Póvoa de Varzim

Póvoa de Varzim é sinónimo de mar. E o mar é central a toda a sua história e vida dos seus habitantes. O mar como labor e o mar como lazer.

Instalada numa pequena enseada, mais protegida dos humores da natureza, é terra de pescadores desde há séculos e a chegada do comboio no último quartel do século XIX fez com que passasse a ser também uma estância de veraneio. Hoje é esta última faceta que predomina na Póvoa, deixando às Caxinas, na vizinha Vila do Conde, a vida dura da pesca. Vila do Conde, com a qual a Póvoa de Varzim se confunde, de tal forma que para um não local é quase impossível perceber se está num ou noutro concelho – e para os locais também não deve ser fácil, pois à mesma pergunta sobre se um dado ponto de uma rua era uma ou outra localidade foi dada resposta diferente -, Vila do Conde, dizia, começou por ser dominadora. De 1308, data do seu foral, até 1514, a Póvoa de Varzim esteve na dependência do mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde. “Libertada” da rival, a comunidade piscatória foi crescendo e desenvolvendo, estabelecendo-se aí uma importante indústria de construção naval, até se transformar na maior praça de pescado do norte de Portugal. De tal forma que se tornou famosa a figura do “Poveiro”.

“Só tendo a morte quase certa é que o poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. […] O poveiro ignora tudo fora da sua profissão, mas essa conhece-a como nenhum outro pescador”, escreveu Raul Brandão em “Os Pescadores”. Ramalho Ortigão, por sua vez, descreveu o “poveiro” como “afogado de nascença”, pois estava sempre na água.

Desta pujança económica ligada à pesca e à salga até que a Póvoa se transformasse no mais concorrido lugar para “ir a banhos” do norte do país, à boleia da fama das suas águas ricas em iodo, foi um pulinho. Bem frequentada, a Póvoa viria ainda a tornar-se num centro de jogo: o Casino, inaugurado em 1934, ainda hoje faz parte não só da paisagem arquitectónica da cidade como da vida cultural da região e até do país.

Ligada ao Porto pelo metro, a Póvoa de Varzim é uma cidade moderna. Aquele mar com areal mesmo em frente de prédios à distância de um breve atravessar do alcatrão dá-lhe um ar de Copacabana, ainda que o clima possa nem sempre ser convidativo. Isto é o norte, senhores. Mas mesmo nos dias fechados, assiste-se a uma espécie de eterno lazer, com jovens a jogar vôlei ou futebol na areia.

É a Avenida dos Banhos que percorre a praia urbana da Póvoa desde o Porto de Pesca e da Marina até ao Estádio do Varzim. No denominado Passeio Alegre, espaço pedonal amplo, fica o Casino e o Grande Hotel da Póvoa. E um monumento de homenagem a Cego do Maio. Pescador do século XIX, é o exemplo maior de Poveiro. A sua coragem fê-lo arriscar a sua vida para salvar a dos demais, gente do povo e do mar como ele. Diz-se que foram mais de 80 os seus salvamentos e ele ali continua vigilante, agora imortalizado numa estátua em bronze, de frente para o mar.

As homenagens às gentes do mar não se ficam por esta figura. Se dúvidas houvesse acerca do papel do mar na vida – e morte – dos poveiros, um curto passeio pela zona do Porto de Pesca e da Marina acabariam de imediato com elas. Com a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição e seus baluartes e a Igreja da Lapa, esta um pouco mais adiante, como testemunhas das agruras que o mar ainda hoje traz, um painel de azulejos da autoria de Fernando Rodrigues mostra-nos cenas da história da Póvoa, evocando e prestando homenagem a figuras públicas e outras anónimas. São pungentes as imagens que retratam as mulheres na areia assistindo ao naufrágio dos seus homens no mar.

Aqui perto fica outro monumento escultórico de homenagem a estas mulheres, viúvas mas também sacrificadas, sobre as quais tão acertadamente escreveu Raul Brandão. É o Monumento à Peixeira.

Seguimos agora pelo coração comercial daPovoa, a Rua da Junqueira, até ao seu centro cívico, a Praça do Almada.

A Junqueira é a principal rua da Póvoa. Secular e das mais antigas ruas pedonais portuguesas (desde 1955), aqui encontramos o comércio tradicional, incluindo a Ourivesaria Gomes, fornecedora dos Duques de Bragança, lado a lado com as marcas modernas.

E edifícios de vários estilos, incluindo alguns exemplos da Belle Époque, decoração em azulejos, varandas de ferro forjado, onde viveram grandes figuras poveiras e uma certa burguesia. Ao redor da Junqueira saem pequenas ruas que ligam a praças, como aquela que acolhe o rejuvenescido Cine Teatro Garrett.

E percorrendo a Junqueira desde a Avenida dos Banhos até ao seu final chegamos à Praça do Almada. Praça Nova que no final do século XVIII veio substituir a antiga Praça Velha, no sentido de ir ao encontro das exigências de desenvolvimento da nova urbe, este local é muito bonito pelo conjunto de edifícios e estruturas que acolhe. Destaque para a arcaria do piso térreo do edifício da Câmara Municipal em estilo neoclássico, com decoração azulejar no piso superior.

Relativamente ampla, a Praça presta-se a lugar de convívio e jardim público. O Coreto com influências da Arte Nova construído em 1904 é um belo elemento decorativo. Mas a Praça do Almada é ainda o lugar onde nasceu Eça de Queirós, mais precisamente na casa com o número 1. Como homenagem, uma escultura / estátua de um dos nossos maiores escritores.

A Póvoa é bem mais do que o acima descrito. Não cessa de crescer e a saída norte da cidade comprova-o, com um relativamente recente núcleo residencial feito de construção em altura bem firmado.

A não perder, perto daqui, uma visita ao Parque da Cidade da Póvoa de Varzim. Instalado numa antiga planície que outrora acomodava um pequeno ribeiro, campos de cultivo e quintas, este equipamento de lazer projectado por Sidónio Pardal (o mesmo do Parque da Cidade do Porto) com cerca de 19 hectares foi inaugurado em 2007.

É um pedaço de natureza paredes meias com a A28 e com vista para os prédios da Póvoa lá bem ao fundo. A sua localização não me pareceu a mais útil para quem queira aqui chegar sem ser de carro, mas uma vez entrados no Parque logo nos esquecemos de tudo. Os seus caminhos bem desenhados, formando colinas aqui e ali, levam-nos a um bonito lago com uns divertidos patos que saem das suas águas para nos vir cumprimentar.

A qualidade de vida da Póvoa de Varzim está ainda em alta pelos passadiços pedonais sobre o extenso areal junto ao mar que se estendem por terras mais a norte e a sul. Desta vez apenas explorei os caminhos que vão do centro da Póvoa até à Praia de Santo André, passando pela pitoresca Aver-o-Mar. E fiquei a pensar porque é que, tirando parte da Linha e de Vila Franca de Xira, não podemos fazer o mesmo na zona metropolitana de Lisboa?

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