Duas novas aquisições na paisagem de Lisboa

Lisboa tem desde 2016 dois novos símbolos arquitectónicos, ambos cortesia da eléctrica nacional.
O edifício Sede da EDP e o MAAT vieram ocupar espaços na frente ribeirinha da capital e são já obras incontornáveis e marcantes na nossa paisagem.


Começando pela mais antiga, a Sede da EDP, lugar onde se pretende acolher e juntar os mais de setecentos funcionários da empresa espalhados por vários espaços na cidade.

Está a fazer agora um ano que ficou a descoberto a obra da dupla Aires Mateus. Instalado no aterro da Boavista, entre as ruas D. Luís e a 24 de Julho, numa zona histórica que tem vindo a ganhar uma nova dinâmica, enriquecendo-a, este edifício rompe com a tradição e acrescenta qualidade – antecipo já. 

Dependendo do local onde estejamos na cidade, a visão que teremos sobre este edifício irá mudando. Do Alto de Santa Catarina, no seu miradouro, parece-nos uma massa branca enorme e algo deslocada. Aliás, à medida que a obra se ia desenrolando, daqui foram surgindo críticas ao novo acrescento na silhueta de Lisboa. No entanto, desde cá de baixo, da D. Luís ou da 24 de Julho, não nos chegamos a aperceber da verdadeira dimensão da referida massa branca. Apresentam-se-nos duas torres bem definidas, é certo, mas a sua escala parece bem acomodada ao existente (um dos lotes vizinhos ainda está por ocupar e de futuro também ficará afecto a serviços da EDP).



É aqui que nos apercebemos dos inúmeros detalhes desta obra; e muitos mais nos escapam – por exemplo, não temos muita noção de quantos andares possui este edifício. Um dos aspectos verdadeiramente interessantes neste projecto é o corredor entre as duas torres que liga a Rua D. Luís à Avenida 24 de Julho, criando um pátio ou praça interior. É aqui que se sente que esta não é apenas a sede de uma empresa, fechada sobre si mesma e sobre os seus funcionários, antes aberta à cidade (aqui se prevê a abertura de lojas e restaurantes). E aqui o mérito é do projecto arquitectónico, máxime dos seus autores, em procurarem essa integração que se espera que venha a ser alcançada através da vivência que lhe darão também os habitantes de Lisboa.



A solução arquitectónica usada para cobertura desta praça é única e brilhante, quer a nível estético quer funcional. Uma espécie de cortinas em ripas deixam-nos na dúvida se a praça será mesmo fechada. O jogo de sombras / luz é aqui mais visível e conseguido. Certeiro quem usou as palavras “enigma”, “quebra cabeças” e “puzzle” para descrever este projecto. 


Se é fácil de prever que acima de nós, nos pisos superiores, estarão os escritórios, mais difícil de prever é o que encontraremos nos pisos inferiores enterrados. Um jardim (quase) zen, por exemplo. Sereno (por agora?).





Serenidade foi algo que não existiu no dia da abertura ao público do MAAT. 5 de Outubro de 2016, feriado reposto, milhares junto ao Tejo para ver a espécie de nave espacial que aterrou em Lisboa. De tal forma que a ponte pedonal que liga o MAAT ao Museu dos Coches, para lá da linha férrea, teve de ser encerrada.


O MAAT é o mais novo museu de Lisboa e veio fazer companhia ao formosíssimo e quase centenário edifício da Central Tejo, Museu da Electricidade. Os dois juntos formam hoje o Campus Fundação Edp e receberam a nova designação – MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia).

A zona ribeirinha de Belém é rica em história e mantém-se no imaginário português há séculos. Por aqui ficam alguns dos edifícios mais icónicos da capital. Torre de Belém, Mosteiro dos Jerónimos, Padrão dos Descobrimentos, CCB, Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei de vigia na outra banda. E, agora, mais um: o futurista e ondulante MAAT, mais uma cortesia da EDP, projecto da inglesa Amanda Levete.



O aproveitamento da área onde está implantado e o elemento natural maior que é o rio foram soberbamente manejados. Sem o rio este edifício não seria o mesmo. E sem a luz que ele e Lisboa oferecem também não. A ideia da arquitecta foi a de possibilitar o reflexo da luz do sol e da água no edifício, como se de uma onda se tratasse. Nem seria necessário este jogo, uma vez que a cobertura ondulante é óbvia. 


A dificuldade da implantação do então futuro MAAT era difícil de ultrapassar numa ideia imediata. Temos o rio, lugar privilegiado, mas logo colado a ele temos a linha de comboio e só depois a cidade. Essa barreira foi magistralmente superada. Não pela ponte pedonal que se espera venha a abrir em breve, mas sobretudo pela dita cobertura. Pela belíssima cobertura, melhor dito.



A solução criada foi a de fazer desta cobertura um espaço público, um lugar de encontro entre as pessoas, por onde elas possam caminhar, atravessando o edifício, ou aproveitá-la como miradouro. Sim, este é o mais novo miradouro da cidade e daqui temos uma perspectiva nunca vista da Ajuda. Basta, por uma só vez, virar as costas ao rio.

Depois temos os pormenores na escolha dos materiais. O revestimento do edifício, quase parecendo as escamas de um peixe, é em azulejo e remete para a calçada portuguesa.
Ainda acerca da relação deste edifício com o rio, é curioso como uma estrutura que não é pequena instalada na primeiríssima linha do rio não perturba a leitura do existente na cidade. Aliás, da cidade não é possível obter uma visão deste edifício. Isso só é alcançado do lado do rio. E que bem que este desenho de curvas cativantes aqui fica. 

Voltando ao início, ao dia da abertura do MAAT ao público, se o sucesso de um edifício pode ser medido pela forma como as gentes o vivem, então este é sucesso absoluto.

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