Terra de planícies, pontuada por breves colinas, o concelho de Fronteira, no Alto Alentejo, é de ocupação humana antiga, como o testemunham as antas e dolmens aí existentes. Mas hoje, à semelhança de muito do interior do território português, falta-lhe gente e Fronteira é dos concelhos com menos população. Assim, sobressai ainda mais a paisagem serena e infinita de que é senhora.

Cabeço de Vide, uma das tais colinas que rompem a planície, é uma das freguesias de Fronteira, a par da freguesia de mesmo nome e de São Saturnino. É uma daquelas povoações que nos faz continuar a querer partir Portugal afora, em busca do muito que o nosso país ainda guarda escondido.

Da época medieval, foi sede de concelho até 1855 e isso nota-se bem ao caminhar pelas ruas quer da vila velha, instalada colina acima, quer da vila mais recente, na planície. Em 1160 a povoação foi conquistada por D. Afonso Henriques aos mouros, acabando depois por ficar sob jurisdição da Ordem de Avis e recebendo foral por D. Manuel I em 1512. Com a Guerra da Restauração, no século XVII, a vila sofreu destruição nas suas casas, muralhas e castelo, entrando em declínio, e a década de 1960 trouxe uma acentuada debandada da população.

Umas poucas ruas estreitas de traçado irregular e calçada de pedra sobem a encosta e levam-nos até à parte alta da vila. Este núcleo urbano primitivo tem uns quantos edifícios conservados – alguns deles antigos solares -, tipicamente alentejanos na sua cor branca com listas azuis ou amarelas e decorados com vasos de flores.



No alto do monte, a 325 metros de altitude, resiste a muralha oval do castelo, implantado no século XIV sobre um castro. O portão de entrada é encimado pelo escudo com a cruz de Avis e no meio do terreiro está um depósito de água. Foi ao seu redor que foi crescendo a povoação e do castelo espreitam a Igreja Matriz de Nossa Senhora das Candeias (com a Igreja e Hospital da Misericórdia, do século XVI, ao lado, à qual não falta o brasão da coroa portuguesa) e a Torre do Relógio. Esta última é mais tardia, do século XVIII, e fica no Largo do Pelourinho, também acompanhada daquela que seria a cadeia. O pelourinho, esse, é quinhentista, marcando a subida da povoação a vila, e nele veem-se as armas de Portugal e as armas do concelho.

A vista desde o alto de Cabeço de Vide é ampla, debruçando-se pela zona baixa, que parece ter sido traçada a regra e esquadro. A geometria recta das suas ruas é evidente e muito bem definida. Apesar de os seus edifícios terem também as inconfundíveis cores alentejanas, é como se fossem duas povoações distintas.

Aqui fica aquele que é considerado um dos mais longos rossios do nosso país, a Avenida da Libertação – impressionante a sua escala.


A Igreja do Espírito Santo surpreende na sua arquitectura e no encanto do largo onde esta implantada. Haveria aqui uma outra igreja antes do século XVI, data da fundação da que agora admiramos, embora alvo de diversas reconstruções ao longo dos tempos. A torre estreita triangular e uma espécie de ameias levam a primeira atenção, logo desviada para o cruzeiro no meio do largo. Também quinhentista, tem relevos renascentistas esculpidos com a imagem de Nossa Senhora da Piedade, de um lado, e de Cristo, no outro, encimadas por uma pomba, representação do Espírito Santo.

Ali perto, o Solar dos Simas Cardoso, do século XVIII, é um dos mais importantes exemplares de arquitectura civil do concelho de Fronteira, de arquitectura barroca, com portal encimado por varandas em ferro forjado e platibanda decorada.

Mais escondida, não se deve perder a Igreja do Calvário, do século 16 ou 17 e nessa época fora da vila, com uma curiosa fachada circular, a lembrar um púlpito.

Quanto à Praça de Touros, tem especial graça perceber os seus cartazes de eventos de touradas antigas em painéis de azulejo, um deles de 1948.

No sopé de uma das encostas de Cabeço de Vide, no vale da Ribeira da Vide, estão as Termas da Sulfúrea. O início da exploração destas termas de águas sulfurosas aconteceu em 1855, mas aquando da sua construção perceberam-se vestígios de um antigo balneário romano datado de cerca de 118 a.C. (e não muito longe das Termas fica a Horta da Torre, uma vila romana que não chegámos a conhecer). As suas águas sulfúreas e hiperalcalinas chamaram a atenção da NASA e um seu investigador veio até à vila para perceber as suas propriedades e poder compará-las com as características de Marte.

Apesar de a época das Termas ainda estar encerrada na data da nossa visita, deu para perceber que este é um lugar tranquilo. No Verão a água da praia fluvial há de encher e dar mais uma valência ao espaço, que tem também um parque de merendas. Uns passadiços com cerca de 800 metros ligam as Termas da Sulfúrea a Cabeço de Vide. E a Ecopista Atoleiros – Sulfúrea, com 18 kms, passa por aqui, aproveitando a linha de caminho de ferro já sem o uso original.


Se o comboio deixou de passar por Cabeço de Vide, em 1990, assim como o restante ramal de Portalegre, nem por isso devemos deixar de fazer uma visita à Estação Ferroviária de Cabeço de Vide / Vaiamonte. Construída na década de 1930, com Ernesto Korrodi como arquitecto e Leopoldo Battistini responsável pela pintura dos azulejos executados na Fábrica Constância, o troço entre Sousel e Cabeço de Vide foi inaugurado em 1937. Do conjunto de edifícios e estruturas da estação, sobressaem os pináculos piramidais do edifício de passageiros, com um painel de azulejos com as armas nacionais e a inscrição “Caminhos de Ferro do Estado” e os painéis a azulejo azul e branco na sua parte inferior. Figurativos, recorrem a temas regionais, com cenas deliciosas que representam monumentos, paisagens e motivos etnográficos. Este edifício, bem como o cais coberto e as habitações da estação foram subconcessionados ao município de Fronteira para atividades socioculturais, tendo estado a ser utilizado como Estalagem Rainha D. Leonor até há pouco tempo.

Do alto de Cabeço de Vide, numa paisagem a perder de vista, vê-se Fronteira, a sede do concelho. É para lá que vamos agora. Em condições normais, e como se faz há centenas de anos, quer desde Cabeço de Vide quer desde Alter do Chão e as demais terras a norte, entraríamos em Fronteira pela Ponte da Ribeira Grande. Infelizmente, desde Dezembro de 2022, o ex-libris de Fronteira ficou muito destruído pelas fortes chuvadas, arrasando o seu tabuleiro e tornando-o intransitável. Dada a pouca força do município no panorama nacional e o descaso do restante país, a situação não mudará tão cedo. Quando visitámos o lugar, em Março seguinte, a violência provocada pela subida da água era ainda evidente, com cabos de electricidade derrubados e vegetação arrastada que ocupava agora à toa as margens da ribeira. De qualquer forma, os dez arcos semicirculares desta ponte granítica que se crê romana lá estavam sobre a ribeira, produzindo inspirados reflexos e dando origem a um efeito cénico admirável. Neste lugar de represas e azenhas fica a Praia Fluvial de Fronteira e esperemos que o Verão possa trazer-lhe de novo alegria.

Num outeiro logo acima de uma destas margens da Ribeira Grande fica a Ermida da Vila Velha e foi neste local privilegiado de vigilância e defesa do curso fluvial que em 1226 terá surgido a povoação que depois veio a dar origem a Fronteira. A “vila nova”, por sua vez, terá sido fundada por D. Dinis, em 1290, e ganhou foral em 1512, concedido por D. Manuel I. Foi primeiro uma vila medieval de jurisdição religiosa militar, pela Ordem de Avis, e depois de jurisdição senhorial.



A própria vila de Fronteira está instalada num monte pouco pronunciado, a 250 metros de altitude, rodeado pela planície alentejana onde domina o olival, mas também a horta e o pomar. Paisagem tranquila, já se vê, deixando ao longe os relevos mais acentuados da Serra de São Mamede.

No seu centro histórico destaca-se o Largo do Município, com o edifício da câmara municipal, o Pelourinho, a Capela do Arco dos Santos e a Torre do Relógio. O Pelourinho original seria quinhentista, mas o actual é uma reconstrução revivalista do século XX. E não se sabe ao certo as datas dos demais elementos, talvez século XIV o Arco dos Santos, século XVI a Torre do Relógio e século XVII a Capela. De qualquer forma, o conjunto é equilibrado e até pitoresco, sobressaindo os azulejos azul e branco que revestem o topo da torre, em forma de pirâmide, que começou por ser sineira e, depois, relógio.


Perto, nesta que é uma sede de concelho pequena e compacta, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Atalaia está ladeada pelo coreto e pela Igreja e Hospital da Misericórdia, ambas de finais do século XVI.

Caminhando pelas ruas de Fronteira, veem-se alguns solares e edifícios revestidos a azulejo. E, sobretudo, umas chaminés de forma curiosa.

A maior surpresa está nas Ruínas da Igreja do Espírito Santo. Deste templo quinhentista (tinha uma inscrição, já desaparecida, com o ano de 1577) resta apenas um dos alçados e o pórtico da fachada principal renascentista. Na década de 1940 a Igreja estava abandonada e servia de depósito; em mau estado, sem tecto e com o interior desmantelado, na década de 1970 acabou derrubada por decisão do presidente da câmara. Mas não por inteiro, criando um lugar deveras impressionante e cheio de ambiente.

Não deixamos Fronteira sem referir o maior acontecimento histórico de que foi testemunha. E recomendar uma visita ao Centro de Interpretação da Batalha de Atoleiros. A primeira de várias batalhas entre portugueses e castelhanos durante a crise dinástica de 1383/85, tendo antecedido a Batalha de Trancoso e de Aljubarrota, aconteceu a 6 de Abril de 1384 no lugar que Fernão Lopes, cronista do reino, décadas depois deixou escrito distar meia légua (equivalente a 2,5 kms) de Fronteira, num monte chamado Atoleiros. Localizado genericamente o lugar onde se terá travado a batalha, hoje propriedade privada (logo a impossibilidade de nele construir o centro de interpretação), o topónimo Atoleiros remete para a natureza argilosa dos terrenos lamacentos numa área rica em água pela presença da Ribeira das Águas Belas, seus afluentes e nascentes – foi aí instalado um Monumento Comemorativo (que não vimos) e o Terreiro da Batalha dos Atoleiros classificado como monumento nacional em Janeiro de 2023.

Este centro interpretativo, inaugurado em 2012, é um grandíssimo projecto do arquitecto Gonçalo Byrne que, juntamente com a zona envolvente, criou um novo espaço público em Fronteira que serve ainda de ligação entre o centro da vila e a sua zona mais periférica. Os dois corpos de tamanho desigual do edifício do Centro simbolizam a diferente escala das tropas de ambos os lados, em muito maior número e melhor equipada a de Castela. E a sua cor remete para a terra vermelha que lembra a tradição de construção em taipa. Já o projecto do espaço exterior, amplo, é uma reinterpretação paisagística do campo de batalha, remetendo de forma subtil para a planície onde esta teve lugar.

O espaço expositivo, em si, inicia-se com a reprodução em tamanho real do fresco de Martins Barata representando a Batalha de Atoleiros, cujo original decora a sala de audiências do Tribunal de Fronteira, aqui perto. Segue-se a contextualização histórica do período, uma época de diversas crises (religiosa, pelo cisma, social, pela peste, e dinástica, pela morte de D. Fernando), dando a conhecer diferentes perspectivas dos acontecimentos. Com recurso ao multimedia, é visualizado um vídeo com a recriação da Batalha e esta é representada por uma escultura em grande escala com ambos os exércitos em acção. O resto é história: em 1383 morreu D. Fernando e sua filha D. Beatriz, que havia casado com o rei de Castela, foi aclamada rainha; entre 1383 e 1385 travaram-se várias batalhas, culminando na decisiva Aljubarrota, em 1385, e D. João Mestre de Avis foi aclamado rei. Pelo meio, a Batalha de Atoleiros fez emergir um personagem que mais tarde foi tornado condestável, D. Nuno Álvares Pereira, que neste pedaço da planície alentejana guiou as tropas portuguesas à vitória sobre as castelhanas, utilizando pela primeira vez a táctica do quadrado e o uso de lanceiros. E abrindo caminho para que Fronteira fosse não apenas território português, mas também parte importante da nossa história.