Sistelo, o outro Tibete e os outros passadiços

A primeira vez que ouvi falar dos passadiços do Sistelo foi enquanto caminhava pelos passadiços do Paiva. Alguém, então, dizia que os outros, os do Sistelo, eram ainda mais incríveis. Curiosa, mas sem querer entrar em comparações, fui investigar.

Sistelo é uma aldeia do concelho de Arcos de Valdevez e para se chegar lá há que subir a bom subir, curvar pelas estradas, descer a bom descer. O vento não assobiava, antes gritava, assustador, e só me vinha à mente que estas é que deviam ser as Terras do Demo. Mas é isso, o demo, tal como o seu rival, está em toda a parte.

Antes de entrar na aldeia do Sistelo tentei ir até lá acima, à Bandra do Alhal, mas o meu carrito derrapou na subida íngreme e pensei que antes de investir num bólide decente me devia ficar apenas pelo miradouro dos Socalcos.

Brandas e socalcos, eis dois elementos que marcam a paisagem e a vida das gentes desta região e que moldaram o seu carácter, essencial para vencer as agruras e dificuldades do lugar em que nasceram e cresceram.

As bandras são os terrenos que serviam de apoio à pastorícia no Verão e onde foram construídas habitações rústicas para se passar essa época do ano. Assim como que uma segunda habitação, não de veraneio, mas de trabalho árduo. Abrigos sazonais para pastores e seu gado.

E os socalcos são a forma como o Homem vem aqui moldando a natureza em seu benefício desde há séculos com o objectivo de aumentar a área de cultivo, criando diversos terraços e patamares no terreno ao mesmo tempo que se vence os seus declives. As águas alimentam os campos de cultivo através de um sistema de regadio que as conduz pelas levadas. Milho, feijão e pecuária fazem parte da economia do lugar.

É a construção destes socalcos que dá forma e fama ao epíteto de “pequeno Tibete português” desta região.

Coube, aliás, à Paisagem Cultural da Aldeia do Sistelo o privilégio de ser a primeira a merecer a distinção entre nós enquanto tal e de ser classificada como monumento nacional, por ser “composta por um espaço natural de superior qualidade paisagística, natural e ambiental, ao qual se soma um notável património etnográfico e histórico cuja preservação e autenticidade é fundamental garantir”.

A aldeia do Sistelo é pequenina mas bem pitoresca. Não apenas pelo belo enquadramento do seu parco casario no vale íngreme rodeado de socalcos onde ao fundo corre o rio Vez. Mas também pelos vários elementos de arquitectura popular que a compõem. O distinto castelo – na verdade um palacete do século XIX que pertenceu ao Visconde do Sistelo -, a igreja, o chafariz e diversas casas em granito, quase todas elas restauradas e bem recuperadas. Não falta um ajuntamento de espigueiros, presença constante nesta região nos limites do Parque Peneda Gerês.

Mas porque o objectivo da visita ao Sistelo era caminhar, ponhamo-nos, então, ao caminho.

Na praça principal da aldeia, junto ao cruzeiro, estão colocadas uma série de placas com a indicação de múltiplos trilhos. Uma confusão. Se não soubéssemos ao que íamos ainda agora lá estaríamos a decidir que direcção tomar.

Era pela Ecovia do Vez que queríamos seguir. Mas porque na sua totalidade o trilho ao longo do rio Vez tem mais de 30 kms, a melhor ideia é percorrer “apenas” os cerca de 11 kms que ligam a aldeia do Sistelo à ponte romana de Vilela (e daqui esperar por boleia ou ligar para um dos números de táxi que vamos vendo inscritos no caminho para nos levar de volta ao nosso ponto inicial). Caso estes 11 kms sejam demais, há sempre a óptima possibilidade de se condensar esta caminhada épica nos 2 kms circulares que descem a aldeia até ao rio, atravessam-no, percorrem parte dos passadiços e voltam a subir à aldeia.

A primeira parte da Ecovia do Vez saindo do Sistelo é feita numa descida sobre um desagradável amontoado de pedras, mas na verdade este é um contacto autêntico com a paisagem cultural materializada numa calçada medieval. Assim como medieval é a ponte sobre o Vez que atravessamos logo em seguida. À nossa volta campos cultivados, vinhas, socalcos, vacas e uma densa vegetação. A paisagem ao nosso redor é grandiosa.

Logo surge a zona fluvial e de lazer do Sistelo, o primeiro dos lugares onde podemos banhar-nos e merendar. Na outra margem avista-se a Capela do Senhor dos Aflitos. E logo chegam os passadiços, elevando-nos sobre o Vez e tornando o nosso passeio mais encantador.

Caminhado sobre a madeira clara, umas vezes por passadeira outras por degraus, ficamos completamente envolvidos pela natureza, rio ao nosso lado esquerdo e abaixo, vegetação por todo o lado. De surpresa, surge a primeira cascata no nosso caminho. As quedas de água vão-se sucedendo ao longo percurso, muitas vezes anunciadas pelo barulho do jorrar das suas águas.

Mesmo o Vez, umas vezes corre sereno, águas em espelho perturbadas apenas por umas pedras formosas, outras em redemoinho procurando ultrapassar os empecilhos que se lhe atravessam.

O trilho é feito de vários pisos: a pedra, a madeira, a terra e por vezes até água que inunda o caminho. E quase 1 km em asfalto, num desvio para a estrada um pouco mais afastada do Vez, enquanto não se completam os passadiços ainda em construção.

Mas, depois disso, a volta até à margem próxima do Vez faz-se em grande estilo descendo até à Praia Fluvial do Poço das Caldeiras. O lugar ideal para um descanso relaxado à beira Vez.

A partir daqui são mais as povoações perto do trilho, daí que a rotina agrícola e pecuária esteja mais próxima. As ovelhas sucedem-se, as medeiras idem. A palha disposta em forma de cone é característica da região, de forma a protegê-la dos elementos.

E na parte final do percurso, quase a chegar à ponte de Vilela, os exemplares de azenhas e moinhos instalados na margem do rio tornam-se mais frequentes. A maior parte em ruína, vêem-se ainda as mós que testemunham esta tradição de moagem de cereal que tirava partido da força da água do rio para funcionar. A zona da Azenha e Poldra da Chã mostra-nos e ensina-nos ainda o que é uma poldra – as pedras dispostas no rio como forma de o atravessar pedonalmente.

Este percurso pela Ecovia é na sua maioria plano, com uma descida aqui e uma subida ali feita sobretudo pelos passadiços. Daí que seja relativamente fácil. A ponte medieval de Vilela, fim do caminho, é o remate certeiro para esta jornada. Elegante na forma, antiga na história, este é mais um elemento nesta justaposição de paisagem cultural e natural, feita de tradições e evasões.