De Fátima para a Batalha

Passada a modernidade da Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, aportemos na antiguidade do Mosteiro da Batalha, declarado património mundial pela Unesco em 1983.
O antigo mosteiro dominicano foi mandado construir por D. João I como agradecimento à Virgem Maria pela vitória na batalha de Aljubarrota, tendo as suas obras tido início logo no ano seguinte, em 1386, e durado mais de um século, apenas terminando em 1517, já no reinado de D. Manuel I.
A sua arquitectura é de estilo gótico com misturas de manuelino.
Aqui a exuberância é rainha, quer nos pormenores decorativos nas fachadas, quer na imensa altura das naves interiores da igreja, quer na enormidade dos túmulos onde descansam D. João e D. Leonor, quer na cobertura a céu aberto do topo das Capelas Imperfeitas, quer nos rendilhados dos arcos dos claustros.
Passeio corriqueiro nas visitas de estudo da escola, é obrigatório o retorno em momento das nossas vidas mais maduro que nos possibilite contemplar toda esta delicadeza nos adornos, não nos deixando de perguntar como conseguiram os nossos antepassados construir todo este monumento.
Sem mais palavras, eis algumas fotos.

Igreja Santíssima Trindade

Prévia declaração de intenções:
Não sou católica nem tenho qualquer outra religião e pouco entendo das escrituras e mandamentos sagrados. Tenho, isso sim, algum preconceito em relação à “nossa” igreja e, em geral, às peças do rebanho que comanda. Nomeadamente, impressiona-me alguma hipocrisia e as mentes pouco abertas.
Dito isto, no passado fim-de-semana fui a Fátima ver a nova igreja que tomou o nome de Santíssima Trindade.
Nunca antes havia estado no santuário. Gostei do que vi, no que aos novos elementos arquitectónicos e artísticos diz respeito.
No entanto, os comentários que se ouviam das muitas pessoas que por lá estavam não iam no mesmo sentido.


“Que simplicidade”, “sempre a mesma coisa”, “chapa 5”, foram algumas considerações após uma descida ao espaço da “Reconciliação”, onde estão instaladas umas quantas capelas absolutamente pacificas (para mim, claro está) nas linhas direitas e despojadas do seu desenho. E acolhedoras, que é o que se exige num espaço destes.


No átrio que dá acesso a estas capelas encontram-se uns painéis de azulejos com figuras traçadas por Siza Vieira.


Todavia, a maioria dos mimos ia direitinha para a “Cruz Alta”, escultura com 34m de altura em aço corten da autoria do alemão Robert Schad. Mais uma vez, não posso estar em maior desacordo. Este foi, aliás, o aspecto que mais me seduziu em todo o santuário. Agradou-me como o artista conseguiu criar de uma forma deveras original o símbolo de Cristo na cruz com umas poucas variações de linhas rectas. Mais uma vez, as linhas direitas, a simplicidade. Porém, existem algumas perspectivas em que as formas dos pés, joelhos, mãos, braços e cabeça não são totalmente evidentes.


Outro dos pontos altos é o conjunto de painéis em bronze na porta principal criados por Pedro Calapez.


E, por fim, vamos ao princípio e ao principal – a igreja da Santíssima Trindade em si.
Obra do arquitecto grego Alexandros Tombazis, tem 12 portas de entrada (fora a principal, dedicada a Cristo), uma por cada um dos apóstolos, com passagens da Biblia alusivas a cada um deles. A igreja ganhou formato circular e comporta cerca de 9000 pessoas sentadas. É a 4.ª maior do mundo e uma vez lá entrando a dificuldade é acreditar que possam existir igrejas ainda maiores. Parece que estamos dentro de um teatro, com o palco lá em baixo.


E lá em baixo fica o presbitério, com um mural de 500m2 em ouro e terracota, com milhares de pequenos mosaicos em ouro. Obra de um jesuíta esloveno de nome Marko Ivan Rupnik.


Aqui encontramos, ainda, um crucifixo de 7,5 metros da irlandesa Catherine Green. Dada a imagem do rosto e corpo algo dura de Cristo na cruz, nada usual, esta obra é outro dos alvos de estimação das críticas dos fiéis.


Lá do outro lado do santuário, frente a frente com a nova igreja, fica a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, edifício que, mais uma vez impressiona. De traço tradicional, aqui a surpresa é deparar-nos, pode dizer-se sem ponta de exagero, com a exiguidade do espaço. Isto por que nos habituámos desde há muitos anos a assistir ao fenómeno das multidões que para lá acorrem em peregrinação – escassas dessas pessoas serão as que lá conseguirão entrar e ainda mais escassas as que lá conseguirão permanecer.
Outro aspecto verdadeiramente impressionante – este de um ponto vista sociológico – é observar o martírio daqueles que se arrastam de joelhos de uma ponta à outra do santuário vindos sabe-se lá de onde.
Impossível deixar de me emocionar com o sacrifício alheio a que chamam fé.