Óbidos, Vila Literária

Óbidos, na região centro de Portugal, é uma vila medieval muralhada, uma daquelas que se fôssemos estrangeiros gostaríamos de descobrir e de tê-la só para nós. 
Sendo portugueses, resta-nos a sorte de visitá-la fora da época de uma das feiras que por lá acontecem e que para lá arrastam multidões, como a feira do chocolate ou a feira medieval. 
Mas, esperem, a partir de 2015 há uma nova feira: o Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos. E essa feira eu não quis perder (até porque suspeitava que os livros não arrastariam assim tantas multidões) e quero repetir em anos futuros.
Óbidos passou por várias fases com maior ou menor relevância na história de Portugal. Em 1210 era já parte da Casa das Rainhas, tinha protecção real e a corte visitava-a regularmente. No final do século XV, porém, D. Leonor, mulher do rei D. João II, mandou construir o Hospital Termal das Caldas em lugar vizinho de Óbidos e a nova localidade cresceu e transformou-se nas Caldas da Rainha, passando a ser a escolhida nas visitas reais. Em consequência, Óbidos começou a despovoar-se, com as suas gentes a preferirem viver nas Caldas, sem a opressão das muralhas que hoje encantam os forasteiros, e entrou em decadência. 

À entrada do século XX Óbidos era um povoado quase deserto, mas bem conservado. Até que nos anos 30 desse século, António Ferro, o ministro da propaganda de Salazar, decidiu inventar Óbidos como símbolo da portugalidade e fazer da vila um lugar turístico. As casas caiadas, com frisos pintados de amarelo ou azul vivo, envolvidas pela muralha a isso se prestam. As ruas são estreitas, livres de carros, ideais para um passeio relaxado e sem pressa.

2013 foi o ano que Óbidos escolheu para implantar uma iniciativa ambiciosa: fazer do lugar uma Vila Literária. Para isso foram abrindo uma série de livrarias, em número astronómico se pensarmos nos seus pouco mais de 3000 habitantes e no número geral de interessados em livros no nosso país. Num projecto conjunto da Ler Devagar e da Câmara Municipal de Óbidos, encontramos hoje  livrarias em espaços não muito óbvios, mas capazes de suscitar a curiosidade de qualquer indivíduo. Livros numa igreja (Livraria Santiago), livros ao lado de frutas e legumes (Mercado Biológico, nas antigas instalações do refeitório da Câmara), livros junto a pinturas e outras obras de arte (Galeria Nova Ogiva), livros e vinho (Livraria da Adega), e muitos mais espaços dedicados ao nobre prazer da leitura (num total de onze livrarias).

O Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos – é um desenvolvimento natural deste projecto da Vila Literária e provavelmente o mais ousado no meio de tanta ambição. O balanço fica para os seus organizadores, mas por mim, que apenas lá estive em 1 dos 11 dias do evento, aprovo, recomendo e sonho por mais.
De entre um programa tão extenso dedicado à lusofonia, com debates, mesas-redondas, música, teatro, exposições e bate-papos descontraídos (com os brasileiros a dominarem, quer nos convidados quer no público – terão vindo de propósito? Oba!) nos diversos espaços da Vila, seja nas livrarias, nas tendas construídas para o evento ou nas ruas, opção não faltou. 

Estacionado o nosso bólide subimos em direcção ao centro da Vila e antes do belíssimo portal manuelino coberto de azulejos à entrada da muralha que nos recebe em grande estilo, o cartaz do Folio dava-nos as boas vindas.
Para trás deixamos a Livraria da Adega que de tarde seria palco da Conversa Fiada Roda de Poesia onde uns foram ver/ouvir a poetisa da moda Matilde Campilho, outros Moreno Veloso e eu apenas Pedro Santos Guerreiro, jornalista de economia e política do Expresso a moderar os poetas.

Seguindo pela Rua Direita, e não deixando de espreitar as ruinhas que lhe são perpendiculares, alguns becos lindamente decorados, chegamos no seu final à Igreja de São Tiago, uma das mais pitorescas de Óbidos, construção do século XII hoje transformada em Livraria Santiago. Muito interessante este contaste entre o sagrado e o profano onde um livro como “Ascensão e Queda do Comunismo” pode estar – e estava – de frente para o altar da igreja.
Dentro do Castelo estava instalada a tenda grande onde se desenrolaram as várias Mesas de Autores. Sei agora que muitos destes eventos estiveram despidos de público. Mesmo a um sábado pude assistir a um contraste: a mesa das 11 horas com Kalaf (sobre literatura e identidade) estava com cerca de uma vintena de assistentes e a das 18:30 com Ruy Castro e Nelson Motta (supostamente sobre o Rio de Janeiro) estava praticamente cheia; pelo meio, a das 16:30 com Ricardo Araújo Pereira e Luis Fernando Veríssimo estava esgotada desde manhã cedo.

Foi um prazer enorme ouvir o estiloso Kalaf falar, num tom despojado e cheio de ironia, e ouvi-lo expor a sua tese segundo a qual Cavaco Silva inventou a kizomba nos anos 90 com a sua decisão de destruir as barracas e criar bairros sociais onde foram parar várias identidades, como portugueses, africanos, ciganos, que se entretiveram a trocar ideias e delas fazer surgir novas artes.  
Já a sessão de Ruy Castro e Nelson Motta, apesar do tom igualmente despojado e cheio de humor usado por estes dois comunicadores brasileiros de mão cheia, ficou a saber a pouco, uma vez que a cidade do Rio de Janeiro, pretexto da reunião, acabou por não ser o centro da conversa, focando-se mais no futebol e na música, símbolos incontornáveis da cidade, sim, mas e o presente e o futuro?

Tivemos ainda tempo para ver a mostra de ilustração PIM!, na Galeria Nova Ogiva, e a performance de André da Loba, engolido por uma montanha de crianças. 
A própria organização designou este como o “primeiro capítulo de um projecto ambicioso”. Que venham então os próximos capítulos.