Meio Dia em Macau

Após uma noite de sono retemperadora em Hong Kong, para o dia seguinte programámos uma ida até Macau. No entanto, a visita de um dia a Macau foi um flop autêntico.

Pensando bem, se tivéssemos ido dois dias depois, a coisa podia ter sido ainda pior e em vez de termos pouco mais de uma tarde de passeio por Macau poderíamos ter tido uma noite no hospital de Macau.

Pois é, um dos catamarãs, não sei se o Terceira, o Funchal ou um outro, foi contra uma bóia e, catrapus, quem não ia com o cinto posto foi mesmo parar ao meio do chão, para além de provavelmente se ter agarrado ao colete salva vidas como se se agarrasse a um santinho.

Não se pense, no entanto, que a viagem de barco que liga Hong Kong a Macau em cerca de uma hora é perigosa ou desagradável. Pelo contrário, é confortável e não se dá pelo tempo a passar e o mar a abanar (a não ser que esteja tempestade, creio). Acidentes acontecem.

O barco das 11:00 ia cheio e os que partiram nos 90 minutos anteriores idem. Quer isto dizer que cometemos a proeza de não conseguir lugar em 5 / 6 barcos, eles que vão saindo de 15 em 15 minutos. O atraso custou-nos Coloane e a estupidez de fim de tarde de não acertar com a direcção do autocarro, bem como não passarem táxis disponíveis, custou-nos “apenas” o Templo de A-Ma, que dá nome ao território, e o comércio local. Ou seja, souvenirs macaenses para além de um pastel de nata no bucho, népias (acho que a mãe nunca me perdoará esta).

O passeio de almoço começou com uma ida imediata para a ilha de Taipa, com uma mão cheia de casas coloniais verdinhas aos pés da Igreja do Carmo, as residências de verão dos ricaços macaenses do inicio do século passado. Muito pitoresco, com uns arranjos florais lindíssimos.


A envolvente é paradigmática dos contrastes desta Ásia que se desenvolve ao ritmo de um foguetão. Prédios altíssimos, cúmplices de uma rápida urbanização, e do outro lado de uma espécie de lagoa o The Venetian, o casino mais estapafúrdio de Macau. Ou seja, a vista da janela de uma casa colonial portuguesa, ali pertinho onde o Rio das Pérolas desagua no Mar do Sul da China, dá para o Campanário da Praça de São Marco e o seu vizinho Palácio dos Doges. Um bocado kitsch, não? Diz quem conhece que lá dentro é anda pior e há até passeios de gôndola pelos canais “venezianos”, com sole mios adequadamente a acompanhar. Deve ser para descontrair entre uma jogatina e outra, afinal estes não são mais do que elementos do The Venetian Macao, o maior casino do mundo.

Um périplo por Macau, mesmo que curto (ou curtíssimo), dá para ficar com a certeza de que o território está impestado de casinos. Ànoite os seus néons são parte da paisagem, o seu cartão postal mesmo. Este é o único local onde o jogo épermitido na China e com o fim, no princípio deste século, do monopólio atribuído a Stanley Ho esta indústria e o turismo que lhe está associado cresceram exponencialmente. Vai daí o aviso aos camaradas incautos: madruguem se não querem ter concorrência feroz pelos assentos dos barcos que saem de Hong Kong com destino a Macau.

Em relação a Macau, e como portuguesa que sou, não podia deixar de ter algumas ideias pré-concebidas face a esta antiga colónia portuguesa, onde estivemos por cerca de 500 anos. Hoje, Macau é, a par de Hong Kong, uma das duas regiões especiais administrativas da China e marca evidente do modelo “um país, dois sistemas”. As minhas ideias resumiam-se a isto: tirando a fachada de uma igreja de que tivemos um pastiche na Expo 98 e que depois foi despachado para o Parque Urbano de Loures, pensava que a influência portuguesa roçava o nada, nomeadamente na língua.

Puro engano. Apesar de os macaenses terem dificuldade na língua de Camões, para dizer o menos, o português está em todo o lado: nos nomes das ruas (e que nomes! onde conseguiríamos nós na “metrópole” chegar à delicadeza de uma “Rua dos Bem Casados”?), no Lisboa do Casino, nas lojas como Gelatina Mok Yi Kei, restaurante Galo, Casa de Bolos Man Kei ou Pastelaria Koi Kei, na placa do Forte do Monte que lembra a pátria a que os soldados pertencem ou no “Feliz Natal” que a Praça do Leal Senado nos brindava na altura que passeei por Macau.

 
 

E para além da língua, aqui no centro é difícil não nos sentirmos numa vila de Portugal quando vemos o edifício caiado do hoje “Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais”, originalmente no século XVIII o Leal Senado, que hoje dá nome a esta zona. Há mais uns quantos exemplos de edifícios de arquitectura portuguesa, com as suas janelas com portadas de madeira, sem esquecer umas quantas igrejas. A mais conhecida é apenas uma fachada: as Ruínas de São Paulo, no alto de uma escadaria.


Tudo isto lado a lado com templos budistas ou taoistas e edifícios em estilo cantonês, como a Mansão Lou Kau, todos eles, diria, esmagados pelos imensos prédios. Imensos porque são muitos em quantidade e de muita altura. Para mim isto foi verdadeiramente surpreendente, pois pelos vistos tinha a ideia de Macau (mais uma, afinal) mais como uma vila do que como uma cidade asiática. Nada mais errado. Aqui são realizadas obras de avançada engenharia, como pontes extensas para ligar a Península de Macau às ilhas de Taipa e Coloane, ou para as juntar, aterrando e ganhando o tão necessário território (vidé a ideia do Cotai Strip que junta Taipa e Coloane). Os resorts turísticos moldam a paisagem com os seus edifícios espampanantes.


O Grand Lisboa, por exemplo, na sua forma de lótus destaca-se e aparece onde quer que estejamos, seja escondido atrás do edifício dos correios na Praça do Leal Senado, seja atrás de um canhão no Forte do Monte. Aqui de cima conseguimos ter uma percepção exacta do que se tornou Macau, um cenário confuso e desordenado de edifícios altos e não muito bonitos, que nos tira finalmente as dúvidas: isto é Ásia e estamos bem afastados de Portugal. Mesmo que se consiga facilmente um pastel de nata ou um pastel de bacalhau para se dar uma trinca.

O irmão mais velho do Grand Lisboa, o simplesmente Lisboa, é o mais conhecido casino da Ásia e em tempos idos foi glamorouso. Hoje o seu interior parece-me um pouco datado, mas uma vez lá dentro senti-me como se estivesse num filme de James Bond. Para quem gosta de algo esplendoroso (dentro do género, claro) é experimentar o mano mais novo, no outro lado da rua.

Mas porque o interesse primeiro não era nem o jogo nem a arquitectura de casino, voltemos e terminemos com o centro histórico de Macau, designado pela Unesco Património da Humanidade. A movida na rua era intensa, com gente para lá e para cá, uma constante em qualquer dos locais que visitámos nesta viagem. Mas o que éespecial em Macau é ver as ruas de calçada portuguesa e de nomes portugueses, rodeados de edifícios de traça portuguesa, ocupadas de indivíduos com olhinhos puxados.

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