Porto Santo – 2.a Parte

Em anterior post terminámos o passeio pela ilha de Porto Santo com uma descida às piscinas naturais do Porto das Salemas. E se este está a noroeste da ilha, a nordeste está o Porto dos Frades. De mais fácil acesso, não tivemos, porém, a sorte do sol brilhar para iluminar mais umas piscinas naturais. De qualquer forma, foi aqui, no Poio das Mulheres, que mergulhámos (snorkeling) e pudemos nadar na companhia de uns bonitos peixinhos, embora não tivéssemos encontrado nem polvos nem moreias, que parece que costumam andar por aqui.

Porto dos Frades
Porto dos Frades
Porto dos Frades
Porto dos Frades

Mas este lugar da ilha é mais do que piscinas naturais. Na Serra de Fora, junto à costa e com o Pico do Maçarico a observá-lo, o Porto dos Frades mantém as ruínas de uma mina de sal e fábrica de cal que aqui existiram em tempos. E é mais um testemunho da importância geológica da ilha. As suas escarpas têm uma cor amarela esbranquiçada, devido ao facto de ser composta, sobretudo, por fragmentos de conchas de micro organismos marinhos, moluscos e algas calcárias, aos quais se juntaram mais tarde conchas de variados gastrópodes terrestres.

Porto dos Frades
Porto dos Frades
Porto dos Frades
Fenda da Dona Beija
Fenda da Dona Beija

E um pouco para lá do Poio das Mulheres, depois de caminhar sobre densa areia, há a descobrir a Fenda da Dona Beija. É mais um lugar irreal que o Porto Santo tem para nos oferecer, uma espécie de gruta labiríntica sem tecto formada entre as escarpas moldadas pelo vento e pela água. É a pequena Petra portuguesa, arriscamo-nos a dizer.

Porto dos Frades
Ilhéu do Farol
Túnel
Por baixo do Pico de Baixo

Ainda no Porto dos Frades, mas desta vez a caminhar para sul, continuamos a perceber mais formas que a rocha foi assumindo ao longo do tempo, dada a acção daqueles elementos (vento e água). Por aqui, a erosão é coisa séria (parece que o Pico de Baixo se está a desintegrar). Pouco afastado da terra está mais um ilhéu, agora o Ilhéu de Cima, também conhecido pelo Ilhéu do Farol ou dos Dragoeiros, também importante pelos seus elementos naturais e geológicos.

Mais adentro, mas sem nos afastarmos muito da costa, vale a pena uma refeição no Restaurante Teodorico, para umas espetadas de carne macia e saborosa. A carne não vem da ilha, recurso escasso, mas não deixamos de a apreciar. O restaurante nesta zona rural da Serra de Fora tem o Pico do Facho acima de si, vendo-se as suas encostas ainda marcadas pelas linhas dos socalcos que noutros tempos serviam para um melhor aproveitamento agrícola – já lá voltaremos.

Serra de Dentro
Casa da Serra
Casa da Serra
Casa da Serra

A Serra de Dentro está pouco mais a norte do que a anterior. No meio do nada está a Casa da Serra, devidamente recuperada e agora uma casa-museu, promovendo a cultura da ilha. Nela podemos ver a recriação dos espaços da antiga casa, com objectos vários como roupas, ferramentas e mobiliário, uma forma de se contar a história da ilha através da agricultura e das várias indústrias que ela foi tendo, como a produção de cal, conservas, moinhos, barcos e até uma fábrica de água mineral – Vila Baleira preserva ainda o edifício da antiga Fábrica das Águas, que funcionou entre 1924 e a década de 1990, onde se engarrafaram águas bicarbonatadas, indicadas para o tratamento de doenças da pele e digestivas, cuja qualidade chegou a ser reconhecida pela atribuição de vários prémios. Voltando à casa-museu, a sua loja vende produtos locais e artesanais, uma forma de os manter e promover. Na ilha há ainda o Museu Cardina, na Camacha, mas acabámos por não o visitar.

Praia do Calhau da Serra de Dentro

Perto, para lá do ribeiro que agora não é mais do que um fio de água, está a Praia do Calhau da Serra de Dentro. Um lugar isolado, certamente com nenhuma ou pouca gente mesmo em época alta, aqui não há areia, antes seixos. A sua beleza é selvagem, enquadrada pelos montes que a ladeiam.

Para o final deixamos as belas caminhadas que o Porto Santo tem para oferecer. Há muito por onde calcorrear em liberdade, mas os 3 percursos oficiais estão todos eles na costa norte da ilha.

PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã
PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã
PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã
PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã
PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã

O mais bonito destes percursos pedestres é o designado PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã, com 5,5 kms no total (ida e volta pelo mesmo caminho, ou seja, beleza redobrada). Tem início na Estrada Regional 120, quase junto ao mar e diante da encosta norte do Pico do Castelo. O caminho segue por um trilho que noutros tempos foi usado para a passagem de burros de carga e hoje permite admirar, de um lado, vistas de picos no interior e, do outro, vistas do segundo maior pico da ilha, o Pico Branco (450m de altitude), e de mar. A vereda foi aberta numa grande formação geológica prismática, a Rocha Quebrada, mais uma marca do vulcanismo na ilha, onde as rochas foram esculpidas por fenómenos geológicos. A vegetação aqui predominante é maioritariamente rasteira, habitat para moluscos gastrópodes terrestres, mas já terá sido exuberante. Nas encostas do Pico do Castelo voltamos a ver vestígios dos tais socalcos outrora usados para a agricultura. E vemos muitos mais montes, com formas e cortes de uma beleza ímpar, sempre com o mar por perto. Surpreendentemente, na subida ao Pico Branco vemo-nos encobertas por um curto bosque de cipestres. No topo, e como esperado, a panorâmica é muito boa, como que um pequeno plateau ideal para vigia.

PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã
PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã
PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã
PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã
PR1 – Vereda do Pico Branco e Terra Chã

Mas é o intenso azul do mar nas enseadas abaixo que mais impressiona, quer na subida ao Pico Branco quer, depois, no caminho até à Terra Chã. Neste último, damos com mais uns ilhéus plantados no mar e uma vista soberba da praia do Calhau de Dentro, sem esquecer o marcante contraste entre a cor da terra e a cor do mar.

PR3 – Levada do Pico do Castelo
PR3 – Levada do Pico do Castelo
PR3 – Levada do Pico do Castelo
PR3 – Levada do Pico do Castelo

O percurso pedestre mais fácil é o PR3 – Levada do Pico do Castelo, igualmente com cerca de 5,5 kms de total e usando o mesmo caminho para voltar. Apesar de parte do trilho original não poder ser efectuado, por o túnel do Ribeiro Frio se encontrar encerrado, vale a pena percorrer a restante parte. O início acontece junto à Capela da Graça e segue até à Camacha, retornando depois ao ponto de partida. Esta Capela é uma das mais antigas igrejas da ilha, construída antes de 1533, tendo sido reconstruída no século passado. Da Capela seguimos pelo trilho implantado no sopé da encosta sul do Pico do Castelo, acompanhadas em grande parte do caminho pela antiga levada, hoje sem água. Esta levada foi construída na primeira metade do século XX e destinava-se ao aproveitamento das águas pluviais e à sua utilização na agricultura. Era também uma forma dos habitantes da Camacha se deslocarem até ao outro lado da ilha, na Serra de Fora, e os destes para aquela. Um dos encantos deste trilho é perceber a vegetação que nos rodeia, como urze, álamos e outras. Em especial, uma série de figueiras-da-índia (tabaibeiras), uma espécie de cactos. E aproveitamos, ainda, bonitas vistas para o Pico do Castelo e para o longo areal da praia do Porto Santo.

PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo

E, por fim, o mais longo destes percursos pedestres oficiais é o PR2 – Vereda do Pico do Castelo, com cerca de 9 kms de extensão. Iniciámos o trilho circular na Estrada Regional, em Morenos, a noroeste, mas há a possibilidade de o iniciar junto ao Miradouro do Pico do Castelo (Miradouro do Canhão). Logo subimos em direcção ao Pico Juliana (447m de altitude), com o Pico do Facho (517m de altitude, o mais alto da ilha) em frente e o Pico do Castelo (437m de altitude) à direita – uma colecção de picos. Na noite anterior tinha chovido muito e o piso desta primeira subida estava cheio de barro, tornando difícil avançar sem nos atolarmos. Quase 1 kms depois, duas possibilidades de caminho: à esquerda, um desvio que nos leva até ao topo do Pico Juliana (até onde tentámos subir, mas desistimos por perceber que teríamos de “rastejar” agarradas às pedras); em frente, a entrada na designada “Vereda do Castelo”. Seguimos por esta e logo fomos envolvidas por um bonito bosque. Na década de 1920 foram levados a efeito projectos de reflorestação na ilha, promovidos por Schiappa de Azevedo (que tem um busto em sua homenagem no Pico do Castelo), designadamente nas encostas do seu “maciço central”, tendo sido plantados cedros e pinheiros. Muitos resistem.

PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo

Surpreendidas por encontrar esta floresta em Porto Santo, continuamos a caminhar pela encosta norte do Pico do Facho. E, então, abre-se um bonito vale, deixando à nossa esquerda o Pico Juliana e outros picos e diante nós o Pico Branco e o mar. Infelizmente, o céu estava carregado de nuvens, não deixando a paisagem revelar todas as suas melhores cores, mas, ainda assim, é um grande cenário.

PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo

Depois, contornando a encosta para este, passamos a ter mais uma soberba vista para a praia do Calhau de Dentro, enquadrada pelo Pico do Concelho e pelo Ilhéu de Cima. E, já viradas a sul, seguimos a meia encosta do Pico do Facho, descobrindo aí uma série de muros de pedra emparelhados que em tempos serviram para a divisão da terra para melhor aproveitamento agrícola e acabaram por moldar o terreno em socalcos. São marcas visíveis do abandono da agricultura e também um testemunho do trabalho humano árduo.

PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo

Voltamos a perceber a Capela da Graça isolada na encosta, agora sob outra perspectiva, e caminhamos em direcção ao bonito Pico do Castelo, agora acompanhadas de panorâmicas para toda a vertente sul da ilha do Porto Santo, incluindo, claro está, a sua bela praia de areia.

PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo

A subida ao Pico do Castelo pode ser algo cansativa, mas não é nem longa nem exigente tecnicamente, estando o terreno moldado a uma suave escadaria. No alto há uma casa (será a antiga casa do guarda florestal?) rodeada por um jardim e um miradouro para o sul da ilha, mesmo sobre a pista do aeroporto. O nome “Castelo” vem do facto de ter sido neste pico que a população da ilha procurava refúgio aquando dos ataques dos piratas. Do topo, descemos até ao miradouro do Canhão, onde está, precisamente, um canhão apontado ao mar, e percebemos que esta vista é igual à de cima (ou seja, se não for pelo prazer de caminhar pela floresta, não merecerá a pena a subida). Deste percurso pedestre oficial não faz parte a subida ao Pico do Facho, o mais alto da ilha e fácil de distinguir por ter no topo uma antena das telecomunicações. Em tempos, serviu de posto de observação e era desde aqui que se alertava o Funchal da aproximação dos piratas e corsários através do acender de fogueiras.

PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo
PR2 – Vereda do Pico do Castelo

De volta ao ponto inicial do percurso, vamos vendo nova forma do Pico do Castelo e adentramos novamente no bosque, agora caminhando na encosta oeste do Pico do Facho. De repente, estamos novamente com o Pico Juliana e o mar diante nós. Em resumo, pela sua localização central e altaneira, este percurso pedestre permite admirar praticamente toda a ilha, de uma ponta à outra. Os picos são uma constante, mas a vista mar é-o de igual modo. É, no fundo, uma imagem exacta da ilha do Porto Santo, feita de picos e de mar.

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