço de 25 kms, construído em 1961, a ligar Lisboa a VFX.

Servem estes dados para se perceber a localização estratégica do lugar. E a eles podemos acrescentar o seu papel decisivo na protecção de Lisboa e da linha do Tejo aquando das Invasões Francesas, tendo sido construído entre 1809 e 1812 um conjunto de fortificações para essa defesa, o que ficou conhecido como as Linhas Defensivas de Torres Vedras, construções essas ainda hoje visíveis e visitáveis em vários pontos do concelho de VFX.

E, depois, a região foi há séculos procurada pela nobreza, atraída pela proximidade da corte e pelos bons ares do Tejo e serras que o acompanham, para estabelecer aqui as suas quintas de recreio. Vários exemplos seguem de pé, nomeadamente alguns transformados em quintas municipais, e muitos outros em ruína. A eles voltaremos em post seguinte.

Em tempos dedicámos um post https://andessemparar.com/2018/09/14/a-frente-ribeirinha-de-vila-franca-de-xira-de-vila-franca-de-xira-a-povoa-de-santa-iria/ à fantástica frente ribeirinha de VFX, quase toda ela ciclável, e outro https://andessemparar.com/2015/11/13/a-povoa-e-o-rio/ à relação da sua Póvoa de Santa Iria com o Rio, mais especificamente enquanto terra de migrações de Varinos e Avieiros, respectivamente pescadores de Ovar e pescadores de Vieira de Leiria, que no século XVIII e XIX aqui se estabeleceram sazonalmente como comunidades piscatórias em busca do sustento que não encontravam nas suas povoações de origem durante os invernos rigorosos. O cais palafítico da Póvoa aí está para nos lembrar esse passado imortalizado por Alves Redol na sua obra “Avieiros”, aqueles a quem chamou os “ciganos do rio”. Em Gaibéus, a sua obra mais famosa, já Redol, nascido em VFX, se tinha dedicado a dar-nos conta da dureza do trabalho dos camponeses ribatejanos e beirões na lezíria. A fertilidade das terras da lezíria, que para além da pesca é rica em cereais como trigo e centeio e azeite, trouxe também alentejanos e até transmontanos. Outro escritor para sempre ligado a VFX, embora nascido em Baião, foi Soeiro Pereira Gomes, que residiu em Alhandra. Em “Esteiros” debruçou-se sobre a vida dos “homens que nunca foram meninos”, um grupo de crianças que nunca foram à escola mas trabalhavam como gente grande sem que saíssem do ciclo da pobreza. Uma dessas crianças foi inspirada em Baptista Pereira, o mítico nadador de travessias que Alhandra até hoje faz questão de homenagear.

As obras literárias de Alves Redol e de Soeiro Pereira Gomes são marcadamente de oposição ao regime do Estado Novo, opressor e cego relativamente à pobreza que se vivia na região. Ambos os autores eram comunistas e fizeram-se ler e ouvir quanto à exploração dos mais fracos pelos mais fortes. Não surpreende, pois, que seja em VFX que encontramos o Museu do Neo-Realismo, um movimento não apenas literário mas também de outras expressões artísticas, como as artes plásticas e o cinema, de resistência e oposição política e afirmação estética que emergiu na Europa nos anos 30 do século passado.

A ideia de criar um Museu do Neo-Realismo foi sendo desenvolvida na década de 1980 e em 2007 ganhou um belo edifício projectado pelo arquitecto Alcino Soutinho mesmo no centro da cidade. Para além de arquivo de documentos e obras da corrente neo-realista e da exposição residente, aqui decorrem exposições temporárias, como a que no ano passado pudemos apreciar dedicada a Cândido Portinari, o meu amado neo-realista brasileiro. No interior do edifício, numa parede de alto a baixo, vemos um enormíssimo desenho com o traço de Júlio Pomar.

Outro dos novos edifícios na paisagem arquitectónica da cidade é o da Fábrica das Palavras, a biblioteca mesmo à beira Tejo. O lugar é incrível. A antiga fábrica de descasque de arroz deu lugar a um ícone projectado pelo arquitecto Miguel Arruda que está ao nível dos grandes escritores neo-realistas acima citados, aos quais podemos juntar ainda outro dos grandes nomes de VFX, Álvaro Guerra. O pequeno largo deste edifício, que tem uma ponte elevada que liga directamente a cidade ao rio, passando sobre a linha do comboio, foi pensado para ser um lugar de convívio e recreio, integrando na perfeição o casco antigo com as linhas contemporâneas da nova biblioteca.

Terminamos este texto com uma sugestão de filme, A Fábrica de Nada. O comboio que na segunda metade do século XIX iniciou a ligação de Lisboa ao Carregado, passando por VFX, trouxe à boleia a chegada da indústria. Muitos dos edifícios onde as fábricas de várias actividades se instalaram são hoje apenas ruínas, mas outros continuam o seu labor. É lembrar a fábrica da Cimpor que qualquer um de nós já deu conta quando atravessa a A1 pela zona de Alhandra. O movimento operário sempre foi activo. E o filme Fábrica de Nada representa, precisamente, esta decadência inexorável da indústria, mas, sobretudo, a força e a persistência dos operários que teimam em não deixar desaparecer os seus empregos. A não perder, se se quiser saber mais sobre a carismática VFX.

A frente ribeirinha de Vila Franca de Xira – de Vila Franca de Xira à Póvoa de Santa Iria

O percurso que se segue tem cerca de 22 kms e pode ser efectuado de bicicleta. A sugestão é chegar a Vila Franca de Xira de comboio e daí seguir a pedalar até à Póvoa de Santa Iria.

Eis então que à chegada à estação de Vila Franca logo nos dirigimos para o Jardim Municipal Constantino Palha, pedaço de verde junto ao Porto de Recreio e Cais da cidade.

À saída da estação já tínhamos dado de caras com o “Monumento ao Toureiro” e agora temos à nossa disposição o “Monumento ao Avieiro”, de um lado, e o “Monumento de Homenagem ao Cais da Jorna”, do outro. Vila Franca de Xira é terra de fortes tradições e heranças sociais e culturais e isso sente-se a cada passo.

Seguindo junto ao rio em direcção a Lisboa, deixado o Cais para trás logo um poderoso edifício se apresenta. É a Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, uma aquisição recente da zona ribeirinha do Tejo.

No lugar anteriormente ocupado por uma fábrica de descasque de arroz, a “Fábrica das Palavras”, designação oficial da biblioteca, fica espremida entre a linha de comboio e o rio Tejo. Parte integrante (e marcante) da requalificação da zona ribeirinha, o edifício da autoria do arquitecto Miguel Arruda que viu a luz em 2014 tem uma forma singular, um enorme trapézio ou um enorme quase triângulo, conforme o ângulo donde o observamos.

A fachada branca toma uma série de cortes, conferindo uma dinâmica interessante ao edifício, ao mesmo tempo que permite que do seu interior se desfrute da paisagem natural. Uma espécie de ponte liga de forma elevada o edifício da biblioteca à cidade para lá da linha do comboio, vencendo esta barreira construída e aproximando os elementos.

A praça de entrada é um novo espaço de encontro. Para se deixar estar sob o céu ou, mais activamente, a deslizar num skate. Muito bem conseguida a parelha do edifício contemporâneo com o antigo edificado.

Daqui seguimos pelo Caminho Pedonal Ribeirinho até Alhandra, sempre lado a lado com o Tejo.

Inaugurada em 2005 e estendida em 2008, esta obra foi construída ao abrigo do Programa Polis. São 3 gratificantes kms onde se pode caminhar, pedalar, descansar ou piquenicar sempre com a companhia do Tejo para contemplar. A paisagem é belíssima. O rio, a Lezíria e o Estuário, um conjunto ambiental de absoluta tranquilidade.

Avistamos a Praça de Touros mesmo ali, ainda que do outro lado da linha de comboios, e vamos vendo desfilar muita arte urbana a céu aberto junto à natureza em estado puro.

Em poucas povoações a tradição tauromáquica é tão popular como em Vila Franca de Xira e os grafittis neste caminho ribeirinho relembram-na, assim como se integram de forma perfeita na paisagem local.

Temos ainda espaços onde podemos desfrutar do rio numa proximidade intensa e em quase exclusividade.

A chegada a Alhandra vai-se percebendo à medida que vamos vendo aproximar as enormes torres das suas indústrias e a sua pitoresca igreja que nos acostumámos a ver desde a A1.

Alhandra é uma povoação muito ligada ao rio e os desportos náuticos são uma tradição. Não falta a homenagem a Batista Pereira pelas suas travessias a nadar e na água do rio vêem-se deslizar as muitas canoas do clube local.

Passado o Cais de Alhandra temos de adentrar e seguir uns kms pela Estrada Nacional. A razão? O percurso ribeirinho é aqui impossível, seja pela presença da linha do comboio, das indústrias, dos terrenos militares ou até da zona de sapal. Só voltamos para perto do Tejo em Alverca, depois do Museu do Ar (aqui fica o Complexo Militar de Alverca, o qual ocupa um enorme terreno junto ao rio).

E assim chegamos ao Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo.

Para chegar à sua zona de cafeteria na entrada principal há que percorrer 3 trilhos: o Trilho da Estação, o Trilho da Verdelha e o Trilho do Tejo.

O Trilho da Estação possui cerca de 1,5 km e segue junto à linha de comboio e ainda afastado do rio.

O Trilho da Verdelha, com cerca de 2 km em terra batida, começa por ser um caminho estreito ladeado de vegetação alta que segue junto à Ribeira da Verdelha. Até que depois a paisagem se abre na foz e um misto de elementos se juntam. O imenso Tejo, a esmagadora concentração de urbanização do Forte da Casa e a Ponte Vasco da Gama, já em Lisboa, bem lá ao fundo. Mas o caminho segue tranquilo e com muita natureza para desfrutar e contemplar. Os ecossistemas de sapal e de aves são um ex-libris desta zona.

O Trilho do Tejo são 700 metros sobre um passadiço onde a natureza continua a deslumbrar. O rio, o sapal, antigas salinas e terrenos agrícolas fazem-nos companhia.

Até que chegamos à Praia dos Pescadores. Até aí uma enorme diversidade de espaços foram atravessados. Espaços industriais, urbanos, agrícolas, naturais, numa diversidade infinita. Acerca desta Praia dos Pescadores, no Parque Linear Ribeirinho, e do Parque Urbano da Póvoa, que se lhe segue, falei em tempos aqui.

Entretanto, agora em Julho foi inaugurado um novo troço e um novo parque, o Parque Ribeirinho Moinhos da Póvoa, mais 1800 metros até ao limite do concelho de Vila Franca de Xira, à espera que Loures continue o trabalho até se aproximar de Lisboa. Rio de um lado, com o grasnar insistente das aves, mais fábricas – como a Solvay – e armazéns – como a FedEx – do outro.

Uns 600 metros numa linha exterior ao Tejo ligam estes dois parques, passando por antigas fábricas hoje esventradas e graffitadas. Um ambiente de mistério a acrescer a todos os anteriormente vivenciados e expressão inequívoca da decadência de uma das economia outrora centrais no concelho.

Eis algumas fotos mais destes Parques que possuem uma série de valências expressas em infra-estruturas como cafetarias, parques de merendas, zonas de recreio e espaços científicos e de conhecimento, como o são o Centro de Interpretação Ambiental e da Paisagem e o núcleo museológico “A Póvoa e o Rio”, anteriormente melhor explicado no post acima referido. Vila Franca de Xira, terra rica em tradições que tenta preservar, é também uma terra que se orgulha dos seus escritores. Entre os seus nomes maiores encontram-se Soeiro Pereira Gomes, Álvaro Guerra e Alves Redol. Este último, com a sua obra Avieiros, dá-nos a conhecer a vida destes pescadores migrantes do Ribatejo que hoje são aqui lembrados e homenageados.

Paisagem, tradição e cultura é o que encontraremos neste passeio ribeirinho de Vila Franca de Xira à Póvoa de Santa Iria.