Museus em Bruxelas, Bruges e Antuérpia

Opção é o que não falta. 
Como o meu interesse recai sobretudo na pintura e na arquitectura, a selecção estava feita à partida.
Por falta de tempo não visitei o Museu Horta, em Bruxelas, como desejava.
Mas visitei o Bozar (também conhecido como Palácio das Belas Artes) e os Museus Reais de Belas Artes de Bruxelas (que actualmente incluem o Musée Magritte, o Musée Old Masters e o Musée fin-de-siècle).
Em Bruges visitei o Groeningemuseum e o Arentshuis. 
Em Antuérpia o MAS, num edifício de arquitectura fantástica, e a Casa Plantin-Moretus, único museu do mundo distinguido com a classificação como património da humanidade pela Unesco.
Em Gent era segunda-feira, logo, dia de descanso cultural.
Seguindo uma fórmula inspirada em Lourenco Mutarelli no seu “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, o qual classificava as mulheres com quem se cruzava no dia a dia segundo o tipo de relacionamento que com essas desejava ter em “comia”, “casava” ou “mandava para a forca”, e na impossibilidade de comer ou casar com um quadro e não o desejando mandar para a forca para evitar problemas que me impeçam futuras viagens, classificarei o meu gosto pelas obras que vi em “vendia”, “comprava” ou “pedia emprestado”.
Os Rubens e os Van Eyck vendia-os todos para arranjar € para as outras operações.
A Casa Plantin-Moretus pedia emprestada para aí estabelecer a minha biblioteca.

O MAS pedia igualmente emprestado para aí colocar as obras que compraria, designadamente todos os Brughels e o “Império das Luzes” de René Magritte.

Já que estamos no domínio da Bélgica, compraria ainda a “Vue de Bruxelles”, de Jan Baptist Bonnecroy, “Les émigrants”, de Eugène Laermans, e “Les affligés”, de Frank Brangwyn.
Um aparte: neste momento Ai Weiwei, considerado o maior artista chinês, vê ser-lhe dedicada uma grande exposição em Londres. Em Bruxelas o Bozar tinha até ao final de Agosto uma exposição dedicada a uma série de artistas chineses contemporâneos, a “Chinese Utopia Revisited”. Em Bruges, a sua bienal trouxe para as ruas mais uma série de novos artistas do império do meio. Não é só economicamente que os chineses se mostram ao velho continente. A sua cultura sempre foi forte e cativou o resto do mundo, mas agora volta a fascinar de uma outra forma, igualmente surpreendente.

Bruges

Gent é a “pérola da Flandres”, Bruges a “Veneza do norte”.
Gent é a terceira cidade da Bélgica, Bruges uma pequena cidade.
Gent é um recanto ainda não repleto de turistas. Bruges é cidade hiper-turística que parece viver só para o turismo.
Um aviso: estas duas cidades são de visita obrigatória, mas deve-se visitar primeiro Gent porque Bruges é Bruges e não qualquer Veneza e as comparações são inevitáveis.
Historicamente Bruges foi uma cidade central e próspera nos tempos medievais. No século XIV era membro da Liga Hanseática, a associação de cidades comerciais do norte da Europa.
Conflitos e rivalidades várias e, sobretudo, o assoreamento do rio Zwin deixou a cidade sem acesso ao mar. Com isso Bruges esteve adormecida centenas de anos e foi o turismo no século XIX a acordá-la. 
Até hoje o turismo é o motor económico da cidade. 
Com efeito, entre Bruxelas, Gent e Antuérpia, Bruges foi aquela onde encontrei mais ajuntamentos de turistas. No seu elegante campanário, então, houve mesmo que esperar um bom bocado para iniciar a sua subida. 

A estação de comboios de Bruges fica a uma curtíssima e mais do que agradável caminhada do centro da cidade. A receber-nos tínhamos no princípio de Setembro a Trienal de Bruges 2015 e a sua The Passage Room, de Daniel Dewaele, interpelando-nos “How to Became a Citizen of Bruges”. A instalação que procura conjugar arte e sociedade coloca em hipótese que os cinco milhões anuais de visitantes de Bruges se tornariam cidadãos da cidade e questiona-os acerca das suas esperanças e sonhos como potenciais residentes.
Aqui e ali, espalhadas pela cidade, várias são as instalações que podemos ver dialogar com a cidade até meados de Outubro.

As que mais apreciei foram a espécie de bonsai gigante feito de janelas trazidas de edifícios chineses entretanto destruídos. O seu autor é Song Dong e esta recriação encontramo-la junto à Catedral de St Salvator e procura expressar o conceito Taoista de “Wu Wei” cujo significado é “inacção”.
Também a relação entre o património e a natureza num contexto urbano é focada na instalação Imaginary Cities presente no edifício da Câmara Municipal. São maquetas de cidades imaginárias realizadas por quatro artistas, todas elas invenções e fantasias únicas de indivíduos marcados pelas suas culturas distintas. 
Voltando ao princípio, saindo da estação de comboios optei por não seguir directamente para o centro histórico da cidade pelo idílico Parque Minnewater, deixando este percurso para o fim, como despedida de Bruges.

Ao invés, segui por outro parque também bonito até ao edifício de arquitectura moderna que acolhe espectáculos culturais, passando por uma pequena beguinaria, até entrar na rua mais comercial de Bruges que vai directa à Grote Markt. Todavia, há que entrar pelas ruas perpendiculares que nos levam a recantos onde nos apetece deixar estar.

Bruges é uma cidade pequena e daqui até à Grote Markt é um pulinho, sempre a vislumbrar de longe o Campanário do alto da elegância dos seus 83 metros, o qual é presença assídua, escondendo-se atrás dos edifícios vizinhos.

O Markt é a praça principal da cidade, lugar de um mercado que, insisto, não nos deixa sentir a praça em toda a sua plenitude, livre de ruído. Aqui ficam os edifícios medievais típicos da Flandres, com telhado triangular em escadinha, coloridos e com restaurantes e cafés nos pisos térreos. 

O Campanário, construído no século XIII, fica também aqui. Em tempos idos, era o lugar onde se guardavam os tecidos e outros bens; hoje é lugar turístico e de organização de eventos vários. Os campanários são edifícios típicos da Flandres, Valónia e norte de França, com um conjunto numeroso classificado como património da humanidade, num reconhecimento desta distinta arquitectura em tempos de prosperidade destas cidades. 

A subida dos seus 366 degraus merece todo o esforço, assim como a espera para o podermos fazer. Como a escadaria é estreita, as entradas estão limitadas pelo que se tem de aguardar pelo nosso espaço. Lá de cima ganhamos uma vista estupenda de Bruges, seu casario, suas praças, seus canais. Ainda para mais tive a sorte de no momento da visita os carrilhões estarem a tocar, num conjunto de sons belíssimos. O toque dos carrilhões é feito manualmente e à medida que subimos os degraus para além de escutar a sua música podemos observar os artistas a tocar.

Junto ao Markt fica o Burg, outra praça rodeada de edifícios bem elegantes. Não só o edifício da Câmara Municipal, em estilo gótico e com os brasões dos condados da Flandres, mas também a Basílica do Sagrado Sangue, de arquitectura surpreendente na sua fantasia gótica que mistura os tons negros com os dourados.

Até aqui não tínhamos ainda chegado perto dos canais. Saindo do Burg ficamos face a face com o canal junto à Vismarkt. Dizem-nos que um passeio turístico de barco é algo turístico, sim, mas que não se pode perder. Decido evitá-lo e percorro exaustivamente a cidade ladeando a água. Bruges é, definitivamente, um encanto. O cenário de sonho está ali para nós e basta-nos captá-lo, seja o cãozinho à janela, as casas de telhados triangulares com torres em forma de agulha, as casas cobertas de plantas, as cores das casas e da vegetação, as pontes tão pequenas que parecem de brincar, as árvores debruçadas para o canal.

Normalmente o passeio de barco segue desta zona central até ao bairro da Liga Hanseática e volta. Este quarteirão era onde nos séculos XIV e XV a maior parte das casas dos mercadores estrangeiros e consulados estavam instalados. 

Há que seguir adiante, no entanto. Percorrendo ruas praticamente vazias de gente, ainda que se sinta que são vividas, quer pelas suas casas com jardins e suas igrejas e parques. Até chegarmos a um pitoresco conjunto de moinhos no alto de um monte verdejante vizinho a um canal desta vez mais largo. 
Daqui, numa volta maior para que mais possamos apreender a cidade, regressamos ao centro medieval de Bruges para visitar o seu aclamado museu Groeningemuseum. O edifício e sua envolvente são bem bonitos, como tudo em Bruges, mas é a sua colecção que nos atraí. Aqui estão representados os ditos “flamengos primitivos” com obras de pintura do tempo em que a Flandres era uma região próspera e poderosa não só economicamente mas também culturalmente. 
Ao lado do Groeningemuseum, com um encantador pequeno jardim a dividi-los, fica a Arenthuis, outro espaço de exposições que merece uma visita. 
Daqui até à estação de comboios, onde o curto passeio de um dia em Bruges haveria de terminar, o encanto não esmorece. Antes de entrarmos no Parque Minnewater, pura natureza misturada com beleza e ambiente inspirador, a que não falta um castelo reflectido no espelho da água do lago, não podemos deixar de visitar a maior Beginhof (beguinaria) de Bruges, a Ten Wijngaerde. A entrada nesta área, que parece muralhada por um lago a que chamam “lago do amor”, faz-se por uma de duas pontes pequeninas. As casas de tijolo com janelas que deixam ver os cortinados marcam um forte contraste com o branco e verde que veríamos a seguir. Silêncio é a palavra de ordem que se vê inscrita quando se adentra no espaço circular onde encontramos casas brancas e uma igreja à volta de um parque verde pejado de árvores. 
No século XIII havia aqui um convento beneditino de freiras. Este é ainda hoje um lugar absolutamente tranquilo e as freiras ainda são vistas por aqui, velhinhas, com os seus hábitos azul-claro e branco. Todavia, nem só de freiras é feito o lugar, uma vez que as beguinarias tradicionalmente eram espaços habitados pelas beguinas – mulheres leigas católicas, muitas das vezes viúvas, que decidiam viver uma vida independente mas ascética e em comum fora das ordens religiosas e dos seus votos de fidelidade e pobreza. A sua organização nestas “cidades da paz”, de arquitectura única e particular, é hoje reconhecida pela Unesco como património da humanidade.
Não pode haver melhor forma de deixar Bruges. A sua beleza medieval e tranquilidade são marcas que perduram até hoje.

Flandres

Até aqui já sabemos que a Bélgica é hoje claramente dividida entre a Valónia, a sul, e a Flandres, a norte.
Nada conheço do sul. A norte, escolhi visitar as cidades de Gent, Bruges e Antuérpia, todas a uma curta e frequente distância de comboio de Bruxelas. 
A região da Flandres está definida autonomamente quer política quer administrativamente há muitos séculos. As três cidades citadas foram das mais ricas e urbanizadas cidades da Europa durante os séculos XIII, XIV e XV. Pontos de referência do comércio, dedicavam-se sobretudo à tecelagem da lã e sua transformação em pano. A razão da sua prosperidade era, pois, o comércio e a manufactura de têxteis. Também em termos culturais a força da Flandres era evidente, nomeadamente na pintura, excelentemente representada pelos “Primitivos Flamengos”, termo enganador, uma vez que a pintura flamenga era bem moderna e inventiva.
O curioso da história é que por motivos vários estas cidades da Flandres foram perdendo influência e no século XIX a Flandres, ao contrário da Valónia, estava parcamente industrializada. Hoje a história deu nova cambalhota e é a Flandres a ter uma economia moderna e mais próspera do que a sua vizinha do sul.

Antes de me dedicar a um tour por cada uma destas cidades, referir alguns pontos que lhes são comuns. Gent, Bruges e Antuérpia possuem todas elas centros históricos medievais superiormente conservados e belíssimos. Em todas encontramos campanários de arquitectura distinta, de tal forma que estão incluídos na lista do Património da Humanidade da Unesco. Em todas é possível apreciar o ambiente de tranquilidade que até hoje se vive nas beguinarias tradicionais da Bélgica. Por fim, a água é outra referência comum, com os canais em Gent e Bruges e o rio em Antuérpia, elemento decisivo para a sua prosperidade de outros tempos.