Highlands

As Highlands (Terras Altas) escocesas são conhecidas pela sua beleza natural, acolhendo paisagens brutais. Nela ficam espaços de natureza tão incríveis e concorridos como o Loch Lomond & The Trossachs, o Glencoe, o Parque Nacional Cairngorms e, mais a norte, o North Coast 500, um circuito de 830 kms com início em Inverness. Lochs são lagos, glens são vales, no parque resiste a antiga floresta Caledónia e a costa dá directamente para o mar. Para além disso, é a região mais montanhosa de todo o Reino Unido, com 282 dos chamados munros, picos acima dos 3000 pés (914 metros), incluindo o mais alto do Reino, o Ben Nevis, com 4413 pés (1345 metros). É, ainda, lugar de castelos históricos e dos famosos uísques escoceses, com muitas destilarias com portas abertas a visitas. Em resumo, é a região mais desejada da Escócia, o great outdoors no seu melhor.

Historicamente, a língua e as tradições das Highlands foram diferentes das Lowlands escocesas. A sociedade das Highlands estava assente num sistema de clãs, em que os seus membros eram obrigados a lutar pelo seu chefe, que dominava o território, desafiando a autoridade do rei. Daí que fosse vista como uma terra sem lei. Todavia, entre 1760 e 1850, surgiu o que ficou conhecido como as Highland Clearances, iniciativa que levou ao desalojamento – forçado – de milhares de pessoas rumo a sul ou para a emigração, em consequência de uma mudança radical no sistema agrícola até então vigente, acabando-se com o sistema feudal de clãs que já estava a declinar. Com efeito, os grandes proprietários entenderam então que seria mais lucrativo ocupar a terra com ovelhas e, assim, se a ocupação humana já era escassa nesta grande região, mais diminuta se tornou, despovoamento este agravado pela ida de uma geração de jovens para as guerras. Tal mudou para sempre a paisagem das Highlands, daí que se diga que esta região selvagem foi feita pelo homem, num processo doloroso.

The Trossachs
Lago Lomond

O Parque Nacional Loch Lomond & The Trossachs fica a menos de uma hora de carro de Glasgow e pouco mais de Edimburgo, sendo, por isso, muito visitado. É todo um outro mundo. Deixada a agitação das cidades, entra-se na evasão das grandes paisagens. No sudoeste das Highlands, marca a fronteira entre estas e as Lowlands e é o primeiro parque nacional da Escócia, um oásis de florestas, lagos, cascatas e picos escarpados, com 21 munros e mais de 20 ilhas. E, como não podia deixar de ser, é uma terra de lendas e misticismo, com histórias de selkies, as mulheres focas capazes de tomar forma humana. No Parque, dominam o Loch (Lago) Lomond, o maior em área, e as montanhas e vales do Trossachs. O cenário que envolve o Lago Lomond é idílico, não surpreendendo, pois, que tenha inspirado uma série de cantores e artistas escoceses. E há algumas vilas à sua beira que merecem uma visita, como Luss, Balloch e Balmaha.

Luss
Luss
Luss
Luss
Luss

Luss é a mais bonita delas, uma povoação antiga – há registos de que no ano de 510 já havia aqui uma igreja – de uma serenidade tocante. Reconstruída no século 19, as suas casinhas de arquitectura típica são um mimo, a poucos passos da praia de areia branca adornada com um pier. Tem ainda uma igreja bem bonita e com uma história interessante: foi construída em 1875 por Sir James Colquhoun em memória de seu pai, que morreu afogado na volta de uma expedição no Loch Lomond; o interior da igreja possui vitrais e um tecto que foi desenhado para parecer um barco de cabeça para baixo.

Balloch
Balloch
Balloch
Balloch
Balloch
Balloch

Em Balloch, com uma marina muito concorrida, percorremos o seu Country Park, uma floresta exuberante que tem, também, um caminho pedonal ribeirinho junto ao rio Leven, o rio que traz as águas do Lago Lomond até ao rio Clyde, em Glasgow. Tem ainda um castelo, o Castelo Balloch, com o seu Walled Garden (Jardim Murado) no meio da floresta, bem como um jardim chinês e um jardim secreto que, talvez por ser isso mesmo, secreto, não o descobrimos.

Trilho Conic Hill
Conic Hill
Lago Lomond
Lago Lomond

Balmaha é a mais pequena destas três vilas, mas serve de ponto de partida para uma caminhada até ao Conic Hill, que nos oferece panorâmicas irreais do Lago Lomond e suas ilhas. O trilho sobe um bocado, mas todos o percorrem, até os nossos avozinhos, tão maravilhosa é a paisagem prometida.

Glencoe
Glencoe
Glencoe
Glencoe
Glencoe
Glencoe

Nas Highlands, os superlativos são imparáveis e, muito merecidamente, Glencoe está sempre presente. Conduzir e caminhar por esta região é um prazer imenso que nem a costumeira chuva escocesa é capaz de abalar, até porque percebemos aqui que a um momento de chuva se segue outro de céu com abertas. As montanhas são rugosas, de um apelo magnético, e os vales de uma imensidão soberba. Glen, já se sabe, significa vale e Coe é o nome do rio que o atravessa. Destaque para dois pontos / caminhadas: as Three Sisters como ponto de partida para o Lost Valley e o Glencoe Lochan.

Three Sisters
Vale das Three Sisters
Trilho Lost Valley
Trilho Lost Valley
Lost Valley

O miradouro das Three Sisters, três irmãs, deixa-nos diante de três majestosos picos, o Aonach Dubh, o Geàrr Aonach e o Beinn Fhada, todos eles com mais de 800 metros de altitude. Só por si, esta vista é de uma enormidade grandiosa, mas daqui sai, ainda, um belo trilho até ao Lost Valley (o vale perdido). São 4,5 kms, percorridos em 2h30, ao longo de um desfiladeiro rochoso apertado, por onde corre um riacho que tem pequenas quedas de água. A espaços, ficamos totalmente envolvidos na floresta, até que no final do trilho nos aparece o dito Vale Perdido, belíssimo na sua forma em U e dando ares de termos chegado ao fim do mundo, tão distante e isolado ele nos parece. Como curiosidade, custa a crer que no século 17 esta região tenha sido palco dos ataques do clã Campbell ao clã MacDonalds, tendo os membros deste último usado estes trilhos, em fuga.

Glencoe Lochan
Glencoe Lochan
Glencoe Lochan
Glencoe Lochan

A caminhada ao redor do Glencoe Lochan é bem mais curta e fácil, apenas 2,5 kms sempre planos, tirando os primeiros minutinhos. Aqui não há beleza agreste, antes uma beleza serena, de tal forma que comporta uns incríveis reflexos da vegetação nas águas do lago.

Mais a norte, Fort Williams e o Glen Nevis são as próximas paragens. Mais um pedaço de beleza oferecido pelas Highlands escocesas. Aqui tem início o que é conhecido como o Great Glen, uma falha geológica que por 100 kms segue de Fort Williams a Inverness, numa sucessão de lagos e vales (Loch Linnhe, Loch Lochy, Loch Oich e Loch Ness).

Camusdarach
Glenfinnan
Igreja Glenfinnan
Viaduto Glenfinnan

Cidade muito movimentada, perto ficam as bonitas e desérticas praias de areia branca de Camusdarach e o Viaduto Glenfinnan, conhecido pela “Ponte Harry Potter” por, entre outros filmes, ter sido parte do seu cenário. À minha visita, adolescentes pousavam para fotos vestidos de personagens do livro com o Viaduto como enquadramento. Um sucesso. Todavia, não cuidámos de, antecipadamente, verificar o horário da passagem do comboio que por lá passa, parte da West Highland Railway, que liga Mallaig, Fort William e Oban a Glasgow. No mais, o Viaduto Glenfinnan, imagem icónica da Escócia, foi construído por Robert McAlpine & Sons e desenhado por Simpson & Wilson, possuindo 21 arcos, 380 metros de comprimento e 30 de altura.

Steall Meadows
Steall Meadows
Steall Meadows
Steall Meadows

A não perder, não muito longe, a curta caminhada de 3,5 kms feitos em cerca de 1h 30m, conhecida por Steall Meadows. Começamos por adentrar na floresta, por um trilho luxuriante, e depois seguimos nas margens de um desfiladeiro (Steall Gorge), onde numa fenda profunda percebemos a água agitada que, de tanto bater na base da rocha, a foi modelando. A vegetação da dita floresta está mesmo agarrada à encosta íngreme. E, de repente, o desfiladeiro abre-se a um vale, que toma a forma de prado (Steall Meadows), encravado em encostas montanhosas imponentes e belas. E logo nos vamos aproximando de mais uma surpreendente cascata (a Steall Falls), que cai numa torrente poderosa. Tudo isto se passa no sopé do Ben Nevis, o maior pico de todo o Reino Unido, com 1345 metros de altitude.

Castelo Urquhart e Lago Ness
Castelo Urquhart e Lago Ness

Ainda mais a norte, na continuação do Great Glen, fica um dos pontos mais visitados de toda a Escócia. É o Loch Ness, aquele da lenda do mostro de mesmo nome, que estará adormecido nas águas do lago por séculos e que a qualquer momento aparece a uns quantos sortudos. À beira do lago fica o Castelo Urquhart, um dos que é obrigatório marcar a visita com antecedência, tão concorrido que é. Garantimos a nossa logo para manhã cedo, mas apesar de apaixonadas por castelos fugimos rápido da confusão, preferindo ir à descoberta de paisagens menos vividas.

Glen Affric – Trilho Dog Falls
Dog Falls
River Affric
Trilho Loch Beinn a’ MheadhoinLoch
Glen Affric
Plodda Falls

O dia estava terrível, mas ainda assim insistimos em visitar o Glen Affric, que vem descrito, adivinhem, como um dos mais bonitos da Escócia. Pena. Não o obtivemos na sua melhor expressão, mas ficou a ideia de um lugar de uma natureza plena, feita de lagos, rios, cascatas e florestas de pinheiros. Aproveite-se os seus percursos pedestres bem marcados e cascatas como a Dog Falls e a Plodda Falls, um espectáculo poderoso do alto dos seus 46 metros.

Rio Dee
Rio Dee

Para o final desta jornada pelas Highlands, deixámos o Parque Nacional Cairngorms, o maior do Reino Unido. Tem fama de ser um dos melhores para a observação de aves, ao mesmo tempo que nos apresenta mais um bonito cenário de montanha, acolhendo cinco dos mais altos picos da Escócia. Nele podem ainda encontrar-se áreas com a antiga floresta Caledónia, que outrora cobriu todo o país, e é o único habitat ártico-alpino do Reino e uma das suas regiões mais frias.

Punch Bowl
Linn of Quoich

Três rios percorrem o Parque. Num deles, o rio Dee, há pelo menos duas atracções imperdíveis. Uma, o The Punch Bowl, onde no Linn of Quoich uma série de rápidos formam cascatinhas atraentes e, melhor, existe um buraco redondo esculpido na rocha, cortesia da acção da água.

Balmoral
Balmoral

Outra, o Castelo de Balmoral, desde 1852 uma das residências da família real britânica. Todos nos lembraremos de, ano após ano, em cada verão, a Rainha Elizabeth II ai passar as suas férias, refugiada no sossego das Highlands escocesas. Aliás, foi aí, no seu último verão, que acabou por falecer, em 2022. Mas foi outra longeva rainha a colocar Balmoral no mapa mundo, a Rainha Vitória. Foi ela e seu marido, Alberto de Saxe-Coburgo-Gota (primo do nosso D. Fernando II, rei consorte de D. Maria II), quem comprou a propriedade que permanece privada e não propriedade da coroa britânica, tendo construído o castelo e os jardins ao longo do tempo. Usaram-na como lugar de retiro, aqui caçando, pescando e pintando, apreciando o isolamento e a liberdade das montanhas escocesas. E assim colocaram as Highlands na moda, ajudando, ao mesmo tempo, a acabar com a ideia de que a Escócia era um lugar de selvagens.

Balmoral
Balmoral
Balmoral
Balmoral

A visita a Balmoral é outra que deve ser reservada com antecedência, por muito visitada. Passado o portão principal, a Five Ways é um bonito caminho com árvores de grande porte a ladeá-lo. O rio Dee anda perto e há um caminho ribeirinho dentro de Balmoral. Logo chegamos a um sítio de estufas, com edifícios de vidro a condizer com o que se espera da realeza, e, sobretudo, umas muito bonitas e coloridas flores. Os Kitchen Gardens, por sua vez, para além das flores, fornecem uma série de vegetais, ervas e frutas para a família real quando na residência, desenvolvidos o mais possível organicamente – hum, isto tem dedo do novo rei, Charles III.

Balmoral
Balmoral
Balmoral

Em restauro paisagístico na altura da nossa visita, o jardim the Thistle Maze há de ficar uma beleza. Mas aqui já só temos olhos para o largo prado verde que antecede o Castelo de Balmoral. Por ser uma residência habitual usada, a visita ao interior só é possível em espaços muito limitados, nomeadamente, ao Ballroom, na altura com uma exposição de pinturas de Carlos III.

Castelo de Braemar
Glen Shee
Glen Shee
Glen Shee

Antes de Balmoral, porém, páramos em Braemar, também com castelo, o lugar onde Robert Louis Stevenson teve uma cottage e onde Lord Byron passou parte juventude. Mas mais inesquecível será a antiga estrada militar que nos leva até esta vila, atravessando o lindo Glen Shee, conhecido em tempos como o “Vale das Fadas”. Foi aqui que vislumbrámos um majestoso veado, contemplando o vale como nós.

Carrbridge Packhorse Bridge
Loch an Eileen
Loch an Eileen
Loch Morlich
Loch Morlich

Perto do River Spey, que passa junto à central vila de Aviemore, estão uns quantos lagos que fazem as delícias dos visitantes do Parque. Visitámos o Loch an Eileen e o Loch Morlich, com a sua Floresta Glenmore. A estrada até lá é um assombro, carregada de árvores de ambos os lados, as tais que por séculos vêm ocupando o coberto vegetal, destacando-se nela o pinheiro-escocês. Mais uma maravilha.

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