Baku

Baku é a capital do Azerbaijão.

Nunca a expressão “não podemos tomar a parte pelo todo” terá feito tanto sentido. Não é preciso conhecer todo o Azerbaijão para perceber que Baku é diferente da sua vizinhança.

Banhada pelo Mar Cáspio, a natureza sempre fez a diferença. No cruzamento das rotas comerciais ao longo dos séculos, persas, russos e turcos foram exercendo a sua influência à vez. O resultado é uma capacidade ímpar de se adaptar a cada momento e talvez daí venha a tolerância que se sente nas ruas da Baku do século XXI. Não surpreende, assim, que ao nível do vestuário vejamos mulheres de vestidos ou calções curtos e camisas sem mangas lado a lado com mulheres completamente escondidas atrás do hijab islâmico. Baku recebe incontáveis turistas da Arábia Saudita e de outros países do Golfo Pérsico. Provavelmente sentem-se em casa. E Baku é isso mesmo, faz qualquer um sentir-se em casa.

Há quase 150 anos o boom do petróleo veio trazer enormes transformações no tecido urbano da cidade, que até aí se limitava praticamente ao núcleo intra muralhas que vinha crescendo desde o século XII. Por volta de 1905 Baku produzia mais de metade de todo o petróleo mundial, atraindo uma série de indivíduos bem sucedidos e seus operários que fizeram com que a população da cidade aumentasse exponencialmente. Fora do círculo da cidade velha muralhada pejada de mesquitas nasceram, então, grandes mansões e edifícios públicos. Os estilos desses edifícios mesclavam a arquitectura ocidental com a oriental, com elementos góticos, barrocos e neoclássicos de permeio. Sobrevivem até hoje, colunas sobre colunas, estatuetas lado a lado com elementos florais, numas fachadas absolutamente imaculadas de tão limpas.

Até que no seguimento da Revolução Russa, o ano de 1920 trouxe o domínio dos bolcheviques e a nacionalização de muitos dos edifícios pertencentes aos barões do petróleo. O terceiro rosto urbano da cidade surgiu com os grandes blocos de apartamentos soviéticos e avenidas tão largas que ainda hoje nos impedem a aventura de tentar atravessá-las – é totalmente aconselhável o uso das passagens subterrâneas.

Com a independência do Azerbaijão em 1991 na sequência do fim da União Soviética, e à boleia de um novo boom do petróleo, Baku tem mostrado mais uma vez ser mestre na reinvenção urbanística. Os presidentes Aliyev, pai e filho, teimaram em colocar a cidade no centro do mundo e, para além de esta ter vindo a receber diversos eventos à escala mundial (Eurovisão, Fórmula 1, os 1° Jogos Europeus), é hoje a dona de peças arquitectónicas fantásticas como as Flame Towers ou o Heydar Aliyev Center, as quais se tornaram por direito próprio ícones da arquitectura mundial do século XXI.

A Baku de 2018 é, pois, uma cidade moderna e cosmopolita, sem deixar de preservar e relembrar o seu passado.

“Na realidade, eram duas cidades, e uma delas envolvia a outra como a casca envolve a noz. A casca era a cidade exterior, a que se encontrava fora das velhas muralhas. Aí as ruas eram largas, os edifícios altos, as pessoas gananciosas e barulhentas. Esta cidade periférica surgira graças ao petróleo, dádiva do nosso deserto e garante de riqueza. Era aí que se encontravam teatro, escolas, hospitais, bibliotecas, polícias e mulheres belas com os ombros à mostra. Quando na cidade nova se disparavam tiros, isso acontecia sempre por causa do dinheiro. Nessa cidade nova e periférica traçava-se também o limite geográfico da Europa. A Nino vivia na parte nova. No interior das muralhas as casas eram estreitas e curvas como lâminas das espadas orientais. As torres de oração das mesquitas trespassavam a suavidade da lua.”

A Nino era a rapariga georgiana cristã e quem relata o acima transcrito é Ali, o rapaz azeri muçulmano. Ambos formam o par romântico de “Ali e Nino”, livro nacional do Azerbaijão, escrito em 1937. Baku é, a par dos dois namorados, a personagem central e representa este constaste constante entre o ocidente e o oriente.

A cidade muralhada de Baku está classificada pela Unesco como património mundial da humanidade. E bem o merece. Também referida como cidade velha ou cidade interior (Icheri Sheher), a sua distinção vem da evidência da presença de culturas como as dos zoroastras, sassânidas, árabes, persas, shirvanis, otomanos e russos e a integridade do edificado do século XII. É um encanto andar pelas suas ruas estreitas onde a qualquer momento pode surgir a visão da torre de uma mesquita ou até das modernas Flame. As carpetes surgem estendidas, lado a lado com diversos objectos que remetem para o imaginário das Mil e Uma Noites. Não é apenas um postal turístico. Na realidade, é fácil sentirmo-nos transportados para esses ambientes.

A Giz Galasi, ou Torre da Donzela, é o seu maior símbolo. Envolvida em lendas e mistério, não se sabe com certeza nem a época da sua construção nem a sua função original. Talvez anterior ao século XII, talvez templo zoroastra, observatório ou torre defensiva. Do seu topo alcançam-se vistas largas e o seu interior está hoje transformado em museu. Aqui aprendemos que a Giz Galasi estava outrora junto à água do Cáspio e que se fossemos pássaros perceberíamos que vista do céu a Torre parece uma “bufa”, um popular motivo azeri que significa o sol e o fogo. Quase todas as descrições e explicações andam à volta do elemento sol: a península de Absheron, onde se encontra Baku, era então a Terra da Luz (sol) e Baku a “porta do sol nascente” e o seu povo ancestral era adorador do sol e respeitador do fogo como representativo da chama divina na terra, o sol.

O Palácio dos Shirvanshahs é outra das maravilhas da histórica Baku. Construído no século XV pela dinastia Shirvanshan que reinou no Azerbaijão entre os séculos IX e XVI, este é um complexo que inclui o edifico principal do palácio, duas mesquitas, ruínas de um hamam, um mausoléu e um enorme portal. Face a este portal convenço-me definitivamente do apelo arrebatador que esta arquitectura tem sobre mim.

A cidade interior de Baku não é apenas a Giz Galasi e o Palácio dos Shirvanshahs. Possui ainda uma série de mesquitas, antigos caravançarai convertidos em restaurantes, praças e jardins, galerias de arte (a visita à Yay Gallery é obrigatória), mas sobretudo um pulsar vibrante.

Fora das muralhas, a área pedestre ao redor da Praça das Fontes é o coração da nova cidade. Restaurantes, lojas, museus – a fachada do Museu da Literatura Nizami é um assombro – e diversos edifícios “fin de siècle”.

Continuando em direcção ao Mar Cáspio chegamos ao Bulvar, uma enorme promenade que segue pela baía afora. E aqui vemos que por mais obra que se faça – e Baku está em transformação constante – a beleza da natureza do Cáspio, o maior corpo de água interior do mundo, essa, permanece.

Quer de dia quer de noite este é o local de toda a agitação e o movimento das gentes é diabólico. Animação de rua, concertos de música ao fim do dia, fogos de artifício, jogos de luzes, arte urbana.

Uma torre do petróleo ergue-se como monumento representativo da principal economia da cidade. Curiosamente, deste canto da baía não se percebe a azáfama da actividade petrolífera e esta nem sequer é assim tão marcante na paisagem. Só bem mais adiante, já passados a Little Venice, excentricidade de gôndolas a passearem num canal artificial, e o novo edifício do Museu da Carpete, em forma de torta de laranja, é que se vê que as águas do Cáspio estão sujas de manchas de óleo e se sente um pouco esse cheiro. O bulvar continua, parece que até ao infinito e mais além.

Novos edifícios (e muitos mais se seguirão em breve) como o Baku Eye, o Crystal Hall e o Aquatic Palace. Uma antiga fábrica de construção naval foi transformada no Yarat Contemporary Art Centre, lugar obrigatório para os amantes de arte contemporânea local. A palavra Yarat significa criação, omnipresente por estas paragens.

Tudo muito composto, disciplinado e organizado. O critério principal parece ser o de legar ícones arquitectónicos. À medida que os anos passam, a descrição de Olivier Rolin no seu “Baku, últimos dias” vai ficando cada vez mais distante do centro da península de Absheron: “as paisagens de Apcheron são magníficamente desoladas. Estepe dourada eriçada de uma miscelânea de metal, de postes eléctricos, depósitos de petróleo, tubos enegrecidos e viscosos correndo em todas as direcções, pilares inclinados, torneiras enferrujadas, carcaças de camiões e de tratores de lagartas. Emaranhado de cabos e de esguias Torres de exploração de petróleo, Campos de bombas de extracção, cuja cabeça de insecto oscila e range.”.

Baku, a cidade do sol, é agora a cidade das Flame Tower, três infinitos arranha-céus em forma de chama que abusam do vidro e que desde 2012 fazem parte da paisagem da cidade, sem deixar de respeitosamente terem por vizinhos próximos uma mesquita e um parque com um cemitério que é um memorial das vítimas do exército vermelho em 1990 e do conflito do Nagorno.

Baku, a cidade dos ventos, é agora a cidade do Heydar Aliyev Center, a obra-prima da arquitecta Zaha Hadid, também de 2012, um corpo ondulante perfeitamente integrado na paisagem.

Em “Ali e Nino” lê-se, a dado passo: “É estanho… amar Baku. Para alguém que venha de fora é apenas uma cidade quente e abafada, poeirenta, saturada de petróleo.”

Já não é assim e, agora, é fácil amar Baku.

(uma nota mais: para chegarmos ao Heydar Aliyev Center temos duas hipóteses: ou de metro até à estação Nizami e caminhar um pouco ou de autocarro e ficar à porta. As duas são verdadeiramente económicas, cerca de 20 cêntimos de euro. E a nossa ida até ao Centro trouxe-nos uma outra experiência que serviu para confirmar a disponibilidade e simpatia dos azeris. Como a máquina na paragem de autocarro estava indisponível para o carregamento do cartão de viagem e não nos restaria outra solução senão um táxi que nos levasse ao destino, um senhor de meia idade logo se prontificou em utilizar o seu cartão também para a nossa viagem. Não sei o que significarão 60 cêntimos para os azeris, mas para nós o gesto, e o não aceitar o pagamento, deixa do povo do Azerbaijão uma imagem de gentileza e de hospitalidade)

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