Geórgia e Tbilisi

De todos os países do Cáucaso, a Geórgia é aquele que mais perto se encontra dos seus desejos de ser visto como Europa. Ainda assim, constantemente nos perguntamos onde estamos, cá ou lá.

A sua história sempre teve ligações à Europa. Foi parte do mundo grego antigo e foi a segunda nação a adoptar o cristianismo e os georgianos habituaram-se a ver a pertença ao ocidente como parte da sua identidade. Um georgiano a viver em Barcelona que conhecemos na viagem dizia-nos que eles, georgianos, gostam da demokratia. E da liberdade. Em 2018 comemoram-se os 100 anos da primeira república democrática na Geórgia. Independentes do Império Russo na sequência da Revolução Russa de 1917, essa situação acabou por durar pouco, no entanto, com a agregação pela União Soviética logo em 1921. Com o ruir da URSS em 1991 a Geórgia tornou-se, enfim, independente. Hoje a aproximação à União Europeia é assumida e declarada, em detrimento de uma maior comunhão com os russos, embora o país receba um sem número de turistas vizinhos (apesar da tensão da guerra ainda aberta com a Rússia por causa das repúblicas separatistas da Abecásia e da Ossétia do Sul).

Há uns anos foi criado pelo turismo da Geórgia um slogan que dizia mais ou menos que “A Europa começou aqui”. Rapidamente chegaram à conclusão de que essa ideia não pegava, uma vez que ninguém para aqui viria para ver a Europa. O enfoque foi então desviado para a venda da Geórgia como o lugar em que o “oriente encontra o ocidente”. E é isso que os turistas buscam no país.

A Geórgia sofreu economicamente com a separação da URSS e durante toda a década de 90 a crise, o crime e a corrupção grassaram. A pacífica Revolução Rosa de 2003 veio melhorar a situação e a liberalização da economia conseguiu atrair investimento e colocar o país e a sua capital na rota do turismo.

Na capital da Geórgia, Tbilisi, mais do que em nenhum outro lugar é evidente o cruzamento entre a Ásia e a Europa e o legado deixado pelos vários povos que passaram pela região, desde os invasores árabes, turcos, persas e mongóis até aos vizinhos arménios, azeris e russos. Todos eles deixaram a sua marca.

Só no centro de Tbilisi é possível, por exemplo, encontrar-se igrejas ortodoxas georgianas, igrejas apostólicas arménias, igrejas católicas, uma sinagoga, uma mesquita e até as ruínas de um templo zoroastrista. Esta realidade é ainda um testemunho de como todos aqui sempre viveram em comunhão.

Comecemos este périplo por Tbilisi pelo bairro de Abanotubani, o bairro dos telhados abobadados em tijolo que mais parecem as bolinhas da erupção das águas quentes que por aqui correm. Literalmente, Tbilisi significa “lugar quente”. E em Abanotubani os edifícios de banhos públicos sulfurosos são às dezenas, aproveitando as águas termais do lugar. Não é apenas um lugar turístico, os georgianos fazem uso frequente deste ritual também experimentado por Alexandre Dumas e Pushkin em outros tempos.

A fachada dos banhos Orbeliani faz-nos ter a certeza que viajámos até à Pérsia e parámos a nossa caravana que vem atravessando a Rota da Seda para aqui descansar um pouco. Carregada de azulejos azul turquesa, esta lindíssima fachada esconde um interior de banhos com salas públicas e privadas. Optámos por uma destas últimas, mas apenas nos aguentámos 5 minutos dos sugeridos 15 naquelas águas escaldantes. Valeu a experiência e o deleite da sua decoração encantatória.

Este bairro da velha Tbilisi tem uma disposição do edificado muito pitoresca. Uma espécie de canal do rio Kura que banha a cidade intromete-se terra adentro e por uma pequena colina vamos vendo as casas alcandoradas, quase que magicamente suspensas.

O minarete da mesquita ali está, vigilante, enquanto que mais acima, bem no topo, vemos o Forte Narikala.

O tijolo domina mas as varandas típicas, aqui e ali rendilhadas, sobressaem numa paleta de cores perfeita. A arquitectura tradicional da cidade é feita destes edifícios que têm vindo progressivamente a ser restaurados. As varandas são de madeira ou de ferro, sempre suspensas, a maioria corridas mas algumas delas arredondadas. Este é o aspecto mais visível e característico. Mas caminhando pelas ruas estreitas e inclinadas da velha Tbilisi descobrimos muito mais. Desde logo, fugindo para as ruas interiores perguntamo-nos se estaremos numa cidade ou numa aldeia. Para lá das ruas com galerias, cafés e restaurantes da moda há toda uma outra Tbilisi a metros de distância, por vezes no mesmo quarteirão.

Veem-se muitos edifícios degradados, em ruína até, mas sempre com uma videira ou até bananeira a rodeá-los. Os pátio comuns são uma outra característica desta cidade com ar de aldeia. Normalmente com dois andares, a roupa estendida cai para o terraço do pátio, onde os seus moradores, de várias idades, se deixam estar a conversar, mantendo o espírito de comunidade de outros tempos. Faz lembrar as vilas operárias lisboetas. A unir os vários pisos, veem-se ainda umas belas escadas em espiral. Nas ruas, crianças brincam, jogando à bola ou andando de bicicleta, junto às relíquias automobilísticas.

Lado a lado a esta arquitectura vernacular típica de Tbilisi podemos ainda encontrar uma mansão em estilo art noveau.

Para aumentar a diversidade de Tbilisi e comprovar a sua abertura às várias influências ao longo dos tempos, junto a estes edifícios tradicionais e às inúmeras igrejas medievais que pintalgam a paisagem urbana de cúpulas cónicas encontramos hoje uma série de projectos arquitectónicos do século XXI que têm feito da cidade uma quase Meca para os amantes de arquitectura.

As duas margens da cidade têm desde 2010 uma nova ponte que permite atravessar o rio Kura. A Ponte da Paz é uma ponte pedonal e não é exagero nenhum dizer-se que é uma das pontes mais bonitas e surpreendentes do mundo. Projectada pelo italiano Michele de Lucchi, esta estrutura em vidro e aço com a forma de uma onda é ideal para nos perdermos, primeiro a atravessá-la, apreciando quase toda a Tbilisi, e depois a fotografá-la, por entre os jardins do Parque Rhike.

É neste novo parque que encontramos outro dos projectos da arquitectura espectáculo da Tbilisi do século XXI. Também da autoria de um italiano, Massimiliano Fuksas, a Sala de Concertos e Centro de Exposições é um corpo estranho de duas estruturas tubulares revestidas com painéis de vidro e aço. É como se fossem dois longos olhos dirigidos à cidade velha, na outra margem.

E do Parque Rhike vê-se não muito distante o também novíssimo edifício que acolhe uma série de serviços públicos (género de Loja do Cidadão), precisamente na margem contrária e precisamente do mesmo arquitecto. O seu telhado branco é pomposo e inconfundível, diversas pétalas ou cogumelos ou guarda-chuvas, depende onde a nossa imaginação nos transporta.

Num dos cantos do Parque Rhike ergue-se uma colina onde hoje domina a igreja Metekhi e a estátua do Rei Vakhtang Gorgasali, lugar da construção de uma primeira igreja e palácio aquando da fundação da cidade no século V por este rei.

A estação de teleférico que nos leva até ao Forte Narikala fica por aqui. A curta viagem é um verdadeiro miradouro panorâmico que nos permite contemplar e perceber todos os contornos paisagísticos e urbanos da Tbilisi velha e moderna.

O Narikala, que se vê quase de qualquer ponto da cidade, foi uma antiga cidadela persa construída no século IV, mas todos os povos que por aqui passaram a usaram. Incluindo, os russos que dela fizeram um armazém onde munições explodiram, contribuindo assim, a par do tempo, para a sua degradação. Ainda resta parte da muralha, mas são as vistas fabulosas que nos trazem ao topo do Narikala.

Antes de descermos rumo à cidade velha, a Kartlis Deda, ou Mãe Geórgia, recebe-nos, majestosa, com uma espada numa mão e um copo de vinho na outra, conforme o papel de guerreira ou acolhedora que tenha de desempenhar face a quem a visita.

A Rustaveli é a grande avenida de Tbilisi. Construída no século XIX, vai desde a Praça da Liberdade até à estação de metro Rustaveli, quase 2 longos e largos quilómetros ao estilo russo com grandes e importantes edifícios de um lado e do outro, como o antigo parlamento, museus, igrejas e o arabesco Teatro da Ópera.

No final, uma enorme escultura de uma bicicleta tenta-nos convencer que esta é uma cidade que se presta a ser percorrida a pedalar. Não é assim e essa é apenas mais uma das suas contradições.

Passamos pelo mercado tipo feira da ladra conhecido como Ponte Seca que se estende pelas imediações de uma ponte e parque. Este é o lugar para se comprar – ou deliciar – memorabilia soviética. De tudo se vende, mas o que nos encheu as medidas foram os carros Lada em miniatura, tão perfeitos que até o interior, como o motor, foi reproduzido.

Do outro lado do rio fica a Avenida Aghmashenebeli. Esta é uma Tbilisi moderna e parte desta avenida é pedonal, com edifícios recuperados e mobiliário urbano para ser usufruído pelos cidadãos.

Tbilisi é isto, andar cá e lá. Cá deste lado do rio, lá do outro lado do rio. Cá no presente, lá no passado. Cá no ocidente, lá no oriente. Com uma passagem pelo mundo soviético.

Mais um exemplo desta Tbilisi de muitas caras: a Fabrika. Mas este é também um exemplo da Tbilisi jovem e vibrante. Antiga fábrica soviética de têxteis, o edifício estava desocupado e nos últimos anos foi transformado num espaço multifunções. Hostel com decoração vintage, lojas de design, galeria, cafés e restaurantes. É sobretudo um lugar de encontro onde a criatividade abunda. Um espaço urbano aberto a novas ideias e uns dos lugares de Tbilisi onde se percebe que esta é uma cidade em rápida mudança.

Terminámos a nossa jornada por Tbilisi de barriga cheia no Cafe Littera. Um dos mais bonitos e atmosféricos restaurantes, com as mesas instaladas no jardim da que foi em tempos a Casa da União dos Escritores Soviéticos, aqui se reinterpreta a comida georgiana tradicional aproveitando as várias influências que nela marcam presença, desde a comida da Ásia Central à turca, passando pela russa.

Mas até esta refeição já os simples e omnipresentes khachapuri, khinkali e beringela com nozes nos haviam deliciado o paladar. E as cores e cheiros dos produtos da Geórgia preenchido todos os nossos outros sentidos.

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