Antuérpia

As minhas viagens são previamente planeadas. Não digo que tudo está predefinido, mas normalmente sei o que pretendo ver e o que irei encontrar. Existe, porém, espaço para o improviso e para a surpresa.
Em Antuérpia não houve improviso. 
Desejava visitar a zona do porto, objecto de uma regeneração profunda na última década, e para isso tinha de seguir a pé do centro histórico da cidade até lá, numa curta caminhada.
Mas houve surpresa. 
Nunca tinha ouvido falar do bairro da “luz vermelha” e apesar de não estarmos assim tão longe de Amesterdão, quer geograficamente quer culturalmente, não pensei que fosse dar ao mesmo espectáculo que nos é permitido assistir em montras de determinadas ruas da capital holandesa.
Entrar numa rua banal e começar a ver mulheres semi-nuas nas montras dos edifícios e ficar com um estremecimento dentro de mim não é sinal nem de puritanismo nem de feminismo. A cena é, para mim, degradante. Mas teve muita piada assistir ao embasbacamento de um moço que por lá passava na direcção contrária à minha, igualmente embasbacada, e ser convidado a entrar com um piscar de olho por uma senhora assim não tão moça e com falta de dentes. As mulheres das montras de Antuérpia não são todas velhas, mas também não são todas bonitas, longe disso. Uma profissão como outra qualquer?  
O porto de Antuérpia fica perto desta “luz vermelha”, como é óbvio. 
Antuérpia é a segunda maior cidade da Bélgica e o seu porto o maior do país e ainda hoje um dos maiores da Europa. 
A história do porto de Antuérpia é indissociável da da cidade. No século XVI foi uma das cidades mais importantes da Europa, tendo alcançado cerca de 100 000 habitantes em 1560, e o papel do rio Schelde e do seu porto foram decisivos para que isso acontecesse.
Houve várias reviravoltas na história do porto de Antuérpia, no que à sua relevância e centralidade diz respeito. Depois de Bruges ter ficado sem acesso ao mar, os comerciantes viraram-se para Antuérpia. Todavia, em 1648 o Tratado de Vestfália fechou os portos da cidade a todos os barcos estrangeiros. O ocaso durou quase 150 anos até Napoleão chegar e dar nova força à região e seus portos. No século XIX era já o terceiro maior porto do mundo atrás de Londres e Nova Iorque. Verificou-se um grande desenvolvimento e as novas tecnologias levaram a que fosse possível às embarcações transportar mais carga com menos tripulantes. Antuérpia era então um grande porto de trânsito de mercadorias e uma plataforma de várias rotas de comércio. Conseguiu atrair várias companhias de comércio e o porto desempenhou um papel decisivo no desenvolvimento industrial da Bélgica. No pós-guerra a cidade soube superar a destruição e os traumas da ocupação alemã (que fez com que a população de judeus da cidade quase desaparecesse) e o porto continuou o seu desenvolvimento e expansão num tal volume que atingiu a fronteira com a Holanda. 
Nos dias de hoje continua a assistir-se a um porto de Antuérpia revitalizado e pujante e a requalificação urbanística e arquitectónica desta zona da cidade é evidente. Como evidente é a sua qualidade, ao contrário do que pude testemunhar em Bruxelas, capital do país. 
As docas da cidade, cuja zona é conhecida como ‘t Eilandje, tem uma marina nova, rodeada de apartamentos modernos e restaurantes. 

Mas o grande símbolo da regeneração não só do porto mas de toda a cidade é a torre do MAS – Museum aan de Stroom, cujo significado é “museu no rio”. O rio é o Schelde e o edifício foi inaugurado em 2011, 10 andares cercados de água, como se de uma ilha se tratasse, tendo sido desenhado pela dupla holandesa de arquitectos Neutelings e Riedijk. 

A sua arquitectura é distinta, na forma e nos materiais utilizados, e o seu interior é tão apelativo como a sua fachada. Esta é vermelha ocre e vai sendo cortada aqui e ali por painéis de vidro em curvinhas. Este vidro é que nos permite que do seu interior possamos ter quase sempre acesso visual ao exterior. Entrando no primeiro piso somos transportados em escadas rolantes para os pisos sequentes, estando a cada um deles atribuído um tema, como Metropolis, Poder, Vida e Morte, entre outros. A história da cidade e do seu porto não podia faltar, numa clara demonstração do sentido público e informativo da instituição. Comovente ver que há aqui lugar também para a exposição das vidas dos emigrantes turcos e marroquinos que desde 1964 não param de chegar à cidade para trabalhar na indústria vidreira, metalúrgica e minas e que nos dias de hoje os seus filhos e netos são cidadãos belgas por inteiro (ou quase, uma vez que as raízes culturais são mantidas: das suas terras trazem carpetes, incenso e canções e poemas, da Bélgica levam nutela).
A vista do último andar do MAS, do alto dos seus 60 metros, é soberba, alcançando os olhos tudo à sua volta – desde a extensão enorme do porto até ao centro histórico medieval da cidade. 
O centro histórico fica perto da estação de comboios e esta é, por si só, uma obra arquitectónica belíssima. Na zona da estação grande parte das lojas dedicam-se a um comércio curioso, o dos diamantes. Seguindo sempre adiante entramos nas ruas pedonais Meir e Leystraad, cujos edifícios elegantes, alguns em estilo rococo, acolhem as maiores marcas da moda do mundo.
Aqui ficam alguns palácios, como o Palais op de Meier, e à sua direita a Rubenhuis, a casa onde o pintor Rubens viveu e que hoje expõe algumas das suas obras. Praticamente ao lado desta encontramos mais um exemplo da recente arquitectura vibrante na cidade de Antuérpia, no caso o edifício do teatro.

O coração da cidade medieval é composto pela Groenplaats (com a estátua de Rubens no meio), pelos 123 metros de altura da Onze-Lieve-Vrouwekathedraal (decorria missa quando a visitei, pelo que não pude por ela deambular) e pela Grote Markt.

Esta praça é local mais bonito da cidade, quer pelo magnífico edifício da Câmara Municipal quer pelos edifícios típicos da Flandres que a acompanham no cenário. 
Não dispensa, no entanto, que se percorra as ruas vizinhas que por vezes nos levam a minúsculos e surpreendentes pátios, como a Vlaeykensgang.
A cidade é agradável, bem cuidada, com jardins e edifícios suficientes para nos fazer sentir feliz. No entanto, chovia e a cor não era a melhor. 
Independentemente da chuvada forte que se abateu de repente, a Casa-Museu Plantin-Moretus é imperdível. Um aparte histórico, porém, antes de nos debruçarmos sobre esta maravilha da humanidade (está classificada(o) pela Unesco como património da humanidade, provavelmente o único ou um dos únicos museus a merecer esta distinção).
No fim do século XVI a cidade de Antuérpia foi alvo da “fúria espanhola” do ultra-católico Filipe II de Espanha, que governava também a região, e as disputas religiosas entre católicos e calvinistas arrasaram a população, que caiu para metade. No entanto, o comércio e as artes não cessaram de florescer e Antuérpia era um ponto de encontro para artistas e intelectuais europeus. 
O primeiro jornal foi criado em Antuérpia em 1606 e a tradição das casas de impressão de livros era forte aqui.  
Esta Casa-Museu Plantin-Moretus era, precisamente, uma dessas casas onde se imprimiam os livros desde o século XVI por iniciativa primeiro de Christophe Plantin e depois, após a sua morte, por Jan Moretus, seu genro. 

O seu edifício medieval, tornado museu em 1876, possui um pátio belíssimo, mas para os amantes dos livros tudo aqui deslumbra. Nos dois andares visitáveis da Casa somos transportados de sala em sala, paredes forradas a couro, pinturas de Rubens à disposição, com o piso de madeira a ranger, para o ambiente de muitos séculos atrás, observando uma fantástica colecção de material tipográfico. A Casa era composta por escritórios e loja, onde se vendiam apenas as obras que passavam pela censura. Entre os vários objectos de impressão impressiona ver a quantidade quase infinita de modelos de letras que eram utilizados na impressão destes livros históricos. Como não podia deixar de ser, existe também aqui uma biblioteca encantadora com livros antiquíssimos e raros no seu espólio. Sem dúvida, um dos locais mais inspiradores que tive a oportunidade de visitar.  
Antes de deixar a cidade vale a pena uma olhadela a mais uns quantos edifícios.
O Castelo Het Steen, junto ao rio.
A Arte Nova da Help U Zelve.
A ‘t Bootje, casa barco com aspectos mouriscos.

Bruges

Gent é a “pérola da Flandres”, Bruges a “Veneza do norte”.
Gent é a terceira cidade da Bélgica, Bruges uma pequena cidade.
Gent é um recanto ainda não repleto de turistas. Bruges é cidade hiper-turística que parece viver só para o turismo.
Um aviso: estas duas cidades são de visita obrigatória, mas deve-se visitar primeiro Gent porque Bruges é Bruges e não qualquer Veneza e as comparações são inevitáveis.
Historicamente Bruges foi uma cidade central e próspera nos tempos medievais. No século XIV era membro da Liga Hanseática, a associação de cidades comerciais do norte da Europa.
Conflitos e rivalidades várias e, sobretudo, o assoreamento do rio Zwin deixou a cidade sem acesso ao mar. Com isso Bruges esteve adormecida centenas de anos e foi o turismo no século XIX a acordá-la. 
Até hoje o turismo é o motor económico da cidade. 
Com efeito, entre Bruxelas, Gent e Antuérpia, Bruges foi aquela onde encontrei mais ajuntamentos de turistas. No seu elegante campanário, então, houve mesmo que esperar um bom bocado para iniciar a sua subida. 

A estação de comboios de Bruges fica a uma curtíssima e mais do que agradável caminhada do centro da cidade. A receber-nos tínhamos no princípio de Setembro a Trienal de Bruges 2015 e a sua The Passage Room, de Daniel Dewaele, interpelando-nos “How to Became a Citizen of Bruges”. A instalação que procura conjugar arte e sociedade coloca em hipótese que os cinco milhões anuais de visitantes de Bruges se tornariam cidadãos da cidade e questiona-os acerca das suas esperanças e sonhos como potenciais residentes.
Aqui e ali, espalhadas pela cidade, várias são as instalações que podemos ver dialogar com a cidade até meados de Outubro.

As que mais apreciei foram a espécie de bonsai gigante feito de janelas trazidas de edifícios chineses entretanto destruídos. O seu autor é Song Dong e esta recriação encontramo-la junto à Catedral de St Salvator e procura expressar o conceito Taoista de “Wu Wei” cujo significado é “inacção”.
Também a relação entre o património e a natureza num contexto urbano é focada na instalação Imaginary Cities presente no edifício da Câmara Municipal. São maquetas de cidades imaginárias realizadas por quatro artistas, todas elas invenções e fantasias únicas de indivíduos marcados pelas suas culturas distintas. 
Voltando ao princípio, saindo da estação de comboios optei por não seguir directamente para o centro histórico da cidade pelo idílico Parque Minnewater, deixando este percurso para o fim, como despedida de Bruges.

Ao invés, segui por outro parque também bonito até ao edifício de arquitectura moderna que acolhe espectáculos culturais, passando por uma pequena beguinaria, até entrar na rua mais comercial de Bruges que vai directa à Grote Markt. Todavia, há que entrar pelas ruas perpendiculares que nos levam a recantos onde nos apetece deixar estar.

Bruges é uma cidade pequena e daqui até à Grote Markt é um pulinho, sempre a vislumbrar de longe o Campanário do alto da elegância dos seus 83 metros, o qual é presença assídua, escondendo-se atrás dos edifícios vizinhos.

O Markt é a praça principal da cidade, lugar de um mercado que, insisto, não nos deixa sentir a praça em toda a sua plenitude, livre de ruído. Aqui ficam os edifícios medievais típicos da Flandres, com telhado triangular em escadinha, coloridos e com restaurantes e cafés nos pisos térreos. 

O Campanário, construído no século XIII, fica também aqui. Em tempos idos, era o lugar onde se guardavam os tecidos e outros bens; hoje é lugar turístico e de organização de eventos vários. Os campanários são edifícios típicos da Flandres, Valónia e norte de França, com um conjunto numeroso classificado como património da humanidade, num reconhecimento desta distinta arquitectura em tempos de prosperidade destas cidades. 

A subida dos seus 366 degraus merece todo o esforço, assim como a espera para o podermos fazer. Como a escadaria é estreita, as entradas estão limitadas pelo que se tem de aguardar pelo nosso espaço. Lá de cima ganhamos uma vista estupenda de Bruges, seu casario, suas praças, seus canais. Ainda para mais tive a sorte de no momento da visita os carrilhões estarem a tocar, num conjunto de sons belíssimos. O toque dos carrilhões é feito manualmente e à medida que subimos os degraus para além de escutar a sua música podemos observar os artistas a tocar.

Junto ao Markt fica o Burg, outra praça rodeada de edifícios bem elegantes. Não só o edifício da Câmara Municipal, em estilo gótico e com os brasões dos condados da Flandres, mas também a Basílica do Sagrado Sangue, de arquitectura surpreendente na sua fantasia gótica que mistura os tons negros com os dourados.

Até aqui não tínhamos ainda chegado perto dos canais. Saindo do Burg ficamos face a face com o canal junto à Vismarkt. Dizem-nos que um passeio turístico de barco é algo turístico, sim, mas que não se pode perder. Decido evitá-lo e percorro exaustivamente a cidade ladeando a água. Bruges é, definitivamente, um encanto. O cenário de sonho está ali para nós e basta-nos captá-lo, seja o cãozinho à janela, as casas de telhados triangulares com torres em forma de agulha, as casas cobertas de plantas, as cores das casas e da vegetação, as pontes tão pequenas que parecem de brincar, as árvores debruçadas para o canal.

Normalmente o passeio de barco segue desta zona central até ao bairro da Liga Hanseática e volta. Este quarteirão era onde nos séculos XIV e XV a maior parte das casas dos mercadores estrangeiros e consulados estavam instalados. 

Há que seguir adiante, no entanto. Percorrendo ruas praticamente vazias de gente, ainda que se sinta que são vividas, quer pelas suas casas com jardins e suas igrejas e parques. Até chegarmos a um pitoresco conjunto de moinhos no alto de um monte verdejante vizinho a um canal desta vez mais largo. 
Daqui, numa volta maior para que mais possamos apreender a cidade, regressamos ao centro medieval de Bruges para visitar o seu aclamado museu Groeningemuseum. O edifício e sua envolvente são bem bonitos, como tudo em Bruges, mas é a sua colecção que nos atraí. Aqui estão representados os ditos “flamengos primitivos” com obras de pintura do tempo em que a Flandres era uma região próspera e poderosa não só economicamente mas também culturalmente. 
Ao lado do Groeningemuseum, com um encantador pequeno jardim a dividi-los, fica a Arenthuis, outro espaço de exposições que merece uma visita. 
Daqui até à estação de comboios, onde o curto passeio de um dia em Bruges haveria de terminar, o encanto não esmorece. Antes de entrarmos no Parque Minnewater, pura natureza misturada com beleza e ambiente inspirador, a que não falta um castelo reflectido no espelho da água do lago, não podemos deixar de visitar a maior Beginhof (beguinaria) de Bruges, a Ten Wijngaerde. A entrada nesta área, que parece muralhada por um lago a que chamam “lago do amor”, faz-se por uma de duas pontes pequeninas. As casas de tijolo com janelas que deixam ver os cortinados marcam um forte contraste com o branco e verde que veríamos a seguir. Silêncio é a palavra de ordem que se vê inscrita quando se adentra no espaço circular onde encontramos casas brancas e uma igreja à volta de um parque verde pejado de árvores. 
No século XIII havia aqui um convento beneditino de freiras. Este é ainda hoje um lugar absolutamente tranquilo e as freiras ainda são vistas por aqui, velhinhas, com os seus hábitos azul-claro e branco. Todavia, nem só de freiras é feito o lugar, uma vez que as beguinarias tradicionalmente eram espaços habitados pelas beguinas – mulheres leigas católicas, muitas das vezes viúvas, que decidiam viver uma vida independente mas ascética e em comum fora das ordens religiosas e dos seus votos de fidelidade e pobreza. A sua organização nestas “cidades da paz”, de arquitectura única e particular, é hoje reconhecida pela Unesco como património da humanidade.
Não pode haver melhor forma de deixar Bruges. A sua beleza medieval e tranquilidade são marcas que perduram até hoje.

Gent

Na época medieval Gent chegou a ser a maior cidade da Europa depois de Paris e Constantinopla. Os têxteis eram o motor da sua maior indústria.
A sua importância revela-se ainda por ser o lugar de nascimento de Charles V, o homem que no século XVI tornou-se imperador do Sagrado Império Romano (e reinou como Carlos I em Espanha). Já no século XIX, Gent foi a primeira cidade da Flandres a abraçar a revolução industrial. 

Hoje é a capital da província da Flandres Oriental e a terceira maior cidade belga, atrás de Bruxelas e Antuérpia. É a maior cidade universitária da Flandres e isso percebe-se quando se chega à sua estação Saint Pieters de comboio. São milhares e milhares de bicicletas amontoadas nas suas imediações, o meio de transporte privilegiado dos estudantes (e não só) flamengos. 
As minhas memórias foram logo despertadas face a este cenário, recordando-me quando na Maastricht dos anos 80 não queria acreditar nos parques para bicicletas maiores do que os parques para automóveis que nós tínhamos na nossa Lisboa.
Existem duas estações em Gent, mas à Saint Pieters chegam os comboios rápidos vindos de Bruxelas. Esta estação fica a cerca de três quilómetros do centro da cidade, os quais podem ser percorridos num tram que segue sempre recto até à principal praça de Gent. Como gosto de caminhar optei por ir a pé e ainda tive a sorte de me perder, pelo que fui parar a uma zona da cidade que de outra forma não chegaria a conhecer. Canais tranquilos, zonas residenciais pacatas, blocos universitários de igual tranquilidade e pacatez. 

Cheguei onde queria e iniciei o meu passeio em Gent pela sua beguinaria mais central, perto do castelo Gravensteen (construção do século XII a que não falta sequer um fosso de água. A Oude Begijnhof tem uma pracinha central com um relvado verde em perfeita comunhão com a igreja de tiras de tijolo ocre e torre em tons vermelhos e violeta. As suas ruas estreitas têm, como é típico, os edifícios de baixa altura (normalmente um piso) num branco intenso.
As cores são, está visto, um dos pontos altos da cidade. Um dia em Gent chega para se conhecer o centro histórico da cidade e as suas maiores atracções, uma vez que a cidade, apesar da terceira maior do seu país, não é grande. Fiquei apenas parte de um dia, deixando Gent a meio da tarde sob uma chuvada inclemente a que nem as livrarias serviram de alternativa (os livros estão todos em holandês), e com isso perdi a hipótese de a ver, seus canais e seus edifícios, a mudar de tom.

A zona do canal entre as pontes St-Michielshelling e Grasburg é a mais bonita pelo conjunto da água e da arquitectura dos seus edifícios de topo triangular que nos dão a ilusão de lá podermos chegar subindo aquilo que parecem ser pequenos degraus. Curiosamente, estes edifícios são quase todos eles do século XX, o que não retira nenhum pó da alegria que sentimos por aqui estar.

Seguindo o canal, à sua direita fica o bairro de Patershol. Chão empedrado, edifícios coloridos e bem decorados, caminho por aqui em sossego e sozinha. Aqui percebo que Gent, na primeira segunda-feira de Setembro, é tudo menos turística. Ainda bem. Continuo a caminhar pelas ruas estreitas de Patershol e admiro com gosto as fachadas dos seus edifícios cobertas com jardins verticais. Já junto ao canal, as fachadas do bairro são mais ricas e têm pormenores deliciosos, obras de arte até. 
Atravessando a pequena ponte, sempre tudo tão bonito em redor, janelas abertas, floreiras em cada canto, chego à imensa Praça Vrijdagmarkt (mercado da sexta-feira). 

Depois de atravessar uma ruela coberta de graffitis, a lembrar que esta é uma cidade jovem, é a vez de ir ao encontro de mais praças: são três praças contínuas onde ficam a igreja, o campanário, a catedral e o edifício da câmara municipal.
A St Baafskathedraal é imperdível quer pela sua beleza interior quer por acolher obras de Rubens e de Van Eyck. Infelizmente a “A Adoração do Cordeiro Místico” deste último estava de férias noutro lugar que não naquela que é a sua residência oficial. 

Subi depois ao vizinho Campanário, edifício do século XIV, para ver as vistas de Gent como só os passarinhos a conseguem ter. A subida é fácil, praticamente toda de elevador, daí que cheguei ao topo folgada física e mentalmente. Mas este ânimo mudou repentinamente quando começou a chover de uma forma tal que perdi qualquer expectativa de poder sentar na relva de um qualquer jardim a relaxar e deixar-me estar a contemplar e sentir o ambiente de Gent no fim da tarde. 

Foi assim que deixei a cidade (tinha visto na meteorologia que a tarde iria continuar com chuva forte), seguindo a pé novamente até à estação dos comboios, mas desta vez pela rua Veldstraat, a rua do comércio de Gent e das livrarias em holandês, a língua da Flandres.

Flandres

Até aqui já sabemos que a Bélgica é hoje claramente dividida entre a Valónia, a sul, e a Flandres, a norte.
Nada conheço do sul. A norte, escolhi visitar as cidades de Gent, Bruges e Antuérpia, todas a uma curta e frequente distância de comboio de Bruxelas. 
A região da Flandres está definida autonomamente quer política quer administrativamente há muitos séculos. As três cidades citadas foram das mais ricas e urbanizadas cidades da Europa durante os séculos XIII, XIV e XV. Pontos de referência do comércio, dedicavam-se sobretudo à tecelagem da lã e sua transformação em pano. A razão da sua prosperidade era, pois, o comércio e a manufactura de têxteis. Também em termos culturais a força da Flandres era evidente, nomeadamente na pintura, excelentemente representada pelos “Primitivos Flamengos”, termo enganador, uma vez que a pintura flamenga era bem moderna e inventiva.
O curioso da história é que por motivos vários estas cidades da Flandres foram perdendo influência e no século XIX a Flandres, ao contrário da Valónia, estava parcamente industrializada. Hoje a história deu nova cambalhota e é a Flandres a ter uma economia moderna e mais próspera do que a sua vizinha do sul.

Antes de me dedicar a um tour por cada uma destas cidades, referir alguns pontos que lhes são comuns. Gent, Bruges e Antuérpia possuem todas elas centros históricos medievais superiormente conservados e belíssimos. Em todas encontramos campanários de arquitectura distinta, de tal forma que estão incluídos na lista do Património da Humanidade da Unesco. Em todas é possível apreciar o ambiente de tranquilidade que até hoje se vive nas beguinarias tradicionais da Bélgica. Por fim, a água é outra referência comum, com os canais em Gent e Bruges e o rio em Antuérpia, elemento decisivo para a sua prosperidade de outros tempos.