Famalicão

No distrito de Braga, Vila Nova de Famalicão é uma cidade com um passado recente vincadamente industrial, mas hoje emergente no que ao urbanismo e cultura diz respeito. Conseguiu, até, ganhar população nos últimos anos, um exemplo do que as políticas viradas para o cidadão podem alcançar.

Foi D. Maria II quem, por alvará régio, determinou a criação do concelho de Vila Nova de Famalicão, em 1835. O título de cidade veio 150 anos após essa data, quando o progresso da povoação era já bem evidente. Com a abertura da estrada Porto-Braga e a chegada do caminho de ferro, ambas na segunda metade do século 19, foram sendo construídos diversos edifícios públicos, como os paços do concelho e o hospital, algumas casas de brasileiros (a designação dada aos palacetes dos emigrantes nas suas terras de origem) e, especialmente, fábricas e indústrias que mudariam a paisagem da região, fazendo dela um importante centro industrial. Mas, ao mesmo tempo, também um centro cultural e artístico, de que Camilo Castelo Branco é nome maior, tendo vivido parte da vida e até morrer em São Miguel de Seide, onde permanece musealizada a sua Casa. Outros homens das letras e da história deixaram também a sua marca em Famalicão, como Bernardino Machado (filho do barão de Joane, nascido no Brasil e crescido em Famalicão, tendo sido por duas vezes Presidente da República) e Alberto Sampaio (o historiador e arqueólogo que deu o nome ao Museu de Guimarães e cuja família era proprietária da Quinta de Boamense, em Cabeçudos).

Fundação Cupertino Miranda – fachada
Fundação Cupertino Miranda – interior
Cruzeiro Seixas
Júlio
Mario Cesariny
Fernando Lemos

Já como um dos líderes e motores da indústria têxtil do Vale do Ave, o centro histórico de Famalicão assistiu em 1972 à inauguração da Sede e Museu da Fundação Cupertino de Miranda. Arthur Cupertino de Miranda nasceu em Famalicão, foi banqueiro, fundou a Companhia Vidreira Nacional e, lá está, a Fundação Cupertino de Miranda, com o objectivo de promover a educação, a cultura e a assistência social. O edifício da sede e museu é inconfundível na sua arquitectura, com uma torre decorada em cada uma das suas faces por quatro painéis de azulejos, obra de Charters de Almeida. O interior possui mobiliário modernista, com destaque para a escadaria, o bar e as cadeiras. Mas é a colecção, dedicada ao surrealismo, o grande motivo para conhecer a Fundação e Famalicão. Nela estão representados 4 das grandes figuras do surrealismo em Portugal: Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Fernando Lemos e Júlio. Ainda, como exposição permanente é apresentada a Torre Literária, uma viagem pelas letras e artes portuguesas ao longo dos séculos.

Ao redor da Fundação vive-se Famalicão. Ai está o Jardim Dona Maria II, no antigo Campo da Feira, mantendo ainda a prática de receber feiras com frequência. E está também o Mercado Municipal, inaugurado em 1952 e reabilitado em 2021, aí surgindo a Praça. A nova estrutura, bem articulada com o existente, veio trazer uma outra dinâmica, mais consentânea com a juventude e hábitos dos seus habitantes, sendo agora um espaço moderno, leve e com muita luz.

Apesar de ser uma cidade, e com movimento, as ruas de Famalicão possuem um certo ambiente de aldeia. Da Igreja Velha sai a Rua Direita, em direcção à Câmara Municipal, à Igreja Nova e ao antigo Hospital da Santa Casa da Misericórdia e Capela de Nossa Senhora da Lapa, hoje Universidade Lusíada.

O actual edifício da Câmara Municipal, construído em 1961, veio substituir os anterior Paços do Concelho, destruído na sequência de um incêndio. De arquitectura modernista, destaca-se a sua torre do relógio e o bonito e cuidado jardim envolvente, onde se descobrem ainda bustos de algumas personagens caras à cidade, como é exemplo Camilo Castelo Branco.

Antes de rumarmos à Casa de Camilo, em Seide, não resistimos a provar um dos doces da pastelaria francesa Marupiu Patisserie, um daqueles que dão prazer só de olhar. Valha-nos que Famalicão nos permite, igualmente com prazer, gastar as calorias no excelente Parque da Devesa. Este parque urbano, situado a umas poucas ruas do centro da cidade, foi inaugurado em 2012 e tem 26 hectares de área verde atravessada pelo rio Pelhe. Era um lugar, até então, de quintas rurais há muito abandonadas e o propósito de requalificação do rio Pelhe, um pequeno afluente do rio Ave, levou a que, sob projecto do arquitecto Noé Diniz, fosse criada uma nova centralidade na cidade, um pedaço de natureza num ambiente marcadamente industrial. Há uma série de caminhos a percorrer, sempre com muitas árvores por perto (como sequóias e carvalhos centenários) e até um lago, para além de anfiteatro ao ar livre e hortas urbanas. É, claramente, o tipo de equipamentos que se esperam dos poderes públicos, como forma de tornar mais atractiva e agradável a vida dos seus habitantes.

A meia-dúzia de quilómetros do centro de Famalicão está São Miguel de Seide, o lugar da Casa-Museu de Camilo Castelo Branco. Reconstruída por completo após ter sofrido um incêndio, não conseguimos a visita ao interior da casa, mas o exterior deu ainda assim para imaginar um pouco do ambiente rural que inspirou um dos maiores escritores de Portugal há cerca de 150 anos. Esta casa oitocentista havia sido mandada construir por Manuel Pinheiro Alves, o marido de Ana Plácido, o grande amor de Camilo. O marido traído morreu nesta casa e, ironia das ironias, Camilo, Ana Plácido e o filho vêm morar para a Casa de Seide. Camilo aqui escreveu e viveu os seus últimos anos, tendo acabado por se suicidar, em desespero pela sua cegueira. Junto à igreja local, a entrada na quinta é feita pela passagem por uma latada em forma de túnel, após o que chegamos ao pátio e ficamos diante da fachada amarela da casa de granito onde o escritor viveu. O espaço ao redor não é grande, mas tenta recriar a zona envolvente das quintas da época.

Do outro lado da rua, num projecto da autoria do arquitecto Siza Vieira, concluído já neste milénio, está o Centro de Estudos Camilianos, com o seu inconfundível traço arquitectónico. Mais uma vez, Famalicão mostra-se à altura de agregar diferentes épocas e diferentes modos de vida.

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