Pela Arménia

Saindo de Yerevan descobrimos toda a beleza da pequena Arménia. Terra dos mosteiros medievais em localizações belíssimas, de sul a norte muito há para encantar, sempre em paisagens incrivelmente diversas.

As distâncias podem não parecer longas mas as estradas do país não permitem grandes velocidades. Por outro lado, os transportes públicos não são convenientes. O melhor mesmo é seguir num tour de grupo ou num tour privado que nos sirva de motorista. Os tours de grupo têm, porém, um senão por estas paragens. Preenchem o dia com imensos pontos de paragem, deixando pouco tempo de visita para o que realmente interessa.

Começámos por visitar Khor Virap, a menos de uma hora de Yerevan. Este é o maior lugar de peregrinação da Arménia e um dos lugares mais simbólicos do país. São Gregório foi aqui mantido preso pelo então rei pagão durante 13 anos até sair e converter a Arménia ao cristianismo no ano 301. Ficou conhecido como São Gregório, o Iluminador, e viria a ser o patrono da Igreja Apostólica Arménia. E a Arménia, já se sabe, viria a tornar-se a primeira nação do mundo a adoptar o cristianismo como religião oficial do estado. As estruturas do mosteiro de Khor Virap, a “masmorra profunda”, vêm sendo reconstruídas desde o século VI, mas a sua igreja principal data do século XVII. A localização é fantástica, no alto de uma pequena colina perdida no meio de uma paisagem de vinhas e de pastos. E, mais do que tudo, com o Monte Ararat na sua linha de horizonte, ali bem perto no que é hoje território turco mas em terras do que foi outrora a Grande Arménia. Mesmo quem não descende de arménios nem crê na Bíblia, não é pouca a emoção de estar face ao Ararat. Mesmo se não o conseguimos destrinçar na totalidade, cortesia do tempo nublado.

De Khor Virap seguimos para Noravank, sempre com a silhueta do Ararat na imaginação. Noravank, o “novo mosteiro”, possui uma localização excepcional – e os superlativos em relação à localização dos mosteiros na Arménia vão se repetindo. Junto a um desfiladeiro de assombrosas rochas vermelhas, este mosteiro começou a ser construído em 1105, tendo servido de residência dos príncipes Orbelian.

Conservam-se duas igrejas com um delicado trabalho decorativo esculpido nas suas fachadas, obra do escultor Momik. Logo à entrada vemos a Surb Astvatsatsin (Sagrada Mãe de Deus) com uma águia pisando um carneiro a encimar uma cruz e na fachada contrária composta por uma escadaria dupla que dá acesso a um segundo andar vemos a figura de Cristo com os Apóstolos Pedro e Paulo. Também esculpidas na fachada vemos umas deliciosas cruzes.

A segunda igreja é a Surb Karapet e a sua entrada recebe-nos com a imagem de um Cristo com os olhos rasgados, motivo pelo qual, conta-se, os mongóis terão poupado este mosteiro da destruição. Cá fora umas sepulturas também trabalhadas.

E para completar este clima de arte pura, não falta um fantástico khachkar. Os khachkars são memoriais de pedra com a cruz arménia nela esculpida. Característicos da arte medieval cristã arménia, podem ter outros motivos para além da cruz, mas normalmente é esta que domina. São peças belíssimas de um trabalho de precisão delicado e profundo.

Num tour de grupo, sem que tivéssemos a oportunidade de permanecer o tempo que desejávamos quer em Khor Virap quer em Noravank, seguimos até Jermuk. Já foi um destino muito procurado de spa nos tempos soviéticos, pelas suas termas e fonte de água mineral, hoje é evidente a sua decadência. Fizemos um desvio enorme para visitar uma cascata que se despenha por aqui, com o sugestivo nome de “cabelo de sereia”, e o tempo gasto só não foi em vão porque as paisagens até lá são fantásticas. A aridez rugosa mas sedutora a que vínhamos assistindo ao seguir junto à fronteira do enclave que o Azerbaijão tem por aqui, sempre acidentada pelas montanhas, transforma-se no caminho até Jermuk, aparecendo agora uns tons de verde e até um lago. À beira da estrada veem-se grupos de pessoas a fazer piqueniques.

E se a água natural de Jermuk não nos interessava tanto, valeu termos conhecido uns turistas da Califórnia, descendentes de arménios, logo arménios também eles, que como resposta ao facto de sermos de Portugal nos atiraram o nome de Gulbenkian. Mais interessante ainda, nada de CR7 ou Figo, eram fãs de Oliveira da Figueira, a inesquecível personagem de Tintin que nos pinta como comerciantes irredutíveis. Tal como os arménios, também eles comerciantes ancestrais.

Na volta parámos para uma prova de vinhos na adega de Areni, região onde se produz do melhor vinho da Arménia, nação que se encontra entre os mais antigos produtores do mundo. Não gosto de vinho, mas lá fiz um esforço para provar um copinho de tinto e outro de branco. Continuo sem apreciar, mas as minhas camaradas aprovaram. Continuámos com o Ararat por companhia durante uns bons quilómetros, com o seu vale salpicado de vinhas. Nas estradas do sul vamos vendo desfilar os vendedores de melancia, pêssegos, alperces e romãs. A Arménia é a terra das romãs.

No segundo e terceiro dias seguimos para norte. É muito curioso perceber como a paisagem e o clima mudam, mas sobretudo como mudam os produtos em venda à beira das estradas. As bancas de fruta podem aparecer em qualquer ponto, mas são mais constantes a sul. Junto ao lago Sevan o peixe está exposto à passagem dos carros. Veem-se também cogumelos. No caminho para Dilijang sucedem-se as tendas de maçarocas. E por Aparan, perto do Aragat, é a vez do mel.

Garni é uma excepção à paisagem arquitectónica arménia. É um tempo helénico dedicado a Mitra, o Deus do Sol pagão, e foi construído pelo rei arménio Trdat I no século I. Dois factores não mudam, porém. A sua elegância e localização certeira, no topo de um desfiladeiro que vai vendo passar o rio Azat.

O desfiladeiro continua, embora não tão pronunciado, e uns quantos quilómetros adiante chegamos ao Mosteiro Geghard. Distinguido pela UNESCO como património da humanidade, este complexo monástico está em parte esculpido na rocha da montanha que o enquadra. Se olharmos bem em volta do mosteiro vemos até umas covas na dita montanha, correspondentes às antigas celas dos monges. Geghard terá sido fundado no século IV, embora a igreja Surp Astvatsatsin seja do século XIII. O seu interior, escuríssimo, é rico em esculturas nas paredes, desde animais a cruzes, e o gavit, o espaço largo de entrada, cheio de arcos. A acústica é incrível. E a água corre aqui dentro e diz-se que é água benta, adensando o ambiente de mistério. Na fachada da igreja encontramos também outros trabalhos esculpidos e por todo o recinto magníficos khachkars.

A entrada do Mosteiro Geghard tem uns quantos vendedores de parafernália vária, mas vale a pena a paragem para comprar o pão gata, um pão doce típico da região.

Do Geghard seguimos para o Lago Sevan. A estrada é partilhada por veículos variados, de Mercedes a Ladas, com destaque para estes últimos. Lada, o carro de fabrico soviético, uma relíquia para nós, nostalgia para outros, sinónimo de robustez a preços económicos para os arménios.

O Lago Sevan fica a 1900 metros acima do nível do mar, um dos mais altos do mundo, e possui cerca de 80 quilómetros de comprimento e 30 de largura. Corresponde a 80% dos recursos hídricos da Arménia, país que não têm acesso ao mar nem rios expressivos. Um amigo arménio a morar em Portugal tinha-me aconselhado a colocar bastante protector quando visitasse o Lago Sevan porque as águas do lago reflectem o sol de forma poderosa. Mas o tempo estava chuvoso. Não pudemos, assim, observar as suas intensas águas azuis, mas confirmámos que estas vão mudando de colorido conforme o clima. O maior lago do Cáucaso é bonito, mas o edificado por estas paragens é composto por estruturas feias e algumas abandonadas desde o tempo em que este era um resort para o qual vinha gente das várias repúblicas soviéticas. Hoje, os arménios endinheirados fogem para Batumi, no Mar Negro na Geórgia, deixando as praias do Sevan para quem não pode ir mais além.

No topo do que era uma ilha antes da descida do nível das águas do Lago e hoje é uma península fica o Mosteiro Sevanavank. Antes de iniciarmos a subida não conseguimos resistir a comprar um gelado, conquistadas pela sua embalagem com a foice e o martelo. E também na subida recordámos o que no dia anterior, a sul, havíamos visto amiúde: as infra-estruturas de instalação do gás são tubos a céu aberto que se prolongam quase indefinidamente e por vezes parecem balizas. Em tempos um templo pagão, da igreja datada do século IX interessam-nos as vistas.

Não muito longe do Lago Sevan fica Dilijang e todo um outro mundo se nos apresenta. Saímos de um túnel, descemos umas quantas centenas de metros em altitude e ganhamos uma paisagem completamente diferente. Agora é a vez de montanhas luxuriantes carregadas de vegetação. A temperatura desce mais um pouco e acreditamos que estamos mesmo na Suíça: Dilijang é conhecida como a Suiça da Arménia. Era para aqui que os artistas na época soviética se retiravam em busca de inspiração. A decadência não é tão evidente como em outros pontos turísticos do país, Jermuk e Sevan, por exemplo, mas também se sente que os tempos áureos passaram já.

O Parque Natural de Dilijang é conhecido por abrigar ursos, mas não foi em busca deles que viemos. Mais uma vez, foram os mosteiros que nos chamaram.

O de Goshavank, do século XII, foi um dos principais centros culturais do seu tempo e a sua biblioteca, a matenadaran, chegou a possuir cerca de 15 mil livros.

Já o de Haghartsin, literalmente “dança das águias”, tem mais uma daquelas localizações superlativas. Escondido na montanha cerrada de vegetação, as suas construções datam do século X a XIII, embora tenha sido promovida uma reconstrução recente um bocado esquisita de um dos seus edifícios. De qualquer forma, a integridade das suas igrejas mantém-se e vemos aqui umas sepulturas e khachkars bem bonitos.

De volta para Yerevan temíamos não ter roupa quente o suficiente para ultrapassar os 13 graus que se faziam sentir. O nosso motorista dizia que em Yerevan, a menos de 100 quilómetros de Dilijang estariam seguramente 25 graus. Desconfiadas, apostávamos a possibilidade de a temperatura subir tanto assim em tão curta distância. Mas é mesmo verdade, a Arménia é tão diversa que se presta a paisagens e climas completamente diferentes de um passo para o outro.

No nosso último dia pela Arménia já ansiávamos por mais surpresas. Seguimos em direcção à Geórgia pelo desfiladeiro do rio Debed. Longa jornada, até lá viajamos com o Monte Aragat pela esquerda, o maior da Arménia moderna a 4090 metros, e passamos pelo Monumento ao Alfabeto Arménio. São 39 letras esculturais gigantes perdidas no meio da paisagem.

Entramos no Passo de Lori e o vale abrupto que se segue é de uma beleza de cortar a respiração. É um magnífico excesso de formas que as montanhas nos oferecem, com uma belíssima vegetação rasteira que transforma a região num verde infinito.

Uns bons quilómetros mais e aparece o tal desfiladeiro do rio Debed que nos acompanha por muito tempo. É a natureza em estado bruto, umas altíssimas paredes de montanhas que ladeiam um corte na terra onde o rio Debed, por vezes um fio de água, corre estreito. Esta é a estrada principal que liga a Arménia à Geórgia e o rio Debed faz de fronteira natural entre os dois países. Disse natureza em estado bruto, mas há que acrescentar que a paisagem natural está muito estragada pelo Homem. Este é o coração industrial da Arménia e na época soviética foram aqui construídas muitas infra-estruturas que tornam a paisagem feia. Uma mina de cobre e um sem número de fábricas, algumas delas abandonadas onde ainda permanece o seu nome em letras do alfabeto cirílico. Vê-se um fumegar constante a sair da montanha, como se de uma erupção se tratasse. Pior, umas torres de habitação foram construídas mesmo no alto da montanha.

Mas a região do Debed é também o lugar de mais uns quantos mosteiros, dois deles inscritos na lista da Unesco. Nesta fase do nosso passeio pela Arménia já estávamos entendidas nos elementos decorativos mais característicos desta arquitectura medieval típica do país. Ao nosso olhar já eram familiares os chapéus das igrejas, ditas cúpulas cónicas, os misteriosos halls de entrada com escassa luz natural, os ditos gavit, e os blocos de pedras rendilhadas, mais conhecidos por khachkars.

O mosteiro de Sanahin data do século X. Possui uns túmulos com uns desenhos esculpidos simples mas soberbos. E o seu espaço interior foi do mais impressionante e grandioso que visitámos.

Já o mosteiro de Haghpat, bem no alto da montanha com uma vista impressionante para o desfiladeiro, foi o mais atmosférico que visitámos. Também do século X, um aviso à entrada informa que o seu restauro se encontra a cargo da Fundação Gulbenkian. O complexo possui várias estruturas, como igrejas, gavit, torre sineira, biblioteca e casa do capítulo. Haghpat significa, literalmente, “grande muro”. O espaço é murado, sim, mas deambulando por aqui é uma enorme liberdade que sentimos. Estamos bem no alto, sabemo-lo e sentimo-lo. As igrejas e torres transportam-nos para os tempos medievais e o terreno amplo remete para uma certa ruralidade. É como se fosse uma viagem no tempo. E assim deixamos a Arménia, de alma cheia e elevada.

O Momento

Já tínhamos estado no topo do Cascade e já tínhamos saído de Yerevan e seguido para sul, supostamente com o Monte Ararat mesmo ao nosso lado. Supostamente porque, embora o sentíssemos, as nuvens teimavam em não o deixar ver. Mas sabíamos que ele nos acompanhava, um maciço de quase 40 kms (composto pelo Grande Ararat, com 5137 metros, e o Pequeno Ararat, com 3 896 metros) vai-se deixando ver aqui e ali, ainda que não o seu pico.

Conta a Bíblia, no seu Livro do Génesis, que desagradado com o comportamento da humanidade Deus escolheu Noé para construir uma arca e lá guardar a sua família e dois exemplares de cada espécie de seres vivos, um macho e uma fêmea, para que a terra fosse repovoada. Após o que se seguiu o dilúvio, chovendo por 40 dias e 40 noites, deixando a terra totalmente inundada por mais 150 dias. Até que, enfim, o sol raiou e as águas baixaram e a Arca de Noé se viu assente no cume do Monte Ararat.

(o Cafesjian, o centro de artes do Cascade, tem exposta uma curiosa e inspirada representação em escultura vertical de madeira da Arca de Noé)

Hoje em território da Turquia, o Ararat sempre foi parte da terra ancestral dos arménios. Montanha sagrada e omnipresente, a sua imagem é constante. Símbolo nacional, o Ararat está no brasão de armas, é nome de cognac, de cigarros, de restaurante, de tudo o que possamos imaginar e a sua montanha está ainda presente no carimbo de entrada no país.

No final de tarde do nosso último dia em Yerevan ainda não tínhamos percebido ao certo qual das muitas montanhas que envolvem a cidade seria com exactidão o Ararat.

Vislumbrámos, então, uma aberta. Ainda queríamos ver e conhecer mais em Yerevan, mas sem hesitar rumámos de novo ao Cascade e subimos rapidamente a sua escadaria interior rolante, sem fôlego para acompanhar a jovem corredora que subia e voltava a subir a escadaria exterior.

Até que quando chegámos lá acima tivemos igualmente o merecido prémio. Ali estava o Ararat descoberto com o seu pico nevado e aí realizámos toda a sua dimensão e magnificência. É tão grande, tão grande. Tão desproporcional em relação à cidade que dizer que domina a paisagem de Yerevan é dizer pouco. Inconfundível, é como se fosse um grande pai a guardar os seus filhos. Abençoados os que vivem para ver o Ararat.

Arménia e Yerevan

A Arménia não é fácil de explicar.

Com três milhões de habitantes no seu território actual e entre seis a dez milhões na diáspora, o antigo império arménio chegou a ir do Mar Mediterrâneo ao Mar Cáspio, embora durante muitos séculos não tenha havido um estado arménio de todo. Foi governado por árabes, gregos, mongóis, persas e romanos. Os otomanos e, depois, os russos, foram os últimos a exercerem a sua autoridade no território desta, hoje, pequena nação entre a Europa e a Ásia, o mundo cristão e o mundo muçulmano.

Sem acesso ao mar e com grande parte das suas fronteiras terrestres encerradas, as relações diplomáticas mantidas pela Arménia são um caso de estudo. É provavelmente o único país do mundo a manter excelentes relações com a Rússia, o Irão e os EUA. Mas as relações com os vizinhos Azerbaijão e Turquia são péssimas, resultado do conflito do Nagorno Karabakh, Artshak para os arménios.

Independente desde 1991, após o colapso da União Soviética, viveram-se tempos duros na Arménia. Sofreu uma grave crise económica resultante da separação soviética e a sua economia está ainda muito dependente da Rússia, até pelo isolamento resultante das tensas relações com a Turquia e o Azerbaijão.

Um aviso: se pretende visitar o Azerbaijão e tem uma visita ao Nagorno Karabakh também nos planos o melhor é revê-los.

Yerevan, a capital da Arménia, é considerada a cidade há mais tempo ininterruptamente habitada. Este ano comemoram-se os 2800 anos da cidade, o que quer dizer que terá sido fundada em 782 a.C.

As dificuldades de explicação continuam. A Arménia pode ser uma nação antiga, mas não se nota que Yerevan seja tão antiga assim. Pelo contrário, é uma cidade jovem, urbanisticamente falando.

A cidade rosa, a contemporânea Yerevan, foi projectada e executada a partir dos anos 1920 segundo o plano urbanístico do arquitecto russo nascido arménio, Alexander Tamanyan. Este plano urbanístico tinha o declarado objectivo de modernizar a antiga cidade ao gosto soviético. E isso nota-se. Avenidas largas, grandes praças, edifícios de grande porte, fontes, muitos espaços verdes, incluindo um “ring” que circunda e delimita com precisão o centro da cidade. O gosto soviético está ainda bem expresso nas inúmeras esculturas que ocupam o espaço público.

E a monumentalidade soviética é melhor medida pela imagem da Praça da República, antes Praça Lenine, rodeada por grandes edifícios (governamentais e um hotel), plenos de arcos e colunas e motivos decorativos relativos ao folclore arménio.

Por toda a cidade, mas aqui mais evidente, é a pedra tufa local a utilizada nas construções e a responsável pelo epíteto “Yerevan, a cidade rosa”.

Mas o nosso primeiro contacto com a Arménia e Yerevan deu-se antes de descobrirmos isso.

O Mercado GUM, literalmente “principal loja universal”, é o maior mercado de Yerevan, aquilo que nos tempos soviéticos era conhecido como as lojas de departamento estatais. O porte não engana, é soviético. E o ambiente no interior do mercado também não engana, não é europeu. Não que os europeus não sejam capazes daquela simpatia, de quem oferece os seus produtos de forma genuína, sem esperar obrigatoriamente que eles venham a ser comprados, antes se preocupando em dar a conhecê-los. Visualmente as frutas secas e cristalizadas em exposição, embaladas de forma peculiar, são uma explosão de cores, bem como as nozes e as especiarias. O espectáculo maior é o ritual das senhoras a fazer o lavash, o pão típico – fino e saboroso – obrigatório em todas as refeições locais. A preparação, o significado e a aparência deste pão tradicional como expressão da cultura na Arménia foi inscrito em 2014 na Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Ao lado dos frutos secos e cristalizados e das frutas frescas e legumes também coloridos, vemos elementos do outro mundo a que é impossível escapar sem um gigante sorriso, como balanças do tempo dos avós ou máquinas de apanhar telemóveis.

Do GUM saímos para o Tsitsenarkaberd, o Memorial do Genocídio Arménio, e aqui tivemos a nossa primeira grande lição de história da viagem transformada num valente murro no estômago.

Dedicado às vítimas do genocídio dos arménios às mãos dos otomanos entre 1915 e 1922, este complexo que inclui memorial e museu é um testemunho lapidar da tragédia, mas também da resiliência, do povo arménio. O lugar, no topo de uma colina sobranceira ao centro da cidade, impõe silêncio e reflexão. Passamos por uma série de árvores plantadas por dignatários internacionais que reconheceram o genocídio, atravessamos um longo caminho ladeado por um muro de 100 metros com a inscrição dos nomes das comunidades assassinadas, observamos uma torre piramidal de 40 metros e ficamos, enfim, face às 12 lajes de basalto – representando as 12 províncias da Arménia Ocidental perdidas para a Turquia – que circundam e guardam a chama eterna acompanhada por uma coroa de flores. Ouve-se música coral. O memorial, construído em 1967, é de um simbolismo e de uma elegância profundas.

O museu, enterrado no espaço deste complexo, procura explicar-nos o inexplicável. Através de fotografias, filmes e documentos é nos narrada a história da expulsão e deportação dos arménios de parte do seu território original e seu internamento em campos de extermínio e massacres.

Logo em 1915, por altura da I Grande Guerra Mundial, as potências aliadas emitiram um comunicado conjunto reconhecendo os massacres e utilizando pela primeira vez a expressão “crimes contra a humanidade” na política e diplomacia internacionais. A palavra “genocídio” viria a ser criada mais tarde, após os crimes perpetrados pelo regime Nazi que, está visto, se inspirou nas técnicas de homogeneização cultural promovidas pelos Jovens Turcos que então governavam o Império Otomano.

Esta política de expulsão dos arménios das terras que hoje pertencem ao território oriental da Turquia levaram a que os arménios se espalhassem um pouco por todo o mundo. Síria, Líbano e Iraque, certamente, mas também EUA, Austrália, Argentina. Apelidos por aí terminados em ian e yan são certamente descendentes de arménios, a tal diáspora que ascenderá a 10 milhões, que mesmo que os seus pais não tenham já nascido em solo arménio mantém a língua e um sentimento de identidade forte, sentindo a Arménia como sua. São arménios e os mais conhecidos são as Kardashian, Charles Aznavour(ian), David Nalbandian, os elementos da banda System of a Down e, claro, Aracy Balabanian e “as suas três filhinhas”. Para quem não chegou a assistir à novela Rainha da Sucata, é difícil apanhar esta saudosa caricatura. Para nós, portugueses, o nome de Calouste Gulbenkian é não só incontornável como imprescindível em termos educativos e culturais, desempenhando a sua Fundação o papel de um autêntico ministério da cultura.

Pela perda do território ancestral arménio ao longo dos tempos e pelas deslocações em massa que isso implicou, algumas delas com destino a Yerevan, talvez se perceba melhor o porquê da cidade parecer nova, embora remonte a tempos imemoriais. Em 1897 Yerevan possuía 29 mil habitantes. Hoje são mais de 1 milhão. Há quem a compare com Telavive, como cidade para onde os sobreviventes vão para construir um novo lar. Os soviéticos transformaram o centro da cidade e os subúrbios com os planos urbanísticos e blocos de apartamentos ao seu grandioso gosto. O bairro Kond é um dos poucos lugares em Yerevan onde se vê algo de antigo e a sua malha urbana mantém-se praticamente intacta desde o século XVII. Entre o muito que tem vindo a ser deitado abaixo para se construir novos edifícios, encontram-se ainda algumas casas de outros tempos. No entanto, com o edificado antigo muito negligenciado, o que resta, para além de bastante degradado, não mostra possuir condições de habitação. Parece uma favela, mas não é. É antes uma outra Yerevan, de tempos idos.

O Karen Demirchyan Sports and Concert Complex, na mesma colina do complexo do Memorial e Museu do Genocídio Arménio, é um edifício monstruoso dos tempos soviéticos. Construído no ano de 1981 parece fazer-nos lembrar outros edifícios modernos espalhados pelo mundo, mas ao mesmo tempo a sua envolvência e o ar de abandono dão-nos a sensação de algo datado.

Daqui pretendíamos voltar ao centro da cidade de transportes públicos, mas seria o 27 ou o 53? O 13 laranja ou o 17 branco? O número era o do autocarro ou o da marshutka? A 1000 drams, cerca de 1,70 euros, cada corrida de táxi, deixámos o plano inicial de lado e apostámos na comodidade e na fuga ao calor. A comunicação na Arménia pode ser um problema para quem não fala a língua local ou o russo. Com uma linguagem e um alfabeto próprio, é curioso constatar que a língua arménia não soa como russo, talvez mais como farsi, o que também não será de espantar se pensarmos em todas as influências que aqui se juntaram ao longo dos séculos.

Os mais jovens em Yerevan já vão falando inglês. A cidade tem, aliás, uma cultura jovem e vibrante. Cheia de cafés e restaurantes com esplanadas, as suas ruas são inundadas de gente aos finais de tarde. As fontes junto à Praça da República transformam-se na atração maior pelos seus jogos de luzes. Um movimento louco por todo o centro da cidade.

Mas o maior símbolo da Yerevan moderna e contemporânea, e ao mesmo tempo um exemplo do investimento da comunidade da diáspora, é o Cascade.

Aos seus pés vemos uma inspirada escultura representando Alexander Tamanyan, o criador da Yerevan do século XX.

Depois de atravessado um parque com várias esculturas e obras de arte, entre os quais trabalhos de Fernando Botero e da nossa Joana Vasconcelos (a propósito, sabe quem é o português mais famoso na Arménia? Disse Cristiano Ronaldo? Pense outra vez. Mas não saia do futebol. Sabia que Luís Figo ainda é uma estrela por aqui?), preparamo-nos para subir a imensa escadaria do Cascade. Este centro cultural era parte do projecto urbanístico planeado por Tamanyan nos anos 20, mas a sua construção apenas começou na década de 70 e um terramoto em 1988 veio atrasar ainda mais a obra. Ainda hoje não está concluída e a sua envolvente é muito pouco qualificadora, para além de ainda se verem algumas das enormes fundações do que nunca chegou a seguir adiante. Mas mesmo assim o que temos sob o olhar do memorial Mãe Arménia, uma mega estátua de 22 metros no alto de uma colina e visível de muitos locais da cidade, é um surpreendente centro cultural, o Cafesjian Museum of Art. No princípio dos anos 2000, Gerard Cafesjian, um magnata e coleccionador de arte arménio nascido nos EUA filho de sobreviventes do Genocídio, decidiu retomar o projecto. O Cascade é um complexo com obras de arte espalhadas no seu interior e no seu exterior, estendendo-se por um sem número de patamares. Podemos ascender interiormente pelas escadas rolantes, visitando algumas das galerias, ou podemos ir subindo cada degrau do exterior, acedendo aos pátios com esculturas que se transformam em miradouros. E é isto que torna o Cafesjian tão especial e inesquecível. Vamos para ver arte criada pelo homem e ganhamos uma das vistas mais demolidoras e magnificentes criadas por Deus. O Monte Ararat.

Cáucaso

Há meses, alguém perguntou para onde iria eu de férias este ano. Quando ouviu a resposta “para o Cáucaso”, virou-me as costas ao mesmo tempo que atirava “isso a mim não me diz nada”. É precisamente por haver locais do mundo que não me dizem nada que gosto de os visitar e quanto menos conhecidos, melhor. Espero, porém, que não desistam já de ler as próximas linhas e tenham, como eu, curiosidade em descobrir o mundo.

“Enquanto alguns especialistas consideram a região a sul da cadeia montanhosa do Cáucaso como pertencente à Ásia, outros são da opinião, tendo em conta, sobretudo, a evolução cultural da região transcaucásica, que esta já pertence à Europa. Cabe-vos pois a vós, meninos, decidir, consoante o vosso comportamento, se esta nossa cidade irá pertencer à moderna Europa ou à retrógrada Ásia.”

Assim discursava o professor russo do Liceu Humanista Imperial Russo de Baku frente aos seus 40 alunos – 30 muçulmanos, 4 arménios, 2 polacos, 3 sectários e 1 russo – no princípio do século XX, como podemos ler em “Ali e Nino”, de Kurban Said.

“Ali e Nino” pode ser o livro nacional do Azerbaijão, mas o romance entre um muçulmano e uma cristã, num lugar onde os seus habitantes não estavam ainda certos de pertencer ao oriente ou ao ocidente, perpassa grande parte do Cáucaso, focando diversos locais seus e com personagens de várias etnias aqui presentes.

Esta a primeira grande ideia: o Cáucaso é historicamente um lugar de cruzamento de civilizações e ainda hoje o visitante se interroga em que mundo estará.

Certo que as montanhas do Cáucaso são a divisão geográfica natural entre Europa e Ásia. Situadas entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, abrangendo parte do Sul da Rússia (a Ciscaucásia, os Cáucaso do Norte) e países como a Arménia, Geórgia, Azerbaijão (a Transcaucásia, ou Cáucaso do Sul), esta região não possui, no entanto, uma unidade. Pelo contrário, é caracterizada pela sua diversidade quer de paisagens e climas quer, sobretudo, de culturas.

Mas as várias culturas coexistiram pacatamente ao longo de séculos, de tal forma que antes da I Grande Guerra Mundial eram mais os muçulmanos do que os cristãos em Yerevan, capital da cristã Arménia, e mais os arménios do que os georgianos em Tbilisi, capital da Geórgia. Vários impérios iranianos mesmo antes dos designados persas andaram por aqui. Foram os citas, por exemplo, que terão estado na origem da palavra “Cáucaso”, a qual derivará de kroy-khasis, literalmente “gelo a brilhar”.

Referindo-me, de seguida, à Transcaucásia em especial, cada um dos seus três países possui a sua língua e alfabeto e cada um deles tem a sua cultura e religião. Na generalidade, o zoroastrismo dominava até ao século I a.C., mas a Arménia foi a primeira nação do mundo a adoptar oficialmente o cristianismo logo no ano de 301 e ainda hoje tem a sua própria Igreja Apostólica Arménia, a Geórgia foi a segunda nação a seguir o cristianismo com a criação da sua Igreja Ortodoxa e o Azerbaijão segue o islão. Mais de 50 grupos étnicos estão aqui identificados.

Vizinhos, sim, mas nem por isso amigos. Esta complexidade cultural tem trazido muitos conflitos na região nos últimos anos e as relações diplomáticas entre os estados nem sempre têm sido fáceis.

Comerciantes a caminho da Rota da Seda e exércitos como o dos mongóis passaram por aqui. Gregos e romanos chegaram aqui mas foram os iranianos, persas e otomanos a cultura dominante durante muitos séculos, mas no primeiro quartel do século XIX os russos impuseram-se e tomaram conta da região. Com o fim do Império Russo em 1917 o Cáucaso do Sul chegou a estar unificado numa única entidade política, com declarações de independência pelo meio por parte de cada um dos seus estados. Só após a desintegração da União Soviética em 1991 a Arménia, a Geórgia e o Azerbaijão declararam e conseguiram a sua independência. Mas se o fim da URSS levou ao reconhecimento universal da independência destes três estados (bem como ao de muitas outras ex-repúblicas soviéticas), as disputas territoriais na região levaram a que desde aí outros três declarassem unilateralmente a sua independência sem que tenham até agora sido reconhecidos como tal pela comunidade internacional. São eles a Abecásia, a Ossétia do Sul e o Nagorno-Karabakh (também designado Artsakh pelos arménios). E se pensarmos que a Chechénia é parte do Cáucaso do Norte temos o cenário completo do caldo que é esta região.

Ou seja, andar pelo Cáucaso é andar perto de regiões que nos habituámos a ouvir e a ver nos noticiários pelas más razões (o filme Tangerinas, de 2013, sobre a guerra entre a Geórgia e a Abecásia, é uma boa referência para se entender um pouco mais acerca destas relações de vizinhança em tempos de guerra).

No entanto, apesar dos diversos conflitos e de muitas fronteiras terrestres encerradas entre eles, a Arménia, a Geórgia e o Azerbaijão são países bastante seguros.

À partida levávamos pelo menos uma ideia acerca de cada um deles. A Arménia foi a primeira nação a adoptar o cristianismo e diz a lenda que a Arca de Noé apareceu no seu território ancestral; as montanhas da Geórgia são das mais bonitas do mundo e aqui ficam dos picos mais altos da Europa (o filme O Planeta Solitário, de 2011, confirma o cenário de beleza); a capital do Azerbaijão é uma cidade onde têm vindo a ser construídos projectos arquitectónicos contemporâneos arrojados à conta do petróleo e do gás.

Aprofundámos estas ideias e juntámo-lhes mais umas quantas.