Um dia pela Comporta

Comporta, o paraíso perdido às portas de Lisboa”, diz-se amiúde.

Na verdade, nem o paraíso está perdido nem está assim tão às portas de Lisboa.

Para chegar à Comporta vindos da capital temos duas opções: ou seguir para Setúbal e apanhar o ferry para Tróia ou seguir pela auto-estrada até Alcácer do Sal ou Grândola. Ambas distantes, ambas caras. Quer isso dizer que se deve abandonar a ideia de uma visita de um dia à Comporta? Nada disso. O paraíso pode não ser perdido, mas é real, ainda que escondido. E esta é mais uma razão para partimos à descoberta.

A viagem de ferry que atravessa o Sado é bonita e nem é preciso muita sorte para se dar com os golfinhos a brincar neste rio que em breve se tornará mar. Mas a opção recaiu na passagem por Alcácer do Sal, um bom pretexto para se admirar o seu castelo altaneiro ao mesmíssimo Sado.

De Alcácer do Sal seguimos por quase 30 melancólicos quilómetros de estrada até à Carrasqueira. Rectas enormes bordejadas por pinheiros convidam à evasão. Não o vemos, mas sentimos o Sado mesmo ao nosso lado. Irresistível desviar do asfalto e meter num dos poucos estradões de terra batida que surgem no caminho para o espreitar. Aqui estamos em plena Reserva Natural do Estuário do Sado. Natureza bruta e pura que todos têm sabido preservar.

O Estuário do Sado, o segundo maior do país, é uma extensa área protegida que vai desde os estaleiros navais de Mitrena e do Moinho da Maré da Mourisca (onde fica hoje o Ecomuseu – Centro de Educação Ambiental), ambos no concelho de Setúbal, até à outra margem do rio, já nos concelhos de Alcácer do Sal e Grândola. Este estuário inclui não apenas o rio, mas também zonas de sapal, salinas, arrozais, dunas e pinhal. Neste ecossistema desenvolvem-se espécies endémicas, como as mais de 200 espécies de aves que para aqui vêm invernar e nidificar, diversos peixes e o singular golfinho roaz.

Referi que são quase 30 os quilómetros de estrada sem curvas que ligam Alcácer do Sal à Carrasqueira, mas está visto que apesar da liberdade de se carregar no acelerador a viagem não é breve. Os convites para paragens são muitos, seja o simples cheirar o ambiente de pinhal ou apreciar os ninhos das cegonhas no cimo dos postes de electricidade, confirmar as cores do casario alentejano em lugares como Montevil ou espreitar uma das muitas herdades turísticas como Montalvo – até onde as cancelas das propriedades privadas o permitem. A região da Comporta não é um lugar que se deixa descobrir facilmente, há que insistir e não hesitar em ir mais além sempre que o podemos. Por vezes parece que as estradas de terra batida não vão dar a lado nenhum, mas a verdade é que levam sempre, pelo menos, ao recato, à tranquilidade e, com sorte, a um pedaço de Sado ou de Atlântico.

A primeira paragem “oficial” deste dia por terras da Comporta foi a aldeia da Carrasqueira.

As margens do Estuário do Sado foram sendo ocupadas desde há séculos pelos humanos que aí buscavam os seus recursos marinhos, a pesca e o sal. Há, aliás, registos de ocupação da Península de Tróia desde o Neolítico e da Idade do Bronze e os romanos no século II fizeram desta um centro de salga de peixe.

A Carrasqueira é uma das povoações que melhor testemunham essas tradições seculares. Os seus habitantes dedicam-se às actividades agrícolas (sobretudo à cultura do arroz, mas também da batata doce) ou à pesca e o património construído do povoado é feito das típicas casas alentejanas caiadas de branco com riscas azul e ainda de cabanas de colmo e portos palafitas.

O Cais Palafítico da Carrasqueira é um dos pontos mais emblemáticos de toda a região. Testemunho intemporal de uma das actividades económicas mais presentes na Comporta – a faina do mar -, este pequeno embarcadouro que vem já das décadas de 50 e 60 do século passado é feito de um conjunto de passadiços de madeira que se entrecruzam e estão assentes no lodo do sapal, os quais nos levam até aos barquinhos que ai são embalados pelo Sado. Na maré baixa deixam-se enterrar no lodo, enquanto que na maré alta baloiçam à tona da água. A imagem deste cais é humilde e frágil e caminhando pelas suas tábuas de madeira muitas das vezes duvidamos da sua segurança. Espreitamos as pequenas casinhas de apoio à pesca e vemos a confusão dos materiais empilhados por ali, enquanto arriscamos chegar bem pertinho do rio.

Entre a Carrasqueira e a Comporta ficam alguns daqueles segredos da Herdade da Comporta envolvidos pela areia que já não são segredo para ninguém. Pelo menos já todos os interessados no bom gosto da arquitectura na natureza viram as fotografias. Já para experimentar passar uma noite numa destas casinhas ainda vai uma distância enorme 💶💰. Falo, claro, das super premiadas Casas da Areia da dupla de arquitectos Aires Mateus, cujo projecto que eleva à estratosfera a rusticidade acompanhada de requinte com respeito pelo ambiente tem vindo a merecer destaque nas revistas de arquitectura e de viagem. A inspiração destes edifícios vem das cabanas dos pescadores que serviam de sua habitação e guardavam – e guardam ainda – as alfaias agrícolas.

Normalmente instaladas em locais arenosos, é possível ver uma recriação dessa tradição de arquitectura popular materializada num outro projecto, o Cabanas no Rio, dos mesmos arquitectos. Encaixado nas dunas e com acesso directo ao rio, a envolvente natural do lugar é belíssima e o recolhimento total.

A aldeia da Comporta é o epicentro de toda a região. Bons e afamados restaurantes (que vão buscar os seus recursos ali mesmo), lojas da moda, o hippie-chip versão comércio em todo o seu esplendor. A beautiful people de todo o mundo vem até aqui para desligar do dia a dia e encontrar refúgio num ambiente natural e protegido mas com todas as comodidades. O azul e branco voltam a ser as cores dominantes, sinónimos da elegância que abunda por estas paragens. E as cegonhas nos seus ninhos altaneiros não podiam faltar a este cenário de postal.

Nos últimos anos, com a queda do Grupo Espírito Santo, muito se tem falado da venda da Herdade da Comporta e dos negócios imobiliários e turísticos que tal poderá vir a proporcionar aos seus futuros donos e, logo, dos receios que eventuais impactes ao nível ambiental e paisagístico possam trazer à região. Enquanto percorremos as estradas, pinhais, dunas e arrozais da Comporta não conseguimos perceber os limites da Herdade. O que percebemos, sim, é que este é um lugar que só pode ser desejado, mas que dificilmente será para todos.

Um pouco de história: a Herdade da Comporta tem cerca de 12500 hectares encravados entre o Estuário do Sado e o mar e acolhe sete povoações – Carrasqueira, Comporta, Possanco, Torre, Brejos, Carvalhal e Pêgo. Criada no século XIX e integrada no património da Coroa Portuguesa, a Herdade foi sucessivamente vendida a britânicos, depois à família Espírito Santo, nacionalizada e novamente devolvida àquela família – e hoje, para além de decorrer a venda da Herdade, a propriedade de parte da região é alvo de discussão, sobretudo pela falta de delimitação do Domínio Público Marítimo. Antes, porém, no século XVI este território foi ocupado por africanos, crentes de que estes, mais resistentes ao paludismo, se adaptavam melhor às terras pantanosas e pejadas de mosquitos do Estuário do Sado. Foi no século XIX que a Comporta começou a receber migrantes de várias zonas do nosso país para trabalhar nos arrozais. Até aí esta era praticamente uma terra de ninguém. Hoje, já se sabe, é uma das mais procuradas e apetecíveis.

Assim como o sapal domina a zona do Estuário junto à Carrasqueira, é o arrozal que domina a paisagem à volta da aldeia da Comporta. Esta é a principal actividade agrícola da região.

Sapal, arrozal e, faltam agora, as dunas. A zona dunar está presente em muito deste território, muitas vezes envolvendo os pinheiros, mas é na costa ocidental, já virada para o Atlântico que ela se torna mais evidente.

As praias, enfim.

Apesar dos 65 quilómetros de areal que vão desde a Península de Tróia até Sines, não são muitas as praias com acesso público rasgado às dunas, daí que a maior parte deste areal permaneça deserto e virgem.

A Praia da Comporta é uma das praias oficiais. Com um restaurante de madeira de cada lado construído sobre as dunas, o que sobressai nesta praia é, no entanto, a casinha azul clara que os medeia. Azul mais bonito só o conseguimos buscar na cor irreal do mar, o qual contrasta na perfeição com a areia branquíssima.

De volta ao asfalto passamos pela povoação da Torre e pelos Brejos. Nos Brejos da Carregueira, assim como quem não quer a coisa, ficam uma série de propriedades embrenhadas nas dunas e escondidas do olhar forasteiro. Os acessos fazem-se por terra batida e o fim do caminho pode chegar abrupto ou pelo termo da estrada ou por um aviso de “propriedade privada”. Ainda assim, foi possível descobrir mais um belo conjunto de edifícios que se confunde com a paisagem.

A praia oficial que se segue é a do Carvalhal, a cerca de 11 quilómetros de distância da praia da Comporta. Entre estas, lá está, o extenso areal da costa ocidental é apenas acessível por alguma propriedade privada com acesso ao mar ou percorrendo o areal junto a esse mar de lés a lés, a pé ou até a cavalo. Mais, os arrozais servem também como que de barreira natural entre o pinhal (e a estrada) e o mar.

O Carvalhal é uma povoação mais crescida e cheia de habitações escancaradas à beira da estrada. Pequenas delícias entram-nos pela vista.

A Praia do Carvalhal é famosa por ser a praia dos surfistas e do restaurante Dinis. As cores do areal e da água desta praia, uma continuação das anteriores, continuam esplendorosas.

A última paragem aconteceu na Praia do Pêgo. Esta será a mais exclusiva das praias da Comporta. É por aqui que o clã Salgado tem a sua casa rodeada de dunas e da chatice dos mosquitos e das melgas. E é no Pêgo que fica outra das instituições da região, o restaurante Sal, encravado nas dunas.

Apos este breve mas tranquilo passeio pela Comporta, cujo nome deriva da comporta que impede a entrada de água do Estuário do Sado para os campos de arroz, confirmamos que o paraíso mantém a sua alma original e a sua natureza segue intocada.