A Índia e Eu

À partida para a minha primeira viagem à Índia, desconfiava que não seria fácil. Hoje, já de volta, posso confirmar que foi o local mais difícil onde já estive. Difícil no sentido de uma não imediata adaptação.

Chegámos a Delhi pela hora do almoço, depois de uma longa viagem com uma noite passada no avião. Sem tempo para qualquer repouso, saímos para o acto de comer logo num dos mais típicos restaurantes da Velha Delhi, o Karim’s. A comida era o que mais receava. Também se confirmou fazer sentido esse receio. Com o calor de mais de 40 graus hálugar à vontade de comer tudo menos comidas quentes e condimentadas. Mas não vimos grande saída neste primeiro dia. O mais incrível é que, de forma racional ou inconscientemente, não deu vontade de comer (uma semana depois, já totalmente adaptadas, dava vontade de comer todas as saborosas comidas que nos punham à frente).

Aqui temos pois as duas grandes dificuldades: calor e comida.

E quanto ao demais?

A comunicação é fácil, uma vez que praticamente todos trocamos umas palavras de inglês. O pior é quando perguntamos algo e nos respondem “yes” ao mesmo tempo que abanam a cabeça de uma forma singular que estamos mais perto de assumir como um talvez. Do género, “Tem quartos? Yes”  Então porque continuas a abanar a cabeça para baixo para a esquerda para cima para a direita?

Na estrada, ou nos passeios que não existem, a confusão é total. Não bastasse já a falta de hábito de conduzir e ser conduzida à esquerda, mais parece que o sentido único é ocupar qualquer espaço da estrada. Atravessar as estradas é um acto familiar e não muito complicado depois de se tentar, primeiro, atravessar as ruas de Roma – brincadeira de crianças -, depois, tentar chegar ao outro lado nas ruas das cidades do Vietname – missão impossível ao inicio, sensação de que tudo se pode ao final. Na Índia que visitamos é mais tentar perceber o que se deve contornar primeiro, se o carro, o auto-riquexó, o táxi bicicleta ou a vaca. O segredo, em qualquer dos casos, é entrar na estrada de forma determinada e esperar que sejam os outros a contornarem-nos. E resulta.

Verdadeiramente pior é a experiência de ser conduzida num auto-riquexó (vulgo tuc-tuc). Pior ainda só ir num táxi bicicleta. Aqui, aos sustos permanentes de que algo motorizado, ou uma vaca, irá contra nós, temos de nos debater com o sentimento muito pouco humano de vermos um da nossa espécie a alancar fisicamente connosco. Às duas ao mesmo tempo. Mas atépodem ser mais, que a troco de umas poucas rupias tudo se consegue.

Contrariadas, aproveitamos a pujança física de um moço local para nos transportar por cerca de 3 / 4 quilómetros, quando 3 / 4 auto-riquexos nos recusaram transporte, sem que encontre explicação até hoje para tal atitude a não ser o querer evitar o trânsito caótico no caminho que pretendíamos tomar (e aqui a bicicleta deu mesmo jeito, pela forma laboriosa como se esgueirava pelas ruelas mais libertas).

Em relação aos indianos, para além de já ter tido oportunidade de referir que os acho bonitos, são também de trato fácil. Há que acrescentar, todavia, que quando respondi a um taxista que eles eram friendly (amigáveis), não mais cessamos de ser aldrabadas. Por exemplo, apesar de estarmos a menos de 1 km de distância das lojas de comércio do governo em Delhi, levamos mais de um dia a chegar lá, pois antes tivemos de visitar umas quantas lojas amigas do amigável taxista indian.

Outro exemplo, no dia seguinte tínhamos encontro marcado com o Raj Gath, jardim talvez friendly, não ficamos a saber. Outro amigável taxista contrariou por uma vez a pressa que todos metem quando toca a pisar o pé no acelerador e fez de tudo para pisar ovos e nos fazer chegar ao jardim mesmo à hora do seu encerramento. Sópara, vejam que amigo, ter o prazer de nos conduzir de volta por outros recantos da cidade e receber mais umas quantas rupias pela jornada. Foi aqui que decidimos que voltaríamos ao hotel de qualquer forma menos com ele. Estávamos dispostas a caminhar mais de 5 kms por vias rápidas, já que os tais 3 / 4 taxistas nos deram a nega. Foi então que apareceu o moço da bicicleta e o nosso humanismo foi-se.

É inevitável enfiar um barrete sempre que se viaja. Mas o mais provável é que o barrete a enfiar tenha algo a ver com taxistas. O mundo é um só.

Mas friendly, friendly eram os lagartos do quarto do hotel de Agra que tinha reservado com antecedência. Parece que eles ficam só no tecto e nas paredes e não vêem ter connosco. Ok. Até consigo acreditar. Mas ter que sofrer a humilhação de ouvir que “isto éa Índia” dói.

Eu já suspeitava que não ia ser fácil. Tinha mesmo que confrontar esta que se acha uma viajante experiente e independente com essa realidade?

PS: não consegui acreditar que os friendly lagartos não viriam ter comigo durante a noite, acompanhados de outros amigos voadores, ainda para mais numa cama sem qualquer lençol para me cobrir. Paguei a noite reservada através da escolha budget da minha bíblia Lonely Planet e fui direitinha para um 5 estrelas para não ter de pensar em bichos. Uma falta de adaptação à realidade do outro que foi mais ou menos de 12 euros a 120 euros num espaço de poucos quilómetros.

Em compensação, uma conquista: numa rua estreita de Varanasi uma vaca estava estacionada languidamente e a babar-se toda a tentar, como nós, vencer o calor. Ao seu lado, no único espaço que restava, uma mega bosta. E a verdade, pasme-se, é que eu consegui seguir adiante por esta mesma rua.

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