Buçaco

Para quem gosta de sossego aliado a umas caminhadas por entre a natureza, e se a isso puder juntar um bom pedaço de história, cultura e arquitectura, então, poucos lugares serão tão ideais como o Buçaco.
Primeiro o nome: Buçaco ou Bussaco? Já no século X aparecia esta última grafia, juntamente com Buzaco ou Buzacco – só para confundir um pouco mais as coisas. Quando se passou a utilizar “Buçaco”, não o sei, mas sei que hoje se opta pelo mais fácil Bussaco para não confundir os estrangeiros. Afinal de contas, quem ajudará a dar a conhecer o seu país quando é perguntado se o bucaco vale a pena a visita? Bu quê? Ai os c’s com cedilha, património impenetrável da língua lusa. 
A Mata do Buçaco fica a 549 metros de altitude, bem perto do Luso, no concelho da Mealhada.
São 105 hectares onde coabitam cerca de 250 espécies de árvores e arbustos e mais de 150 espécies de fauna como aves, répteis, peixes, anfíbios e vários exemplares de mamíferos que se soltam na calada da noite.

O microclima da Mata, caraterizado por temperaturas amenas e precipitação elevada, favorece uma grande biodiversidade. 
À chegada ao Buçaco pode ler-se nos folhetos e brochuras as palavras de José Saramago: “A Mata do Bussaco não se descreve, o melhor é perder-nos nela”. 
Um aviso: isto não é propaganda. Se arriscarmos adentrar um pouco mais pela mata a recompensa certa é mesmo o perder-nos. A sinalização é medíocre e aqui não há ponta de crítica, pois não custa a entender o difícil que é contar quase em exclusivo com a colaboração de voluntários para esse trabalho. Por outro lado, perder-nos no meio de toda aquela luxúria não é de todo um azar, pelo contrário. 
No domingo de Páscoa saí de manhãzinha sozinha – uma daquelas coisas que gostamos de valorizar, mas que não é muito avisado num ambiente como este, em que se pode cair e não ver ninguém passar por nós durante muito tempo. Foi isto que aconteceu, felizmente apenas a segunda parte da sentença: não havia ninguém pelos trilhos, um silêncio quase absoluto apenas irrompido pelo som de alguns bichos e o ranger das árvores. E os foguetes nas terras ao fundo a anunciar a ressurreição de Cristo, a lembrar que a espécie humana também tem vez pelas cercanias.
E a Mata do Buçaco tal como a temos hoje, apesar de ser um claro ambiente natural, deve muitíssimo à espécie humana, no caso à Ordem das Carmelitas Descalças. A Mata pertencia há muitos séculos ao bispado de Coimbra quando em 1628 foi doada a esta Ordem. Procuravam um lugar de retiro, onde pudessem recolher-se em clausura, sem comodidades, para viver a sua vida eremítica. Este era um local isolado, ideal para os Carmelitas erigirem o seu “Deserto”. 
Logo aqui construíram um convento – o Convento de Santa Cruz que hoje, juntamente com o Palace Hotel do Bussaco, representam o núcleo central do lugar.

A arquitectura deste convento, de que iremos encontrar repetidos exemplos ao longo de toda a Mata, designadamente nas portas, ermidas e capelas que aqui abundam, é de uma simplicidade admirável. A provar que o menos é mais, o despojamento e o desprendimento material dos monges, mais dedicados à contemplação, oração e penitência, oferece-nos ainda assim uma arquitectura esteticamente bela. Os edifícios são revestidos a cortiça (material pobre) e como técnica decorativa possuem incrustações (embrechados) feitas com pequenos fragmentos de quartzo, basalto e outros materiais. Com isso procuravam os monges que a arquitectura imitasse a natureza. Por outro lado, os monges dedicaram-se à reflorestação da Mata e com a disposição dos elementos vegetais procuraram que a natureza imitasse, por sua vez, a arquitectura. Ou seja, apesar das espécies autóctones, a vegetação foi por eles transformada no sentido de criarem uma imagem próxima do Monte Carmelo, lugar de origem da ordem.
A partir de 1644 foi decidida a construção da Via Crucis, à imagem de Jerusalém, com a representação dos Passos da Paixão de Cristo, assinalados por capelas e ermidas.

É precisamente este o trilho que é mais fácil de percorrer, por estar relativamente bem assinalado e não existirem cruzamentos que nos façam ficar indecisos no caminho a tomar. Saindo da zona central junto ao Palácio vemos as primeiras capelas sem ter de subir muito. Extremamente pitorescas, na decoração exterior anteriormente relatada, em algumas delas encontramos no interior estatutária relacionada com as cenas da Paixão de Cristo (infelizmente, em umas quantas são visíveis os efeitos do tornado que por aqui passou há pouco tempo). Continuando o trilho da Via Crucis, este pode ficar um pouco (ou muito) mais cansativo de seguir, uma vez que é sempre a subir – querendo, é penar até à Cruz Alta, miradouro donde se alcança toda a paisagem que a nossa vista é capaz de abarcar, diz-se que até Coimbra. Mas podemos quedar-nos um pouco mais abaixo, apenas pelo conjunto de eremidas monumentais de cuja varandinha ficamos com uma vista mais do que privilegiada do Palácio e Mata do Buçaco. Entusiasmante. Vale a pena o esforço, que a mim ficou por menos de 30 minutos de subida.

Embora a Mata do Buçaco tenha muitos quilómetros para entreter os amantes das caminhadas e da natureza, é relativamente fácil para os indivíduos, seja qual for a sua forma física, tomarem contacto com as suas imagens mais idílicas e bonitas.

E nisso o trilho da água – se o conseguirmos acompanhar sem nos perder – é ideal. São várias as fontes que encontramos na Mata, mas a Fonte Fria, uma escadaria imensa a derramar placidamente água, é um luxo. O romantismo atinge aqui o seu auge, a que não falta sequer um lago com cisne no sopé da cascata. 

Daqui, para um lado vamos ter a mais um lago cheio de camélias nas suas margens, para o outro vamos ter ao Vale dos Fetos – lindíssimos farrapos de verde que imagino beijarem o rosto enquanto caminho por tanta beleza. Este será já o trilho da Floresta Relíquia, mas o que interessam as denominações se temos a paisagem?
Dizer, porém, que existe ainda um trilho militar, a lembrar a Batalha do Buçaco, travada em 1810, aquando das invasões napoleónicas.

Umas últimas palavras para um dos elementos que fazem do Buçaco um lugar de sonho: o seu Palácio. Embora seja possível dormir em plena Mata, nas antigas casas florestais hoje transformadas para o efeito, o alojamento que nos vem à mente é o do Palace Hotel.
Em 1834 as ordens religiosas foram extintas em Portugal e tal colocou um fim à presença das Carmelitas por terras do Buçaco. Logo depois, D. Maria Pia pensou construir aqui um palácio real. No entanto, a ideia que viria a vingar foi a da construção de um hotel, uma espécie de palácio do povo. Luigi Manini (o mesmo da Quinta da Regaleira, em Sintra) foi o responsável pela construção do novo palácio, a qual decorreu entre 1888 e 1907. Em estilo neo-manuelino, inspirado na Torre de Belém e no Claustro dos Mosteiro dos Jerónimos, encontramos igualmente aqui influências românticas e renascentistas. Ainda, e se atentarmos à obra de azulejaria expressa nos painéis da varanda de entrada e no hall de entrada e vão da escadaria (grandiosos, estes) – debruçando-se sobre a temática da Guerra Peninsular, da Batalha do Buçaco e da epopeia marítima portuguesa – facilmente constatamos o seu carácter nacionalista e a preocupação com a história do país.

Assim, o Palace Hotel é hoje um dos pontos altos de qualquer visita ao Buçaco. Embora a arquitectura e o ambiente sejam de luxo e a escadaria e seu vitral, o mobiliário, a sala de refeições e o bar sejam elementos encantadores, os quartos estão altamente datados, para usar de simpatia. O melhor será aproveitar a estadia para permanecer o mais possível ou na Mata ou nas zonas comuns do Palace Hotel. Na varanda do restaurante, por exemplo, admirando um céu tão estrelado que nem parece o mesmo que nos guarda na cidade.

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