Pela Arménia

Saindo de Yerevan descobrimos toda a beleza da pequena Arménia. Terra dos mosteiros medievais em localizações belíssimas, de sul a norte muito há para encantar, sempre em paisagens incrivelmente diversas.

As distâncias podem não parecer longas mas as estradas do país não permitem grandes velocidades. Por outro lado, os transportes públicos não são convenientes. O melhor mesmo é seguir num tour de grupo ou num tour privado que nos sirva de motorista. Os tours de grupo têm, porém, um senão por estas paragens. Preenchem o dia com imensos pontos de paragem, deixando pouco tempo de visita para o que realmente interessa.

Começámos por visitar Khor Virap, a menos de uma hora de Yerevan. Este é o maior lugar de peregrinação da Arménia e um dos lugares mais simbólicos do país. São Gregório foi aqui mantido preso pelo então rei pagão durante 13 anos até sair e converter a Arménia ao cristianismo no ano 301. Ficou conhecido como São Gregório, o Iluminador, e viria a ser o patrono da Igreja Apostólica Arménia. E a Arménia, já se sabe, viria a tornar-se a primeira nação do mundo a adoptar o cristianismo como religião oficial do estado. As estruturas do mosteiro de Khor Virap, a “masmorra profunda”, vêm sendo reconstruídas desde o século VI, mas a sua igreja principal data do século XVII. A localização é fantástica, no alto de uma pequena colina perdida no meio de uma paisagem de vinhas e de pastos. E, mais do que tudo, com o Monte Ararat na sua linha de horizonte, ali bem perto no que é hoje território turco mas em terras do que foi outrora a Grande Arménia. Mesmo quem não descende de arménios nem crê na Bíblia, não é pouca a emoção de estar face ao Ararat. Mesmo se não o conseguimos destrinçar na totalidade, cortesia do tempo nublado.

De Khor Virap seguimos para Noravank, sempre com a silhueta do Ararat na imaginação. Noravank, o “novo mosteiro”, possui uma localização excepcional – e os superlativos em relação à localização dos mosteiros na Arménia vão se repetindo. Junto a um desfiladeiro de assombrosas rochas vermelhas, este mosteiro começou a ser construído em 1105, tendo servido de residência dos príncipes Orbelian.

Conservam-se duas igrejas com um delicado trabalho decorativo esculpido nas suas fachadas, obra do escultor Momik. Logo à entrada vemos a Surb Astvatsatsin (Sagrada Mãe de Deus) com uma águia pisando um carneiro a encimar uma cruz e na fachada contrária composta por uma escadaria dupla que dá acesso a um segundo andar vemos a figura de Cristo com os Apóstolos Pedro e Paulo. Também esculpidas na fachada vemos umas deliciosas cruzes.

A segunda igreja é a Surb Karapet e a sua entrada recebe-nos com a imagem de um Cristo com os olhos rasgados, motivo pelo qual, conta-se, os mongóis terão poupado este mosteiro da destruição. Cá fora umas sepulturas também trabalhadas.

E para completar este clima de arte pura, não falta um fantástico khachkar. Os khachkars são memoriais de pedra com a cruz arménia nela esculpida. Característicos da arte medieval cristã arménia, podem ter outros motivos para além da cruz, mas normalmente é esta que domina. São peças belíssimas de um trabalho de precisão delicado e profundo.

Num tour de grupo, sem que tivéssemos a oportunidade de permanecer o tempo que desejávamos quer em Khor Virap quer em Noravank, seguimos até Jermuk. Já foi um destino muito procurado de spa nos tempos soviéticos, pelas suas termas e fonte de água mineral, hoje é evidente a sua decadência. Fizemos um desvio enorme para visitar uma cascata que se despenha por aqui, com o sugestivo nome de “cabelo de sereia”, e o tempo gasto só não foi em vão porque as paisagens até lá são fantásticas. A aridez rugosa mas sedutora a que vínhamos assistindo ao seguir junto à fronteira do enclave que o Azerbaijão tem por aqui, sempre acidentada pelas montanhas, transforma-se no caminho até Jermuk, aparecendo agora uns tons de verde e até um lago. À beira da estrada veem-se grupos de pessoas a fazer piqueniques.

E se a água natural de Jermuk não nos interessava tanto, valeu termos conhecido uns turistas da Califórnia, descendentes de arménios, logo arménios também eles, que como resposta ao facto de sermos de Portugal nos atiraram o nome de Gulbenkian. Mais interessante ainda, nada de CR7 ou Figo, eram fãs de Oliveira da Figueira, a inesquecível personagem de Tintin que nos pinta como comerciantes irredutíveis. Tal como os arménios, também eles comerciantes ancestrais.

Na volta parámos para uma prova de vinhos na adega de Areni, região onde se produz do melhor vinho da Arménia, nação que se encontra entre os mais antigos produtores do mundo. Não gosto de vinho, mas lá fiz um esforço para provar um copinho de tinto e outro de branco. Continuo sem apreciar, mas as minhas camaradas aprovaram. Continuámos com o Ararat por companhia durante uns bons quilómetros, com o seu vale salpicado de vinhas. Nas estradas do sul vamos vendo desfilar os vendedores de melancia, pêssegos, alperces e romãs. A Arménia é a terra das romãs.

No segundo e terceiro dias seguimos para norte. É muito curioso perceber como a paisagem e o clima mudam, mas sobretudo como mudam os produtos em venda à beira das estradas. As bancas de fruta podem aparecer em qualquer ponto, mas são mais constantes a sul. Junto ao lago Sevan o peixe está exposto à passagem dos carros. Veem-se também cogumelos. No caminho para Dilijang sucedem-se as tendas de maçarocas. E por Aparan, perto do Aragat, é a vez do mel.

Garni é uma excepção à paisagem arquitectónica arménia. É um tempo helénico dedicado a Mitra, o Deus do Sol pagão, e foi construído pelo rei arménio Trdat I no século I. Dois factores não mudam, porém. A sua elegância e localização certeira, no topo de um desfiladeiro que vai vendo passar o rio Azat.

O desfiladeiro continua, embora não tão pronunciado, e uns quantos quilómetros adiante chegamos ao Mosteiro Geghard. Distinguido pela UNESCO como património da humanidade, este complexo monástico está em parte esculpido na rocha da montanha que o enquadra. Se olharmos bem em volta do mosteiro vemos até umas covas na dita montanha, correspondentes às antigas celas dos monges. Geghard terá sido fundado no século IV, embora a igreja Surp Astvatsatsin seja do século XIII. O seu interior, escuríssimo, é rico em esculturas nas paredes, desde animais a cruzes, e o gavit, o espaço largo de entrada, cheio de arcos. A acústica é incrível. E a água corre aqui dentro e diz-se que é água benta, adensando o ambiente de mistério. Na fachada da igreja encontramos também outros trabalhos esculpidos e por todo o recinto magníficos khachkars.

A entrada do Mosteiro Geghard tem uns quantos vendedores de parafernália vária, mas vale a pena a paragem para comprar o pão gata, um pão doce típico da região.

Do Geghard seguimos para o Lago Sevan. A estrada é partilhada por veículos variados, de Mercedes a Ladas, com destaque para estes últimos. Lada, o carro de fabrico soviético, uma relíquia para nós, nostalgia para outros, sinónimo de robustez a preços económicos para os arménios.

O Lago Sevan fica a 1900 metros acima do nível do mar, um dos mais altos do mundo, e possui cerca de 80 quilómetros de comprimento e 30 de largura. Corresponde a 80% dos recursos hídricos da Arménia, país que não têm acesso ao mar nem rios expressivos. Um amigo arménio a morar em Portugal tinha-me aconselhado a colocar bastante protector quando visitasse o Lago Sevan porque as águas do lago reflectem o sol de forma poderosa. Mas o tempo estava chuvoso. Não pudemos, assim, observar as suas intensas águas azuis, mas confirmámos que estas vão mudando de colorido conforme o clima. O maior lago do Cáucaso é bonito, mas o edificado por estas paragens é composto por estruturas feias e algumas abandonadas desde o tempo em que este era um resort para o qual vinha gente das várias repúblicas soviéticas. Hoje, os arménios endinheirados fogem para Batumi, no Mar Negro na Geórgia, deixando as praias do Sevan para quem não pode ir mais além.

No topo do que era uma ilha antes da descida do nível das águas do Lago e hoje é uma península fica o Mosteiro Sevanavank. Antes de iniciarmos a subida não conseguimos resistir a comprar um gelado, conquistadas pela sua embalagem com a foice e o martelo. E também na subida recordámos o que no dia anterior, a sul, havíamos visto amiúde: as infra-estruturas de instalação do gás são tubos a céu aberto que se prolongam quase indefinidamente e por vezes parecem balizas. Em tempos um templo pagão, da igreja datada do século IX interessam-nos as vistas.

Não muito longe do Lago Sevan fica Dilijang e todo um outro mundo se nos apresenta. Saímos de um túnel, descemos umas quantas centenas de metros em altitude e ganhamos uma paisagem completamente diferente. Agora é a vez de montanhas luxuriantes carregadas de vegetação. A temperatura desce mais um pouco e acreditamos que estamos mesmo na Suíça: Dilijang é conhecida como a Suiça da Arménia. Era para aqui que os artistas na época soviética se retiravam em busca de inspiração. A decadência não é tão evidente como em outros pontos turísticos do país, Jermuk e Sevan, por exemplo, mas também se sente que os tempos áureos passaram já.

O Parque Natural de Dilijang é conhecido por abrigar ursos, mas não foi em busca deles que viemos. Mais uma vez, foram os mosteiros que nos chamaram.

O de Goshavank, do século XII, foi um dos principais centros culturais do seu tempo e a sua biblioteca, a matenadaran, chegou a possuir cerca de 15 mil livros.

Já o de Haghartsin, literalmente “dança das águias”, tem mais uma daquelas localizações superlativas. Escondido na montanha cerrada de vegetação, as suas construções datam do século X a XIII, embora tenha sido promovida uma reconstrução recente um bocado esquisita de um dos seus edifícios. De qualquer forma, a integridade das suas igrejas mantém-se e vemos aqui umas sepulturas e khachkars bem bonitos.

De volta para Yerevan temíamos não ter roupa quente o suficiente para ultrapassar os 13 graus que se faziam sentir. O nosso motorista dizia que em Yerevan, a menos de 100 quilómetros de Dilijang estariam seguramente 25 graus. Desconfiadas, apostávamos a possibilidade de a temperatura subir tanto assim em tão curta distância. Mas é mesmo verdade, a Arménia é tão diversa que se presta a paisagens e climas completamente diferentes de um passo para o outro.

No nosso último dia pela Arménia já ansiávamos por mais surpresas. Seguimos em direcção à Geórgia pelo desfiladeiro do rio Debed. Longa jornada, até lá viajamos com o Monte Aragat pela esquerda, o maior da Arménia moderna a 4090 metros, e passamos pelo Monumento ao Alfabeto Arménio. São 39 letras esculturais gigantes perdidas no meio da paisagem.

Entramos no Passo de Lori e o vale abrupto que se segue é de uma beleza de cortar a respiração. É um magnífico excesso de formas que as montanhas nos oferecem, com uma belíssima vegetação rasteira que transforma a região num verde infinito.

Uns bons quilómetros mais e aparece o tal desfiladeiro do rio Debed que nos acompanha por muito tempo. É a natureza em estado bruto, umas altíssimas paredes de montanhas que ladeiam um corte na terra onde o rio Debed, por vezes um fio de água, corre estreito. Esta é a estrada principal que liga a Arménia à Geórgia e o rio Debed faz de fronteira natural entre os dois países. Disse natureza em estado bruto, mas há que acrescentar que a paisagem natural está muito estragada pelo Homem. Este é o coração industrial da Arménia e na época soviética foram aqui construídas muitas infra-estruturas que tornam a paisagem feia. Uma mina de cobre e um sem número de fábricas, algumas delas abandonadas onde ainda permanece o seu nome em letras do alfabeto cirílico. Vê-se um fumegar constante a sair da montanha, como se de uma erupção se tratasse. Pior, umas torres de habitação foram construídas mesmo no alto da montanha.

Mas a região do Debed é também o lugar de mais uns quantos mosteiros, dois deles inscritos na lista da Unesco. Nesta fase do nosso passeio pela Arménia já estávamos entendidas nos elementos decorativos mais característicos desta arquitectura medieval típica do país. Ao nosso olhar já eram familiares os chapéus das igrejas, ditas cúpulas cónicas, os misteriosos halls de entrada com escassa luz natural, os ditos gavit, e os blocos de pedras rendilhadas, mais conhecidos por khachkars.

O mosteiro de Sanahin data do século X. Possui uns túmulos com uns desenhos esculpidos simples mas soberbos. E o seu espaço interior foi do mais impressionante e grandioso que visitámos.

Já o mosteiro de Haghpat, bem no alto da montanha com uma vista impressionante para o desfiladeiro, foi o mais atmosférico que visitámos. Também do século X, um aviso à entrada informa que o seu restauro se encontra a cargo da Fundação Gulbenkian. O complexo possui várias estruturas, como igrejas, gavit, torre sineira, biblioteca e casa do capítulo. Haghpat significa, literalmente, “grande muro”. O espaço é murado, sim, mas deambulando por aqui é uma enorme liberdade que sentimos. Estamos bem no alto, sabemo-lo e sentimo-lo. As igrejas e torres transportam-nos para os tempos medievais e o terreno amplo remete para uma certa ruralidade. É como se fosse uma viagem no tempo. E assim deixamos a Arménia, de alma cheia e elevada.

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