Arménia e Yerevan

A Arménia não é fácil de explicar.

Com três milhões de habitantes no seu território actual e entre seis a dez milhões na diáspora, o antigo império arménio chegou a ir do Mar Mediterrâneo ao Mar Cáspio, embora durante muitos séculos não tenha havido um estado arménio de todo. Foi governado por árabes, gregos, mongóis, persas e romanos. Os otomanos e, depois, os russos, foram os últimos a exercerem a sua autoridade no território desta, hoje, pequena nação entre a Europa e a Ásia, o mundo cristão e o mundo muçulmano.

Sem acesso ao mar e com grande parte das suas fronteiras terrestres encerradas, as relações diplomáticas mantidas pela Arménia são um caso de estudo. É provavelmente o único país do mundo a manter excelentes relações com a Rússia, o Irão e os EUA. Mas as relações com os vizinhos Azerbaijão e Turquia são péssimas, resultado do conflito do Nagorno Karabakh, Artshak para os arménios.

Independente desde 1991, após o colapso da União Soviética, viveram-se tempos duros na Arménia. Sofreu uma grave crise económica resultante da separação soviética e a sua economia está ainda muito dependente da Rússia, até pelo isolamento resultante das tensas relações com a Turquia e o Azerbaijão.

Um aviso: se pretende visitar o Azerbaijão e tem uma visita ao Nagorno Karabakh também nos planos o melhor é revê-los.

Yerevan, a capital da Arménia, é considerada a cidade há mais tempo ininterruptamente habitada. Este ano comemoram-se os 2800 anos da cidade, o que quer dizer que terá sido fundada em 782 a.C.

As dificuldades de explicação continuam. A Arménia pode ser uma nação antiga, mas não se nota que Yerevan seja tão antiga assim. Pelo contrário, é uma cidade jovem, urbanisticamente falando.

A cidade rosa, a contemporânea Yerevan, foi projectada e executada a partir dos anos 1920 segundo o plano urbanístico do arquitecto russo nascido arménio, Alexander Tamanyan. Este plano urbanístico tinha o declarado objectivo de modernizar a antiga cidade ao gosto soviético. E isso nota-se. Avenidas largas, grandes praças, edifícios de grande porte, fontes, muitos espaços verdes, incluindo um “ring” que circunda e delimita com precisão o centro da cidade. O gosto soviético está ainda bem expresso nas inúmeras esculturas que ocupam o espaço público.

E a monumentalidade soviética é melhor medida pela imagem da Praça da República, antes Praça Lenine, rodeada por grandes edifícios (governamentais e um hotel), plenos de arcos e colunas e motivos decorativos relativos ao folclore arménio.

Por toda a cidade, mas aqui mais evidente, é a pedra tufa local a utilizada nas construções e a responsável pelo epíteto “Yerevan, a cidade rosa”.

Mas o nosso primeiro contacto com a Arménia e Yerevan deu-se antes de descobrirmos isso.

O Mercado GUM, literalmente “principal loja universal”, é o maior mercado de Yerevan, aquilo que nos tempos soviéticos era conhecido como as lojas de departamento estatais. O porte não engana, é soviético. E o ambiente no interior do mercado também não engana, não é europeu. Não que os europeus não sejam capazes daquela simpatia, de quem oferece os seus produtos de forma genuína, sem esperar obrigatoriamente que eles venham a ser comprados, antes se preocupando em dar a conhecê-los. Visualmente as frutas secas e cristalizadas em exposição, embaladas de forma peculiar, são uma explosão de cores, bem como as nozes e as especiarias. O espectáculo maior é o ritual das senhoras a fazer o lavash, o pão típico – fino e saboroso – obrigatório em todas as refeições locais. A preparação, o significado e a aparência deste pão tradicional como expressão da cultura na Arménia foi inscrito em 2014 na Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Ao lado dos frutos secos e cristalizados e das frutas frescas e legumes também coloridos, vemos elementos do outro mundo a que é impossível escapar sem um gigante sorriso, como balanças do tempo dos avós ou máquinas de apanhar telemóveis.

Do GUM saímos para o Tsitsenarkaberd, o Memorial do Genocídio Arménio, e aqui tivemos a nossa primeira grande lição de história da viagem transformada num valente murro no estômago.

Dedicado às vítimas do genocídio dos arménios às mãos dos otomanos entre 1915 e 1922, este complexo que inclui memorial e museu é um testemunho lapidar da tragédia, mas também da resiliência, do povo arménio. O lugar, no topo de uma colina sobranceira ao centro da cidade, impõe silêncio e reflexão. Passamos por uma série de árvores plantadas por dignatários internacionais que reconheceram o genocídio, atravessamos um longo caminho ladeado por um muro de 100 metros com a inscrição dos nomes das comunidades assassinadas, observamos uma torre piramidal de 40 metros e ficamos, enfim, face às 12 lajes de basalto – representando as 12 províncias da Arménia Ocidental perdidas para a Turquia – que circundam e guardam a chama eterna acompanhada por uma coroa de flores. Ouve-se música coral. O memorial, construído em 1967, é de um simbolismo e de uma elegância profundas.

O museu, enterrado no espaço deste complexo, procura explicar-nos o inexplicável. Através de fotografias, filmes e documentos é nos narrada a história da expulsão e deportação dos arménios de parte do seu território original e seu internamento em campos de extermínio e massacres.

Logo em 1915, por altura da I Grande Guerra Mundial, as potências aliadas emitiram um comunicado conjunto reconhecendo os massacres e utilizando pela primeira vez a expressão “crimes contra a humanidade” na política e diplomacia internacionais. A palavra “genocídio” viria a ser criada mais tarde, após os crimes perpetrados pelo regime Nazi que, está visto, se inspirou nas técnicas de homogeneização cultural promovidas pelos Jovens Turcos que então governavam o Império Otomano.

Esta política de expulsão dos arménios das terras que hoje pertencem ao território oriental da Turquia levaram a que os arménios se espalhassem um pouco por todo o mundo. Síria, Líbano e Iraque, certamente, mas também EUA, Austrália, Argentina. Apelidos por aí terminados em ian e yan são certamente descendentes de arménios, a tal diáspora que ascenderá a 10 milhões, que mesmo que os seus pais não tenham já nascido em solo arménio mantém a língua e um sentimento de identidade forte, sentindo a Arménia como sua. São arménios e os mais conhecidos são as Kardashian, Charles Aznavour(ian), David Nalbandian, os elementos da banda System of a Down e, claro, Aracy Balabanian e “as suas três filhinhas”. Para quem não chegou a assistir à novela Rainha da Sucata, é difícil apanhar esta saudosa caricatura. Para nós, portugueses, o nome de Calouste Gulbenkian é não só incontornável como imprescindível em termos educativos e culturais, desempenhando a sua Fundação o papel de um autêntico ministério da cultura.

Pela perda do território ancestral arménio ao longo dos tempos e pelas deslocações em massa que isso implicou, algumas delas com destino a Yerevan, talvez se perceba melhor o porquê da cidade parecer nova, embora remonte a tempos imemoriais. Em 1897 Yerevan possuía 29 mil habitantes. Hoje são mais de 1 milhão. Há quem a compare com Telavive, como cidade para onde os sobreviventes vão para construir um novo lar. Os soviéticos transformaram o centro da cidade e os subúrbios com os planos urbanísticos e blocos de apartamentos ao seu grandioso gosto. O bairro Kond é um dos poucos lugares em Yerevan onde se vê algo de antigo e a sua malha urbana mantém-se praticamente intacta desde o século XVII. Entre o muito que tem vindo a ser deitado abaixo para se construir novos edifícios, encontram-se ainda algumas casas de outros tempos. No entanto, com o edificado antigo muito negligenciado, o que resta, para além de bastante degradado, não mostra possuir condições de habitação. Parece uma favela, mas não é. É antes uma outra Yerevan, de tempos idos.

O Karen Demirchyan Sports and Concert Complex, na mesma colina do complexo do Memorial e Museu do Genocídio Arménio, é um edifício monstruoso dos tempos soviéticos. Construído no ano de 1981 parece fazer-nos lembrar outros edifícios modernos espalhados pelo mundo, mas ao mesmo tempo a sua envolvência e o ar de abandono dão-nos a sensação de algo datado.

Daqui pretendíamos voltar ao centro da cidade de transportes públicos, mas seria o 27 ou o 53? O 13 laranja ou o 17 branco? O número era o do autocarro ou o da marshutka? A 1000 drams, cerca de 1,70 euros, cada corrida de táxi, deixámos o plano inicial de lado e apostámos na comodidade e na fuga ao calor. A comunicação na Arménia pode ser um problema para quem não fala a língua local ou o russo. Com uma linguagem e um alfabeto próprio, é curioso constatar que a língua arménia não soa como russo, talvez mais como farsi, o que também não será de espantar se pensarmos em todas as influências que aqui se juntaram ao longo dos séculos.

Os mais jovens em Yerevan já vão falando inglês. A cidade tem, aliás, uma cultura jovem e vibrante. Cheia de cafés e restaurantes com esplanadas, as suas ruas são inundadas de gente aos finais de tarde. As fontes junto à Praça da República transformam-se na atração maior pelos seus jogos de luzes. Um movimento louco por todo o centro da cidade.

Mas o maior símbolo da Yerevan moderna e contemporânea, e ao mesmo tempo um exemplo do investimento da comunidade da diáspora, é o Cascade.

Aos seus pés vemos uma inspirada escultura representando Alexander Tamanyan, o criador da Yerevan do século XX.

Depois de atravessado um parque com várias esculturas e obras de arte, entre os quais trabalhos de Fernando Botero e da nossa Joana Vasconcelos (a propósito, sabe quem é o português mais famoso na Arménia? Disse Cristiano Ronaldo? Pense outra vez. Mas não saia do futebol. Sabia que Luís Figo ainda é uma estrela por aqui?), preparamo-nos para subir a imensa escadaria do Cascade. Este centro cultural era parte do projecto urbanístico planeado por Tamanyan nos anos 20, mas a sua construção apenas começou na década de 70 e um terramoto em 1988 veio atrasar ainda mais a obra. Ainda hoje não está concluída e a sua envolvente é muito pouco qualificadora, para além de ainda se verem algumas das enormes fundações do que nunca chegou a seguir adiante. Mas mesmo assim o que temos sob o olhar do memorial Mãe Arménia, uma mega estátua de 22 metros no alto de uma colina e visível de muitos locais da cidade, é um surpreendente centro cultural, o Cafesjian Museum of Art. No princípio dos anos 2000, Gerard Cafesjian, um magnata e coleccionador de arte arménio nascido nos EUA filho de sobreviventes do Genocídio, decidiu retomar o projecto. O Cascade é um complexo com obras de arte espalhadas no seu interior e no seu exterior, estendendo-se por um sem número de patamares. Podemos ascender interiormente pelas escadas rolantes, visitando algumas das galerias, ou podemos ir subindo cada degrau do exterior, acedendo aos pátios com esculturas que se transformam em miradouros. E é isto que torna o Cafesjian tão especial e inesquecível. Vamos para ver arte criada pelo homem e ganhamos uma das vistas mais demolidoras e magnificentes criadas por Deus. O Monte Ararat.

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