Heydar Aliyev Center

Quem passa por este blogue já percebeu que sou uma grande admiradora da arquitectura de Zaha Hadid.

Em Baku está aquela que tem vindo a ser considerada a sua obra-prima, o Heydar Aliyev Center.

O projecto foi apresentado a competição em 2007 e concluído em 2012. Pelo caminho, a sua construção sofreu algumas críticas a que a arquitecta sempre disse ser alheia como autora do projecto, tendo-se desresponsabilizado da sua execução. A saber, expropriações não devidamente compensadas para se construir o complexo e contratação ilegal de operários estrangeiros e com más condições de trabalho. O Azerbaijão não é conhecido pelo seu governo democrático e inteiramente respeitador dos direitos humanos, não sendo a sua imprensa sequer considerada livre. O foco dos últimos dois líderes do país, Heydar Aliyev (1993-2003) e seu filho Ilham Aliyev (2003-actualidade), é a aposta nas grandes obras para dar visibilidade e trazer reconhecimento ao país.

Se é de estética que se trata, então o Heydar Aliyev Center é uma aposta certeira. Já um ícone de Baku e do Azerbaijão, este centro propõe-se a ser parte incontornável da vida cultural da cidade e do país. Ao longo da sua enorme área de implantação e oito andares vai acomodando um auditório com mil lugares, um centro de conferências, galerias de exposições temporárias e um museu.

À medida que nos vamos aproximando deste complexo desde o centro de Baku, não muito longe, vamos percebendo a forma como ele se espraia no terreno e impõe na paisagem de forma natural. É colossal. Adjectivos e analogias não faltam para o caracterizar. Que parece uma baleia, um glaciar, um terminal de aeroporto. É, como alguém escreveu, a imagem da voluptuosidade feminina. Sensual como Zaha.

As suas formas são fluidas e o edifício é cheio de curvas, fugindo dos ângulos rectos. Como se fosse uma só onda que corre numa só superfície. As suas curvas envolvem-nos e abraçam-nos. Podemos subir pelo edifício afora sobre as placas de vidro que o revestem e descer daí a rolar ou a surfar.

O interior é igualmente surpreendente. Alvo, pleno de cortes que permitem uma luz natural, é brilhante no aproveitamento do espaço.

Este é um projecto de sonho. A fotografar de todos os ângulos curvos possíveis e imaginários.

Baku

Baku é a capital do Azerbaijão.

Nunca a expressão “não podemos tomar a parte pelo todo” terá feito tanto sentido. Não é preciso conhecer todo o Azerbaijão para perceber que Baku é diferente da sua vizinhança.

Banhada pelo Mar Cáspio, a natureza sempre fez a diferença. No cruzamento das rotas comerciais ao longo dos séculos, persas, russos e turcos foram exercendo a sua influência à vez. O resultado é uma capacidade ímpar de se adaptar a cada momento e talvez daí venha a tolerância que se sente nas ruas da Baku do século XXI. Não surpreende, assim, que ao nível do vestuário vejamos mulheres de vestidos ou calções curtos e camisas sem mangas lado a lado com mulheres completamente escondidas atrás do hijab islâmico. Baku recebe incontáveis turistas da Arábia Saudita e de outros países do Golfo Pérsico. Provavelmente sentem-se em casa. E Baku é isso mesmo, faz qualquer um sentir-se em casa.

Há quase 150 anos o boom do petróleo veio trazer enormes transformações no tecido urbano da cidade, que até aí se limitava praticamente ao núcleo intra muralhas que vinha crescendo desde o século XII. Por volta de 1905 Baku produzia mais de metade de todo o petróleo mundial, atraindo uma série de indivíduos bem sucedidos e seus operários que fizeram com que a população da cidade aumentasse exponencialmente. Fora do círculo da cidade velha muralhada pejada de mesquitas nasceram, então, grandes mansões e edifícios públicos. Os estilos desses edifícios mesclavam a arquitectura ocidental com a oriental, com elementos góticos, barrocos e neoclássicos de permeio. Sobrevivem até hoje, colunas sobre colunas, estatuetas lado a lado com elementos florais, numas fachadas absolutamente imaculadas de tão limpas.

Até que no seguimento da Revolução Russa, o ano de 1920 trouxe o domínio dos bolcheviques e a nacionalização de muitos dos edifícios pertencentes aos barões do petróleo. O terceiro rosto urbano da cidade surgiu com os grandes blocos de apartamentos soviéticos e avenidas tão largas que ainda hoje nos impedem a aventura de tentar atravessá-las – é totalmente aconselhável o uso das passagens subterrâneas.

Com a independência do Azerbaijão em 1991 na sequência do fim da União Soviética, e à boleia de um novo boom do petróleo, Baku tem mostrado mais uma vez ser mestre na reinvenção urbanística. Os presidentes Aliyev, pai e filho, teimaram em colocar a cidade no centro do mundo e, para além de esta ter vindo a receber diversos eventos à escala mundial (Eurovisão, Fórmula 1, os 1° Jogos Europeus), é hoje a dona de peças arquitectónicas fantásticas como as Flame Towers ou o Heydar Aliyev Center, as quais se tornaram por direito próprio ícones da arquitectura mundial do século XXI.

A Baku de 2018 é, pois, uma cidade moderna e cosmopolita, sem deixar de preservar e relembrar o seu passado.

“Na realidade, eram duas cidades, e uma delas envolvia a outra como a casca envolve a noz. A casca era a cidade exterior, a que se encontrava fora das velhas muralhas. Aí as ruas eram largas, os edifícios altos, as pessoas gananciosas e barulhentas. Esta cidade periférica surgira graças ao petróleo, dádiva do nosso deserto e garante de riqueza. Era aí que se encontravam teatro, escolas, hospitais, bibliotecas, polícias e mulheres belas com os ombros à mostra. Quando na cidade nova se disparavam tiros, isso acontecia sempre por causa do dinheiro. Nessa cidade nova e periférica traçava-se também o limite geográfico da Europa. A Nino vivia na parte nova. No interior das muralhas as casas eram estreitas e curvas como lâminas das espadas orientais. As torres de oração das mesquitas trespassavam a suavidade da lua.”

A Nino era a rapariga georgiana cristã e quem relata o acima transcrito é Ali, o rapaz azeri muçulmano. Ambos formam o par romântico de “Ali e Nino”, livro nacional do Azerbaijão, escrito em 1937. Baku é, a par dos dois namorados, a personagem central e representa este constaste constante entre o ocidente e o oriente.

A cidade muralhada de Baku está classificada pela Unesco como património mundial da humanidade. E bem o merece. Também referida como cidade velha ou cidade interior (Icheri Sheher), a sua distinção vem da evidência da presença de culturas como as dos zoroastras, sassânidas, árabes, persas, shirvanis, otomanos e russos e a integridade do edificado do século XII. É um encanto andar pelas suas ruas estreitas onde a qualquer momento pode surgir a visão da torre de uma mesquita ou até das modernas Flame. As carpetes surgem estendidas, lado a lado com diversos objectos que remetem para o imaginário das Mil e Uma Noites. Não é apenas um postal turístico. Na realidade, é fácil sentirmo-nos transportados para esses ambientes.

A Giz Galasi, ou Torre da Donzela, é o seu maior símbolo. Envolvida em lendas e mistério, não se sabe com certeza nem a época da sua construção nem a sua função original. Talvez anterior ao século XII, talvez templo zoroastra, observatório ou torre defensiva. Do seu topo alcançam-se vistas largas e o seu interior está hoje transformado em museu. Aqui aprendemos que a Giz Galasi estava outrora junto à água do Cáspio e que se fossemos pássaros perceberíamos que vista do céu a Torre parece uma “bufa”, um popular motivo azeri que significa o sol e o fogo. Quase todas as descrições e explicações andam à volta do elemento sol: a península de Absheron, onde se encontra Baku, era então a Terra da Luz (sol) e Baku a “porta do sol nascente” e o seu povo ancestral era adorador do sol e respeitador do fogo como representativo da chama divina na terra, o sol.

O Palácio dos Shirvanshahs é outra das maravilhas da histórica Baku. Construído no século XV pela dinastia Shirvanshan que reinou no Azerbaijão entre os séculos IX e XVI, este é um complexo que inclui o edifico principal do palácio, duas mesquitas, ruínas de um hamam, um mausoléu e um enorme portal. Face a este portal convenço-me definitivamente do apelo arrebatador que esta arquitectura tem sobre mim.

A cidade interior de Baku não é apenas a Giz Galasi e o Palácio dos Shirvanshahs. Possui ainda uma série de mesquitas, antigos caravançarai convertidos em restaurantes, praças e jardins, galerias de arte (a visita à Yay Gallery é obrigatória), mas sobretudo um pulsar vibrante.

Fora das muralhas, a área pedestre ao redor da Praça das Fontes é o coração da nova cidade. Restaurantes, lojas, museus – a fachada do Museu da Literatura Nizami é um assombro – e diversos edifícios “fin de siècle”.

Continuando em direcção ao Mar Cáspio chegamos ao Bulvar, uma enorme promenade que segue pela baía afora. E aqui vemos que por mais obra que se faça – e Baku está em transformação constante – a beleza da natureza do Cáspio, o maior corpo de água interior do mundo, essa, permanece.

Quer de dia quer de noite este é o local de toda a agitação e o movimento das gentes é diabólico. Animação de rua, concertos de música ao fim do dia, fogos de artifício, jogos de luzes, arte urbana.

Uma torre do petróleo ergue-se como monumento representativo da principal economia da cidade. Curiosamente, deste canto da baía não se percebe a azáfama da actividade petrolífera e esta nem sequer é assim tão marcante na paisagem. Só bem mais adiante, já passados a Little Venice, excentricidade de gôndolas a passearem num canal artificial, e o novo edifício do Museu da Carpete, em forma de torta de laranja, é que se vê que as águas do Cáspio estão sujas de manchas de óleo e se sente um pouco esse cheiro. O bulvar continua, parece que até ao infinito e mais além.

Novos edifícios (e muitos mais se seguirão em breve) como o Baku Eye, o Crystal Hall e o Aquatic Palace. Uma antiga fábrica de construção naval foi transformada no Yarat Contemporary Art Centre, lugar obrigatório para os amantes de arte contemporânea local. A palavra Yarat significa criação, omnipresente por estas paragens.

Tudo muito composto, disciplinado e organizado. O critério principal parece ser o de legar ícones arquitectónicos. À medida que os anos passam, a descrição de Olivier Rolin no seu “Baku, últimos dias” vai ficando cada vez mais distante do centro da península de Absheron: “as paisagens de Apcheron são magníficamente desoladas. Estepe dourada eriçada de uma miscelânea de metal, de postes eléctricos, depósitos de petróleo, tubos enegrecidos e viscosos correndo em todas as direcções, pilares inclinados, torneiras enferrujadas, carcaças de camiões e de tratores de lagartas. Emaranhado de cabos e de esguias Torres de exploração de petróleo, Campos de bombas de extracção, cuja cabeça de insecto oscila e range.”.

Baku, a cidade do sol, é agora a cidade das Flame Tower, três infinitos arranha-céus em forma de chama que abusam do vidro e que desde 2012 fazem parte da paisagem da cidade, sem deixar de respeitosamente terem por vizinhos próximos uma mesquita e um parque com um cemitério que é um memorial das vítimas do exército vermelho em 1990 e do conflito do Nagorno.

Baku, a cidade dos ventos, é agora a cidade do Heydar Aliyev Center, a obra-prima da arquitecta Zaha Hadid, também de 2012, um corpo ondulante perfeitamente integrado na paisagem.

Em “Ali e Nino” lê-se, a dado passo: “É estanho… amar Baku. Para alguém que venha de fora é apenas uma cidade quente e abafada, poeirenta, saturada de petróleo.”

Já não é assim e, agora, é fácil amar Baku.

(uma nota mais: para chegarmos ao Heydar Aliyev Center temos duas hipóteses: ou de metro até à estação Nizami e caminhar um pouco ou de autocarro e ficar à porta. As duas são verdadeiramente económicas, cerca de 20 cêntimos de euro. E a nossa ida até ao Centro trouxe-nos uma outra experiência que serviu para confirmar a disponibilidade e simpatia dos azeris. Como a máquina na paragem de autocarro estava indisponível para o carregamento do cartão de viagem e não nos restaria outra solução senão um táxi que nos levasse ao destino, um senhor de meia idade logo se prontificou em utilizar o seu cartão também para a nossa viagem. Não sei o que significarão 60 cêntimos para os azeris, mas para nós o gesto, e o não aceitar o pagamento, deixa do povo do Azerbaijão uma imagem de gentileza e de hospitalidade)

Azerbaijão e Sheki

Deixámos a Geórgia rumo ao Azerbaijão pela fronteira Lagodekhi. À saída, um desejo num placar: “boa sorte”. Ou seria um aviso? À entrada, a polícia de fronteira do Azerbaijão faz uma série de perguntas, quase todas elas relacionadas com a Arménia. Estiveram na Arménia? Quantos dias? Por onde andaram? Estiveram no Nagorno? De certeza que não? O que trazem na bagagem vindo da Arménia? Vêm de Portugal, terra do Luís Figo e do Cristiano Ronaldo?

Feita esta breve apreciação dá para ver que os inimigos jurados possuem algo em comum. Tanto para o Azerbaijão como para a Arménia, Portugal é sinónimo destes dois futebolistas. E duas semanas pelo Cáucaso deu para perceber que muito mais liga estas duas nações. Imagino os azeris e os arménios lado a lado na toalha esticada sob o sol de Batumi, no Mar Negro da Geórgia, o grande resort de praia do Cáucaso, o preferido de 10 em 10 dos habitantes da região.

Azerbaijão é, literalmente, a “terra do fogo”. A entrada vindos da Geórgia mostra, no entanto, mais uma terra de rios sem água. Pelas estradas de asfalto com um alcatrão novo que evita os solavancos, vamos vendo desfilar até Sheki um sem número de pontes sobre largos rios cheios de pedras onde só corre um fio de água. Duas constantes em relação à Geórgia se mantêm, as vacas na estrada e as montanhas do Cáucaso.

O Azerbaijão é mais um dos países tornados independentes após o colapso da União Soviética em 1991. Historicamente era lugar de pequenos khanatos na época do Império Persa e apenas se tornou um país unificado como Azerbaijão no século XX.

Ao contrário dos seus vizinhos do Cáucaso, Arménia e Geórgia (e Rússia), é um país muçulmano. Logo numa das cidades de fronteira vimos uma mulher totalmente coberta. Perguntámos ao nosso motorista se podíamos andar com as pernas ao léu, ao que ele respondeu imediata e convictamente que sim, acrescentando após uns breves segundos, talvez com contida indignação, que o Azerbaijão era um país moderno. Acreditámos. Com três mulheres no seu carro não parou de falar no quanto gostava de beber – vinho, vodka, cerveja, tudo -enquanto afagava a barriga a caminho de se tornar proeminente para um trintão e nos convidava para irmos não sei onde no dia seguinte.

Apesar de 97% dos azeris se considerarem muçulmanos, esse sentimento tem mais a ver com a pertença a uma cultura do que a vivência de uma fé religiosa.

Escolhemos Sheki para uma paragem de descanso entre a longa viagem de Tbilisi e Baku.

Sheki é uma cidade pacata envolvida pelas montanhas do Grande Cáucaso. Quase como que um oásis na paisagem maioritariamente desértica do Azerbaijão. Ao longo dos séculos sofreu por mais de uma vez a devastação em razão de inundações. No século XVIII houve nova tentativa de ser erguer a cidade e um khanato independente reinou por aqui até ser integrado no Império Russo em 1805. A antiga Nukha era então um importante centro de tecelagem da seda e encontrava-se nas rotas comerciais percorridas pelas caravanas a caminho de Baku e outras cidades. Não é rigoroso afirmar-se que Sheki era uma das cidades da Rota da Seda; era, sim, uma das muitas cidades em que a tradicional Rota da Seda se desdobrava.

Testemunho desse tempo é o histórico caravançarai de Sheki. Ainda hoje é fácil imaginarmos as caravanas com os comerciantes e os seus camelos a entrarem pela estalagem adentro para um necessário descanso entre cidades. Este caravançarai possui um ambiente fantástico.

À entrada, a única desde grande espaço, num hall escuro e empedrado uma fonte recebe-nos. Segue-se um largo e acolhedor pátio ao redor do qual se distribuem os quartos por dois andares em arcadas. É possível passar-se aqui a noite. Tentámos reservar – exclusivamente por telefone -, não conseguimos, mas não pudemos perder a visita a este belíssimo caravançarai. Não lhe falta sequer um restaurante num grande jardim e uma vista para as montanhas.

Mas a maior beleza de Sheki é o Xan Sarayi, o Palácio de Verão do khan. Só por ele vale a pena o desvio e a paragem em Sheki. Construído em 1762, a fachada está repleta de janelas em madeira e decorações geométricas em estuque.

Mas é o seu interior que surpreende. Não esperamos no que as ditas janelas se transformam no interior: uns vitrais coloridos absolutamente deslumbrantes, uma arte típica de Sheki. Mais encantador ainda, as salas deste palácio estão inteiramente decoradas com uma delicada pintura mural com motivos florais, mas também motivos alusivos a batalhas. É uma obra de arte superior que revela o bom gosto da cultura persa.

Infelizmente não é permitido tirar fotografias no interior do Palácio de Verão do Kahn. No entanto, desde há poucos anos podemos vingar-nos a tirar fotografias sem parar no Palácio de Inverno do Khan, não muito longe do outro.

Mais pequeno, têm vindo a decorrer obras de restauro e em duas salas podemos continuar a apreciar esta arte pura. Os motivos florais continuam a aparecer, juntamente com cenas clássicas de Nizami, o poeta épico da cultura persa. Um deleite.

Sheki possui ainda uma arquitectura singular nas fachadas em pedra e com decorações em tijolo dos seus edifícios.

Longe da grande capital, Baku, consegue ter uma cultura própria que se revela não só na arte expressa nos vitrais e pinturas murais como também ao nível da comida. O halva, um doce guloso parecido com o baklava, mas bem mais banhado com uma calda gulosa, está em toda a parte.

E a piada de Sheki é também, precisamente, a sua localização geográfica fazer dela um lugar perdido não só no espaço como quase que no tempo. Terra com um ritmo lento, gente simpática que se tenta fazer entender a quem não fala o idioma local, Ladas a quase monopolizarem o parque automóvel, cafés com bules e chávenas que parecem do tempo da avó. Mas não, não da nossa avó, que a nossa não andou por ambientes do Oriente Médio.

David Gareja

De Tbilisi saímos rumo ao Azerbaijão, com uma paragem em David Gareja pelo caminho, um conjunto monástico de casas nas rochas.

A estrada à saída de Tbilisi não é má, é até uma espécie de autoestrada por alguns quilómetros como ainda não tínhamos visto até aí. Mas as vacas, já nossas conhecidas, mantém-se por perto.

Atravessamos parte da província de Kakheti, a mais antiga região do mundo onde se produz vinho, tendo sido encontradas evidências que levam a datar a produção do vinho na Geórgia até há 8000 anos.

Até que fazemos um desvio à estrada principal em direcção a David Gareja e voltamos às distâncias curtas percorridas em tempos longos. A estrada pode ser uma lástima, mas a paisagem volta a ser uma beleza. Parece que para alcançarmos os locais mais bonitos no Cáucaso temos sempre de ter como contrapartida o desconforto físico na viagem. Nada é de graça. Mas vale bem o preço.

A paisagem vai variando entre os mantos verdes rasteiros e a aridez desértica. Chega a fazer crer que estamos na lua.

David Gareja é um conjunto de mais de uma dezena de mosteiros dispersos por uma área muito longa que se estende até ao Azerbaijão. Os dois mosteiros mais acessíveis, o Lavra e o Udabno, ficam em território da Geórgia, mas caminhando entre eles colocamos inevitavelmente pelo menos um dos pés no Azerbaijão. A fronteira não está rigidamente delimitada, vendo-se apenas uns pequenos pilares.

Fundado no século VI por David Gareja e outros padres sírios missionários vindos da Mesopotâmia com o objectivo de propagarem a fé cristã pela Geórgia, a maioria das estruturas monásticas foram vítimas ao longo dos séculos da destruição por parte dos mongóis, de Timur e dos soviéticos. Há muito que foram abandonadas. Mas permanecem como um dos sítios históricos mais incríveis do país.

Ao mosteiro Lavra acede-se logo à entrada do complexo. Decorrem obras de restauro, mas podemos visitar a sua igreja, o seu pátio com romãs e apreciar a arquitectura do lugar, mais concretamente as covas cravadas na rocha que serviam de celas aos monges.

Para conhecer Udabno temos de subir a encosta, o que não é de todo fácil pelo piso escorregadio e pelo calor. É a tal subida que nos leva ao Azerbaijão, embora não exista aqui fronteira oficial, pelo que não podemos passar de um país para o outro neste local (na verdade temos de o fazer muitos quilómetros de estrada e horas de tempo longe dali). Veem-se os polícias de fronteira armados. Intimida, mas depois percebemos que eles são capazes de pousar as armas para beber um gole de água como nós.

Udabno é a cidade das cavernas que buscávamos. São várias covas na montanha, um lugar remoto e inóspito pela aridez. Mas essas grutas possuem um rico património no seu interior. Os seus belos frescos chegaram até aos nossos tempos com integridade suficiente para os podermos apreciar. Os mais antigos são datados do século IX, mas a maioria são dos séculos XI a XIII e reflectem bem a grandeza da escola de frescos que aqui floresceu em tempos.

Deixamos David Gareja e preparamo-nos para deixar a Geórgia. O português mais conhecido aqui, ao contrário de na velha Arménia, não é Luís Figo. É Cristiano Ronaldo. Por uma vez sinto orgulho por Portugal ser conhecido por este mundo fora pelos seus futebolistas. E apesar de termos conhecido muitos georgianos simpáticos pela viagem não resisto a chegar ao fim destes textos sobre a Geórgia sem informar que a Geórgia é o país onde nasceu o Zé dos Bigodes, o infame camarada Estaline. Sorte a nossa que temos o Cristiano.

Kazbegi

Svaneti pode ser a região mais bonita da Geórgia, mas é de Kazgebi a imagem mais conhecida na divulgação do país.

Mais acessível, a duas horas de Tbilisi, o que permite uma visita de um dia, ao contrário de Svaneti Kazbegi está longe de ser um lugar remoto. Não deixa, no entanto, de ser também um lugar mágico.

Saindo de Tbilisi seguimos pela Estrada Militar Georgiana, construída pelos russos após tomarem a Geórgia em 1801.

Chekhov escreveu no seu tempo “sobrevivi à Estrada Militar Georgiana. Não é uma estrada, é poesia”. A estrada leva-nos por mais paisagens montanhosas lindíssimas, sobretudo aqueles tapetes verdes que tanto me encantaram também em Svaneti.

Bem antes de chegar a Kazbegi fizemos uma paragem no Forte de Annanuri. A sua localização é mais uma daquelas superlativas. Com a água da barragem Zhinvali como companhia, este complexo de uma fortaleza e duas igrejas é um exemplo da arquitectura clássica georgiana. Do alto de uma das torres da fortaleza obtém-se uma vista fantástica. E a igreja encanta pelo trabalho escultórico nas suas fachadas, uma cruz e umas árvores absolutamente lindas.

Rumando a norte em direcção a Kazbegi, levamos o território separatista da Ossétia do Sul no nosso lado esquerdo, mas a paisagem é sereníssima.

Kazbegi, agora conhecida por Stepantsminda, é uma vila num vale cuja fama vem sobretudo das vistas soberbas para a solitária igreja Tsminda Sameba (Gergeti) bem lá no alto já próximo do Monte Kazbek.

E é ainda a terra natal de Alexander Kazbegi, filho de gente abastada que foi estudar para Tbilisi, São Petersburgo e Moscovo, mas que decidiu voltar à sua terra e tornar-se pastor para estar mais próximo das suas raízes e das vidas das gentes locais ao mesmo tempo que escrevia. A casa onde nasceu e onde jaz no jardim é hoje um museu.

Do centro de Kazbegi podemos ascender a caminhar até ao monte onde reina imponente a igreja Gergeti. Mas por falta de tempo e de pernas seguimos num 4×4. Situada a 2200 metros de altitude, a igreja do século XIV não é superior a outras que havíamos visto. O que faz a diferença para que seja considerada um símbolo da Geórgia é a sua implantação. As enormes paredes montanhosas que a rodeiam são verdadeiramente impressionantes. Dramático é o adjectivo que melhor descreve o cenário.

São umas montanhas a seguir a outras, montanhas rugosas e escarpadas, com picos afiados. Boris Pastenak comparou esta região a uma cama amarrotada.

Uma destas montanhas, aquela que se vê nas costas da igreja Gergeti quando observada desde a vila, é o Monte Kazbek, o segundo maior da Geórgia e o quinto maior da Europa, com 5047 metros, mesmo na fronteira com a Rússia. Não bastasse a imponência do panorama, este vulcão extinto está associado a algumas lendas. Conta-se, por exemplo que Promoteu, o titã da mitologia grega, foi aqui preso por roubar fogo dos deuses. Não custa a crer que esta região do Cáucaso tenha sido habitada por seres superiores.

Svaneti

Na estação de comboios de Tbilisi vários nos perguntaram se seguiríamos para Batumi. Batumi é um dos maiores resorts do Mar Negro, a concorrida riviera dos tempos soviéticos e ainda hoje o maior destino turístico da Geórgia. Mas não, não seguiríamos para a praia. Iríamos antes para as montanhas de Svaneti, a nossa Geórgia idealizada.

Para chegar a Mestia, a principal povoação de Svaneti, tivemos de viajar no comboio nocturno Tbilisi – Zugdidi e daí apanhar uma marshutka que em 4 longas horas nos deixou finalmente no destino. As deslocações por estes lados levam tempo, mesmo se as distâncias não são tão grandes assim.

A estrada que sai de Zugdidi rumo a norte faz-nos passar bem junto à Abecásia. O conflito entre esta província separatista e a Geórgia, decorrido em 1992-93, deixou marcas e uma delas foi o êxodo dos seus habitantes para Zugdidi. Mas no caminho não se veem homenagens aos mortos desta guerra, antes se veem memoriais levantados aos georgianos que caíram na II Grande Guerra Mundial 1941-45. O ambiente não é pesado, porém. À beira da estrada encontramos velhinhos à conversa sentados em cadeirinhas de madeira. E a paisagem vai-se apresentando. As montanhas vão crescendo, ao nosso lado repousa uma barragem de cor indefinida entre o azul e o verde que, mais adiante, dá lugar a um rio estreito que corre rebelde procurando furar as pedras que lhe aparecem no caminho. Pelo meio, muitas quedas de água.

Chegámos a Mestia sob uma chuva intensa, bom pretexto para ficarmos a descansar na nossa casa de hóspedes. O tempo nesta região é conhecido por ser temperamental, daí que o voo que liga Tbilisi a Mestia no verão descole e aterre quando calhe, não sendo pois muito fiável – daí a nossa opção pelo comboio + marshutka. Mas, felizmente, o tempo foi mudando a nosso favor e pudemos explorar a região como planeado.

Svaneti possui alguns dos maiores picos da Europa, como o Chkhara – terceiro maior da Europa e o maior da Geórgia, com 5201 metros – e o Ushba – 4690 metros. O Monte Elbrus, no Cáucaso da Rússia não muito longe daqui, é mesmo a maior montanha da Europa, com 5642 metros.

Poderia parafrasear John Muir, um dos pioneiros do movimento pela conservação da natureza: “As montanhas estão a chamar e eu tenho de ir”. Ou ser levada a experimentar a sentença do poeta William Blake: “Grandes coisas são feitas quando o Homem e as montanhas se encontram”. A relação entre as montanhas e a criatividade é conhecida, sendo elas uma inspiração para poetas, pintores, músicos, filósofos, enfim, todos os seres humanos. Mas, na verdade, era apenas a busca de um cenário superior que me movia, aquele que faz a Geórgia ser considerado um dos países mais bonitos do mundo.

Svaneti é o coração profundo da Geórgia e o guardião dos seus valores e tradições. Parte do Grande Cáucaso, situado no limite norte da fronteira com a Rússia, este é um lugar remoto, cheio de paisagens de tirar o fôlego, montanhas nevadas, vales verdejantes e aldeias pitorescas. Tão remoto que nunca chegou a ser conquistado por povos estrangeiros e os invasores nem ousavam chegar perto.

Já no século I a.C. Estrabão se referia aos soanes reconhecendo-os como os melhores em coragem e poder. Os soanes do historiador e geógrafo grego eram os svans, os habitantes de Svaneti, e estes possuem ainda hoje uma forte identidade cultural, bem como a sua própria linguagem e religião, um cristianismo que incorpora ritos pagãos.

E os svans possuem ainda algo que os distingue de todos os outros. Montanhas nevadas e vales verdejantes muitos os têm, basta a Natureza assim o decidir. Mas aldeias pitorescas graças à parceria entre a Natureza e o engenho arquitectónico só os svans as têm. A Svaneti superior, no vale do rio Enguri, por onde andámos, é conhecida pelas suas típicas torres medievais.

As koshi são torres defensivas de pedra e a sua antiguidade não está ainda datada com certeza. A maioria das que chegaram aos nossos tempos datarão do século XII – XIII, mas segundo a Unesco a sua origem remontará a tempos pré-históricos. Simples mas elegantes, normalmente são construídas em xisto e possuem 20 a 30 metros de altura correspondentes a 4 ou 5 andares. A entrada encontramo-la no segundo andar da torre, acessível por uma escada que é colocada ou retirada desde o seu interior, para impedir o acesso a indesejáveis. Testemunhos da dureza deste território montanhoso isolado, as torres de Svaneti serviam ao mesmo tempo de lar, celeiro e abrigo. Abrigo do mau tempo, dos invasores ou das disputas entre famílias locais. Como os svans estavam divididos em clãs sem uma organização comum superior, o que reflete bem o seu espírito de liberdade, cada um dependia de si. Assim, cada um deles tinha a sua própria casa fortificada, ao invés de uma fortificação mais alargada a um grupo de casas.

Estas torres defensivas abundam em Mestia e Ushguli, as duas povoações mais pitorescas, mas também pelo caminho entre elas. A região é óptima para se fazer diversas caminhadas e o trek de 4 dias entre Mestia e Ushguli está extremamente bem cotado. Sem férias infinitas, optámos por ligar as duas povoações de carro e fazer umas caminhadas junto a elas.

Começando por Mestia. Esta é, na verdade, um conjunto de uns 10 lugarejos. A praça central dispõe de transportes, serviços públicos, um jardim, mini-mercados e restaurantes. E uma bonita estátua da muito amada Rainha Tamar, aquela que governou a Geórgia durante a sua época dourada, entre os séculos XII e XIII.

Para além de caminhar pelo verde com vista para os rios Mulkhra e Mestiachala por entre as torres, cães e vacas – sim, descobrimos que não é só na Índia que as vacas têm o direito de harmoniosamente partilhar o espaço connosco – Mestia é ideal como ponto de partida para umas quantas caminhadas diárias.

Pode caminhar-se desde Mestia até ao Glaciar Chalaadi mas isso não tem grande piada porque a maior parte da estrada está ocupada com obras, buldozers e tubos para a construção de uma hidroeléctrica. O melhor é seguir de “táxi” até à ponte suspensa de madeira no vale do rio Mestiachala e dai atravessá-la e caminhar por cerca de 1,5 quilómetros até aos pés do glaciar.

A natureza envolve-nos por completo, densa vegetação, rio rebelde e ruidoso, montanhas de um lado, do outro, à frente, atrás. E o glaciar está lá em cima, mesmo defronte de nós. A última parte do percurso é feita a saltar de pedra em pedra, os despojos do glaciar. É perigoso acercarmo-nos totalmente do Chalaadi, pelo que é sensato respeitar o fim do percurso pedestre. Ouvem-se as pedras a soltar e elas lá veem rolando até cá abaixo. Fora do verão há perigo de avalanches. Mesmo não podendo pisar ou tocar no glaciar lá em cima podemos permanecer junto ao rio a observar algumas paredes glaciares na cova da montanha que o vem empurrando.

Mas a caminhada mais concorrida é aquela que nos leva até à Cruz acima de Mestia ou até aos Lagos Koruldi, jornada para durar um dia inteiro. Como só tínhamos pouco mais de meio dia disponível, optámos por tomar um jipe até ao topo e daí vir descendo. Dizer que poupamos o fôlego não é totalmente correcto. Primeiro porque a viagem dentro do jipe não nos livra de uns quantos calafrios causados pelas intrépidas manobras do condutor e pelas vertigens da beira da péssima estrada. Segundo porque as vistas, todas elas, são de cortar a respiração.

Os Koruldi são uma mão cheia de pequenos lagos aos pés do Monte Ushba. Há quem acampe aqui e não deve existir melhor forma de acordar do que esfregar os olhos e dar com aquele cenário imenso, mergulhar as mãos em concha nas águas de um dos lagos para lavar os olhos e ver o nosso rosto refletido no meio de um sem número de montanhas e, já bem acordado, confirmar que o panorama ao nosso redor é mesmo real.

Em nenhum outro lugar percebemos o que significa a expressão “cascatas de montanhas”. São uns picos atrás dos outros ou, como li algures numa deliciosa descrição, são como os meninos na fotografia da escola, dispostos ao calhas, altos e baixos, esguios ou gordinhos, e tal como as crianças algumas têm a cabeça nas nuvens. Ou então, pegando na analogia da escola, gosto de pensar que estes picos são como meninos bem comportados mas geniosos sentados na sala de aula a prepararem-se para actuar enquanto que, nós, privilegiados, somos a sua audiência.

Pena que o Ushba não se deixasse ver completamente descoberto, mas estamos tão alto que é impossível que as nuvens não bailem por ali. Ainda assim, descendo até à Cruz pudemos vislumbrar a sua silhueta e confirmar a singularidade da sua forma, dois picos gémeos relativamente arredondados.

Até Ushguli são 47 quilómetros percorridos em 3 horas (!?) de carro ou os tais 4 dias a pé. A estrada é péssima e não é qualquer veículo que a percorre, embora esteja em beneficiação, pelo que daqui a uns anos a viagem será mais cómoda. Não me parece, no entanto, que algum dia venha a ser um local facilmente acessível.

Ushguli poderia ser sinónimo da palavra remoto. É uma comunidade de cinco aldeias no vale do Enguri, considerado o mais alto ponto da Europa permanentemente habitado. Localizada a 2100 metros de altitude, é de um quase isolamento que se trata. Se dizem que viver numa ilha é atrofiante por não se poder fugir senão para o mar, que dizer de um lugar rodeado pelas mais altas montanhas da Europa? Eis o Cáucaso profundo em toda a sua magnificência.

O caminho até Ushguli transporta-nos por paisagens fantásticas, incluindo uma visão do Monte Chkhara, o mais alto da Geórgia. Paisagem de montanhas, o rio Enguri por vezes ali mesmo à beira e por outras apenas avistado depois de uma olhada por um desfiladeiro mais ou menos alto, água a escorrer das paredes xistosas e umas pequenas povoações, cada uma delas com as suas torres svans.

O primeiro lugarejo de Ushguli é Murqmeli. É o mais afastado do centro e tem um ar quase abandonado. As torres svans no vale rodeado de montanhas já criam por si só um enorme ambiente de mistério, mas os caminhos empedrados, as ruínas do casario e as apenas 4 famílias que restam a Murqmeli adensam o clima. Cães, cabras, porcos e vacas são quase tudo o que resta no seu dia a dia, depois da intempérie de 1987 que assolou esta povoação e matou dezenas.

Curiosamente, diz que pela região de Svaneti não faz tanto frio assim, apenas uns -10 ou -15 graus. Impossível não esboçar um sorriso de incredulidade perante esta sentença, mas depois acabamos por perceber a relatividade das temperaturas. Não faz tanto frio como os -40 graus da Rússia. O que acontece é que as povoações de Ushguli estão encaixadas num vale e não costumam sofrer com o vento, para além de que a sua proximidade com o Mar Negro acaba por as poupar de invernos extremos que costumam ser característicos das regiões de montanha.

O lugarejo seguinte é Chazhashi, aquele que está efectivamente classificado pela Unesco como património da humanidade. A quantidade de torres e edifícios em pedra é aqui maior e estão todos concentrados num curto espaço. O rio corre em baixo do casario enquanto que a montanha alta os protege.

É no topo de uma colina que fica a Supar, a residência de inverno da Rainha Tamar. Hoje resta apenas uma torre e ruínas da igreja, mas originalmente eram quatro torres, o lugar onde os antigos svans se reuniam para tomar decisões. A Torre da Rainha Tamar é um belo exemplo da arquitectura svan, ainda para mais instalada num lugar fantástico. É como se estivesse a dar as boas-vindas a quem chega a Ushguli. A residência de verão de Tamar fica logo acima, mas bem mais acima, na montanha.

Chvibiani e Zhibiani são lugarejos que se atravessam para se perceber a vida das gentes que os habitam. Com muitas casas de arquitectura familiar em ruína, têm certamente mais animais do que pessoas. Caminhos estreitos de terra e pedra, temos de ter cuidado para que um cavalo não venha por aí desalmado. Os porcos andam uns tresmalhados e outros a descansar. É aqui nestas povoações que percebemos melhor a abundância de xisto nas construções. Ele está em toda a parte. E é aqui também que me vem à memória Montesinho. Tão longe um do outro mas com tanto em comum: o ser remoto, as montanhas (salvas as diferenças e altitude), os animais deixados à solta, as construções em pedra e xisto, a simpatia daqueles que ainda lá habitam ou teimam em voltar, a timidez de outros. A solidão, até.

Caminhamos, enfim, até Lamjurishi. Nem é bem um lugarejo, é antes um ponto no território com uma colina com a Igreja da Virgem Maria e a sua torre defensiva. E que ponto este. Aqui ficamos face a face com o vale onde se ergue o Chkhara, o pico mais alto de toda a Geórgia. Esperamos um pouco e conseguimos ir vendo o seu cume por entre as nuvens densas que teimavam em escondê-lo, ameaçando com umas abertas aqui e ali.

Esta é pura paisagem com a tensão cénica a atingir os seus limites. São montanhas de paredes verdes lisas onde vacas e cavalos se vão deixando estar sem pressa de que o tempo corra. O mesmo connosco. Deixamo-nos estar a contemplar toda a magia deste lugar poderoso a que nos rendemos de imediato mas também sem pressa.

Escolhemos este ponto para a pausa de almoço, deliciando-nos com o típico kubdari, pão recheado com carne com tempero de fina cebola branca e sal de Svaneti. Só faltou a chacha, a vodka georgiana, para celebrar o momento, mas a majestosidade de Ushguli, literalmente “coração destemido”, já nos deixa suficientemente ébrios de tanta beleza.