Caxinas

Sem nos apercebermos que deixámos a Póvoa de Varzim damos por nós nas Caxinas, já no concelho de Vila do Conde. O mar continua o elemento dominante. Mas em poucos lugares do nosso país a cultura da pesca e a identidade e tradições associadas a uma povoação serão tão vincadas como aqui.

A comunidade das Caxinas é ao mesmo tempo forte e carismática e sofrida e nem sempre bem compreendida. No século XIX pescadores mais pobres vindos da vizinha Póvoa instalaram-se nesta enseada recolhida, atraídos por novos e melhores modelos urbanísticos que lhes permitiam ter uma casa com quintal. A pesca continuou a ser a sua vida, em contraponto a um maior cosmopolitanismo da burguesia poveira e vila-condense. Daqui saiam nos seus barcos de pesca pela costa das redondezas (e ainda saem) ou até para outros mundos, como para a Terra Nova e Gronelândia, para a pesca do bacalhau, a faina maior. O homem saía para a pesca e a mulher administrava a casa e o negócio em terra, ao mesmo tempo que cuidava e educava os filhos. Duas personagens que se completam, ambas trágicas. O homem em naufrágio no mar, a mulher em lamento em terra.

Já tínhamos apreciado o painel de azulejos na Póvoa de homenagem a estas vidas e pela promenade junto ao Atlântico que percorre as Caxinas observamos agora o Memorial aos Náufragos. É um belo exemplar escultórico, uma justaposição de diversas cruzes em ferro que forma no seu todo um barco, aludindo simbolicamente à tragédia da morte que este povo sacrificado se habituou a viver.

Instaladas nas rochas dentro do mar vêem-se ainda outras cruzes, todas simbolizando a desdita.

Ainda assim, ou talvez por isso, face a tamanha provação os caxineiros não deixam de ser uma comunidade devota e crente a Deus. Deus traz a tempestade mas traz também a bonança. A Igreja dos Navegantes, de frente para o mar, tem tudo a ver com esta comunidade. Em forma de barco, todos os seus elementos decorativos remetem para a vida no mar.

Desta última vez que lá passei, numa tarde de domingo, as gentes das Caxinas estavam engalanadas, tendo escolhido as suas melhores roupas para aquilo que seria um misto de actividade religiosa e evento comunitário. A vizinhança – forte e essencial na comunidade – parecia estar toda reunida. Aos meus olhos citadinos e distantes daquela realidade, a imagem remeteu para memórias de há 20 – 30 anos de uma aldeia da Beira. Pessoas humildes com vestes humildes, nem sempre discretas e por vezes espampanantes, mas sempre alegres.

Essa humildade de braço dado com a alegria manifesta-se também na arquitectura tradicional do bairro. Casas pequenas de um só piso, muitas revestidas a azulejos que lhe dão vida, roupa a secar na corda (por vezes até o peixe), pátios onde não se esconde nada.

Diz-se que a palavra “caxinas” provirá de “cacimba”, o nevoeiro que é costume instalar-se junto ao mar. Ou talvez provenha do verbo latim “cachinare“, que significa uma gargalhada trocista. Ambas farão sentido, mas esta última dá uma ideia mais acertada desta comunidade unida em todos os aspectos da vida, na desgraça e na festa.

Um breve passeio para além do mar das Caxinas deixa-nos ver que estas pequenas casas correm perigo. Poucas mantém-se íntegras, várias apresentam-se em ruína e muitas outras já foram demolidas para dar lugar a novos prédios. O lugar tem uma implantação excelente. Já sabíamos que as Caxinas não eram apenas uma comunidade de pesca e gente humilde (o escritor Valter Hugo Mãe, por exemplo, é um orgulhoso caxineiro), mas parece que no futuro isso vai ficar mais evidente.

Póvoa de Varzim

Póvoa de Varzim é sinónimo de mar. E o mar é central a toda a sua história e vida dos seus habitantes. O mar como labor e o mar como lazer.

Instalada numa pequena enseada, mais protegida dos humores da natureza, é terra de pescadores desde há séculos e a chegada do comboio no último quartel do século XIX fez com que passasse a ser também uma estância de veraneio. Hoje é esta última faceta que predomina na Póvoa, deixando às Caxinas, na vizinha Vila do Conde, a vida dura da pesca. Vila do Conde, com a qual a Póvoa de Varzim se confunde, de tal forma que para um não local é quase impossível perceber se está num ou noutro concelho – e para os locais também não deve ser fácil, pois à mesma pergunta sobre se um dado ponto de uma rua era uma ou outra localidade foi dada resposta diferente -, Vila do Conde, dizia, começou por ser dominadora. De 1308, data do seu foral, até 1514, a Póvoa de Varzim esteve na dependência do mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde. “Libertada” da rival, a comunidade piscatória foi crescendo e desenvolvendo, estabelecendo-se aí uma importante indústria de construção naval, até se transformar na maior praça de pescado do norte de Portugal. De tal forma que se tornou famosa a figura do “Poveiro”.

“Só tendo a morte quase certa é que o poveiro não vai ao mar. Aqui o homem é acima de tudo pescador. Depende do mar e vive do mar: cria-se no barco e entranha-se de salitre. […] O poveiro ignora tudo fora da sua profissão, mas essa conhece-a como nenhum outro pescador”, escreveu Raul Brandão em “Os Pescadores”. Ramalho Ortigão, por sua vez, descreveu o “poveiro” como “afogado de nascença”, pois estava sempre na água.

Desta pujança económica ligada à pesca e à salga até que a Póvoa se transformasse no mais concorrido lugar para “ir a banhos” do norte do país, à boleia da fama das suas águas ricas em iodo, foi um pulinho. Bem frequentada, a Póvoa viria ainda a tornar-se num centro de jogo: o Casino, inaugurado em 1934, ainda hoje faz parte não só da paisagem arquitectónica da cidade como da vida cultural da região e até do país.

Ligada ao Porto pelo metro, a Póvoa de Varzim é uma cidade moderna. Aquele mar com areal mesmo em frente de prédios à distância de um breve atravessar do alcatrão dá-lhe um ar de Copacabana, ainda que o clima possa nem sempre ser convidativo. Isto é o norte, senhores. Mas mesmo nos dias fechados, assiste-se a uma espécie de eterno lazer, com jovens a jogar vôlei ou futebol na areia.

É a Avenida dos Banhos que percorre a praia urbana da Póvoa desde o Porto de Pesca e da Marina até ao Estádio do Varzim. No denominado Passeio Alegre, espaço pedonal amplo, fica o Casino e o Grande Hotel da Póvoa. E um monumento de homenagem a Cego do Maio. Pescador do século XIX, é o exemplo maior de Poveiro. A sua coragem fê-lo arriscar a sua vida para salvar a dos demais, gente do povo e do mar como ele. Diz-se que foram mais de 80 os seus salvamentos e ele ali continua vigilante, agora imortalizado numa estátua em bronze, de frente para o mar.

As homenagens às gentes do mar não se ficam por esta figura. Se dúvidas houvesse acerca do papel do mar na vida – e morte – dos poveiros, um curto passeio pela zona do Porto de Pesca e da Marina acabariam de imediato com elas. Com a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição e seus baluartes e a Igreja da Lapa, esta um pouco mais adiante, como testemunhas das agruras que o mar ainda hoje traz, um painel de azulejos da autoria de Fernando Rodrigues mostra-nos cenas da história da Póvoa, evocando e prestando homenagem a figuras públicas e outras anónimas. São pungentes as imagens que retratam as mulheres na areia assistindo ao naufrágio dos seus homens no mar.

Aqui perto fica outro monumento escultórico de homenagem a estas mulheres, viúvas mas também sacrificadas, sobre as quais tão acertadamente escreveu Raul Brandão. É o Monumento à Peixeira.

Seguimos agora pelo coração comercial daPovoa, a Rua da Junqueira, até ao seu centro cívico, a Praça do Almada.

A Junqueira é a principal rua da Póvoa. Secular e das mais antigas ruas pedonais portuguesas (desde 1955), aqui encontramos o comércio tradicional, incluindo a Ourivesaria Gomes, fornecedora dos Duques de Bragança, lado a lado com as marcas modernas.

E edifícios de vários estilos, incluindo alguns exemplos da Belle Époque, decoração em azulejos, varandas de ferro forjado, onde viveram grandes figuras poveiras e uma certa burguesia. Ao redor da Junqueira saem pequenas ruas que ligam a praças, como aquela que acolhe o rejuvenescido Cine Teatro Garrett.

E percorrendo a Junqueira desde a Avenida dos Banhos até ao seu final chegamos à Praça do Almada. Praça Nova que no final do século XVIII veio substituir a antiga Praça Velha, no sentido de ir ao encontro das exigências de desenvolvimento da nova urbe, este local é muito bonito pelo conjunto de edifícios e estruturas que acolhe. Destaque para a arcaria do piso térreo do edifício da Câmara Municipal em estilo neoclássico, com decoração azulejar no piso superior.

Relativamente ampla, a Praça presta-se a lugar de convívio e jardim público. O Coreto com influências da Arte Nova construído em 1904 é um belo elemento decorativo. Mas a Praça do Almada é ainda o lugar onde nasceu Eça de Queirós, mais precisamente na casa com o número 1. Como homenagem, uma escultura / estátua de um dos nossos maiores escritores.

A Póvoa é bem mais do que o acima descrito. Não cessa de crescer e a saída norte da cidade comprova-o, com um relativamente recente núcleo residencial feito de construção em altura bem firmado.

A não perder, perto daqui, uma visita ao Parque da Cidade da Póvoa de Varzim. Instalado numa antiga planície que outrora acomodava um pequeno ribeiro, campos de cultivo e quintas, este equipamento de lazer projectado por Sidónio Pardal (o mesmo do Parque da Cidade do Porto) com cerca de 19 hectares foi inaugurado em 2007.

É um pedaço de natureza paredes meias com a A28 e com vista para os prédios da Póvoa lá bem ao fundo. A sua localização não me pareceu a mais útil para quem queira aqui chegar sem ser de carro, mas uma vez entrados no Parque logo nos esquecemos de tudo. Os seus caminhos bem desenhados, formando colinas aqui e ali, levam-nos a um bonito lago com uns divertidos patos que saem das suas águas para nos vir cumprimentar.

A qualidade de vida da Póvoa de Varzim está ainda em alta pelos passadiços pedonais sobre o extenso areal junto ao mar que se estendem por terras mais a norte e a sul. Desta vez apenas explorei os caminhos que vão do centro da Póvoa até à Praia de Santo André, passando pela pitoresca Aver-o-Mar. E fiquei a pensar porque é que, tirando parte da Linha e de Vila Franca de Xira, não podemos fazer o mesmo na zona metropolitana de Lisboa?