As Pirâmides

“O que mais surpreende nas pirâmides é o mistério” – Eça de Queiroz

As pirâmides são as responsáveis por grande parte do fascínio pelo Egipto. Há pirâmides igualmente fabulosas em outros países, como o México, e o Egipto nem sequer é o país do mundo com mais exemplos destas estruturas, galardão que cabe ao vizinho Sudão. Mas, quando se fala em pirâmides, o imaginário de quase todos nós viaja para o planalto de Guiza, o lugar das três pirâmides mais famosas, de Khufu, Khafré e Menkauré (Quéops, Quéfren e Miquerinos, em grego). Hoje praticamente aglutinado pela expansão da cidade, em dias de boa visibilidade podemos vê-las no horizonte desde os miradouros do Cairo. Todavia, estas não são as únicas pirâmides nas redondezas e nem sequer as mais antigas. Não quisemos perder a oportunidade de conhecer mais pirâmides, pelo que incluímos Dahshur e Sakara no itinerário que ocupou todo um longo dia à volta de Mênfis, a capital do Antigo Egipto unificado, construída no lugar onde o Vale do Nilo e o Delta do Nilo se cruzam, hoje em ruína mas possuidora nos seus arrabaldes destes incríveis complexos funerários reais. Um cemitério que ao longo dos seus cerca de 2500 anos de história se estendeu por 80 quilómetros, a maior necrópole do mundo e um paraíso para os arqueólogos e aventureiros.

Grande Pirâmide de Khufu, Guiza

Porém, antes de partimos à descoberta destes monumentos enigmáticos há que perceber alguma da sua razão de ser e simbologia associada, senão, serão apenas um amontoado de pedras com algum sentido estético e muito dadas a toda a espécie de teorias.

Pirâmides Curvada, Dahshur

Eça de Queiroz não foi o primeiro nem será o último a juntar a palavra mistério numa frase sobre as pirâmides. 4500 anos depois da sua construção o espanto sobre as técnicas, os meios e os custos que permitiram ergue-las ainda perdura. Acontece que, defendem alguns com muito sentido, não eram estas questões que preocupavam os antigos egípcios; enquanto que nós, hoje e na nossa cultura, temos uma maneira de entender o mundo que nos leva a centrar as preocupações no como e no porquê das coisas, aos antigos egípcios interessava-lhes o para e a finalidade e não os meios. Para a cosmogonia egípcia, o primeiro elemento a emergir do oceano foi uma colina de terra e dela surgiu um pássaro que voou e se converteu no sol, o Ra. O Ra, por sua vez, deu origem a quatro pares divinos, donde viriam a nascer Íris e Osiris e deles Hórus, o faraó na terra. Ao morrer, o faraó necessitava de iniciar novo ciclo, voltando ao princípio de forma a que a história se repetisse eternamente. Assim como da inundação emergia a terra negra fértil e cheia de vida e graças ao sol as plantas davam fruto e vida eternamente, assim a montanha que emergia do mar como agente criador e da vida o faria. A montanha era, pois, o símbolo deste conceito e daí a escolha da forma piramidal como túmulo do seu deus / faraó. As pirâmides são, assim, as estruturas escolhidas para o descanso eterno do faraó e o facto de não estarem isoladas, antes acompanhadas por outras, mostra que era seu desejo ser acompanhado eternamente.

Pirâmide Escalonada de Djoser, Sakara

O historiador Heródoto e o geógrafo Estrabão visitaram-nas há muitos séculos e já então acreditavam que servissem de túmulos reais, embora não tivessem sabido explicar muito mais. Só no final do século XVIII, com a expedição de Napoleão e o nascimento da Egiptologia, a tese de que as pirâmides são monumentos funerários se impôs definitivamente.

Mas como somos indivíduos do século XX / XXI e da cultura ocidental, insistimos, mas como foi possível construírem-se tamanhas pirâmides? Não existe uma teoria totalmente convincente que o explique, pelo que o mistério persiste. Os seus construtores teriam sido servos em pausa das actividades agrícolas e os enormes blocos de pedra transportados teriam seguido pelo rio Nilo. Quantos homens estiveram envolvidos, quanto tempo durou a construção, como se levantaram as pedras e os cálculos empregues podem ser deixados à imaginação, para que nem tudo seja oferecido.

Dahshur, a 42 kms, proporciona a incrível oportunidade de se ter as pirâmides só para nós. Chegamos e não vemos nada nem ninguém para além de deserto, a não ser duas erupções de pedra na areia, a Pirâmide Vermelha e a Pirâmide Curvada.

O cenário é de uma enormidade absoluta. E sentimos, verdadeiramente, que se mantém como há milhares de anos, quando o faraó Seneferu (2613-2589 a.C.), primeiro rei da 4ª dinastia do Império Antigo, as mandou construir. E aqui realizamos que, afinal, os cálculos de construção interessavam: primeiro surgiu a Pirâmide Curvada, mas como a sua base tinha uma inclinação maior do que o topo e isso terá levado a uma instabilidade e colapso, depois corrigiu-se o trabalho com a Pirâmide Vermelha, com uma inclinação mais suave no topo, fazendo dela a primeira verdadeira pirâmide com os lados lisos. A mil metros de distância uma da outra, são ambas as terceiras maiores pirâmides, mais altas do que a terceira maior de Guiza, a Vermelha com 105 metros de altura e 220 metros de base e a Curvada com 102 metros de altura e 190 metros de base.

Para além de vaguearmos soltas pelo deserto por entre estas pirâmides, sem perigo de esbarrar em alguma pessoa ou camelo, podemos ainda visitar o interior da Pirâmide Vermelha, assim chamada pelo tom da pedra calcária usada na sua construção. O acesso é efectuado por uma entrada elevada em relação ao solo e há que percorrer uma descida por um corredor estreito com 63 metros em que a única solução, mesmo para as baixinhas, é ir encolhida. As dores de pernas no dia seguinte são garantidas e no momento é provável que quem tema ambientes muito fechados vá sofrer de falta de ar. Ainda para mais, o cheiro dentro da pirâmide é muito estranho, a amoníaco. Vale que o final deste corredor desemboca em duas antecâmaras mais espaçosas e altas. E que a subida pelo mesmo corredor é mais fácil. Veredicto? Uma experiência inesquecível.

Em Dahshur já houve 11 pirâmides e, para além destas 2, vê-se ainda a estranha e algo desmoronada Pirâmide Preta, pouco mais distante, obra de Amenemat III (1855-1808 a.C.), da 12ª dinastia.

No horizonte, a uns 10 quilómetros, observa-se Sakara e é para lá que iremos após atravessarmos uma extensa zona de tamareiras que, com as suas palmeiras, dão um carácter deveras exótico ao deserto.

O Complexo de Sakara é um dos grandes momentos de qualquer viagem ao Egipto. Aqui fica a Pirâmide Escalonada (ou de Degraus) de Djoser (primeiro rei da 3ª dinastia, 2667-2648 a.C.), construída não apenas como um túmulo, mas para desempenhar a função de residência deste faraó para a eternidade. É considerada a primeira pirâmide (é anterior às de Dahshur), o primeiro edifício em pedra da história e a mais antiga estrutura feita pelo Homem ainda de pé. A construção desta primeira pirâmide terá sido motivada por uma mudança na forma de ver a religião, passando-se de uma conexão com as estrelas para uma conexão com o sol. Anteriormente, os defuntos eram encerrados numas construções rectângulares, mastabas, como forma de ascender ao céu. Mas a partir do momento em que se entende que Deus não se relaciona com o céu, mas antes com o sol, isso leva a que se procure uma construção em rampa que serviria de escadaria onde o rei Djoser escalaria no momento da ressurreição para se juntar a Ra, o Deus do sol, no céu. Daí a passagem para esta estrutura escalonada (ou em degraus), junto com o culto do sol.

A experiência foi evoluindo por fases e as seis mastabas sobrepostas, as da base maiores do que as superiores, deram origem ao que vemos ainda hoje, a dita “pirâmide escalonada”. Tem 60 metros de altura e uma base de 121 por 109 metros e uma câmara funerária 28 metros abaixo do solo (vários objectos foram aqui encontrados, incluindo os azulejos de cerâmica azul e verde que vimos no Museu Egípcio), uma autêntica obra de arte da autoria de Imhotep, considerado o primeiro arquitecto da história (arquitecto este que acabou por ser considerado uma divindade no Antigo Egipto, patrono dos escribas e identificado pelos gregos como Asclepius, o deus da medicina).

A entrada no recinto da Pirâmide faz-se por um corredor que parece um templo com colunas de pedra na forma de papiros e palmeiras em ambos os lados, género de sala hipóstila. Segue-se o amplo pátio diante da Pirâmide Escalonada e se a dita pirâmide é uma versão do palácio real eterno em pedra, então este terreiro é como se fosse o pátio do palácio. Um par de pedras com formas crescentes estão a norte e a sul do pátio, representado simbolicamente as fronteiras norte e sul do Egipto, ou seja, o governo de Djoser sobre todo o Egipto.

Pirâmide de Unas

Rodeámos a Pirâmide Escalonada, passámos por o que seriam elementos cerimoniais (praticamente todos em museus), voltámos ao pátio, espreitámos as pirâmides de Dahshur ao longe enquadradas por um camelo, voltámos costas à Pirâmide de Unas e preparámo-nos para seguir viagem. Então e o restante complexo? Uma frustração enorme invadiu as 3 viajantes que há 2 semanas percorriam o Egipto e para a última paragem tinham escolhido uma visita guiada numa conceituada empresa, mas onde lhes calhou uma “guia” que era mais fã de shopping centers do que de monumentos. Até aí havíamos intercalado as visitas aos templos por visitas a solo e visitas guiadas, sendo que nestas últimas não nos preocupávamos em estudar a fundo o que havia a conhecer e seu enquadramento histórico-artístico, indispensável no Egipto. Não nos preparámos previamente para Sakara porque esperámos que a guia fizesse o seu trabalho. Mas, não, a guia entendia que em Sakara nada havia para ver e a custo, por insistência nossa, acabou por nos levar até à Pirâmide Escalonada (entrada incluída neste tour). Que o Museu Imhotep estava fechado, que o Serapeum idem, que nada havia para ver no interior da Pirâmide de Teti e a Pirâmide de Unas e a Mastaba de Ti é como se nem sequer existissem. O complexo de Sakara tem cerca de 7 quilómetros e é o maior sítio arqueológico do Egipto, com túmulos não apenas de pessoas mas também de animais, como era possível que a nossa visita se quedasse pela pirâmide de Djoser? Incrédulas, olhámos para o mapa e demos com o túmulo Kagemni e, firmes, dissemos que queríamos visitar esse, estaria aberto? Com ar de enfado a guia lá disse que sim, não sem antes perguntar se queríamos mesmo visitá-lo.

O túmulo de Kagemni, vizir do faraó Teti (2330 a.C., 6ª dinastia), cuja pirâmide está em frente, sabemos agora que é dono de belíssimo relevos e pinturas cujas cores estão ainda muito vivas, como se tivessem sido pintadas há anos e não há milénios, com cenas do dia a dia como dançarinos, peixes, búfalos e até o crocodilo em luta com o hipopótamo. Ao final do dia percebemos que, sim, o Museu Imhotep estava encerrado, o Serapeum (necrópole de touros sagrados) não sabemos, mas que perdemos a possibilidade de visitar quer a Pirâmide de Unas quer a de Teti, ambas com o interior com decoração de Textos das Pirâmides. Adiante e sigamos para Guiza, ao encontro das pirâmides mais concorridas e dos demais turistas.

Em Guiza estão as maiores e mais famosas pirâmides do Egipto, a grande, a média e a pequena, de Khufu, Kefrén e Menkauré, pai, filho e neto, pertencentes à 4ª dinastia do Império Antigo, da qual Seneferu foi o primeiro rei. A Grande Pirâmide de Khufu é o resultado de uma ambição sem limites e leva mesmo o título de única das Sete Maravilhas da Antiguidade a sobreviver até aos nossos tempos.

Relembre-se que a forma escalonada da Pirâmide de Djoser já havia sido abandonada por Seneferu, pai de Khufu e dono da Pirâmide Vermelha de Dahshur, e é diante das Pirâmides de Guiza que as palavras imponência e geometria ganham todo um outro significado e força. E à memória vêm as palavras de Eça: “Vêem-se sempre, irmãs, iguais, com o seu perfil fino, duma pureza infinita. Mas quando nos aproximamos, então toda a brutal imensidade daqueles ímanes seres nos esmaga: não há na verdade paisagem nem decoração; nada que atraia o espírito poético, nada que alegre e chame a curiosidade dos olhos. Enormes, disformes, descarnadas, desconjuntadas, esfoladas, deixando ver a escabrosidade das pedras como pontas de ossos, cheias de rugas, monstruosas, fazem sucumbir o espírito – e todas as ideias, todos os pensamentos, todas as sensações, fogem diante da sua brutalidade gigantesca, como aves assustadas.”.

A Grande Pirâmide de Khufu, a primeira em Guiza, tem uma base de 230 metros e tinha uma altura original de 147 metros, hoje “apenas” 137 metros, e uma inclinação de 51°. É composta por 2 300 000 blocos de pedra, cada um pesando em média 2,5 toneladas, num total de 6 500 000 toneladas. Napoleão terá dito que as pedras empregues na construção seriam suficientes para construir um muro de 3 metros de altura ao longo da fronteira de França. Foi em 1836 que escavações arqueológicas efectuadas permitiram confirmar o nome do faraó para quem tinha sido construído: Khufu para os egípcios, Quéops para os gregos. À semelhança da Pirâmide Vermelha, de Dahshur, o seu interior pode ser visitado (bilhete à parte).

Já a Pirâmide de Quefrén é a segunda maior depois da de Khufu, com uma base de 215 metros e altura de 136 metros. Parece, no entanto, maior por ter sido construída sobre uma pequena colina natural, estratagema encontrado pelo filho para contornar a promessa efectuada ao pai de que não construiria uma pirâmide mais alta. Mas fez mais, mandou construir a Esfinge para garantir fama eterna.

A Pirâmide de Menkauré é a mais pequena do complexo, com 105 metros na base, 65 metros de altura e inclinação de 51º. E com este faraó chegou ao fim o tempo das pirâmides sumptuosas, passando-se a construir pirâmides mais modestas quer em dimensão quer na qualidade dos materiais. Aliás, estas três pirâmides são acompanhas por muitas outras, menores, as chamadas pirâmides rituais ou pirâmides satélites, e embora não se saiba exactamente a sua função não serão sepulturas para as rainhas nem terão uma função funerária, antes terão sido lugares de recepção de oferendas destinadas a Ra. A 4ª dinastia chegaria ao fim poucos anos após a morte de Menkauré e a próxima dinastia terá dedicado mais atenção à construção de templos do sol. Ter-se-á seguido uma crise, política, económica e climática, e a capital foi transferida de Mênfis para Tebas. Ao longo dos tempos o interior das pirâmides foi sistematicamente pilhado e os seus blocos de pedras foram usados para a construção dos palácios dos califas e das muralhas da Cidadela do Cairo. Até há poucos anos podia subir-se às pirâmides, mas hoje tudo está mais controlado. Ainda assim, parece-nos que o complexo de Pirâmides de Guiza não aguenta tanta gente e muito há para fazer para disciplinar as visitas. E não há lugar onde se sinta mais esta pressão do que diante da Esfinge.

A Grande Esfinge de Guiza está diante das duas pirâmides mais altas do planalto e é um dos monumentos mais emblemáticos da antiguidade. A palavra esfinge deriva do grego “sphinx”, de significado “imagem viva”. É provavelmente o elemento mais fascinante do Egipto e a sua graciosidade e elegância, em especial transmitida pelos lábios e sorriso, faz com que o mistério se adense ainda mais.

É tão bonita que há quem veja nela uma princesa Núbia, embora seja na verdade um homem. Ou melhor, é uma cabeça humana num corpo de leão espraiado e mede 240 metros de comprimento por 66 metros de altura – só a cabeça tem 20 metros -, talhada directamente numa só laje de calcário. A cabeça representa o rosto do faraó Khafré e um símbolo solar que reflecte o poder, sendo a sua função a de guardar o seu túmulo. Acaba, no entanto por servir de guardiã de toda a necrópole de Guiza. Não obstante, perdeu importância ao longo dos tempos, foi restaurada na 18ª dinastia do Império Novo quando já tinha 1000 anos, sofreu mutilação e perdeu o nariz e esteve enterrada na areia durante muitos séculos, de tal forma que nem Heródoto nem Estrabão deixaram registos escritos sobre ela. Apenas a partir de 1923 começou a ser desenterrada por completo, um trabalho que levou 10 anos, e desde aí a sua figura vem despertando em todos os que tiveram a oportunidade de a visitar um sentimento de admiração e respeito únicos. Gratas.

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