Convento de Nossa Senhora da Graça, Lisboa

O Convento da Graça, em Lisboa, domina a mais alta das colinas de Lisboa, lado a lado com a do Castelo de São Jorge. Abaixo estende-se Lisboa, com os bairros históricos mesmo a nossos pés, fazendo do lugar um dos mais arrebatadores miradouros da cidade. Vimos sobretudo pelas vistas, mas a Igreja da Graça e o seu terraço valem igualmente uma visita atenta.

No sítio da Almofala, arrabalde mourisco, acamparam as tropas lideradas por D. Afonso Henriques durante o Cerco a Lisboa, em 1147, e como reconhecimento da contribuição dos monges agostinhos na vitória, o primeiro rei do recente reino de Portugal doou-lhes estas terras. Os monges começaram por se instalar numa capela no Monte de São Gens (Senhora do Monte), mas com a construção do novo edifício religioso, iniciada em 1271 e concluída em 1291, vieram para a colina vizinha. Com a invocação de Nossa Senhora da Graça dada ao novo Convento de Agostinhos que aqui se ergueu (da Ordem dos Agostinianos Eremitas, também conhecida por Ordem dos Gracianos), foi o topónimo Graça que se impôs, até hoje, deixando cair o termo Almofala. Nessa época, estes eram terrenos ainda fora da urbe de Lisboa, só passando a pertencer-lhe após 1373-1375, com a construção da Cerca Fernandina, a muralha que passou a envolver o Convento.

Igreja – fachada
Igreja – fachada

Remodelada a igreja no século 16 e ampliada a zona conventual no século seguinte, o Terramoto de 1755 provocou a derrocada parcial da igreja e mais estragos quer no interior quer na fachada, o que implicou a reconstrução do conjunto. Sob projecto dos arquitectos Caetano Tomás de Sousa e Manuel Caetano de Sousa, foram seguidos, pois, os princípios arquitectónico-urbanísticos subjacentes ao período pombalino, evidentes na fachada da igreja (a sobriedade manifesta-se no remate em frontão contracurvado rasgada por três portais com colunas nos flancos), mas também no seu interior, igualmente sóbrio.

Convento da Graça

Após a extinção das ordens religiosas, em 1834, a igreja foi entregue à Irmandade do Senhor dos Passos (refira-se, a este propósito, a Procissão do Senhor dos Passos da Graça, uma das mais antigas de Lisboa, realizada anualmente ininterruptamente desde 1587) e as restantes dependências conventuais ao Regimento de Infantaria 10 (e mais tarde outras unidades do exército se seguiram). Estas últimas foram, assim, transformadas em quartel, e é por isso que vemos torreões e ameias, dando um ar militarizado a parte do convento.

Azulejo

Todo o conjunto tem sofrido com o mau estado de conservação e, entretanto, em 2015 foi inscrito na lista de imóveis classificados como monumento nacional em avançado estado de degradação disponibilizados para rentabilização no âmbito do Programa REVIVE. Desafectado do domínio público militar em 2019, o Convento foi entretanto concedido ao grupo hoteleiro Sana para instalação de um empreendimento turístico, com excepção do que hoje podemos visitar: a igreja, a sacristia, a casa do capítulo e um dos claustros (o segundo claustro, que estava afecto ao exército, irá para o hotel).

Portaria
Sala do Capítulo

Entramos pela portaria, com bonitos pormenores decorativos, e logo se segue a Casa do Capítulo, com painéis de azulejos do século 18. Diga-se, desde já, que por todo o convento encontramos diversos painéis de azulejo a revestir as paredes, maneiristas, barrocos e rococó e de várias épocas, incluindo novecentistas.

Claustro
Claustro

O Claustro que visitamos é um de dois. Este, maior, de forma quadrangular e com janelas de sacada no piso superior, tinha como função a contemplação e ligava os espaços mais importantes do Convento, enquanto que o mais pequeno (afecto ao quartel) servia de ligação entre a zona de serviços e os dormitórios.

Convento da Graça
Sacristia
Sacristia

O espaço que nos transporta até à Sacristia é antecedido por um frontão maneirista, bem decorado. A pintura do tecto, em “trompe l’oeil”, tem representada a Assunção de Nossa Senhora, atribuída a Pedro Alexandrino, e os azulejos os passos da vida da Virgem. Vemos ainda em cada um dos topos dois grandes altares em mármore e com coroamento arquitectónico.

Igreja – altar-mor
Igreja – capelas laterais
Igreja – tecto

O interior da Igreja é, como se disse, algo sóbrio, ambiente que lhe é conferido sobretudo pelas coberturas em abóbadas de lunetas e pela abertura e decoração dos vãos internos com o recurso às janelas e tribunas. A sua arquitectura é maneirista, barroca e rococó. O altar-mor é simples (típico das igrejas pombalinas), ladeado por colunas de mármore e tendo ao centro nicho com trono encimado por anjos. Em cada um dos lados, vê-se um órgão de tubos com caixa em talha dourada. Pela nave única, ao longo da igreja em cruz latina, estão capelas laterais em talha dourada de estrutura rococó de finais do século 18 – conferindo alguma exuberância ao conjunto eminentemente simples -, sobre as quais surgem galerias que ligam a tribunas. No tecto da igreja veem-se pinturas com as cinco primeiras frases da «Avé-Maria».

Azulejos
Azulejos
Azulejos

Pelo caminho, na subida até ao terraço, muitos mais painéis de azulejos se vão admirando e, aqui e ali, algumas peças decorativas.

Terraço – vista
Terraço – vista
Terraço – vista
Terraço – vista

O terraço / miradouro desenvolve-se ao longo de um espaço generoso que está sobre o claustro que visitámos antes. Para um lado, vemos as duas torres do Mosteiro de São Vicente de Fora e Ponte Vasco da Gama sobre uma nesga de Tejo. Mas é do lado contrário, junto à torre sineira, que se apresenta a cidade de Lisboa e o seu centro histórico, numa panorâmica ainda mais esplendorosa do que a que havíamos observado em baixo, no Miradouro Sophia Mello Breyner.

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