Arredores de Luang Prabang

Nos arrabaldes de Luang Prabang há alguns locais que devem ser visitados.

 

As caves valem apenas pelo passeio no Mekong.

Mas existem ainda umas quedas de água bem bonitas.

Até Tat Kuang Si, a uma vintena de quilómetros de Luang Prabang, a viagem é agradável. A caminho parámos numa pequena aldeia onde os seus habitantes se dividem entre aqueles que estão preparados para nos receber impingindo alguns dos seus artigos e aqueles outros que levam a sua vida pacata quotidiana.

E a caminho parámos ainda para comprar abacaxis numa das omnipresentes bancas. Ficámos desconfiados de que o preço é duplo, um para turista outro para local, mas o delicioso sabor do abacaxi não é quantificável.

 

As cascatas da Tat Kuang Si são belíssimas. A principal cai de bem mais de 15 metros e em diversos patamares vão se formando umas lagoas pequeninas e pacatas ideais para uma banhoca. A cor da água dá um tom ainda mais paradisíaco ao cenário.

 

A outra cascata, mais perto de Luang Prabang, a Tat Sae não tinham tanta água, mas mesmo assim revelaram-se bonitas. Antes de se chegar atéelas há que atravessar o rio numa curta jornada de barco. Aí chegados, esta cascata divide o espaço com um campo de elefantes. Laos, aliás, significa a “terra de um milhão de elefantes”. Pela primeira vez andámos de elefante, acompanhadas pelo guia. Mas depois fomos tomar banho com o elefante sozinhas, cavalgando directamente no seu lombo, naquele que foi um dos momentos mais divertidos da viagem. Os pruridos de higiene e receio de apanhar doenças exóticas ficaram completamente esquecidos e aceitamos de bom grado que o elefante libertasse os seus intestinos logo à entrada na água da lagoa por onde entramos ao seu lombo e que, estávamos certas, dai rapidamente cairíamos. A missão passou, então, a ser não não cair, mas cair de boca fechada.

 

 

 

A comida

No Laos, as melhores experiências gastronómicas aconteceram em Luang Prabang. Dividimos as nossas refeições por comida em restaurante e comida na rua.
Quanto a esta última, refeições a um euro junto à feira diária, com a impossibilidade de fugir ao dito mais olhos que barriga, tanta é a oferta. E deliciosa.
Em restaurante, destaque para o Tamarind, refeições belas e saborosas a preços também irreais, cerca de 7 euros com direito a degustar entrada, prato principal e sobremesa.

Acerca da comida, obrigatória a leitura da Cantina da mana, com reportagem completa dos Sabores da viagem brevemente aqui.

Luang Prabang

A primeira paragem da viagem coincidiu com aquele que é um dos esperados momentos altos de qualquer viagem ao sueste asiático: Luang Prabang. E foi-o. A partir daqui qualquer experiência corre o risco de ser batível. No entanto, haveríamos ainda de nos surpreender.

 

Depois de bem instalados e melhor recebidos no hotel Vangsavang, fora do centro, mas a uma curta pedalada nas bicicletas fornecidas gratuitamente pelo hotel, fomos ver o pôr-do-sol desde o Monte Phu Sina companhia da stupa que o encima. Subindo de um lado encontramos um templo, descendo do outro uma série de Budas. Mas a viagem vale pela paisagem altaneira de toda a Luang Prabang e da parte do Mekong que lhe cabe, bem como do seu afluente Nam Khan. A vegetação a tentar escapar das águas barrentas dos rios citados é esmagadora e bem enquadrada pelo relevo dos montes que a envolvem. Sorte que havia mesmo um pouco de sol e pudemos ver as cores mudarem, deixando o cenário ainda mais belo.

 

Luang Prabang é uma pequena cidade que quase não cabe na aura mágica e carismática que todos lhe reconhecem. É património da humanidade e o seu nome vem de inícios do século XVI quando à então Lan Xang foi oferecida uma imagem de Buda conhecida como Pha Bang, tomando então o nome de Luang (Grande / Real) Prabang (Pha Bang). Por essa data era apenas um dos vários reinos que hoje, no seu conjunto, formam o Laos e não era um reino assim tão forte. Basta lembrar que tinha por vizinhos o Sião e os reinos do hoje Vietname, a quem prestava tributo. Depois do ataque de milícias da China, em consequência de rebeliões neste país, o reino de Luang Prabang acabou por aceitar protecção dos franceses no século XIX. Já nessa altura a cidade era considerada pelos colonialistas franceses como um refúgio calmo. Hoje não se nota assim tanto a sua presença na arquitectura da cidade, com excepção de um ou outro edifício à beira do Mekong. 

 

Luang Prabang começa cedo a sua vida. Pelas 6 da manhã, todos os dias, os monges, devidamente vestidos com as cores de açafrão, pés descalços, seguem em procissão pelas ruas da cidade pedindo almas, ou seja, colectando arroz e outros daqueles cidadãos que se instalam nessas mesmas ruas para lhes oferecerem isso e, assim, ganharem algum mérito na cadeia budista. É uma cerimónia que acontece em muitos outros locais no Laos, mas aqui em Luang Prabang parece fazer mais e mais sentido, pela aura da cidade e pelo tom silencioso e cerimonioso que todos lhe conferem.

 

 

A cidade é dominada pelos monges e pelos inúmeros wats que por lá pululam. São tantos que mesmo que se dite que já se está farto de wats é impossível não esbarrar com mais um e mais um e mais um.

 

 

 

Visitámos o Wat Xieng Thong, o mais famoso. A sua arquitectura é característica do estilo do Laos (com afinidades com o Thai), telhados triplos debruçados quase até tombarem no chão. Destaque para a tumba a seu lado, o Haw Tai, em tons cor-de-rosa e cravado de mosaicos que ilustram a vida comum. Tivemos sorte no dia e hora que visitámos este wat. Ainda assistimos a parte da “missa” e no fim tivemos direito a partilhar uma bebida com os locais, que comemoravam o início das festividades que marcam a entrada dos noviços no mosteiro. O calor que fazia pedia mesmo uma qualquer bebida, mas esta foi especial. Era qualquer mistela, misto de leite de coco, com gomas e género de passas no formato, mas saborosa. Ao segundo dia, mesmo que ainda não tivéssemos perdido os pruridos com as águas das bebidas, a tentação seria forte demais.

 

O outro monumento a destacar é o Palácio Real e o vizinho Wat Ho Pha Bang. Este deve ser dos palácios reais mais modestos do mundo, quer no seu exterior, quer no seu interior, mas não deixa de merecer uma vista de olhos, sobretudo para nos divertirmos com as peças oferecidas ao então rei pelos outros países. O Wat que lhe faz companhia, todavia, vale bem mais do que uma singela olhada por fora ou por dentro. A sua arquitectura é das mais belas que encontramos na cidade (e no país) e o seu interior é dominado pelo ouro.

 

 

Quanto ao mais, o forte de Luang Prabang é caminhar pelas suas ruas, compostas de lojinhas de artesanato, cafetarias de bom gosto e hotéis de charme. Um passeio de bicicleta é muito recomendado. Torna o deambular pelas margens do Mekong muito agradável e permite-nos fugir do centro da cidade e entrar num mundo mais confuso e real, feito de locais e sem turistas. Ao fim da tarde, a entrar pela noite curta, é incontornável deambular pela feira que todos os dias assenta arraiais nas ruas de Luang Prabang. Tem algum artesanato interessante, mas a sensação com que se fica é que é quase tudo a mesma coisa e a coisa virá na sua maioria da China.

 
Qualquer visita a Luang Prabang não ficará completa sem um passeio de barco pelo Mekong. Pode fazer-se como os franceses o faziam, ir de barco da então Saigão até Luang Prabang. Sem ter tantos dias para se gastar, deve ser bastante fazê-lo apenas desde Vientiane. Mais modestos, ficámo-nos por um passeio até umas caves sem história, 2 horas para lá, menos para cá, com direito a colocar as mãozinhas na água salgada do Mekong e brincarmos de nos salpicar uns aos outros. Faltou-nos a coragem ou a necessidade do nosso Camões, que uns (muitos) quilómetros mais abaixo pelas suas águas nadou. 

O Laos

Depois de ter estado no sueste asiático percorrendo o Vietname e o Camboja, havia na altura ficado com pena de não ter dado uma saltada ao vizinho Laos, em tempos parte da Indochina francesa juntamente com os outros dois. O Laos era considerado mais autêntico e tranquilo, ainda longe das hordas de turistas que encontramos em Halong Bay ou Angkor. Cinco anos depois pudemos comprová-lo.

O Laos é um dos poucos países do mundo de regime comunista. Mas no que ao turista diz respeito, isso não se nota grandemente. Não vemos o culto da personalidade, com constante presença da figura do presidente em cartazes ou outros do estilo, apenas se vêem aqui e ali as bandeirinhas do partido. A pessoas, essas, parecem-nos claramente felizes. Quanto à pobreza, neste que é um dos países mais pobres do sueste asiático, ela não é tão visível assim. Não porque os laoenses pareçam sempre felizes, sorrisos postos quase como imagem de marca, mas porque não vemos pedintes ou sujidade nas pessoas. Pelo contrário, e pensando apenas em questões de sobrevivência, as casas têm paredes e tectos e ao lado há sempre umas terras para trabalhar e umas galinhas para cuidar. Telemóveis existem aos magotes, ainda que não da nova geração ou tablets. Não quero com isto dizer que o país seja rico. Apenas que parece ter condições para deixar de ser pobre. Aliás, começam a despontar investimentos na área das minas (ouro e cobre) e energia hidroeléctrica.

 

Elemento fortíssimo na paisagem do Laos (tal como nos seus vizinhos, mas aqui em maior extensão) é o rio Mekong, com as suas margens e vales férteis. Não é coincidência o Mekong passar por todas as maiores cidades do Laos: Luang Prabang, Vientiane, Savanaketh ou Pakse. Éele que delimita a fronteira quer com a Tailândia, quer com o Camboja. As suas águas são barrentas e as suas margens variam em extensão, chegando a atingir os 14 kms. Nas terras que visitámos não iria além de uns 500 metros, mas o seu carisma é intenso em qualquer lado.

 

O que mais surpreende no Laos, para além da tranquilidade das suas pessoas, é a sua paisagem. 69% do território é pura floresta. É simplesmente fantástico ver Luang Prabang lá de cima e encontrar o Mekong e seus afluentes serpenteando pela intensa vegetação. Se a presença da vegetação é assim tão intensa nas cidades, imagine-se só nas zonas mais rurais – a maior parte do país.

 

Ou seja, rios e montanhas verdejantes, um caminho garantido para o desenvolvimento do eco-turismo e turismo de aventura num país ainda dominado pelo budismo e seus monges vestidos de cores de açafrão. O budismo traça de forma marcante a personalidade dos laoenses. Aqui qualquer rapaz passa uma temporada (seja de um mês, três meses ou até uma vida) num mosteiro, os wats. E quarteirão sim, quarteirão não encontramos um wat, não como se cada aldeia quisesse ter a sua igreja, mas como se cada rua exigisse em templo.

 

Por fim, registo para um passado do Laos que não será tão conhecido. Aliás, deve dizer-se que em Portugal poucos são aqueles que parecem ter alguma vez ouvido a palavra Laos (fora os tradicionais “mas o que é que vais para aí fazer”). A tal ponto que quando tentava explicar para onde ia nestas férias, desisti, passei a dizer que ia para a Tailândia. Durante nove anos, entre 1964 e 1973, na época da Guerra do Vietname, o Laos foi bombardeado a uma média de 8 minutos, porque os americanos não queriam que os comunistas aí tomassem o poder. O país ficou transformado num autêntico campo minado. E muitas dessas minas acabaram por não explodir. Ou seja, até hoje não houve condições para se limpar todo o país, daí que se estime que todos os anos cerca de 100 pessoas sofram com essas bombas ainda não desactivadas que lhes roubam a vida ou parte do corpo.