Morfar em Córdoba

É comum ouvir os portugueses dizerem que em Espanha se come mal, que cá no burgo é que é. Não concordo. O que muitas vezes ocorre é que no nosso país sabemos com o que contar e não nos atrapalhamos na hora de fazer o pedido. Já quando estamos noutro país, com outros costumes, não é tão fácil. Mas é tudo uma questão de descontrair e ir à aventura sem dramas. Se correr mal, paciência. Se correr bem, pode ser uma experiência maravilhosa e um prazer que será recordado por anos. É tudo uma questão de adaptação e estar disponível para vivenciar os hábitos do país que estamos a visitar.
Uma das dimensões de viajar e conhecer a cultura de um país é precisamente experimentar a sua gastronomia. Muitas vezes fiquei frustada por não o fazer. Desta vez não foi o caso.
Ainda que vizinhos e com muitos pontos em comum, nuestros hermanos, neste caso os andaluzes, apresentam uma gastronomia distinta da nossa.
Durante a nossa estadia em Córdoba, que é considerada a capital gastronómica andaluza, pudemos experimentar alguns dos pratos tradicionais. Digladiámo-nos com as magníficas beringelas fritas em polme com mel de cana; com o flamenquín, que é uma fatia fina de carne guisada enrolada num pedaço de presunto, panada e frita; com o salmorejo, uma espécie de creme de tomate servido com ovo cozido picado e polvilhado por cima; com o rabo de toiro; as almôndegas, os revueltos e as tortillas, estes pratos comuns em toda a Espanha.

A nossa geografia gastronómica concentrou-se no centro histórico. Na Judería, localizada na Calle Romero nº 16, fomos à Casa Pepe, uma antiga adega e casa sefardita, com um ambiente simpático e mais requintado do que as outras opções.
Também na Judería, junto à porta de Almodóvar, e do mesmo proprietário, fica a Casa Rubio, com um interior mourisco e ambiente descontraído.

Quase vizinha, na calle Judios, fica a típica Taberna Guzman, boa para beber um copito e comer um chouriço. Tem um interior muito castiço e repleto de elementos alusivos às touradas.

Junto à catedral, numa ruela perpendicular, chamada Calle Medina Y Corella fica a Taberna la Bacalá.
Igualmente numa rua que ladeia a catedral, mas no lado oposto, fica o Bar Santos. Tem um ambiente típico mas muito pequeno, de tal forma que é comum fazer-se o pedido e sair-se para a rua para comer no muro da catedral. Foi o que nós fizemos. E tal como os locais comemos a célebre tortilla, chouriços e mais uns petiscos, tudo acompanhado com um copito de fifty fifty, que é uma mistura de vinho doce e vinho branco.

Para quem gosta de petiscar Córdoba é o local certo. Será que foi por isso que gostei tanto da cidade?

Las Cordobesas

Na Páscoa é costume vermos as cidades portuguesas serem invadidas pelos espanhóis. Desta vez resolvemos reagir a este facto enviando uma pequena armada de três moçoilas para Córdoba, a escassas 5 horitas de distância.
Aparentemente, não muitos outros portugueses se lembraram do mesmo. No entanto, a cidade estava cheia de gente – andaluzes, que celebravam a Semana Santa em infinitas e intermináveis procissões das várias confrarias compostas pela população que ocupavam a cidade inteira, e não ibéricos, estes vindos de todas as partes do mundo.

E não é à toa este interesse por Córdoba. Com uma das mais extensas áreas declarada património mundial pela Unesco, a História acompanha cada passo da nossa visita, principalmente aqueles que são dados pela parte velha da sua cidade, considerada uma das maiores e mais bem conservadas de toda a Espanha (logo, o mesmo é dizer, de toda a Península Ibérica). E o mais interessante de tudo, e o que mais agrada e conforta em Córdoba, é verificarmos que o nome que toma esta zona antiga é La Juderia, o bairro onde se encontrava a Medina muçulmana e onde hoje passam as procissões cristãs. Uma convivência pacífica, pelo menos nos dias de hoje, e talvez por isso Córdoba seja tão pujante e vibrante.

Acredita-se que no século X Córdoba tenha mesmo chegado a ser a maior cidade do mundo, quando se encontrava sob o domínio da dinastia dos Omíadas que ali fundaram o califado de Córdoba. E, a acompanhar a instituição deste califado, atestando todo o seu poder, iniciou-se nesse século a construção de um novo núcleo urbano, a Madinat al-Zahra, também conhecida como “Córdoba la Vieja”, a 6 km de Córdoba. Esquecida durante séculos, escavações arqueológicas em 1911 trouxeram à vista este extenso complexo no sopé da Sierra Morena. Os trabalhos entretanto executados deixam-nos uma ideia do que eram, principalmente, a basílica e os salões dos palácios da velha cidade.

Voltando a Córdoba em si, a visita não pode deixar de se iniciar no bairro La Juderia, com as suas ruelas estreitíssimas de casas branquinhas. Os estores debruçados nas janelas deixam adivinhar que o Verão inclemente já vem próximo. Por aqui fica a Sinagoga, uma das poucas conservadas na Península Ibérica (a propósito de sinagoga em Portugal, ver anterior post em http://andessemparar.blogspot.com/search?q=belmonte), com influências arquitectónicas árabes como o pátio e outros elementos mudéjares.

Os pátios de Córdoba abundam e são um encanto, sendo impossível controlarmos um pouco a nossa educação e não meter o nariz em cada porta por onde vamos passando. Mas é mesmo assim. Eles estão aqui para serem vistos. E sim, é mesmo para entrarmos casa adentro, principalmente se estivermos no bairro de San Basilio, famoso pelos seus pátios carregadinhos de vasos com flores. Ou será que os vasos com flores é que têm um pátio? Existe mesmo um concurso anual para eleger o pátio popular mais florido e por isso os cordobeses levam bem a sério a sua decoração.

Este um dos encantos de Córdoba, caminhar pelas suas ruas, pelos seus pátios, ser recebido pelos seus habitantes, como aquela senhora nonagenária pronta a acolher-nos e a um dedo de conversa, provar as suas tapas nos seus restaurantes cheios nestes dias festivos, propondo-nos reserva de mesa apenas lá para as 22:00, não dando abébias mesmo se argumentávamos ser sobrinhas de Manolete (a minha mana tem sempre lata, mas desta vez andava inspirada).

E quanto a património arquitectónico, não falta escolha – atravessar a Ponte Romana sobre o Rio Guadalquivir, caminhar lado a lado com as muralhas árabes, conhecer a Córdoba tradicional, com os seus conventos, igrejas e praças, a que não falta a “praça maior” cá do burgo, a qual neste caso toma o nome de Plaza Corredera, sempre animada e movimentada como todos as outras do país.

Mas o ponto alto de qualquer visita a Córdoba fica para o fim deste post. E são três: a Mesquita-Catedral, o Alcázar de los Reyes Cristianos e os Hammams de Medina Califal.



Começando pela Mesquita-Catedral, ela, por si só, vale qualquer visita a Córdoba, esteja ela ou não a dois passos de distância de Portugal. Este monstro arquitectónico é o resultado de uma mistura de influências ao longo dos séculos. Construída originalmente por volta do ano de 600 como uma igreja cristã visigótica, sob o domínio dos muçulmanos passou a ser usada como mesquita, tendo sido aumentada de tal forma (no século X) que chegou a ser considerada a 2.ª maior mesquita em todo o mundo. Após a reconquista cristã, no século XIII, voltou a ser usada como igreja. Até hoje. O seu interior é imediatamente reconhecível pelos seus arcos brancos e encarnados que encimam as quase 1000 colunas.

Ali perto fica o Alcázar de los Reyes Cristianos. Mais uma vez, a história da mesquita-catedral repete-se. Originalmente sítio de uma fortaleza visigótica, os muçulmanos começaram por reconstruir a estrutura e expandi-la, construindo palácios, jardins e banhos. Após a reconquista, sobre as ruínas da estrutura pré-existente, o Rei Afonso XI construiu (em 1386) o que vemos nos dias de hoje. Tudo parece muito fiel à arte muçulmana porque o estilo escolhido foi o mudéjar. No entanto, os lindíssimos jardins datam apenas dos séculos XVIII e XIX. Antes desta maravilha, uma história negra: o Alcázar foi utilizado como tribunal da Inquisição, tendo sido palco de interrogatórios e tortura. Hoje é uma atracção turística e a subida às suas torres dá-nos uma vista diferente e superior do Alcázar, embora daí não se aviste a cidade.

E para terminar em puro relaxe e deleite, nada melhor do que uma ida ao Hammam de Medina Califal, que se propõe recuperar o espírito dos banhos árabes. E consegue-o. Num edifício que passaria despercebido numa das ruas da zona velha da cidade, perto da mesquita-catedral, vive-se uma experiência que faz jus ao slogan oficial do turismo de Córdoba “emociona”. Historicamente, a cidade contava com mais de 600 banhos árabes públicos na época do domínio muçulmano. Hoje é possível visitar-se alguns deles, mais ou menos recuperados ou conservados, mais ou menos humildes ou luxuosos. Mas todos eles, obviamente, desactivados. Resta-nos, então, este Hammam de Medina Califal, que apesar de não ter sido erigido sobre nenhuma estrutura que antes tivesse a mesma função, nos permite banhar nas suas águas temperadas, quentes e frias, à vez, com direito a banho turco e massagem, num ambiente fiel ao que imaginamos ser a arquitectura árabe, com os mosaicos e os arcos coloridos sobre as colunas que já viramos na mesquita-catedral.
Apenas mais uma experiência para tornar o passeio a Córdoba inesquecível.