David Hockney: 60 anos de Carreira

O pretexto desta viagem a Londres foi a visita à exposição temporária da Tate Britain, patente de 9 de Fevereiro a 29 de Maio, “David Hockney: 60 Years of Work”.
 

 

David Hockney é considerado o maior artista britânico vivo e o mais reconhecido, com uma elevada reputação quer entre o público quer entre os críticos. Com 80 anos de idade e 60 de carreira artística, a Tate apresenta-nos por estes dias uma enorme retrospectiva da sua obra.
 
Uma obra plena de versatilidade, dominada à vez pelo uso da pintura, fotografia, vídeo, iPhone e iPad, escrita de ensaios de pendor artístico-filosófico, numa constante reinvenção de Hockney ao longo de todas estas décadas. Didier Ottinger titula o seu texto do catálogo da exposição como “Quando Chaplin dança com Picasso”, aludindo à forma como Hockney consegue reconciliar a pintura com a tecnologia e fundir a dita pintura com o cinema. 
 
Poucos artistas tão completos haverá.
 

 

Conhecia algumas obras de David Hockney, em especial as suas pinturas de piscinas e as suas paisagens de Hollywood e do Grand Canyon, quase todas elas através da visualização de imagens impressas em livros. 
 

 

Vê-las ao vivo foi, no entanto, surpreendente e um prazer imensurável. Grandes telas que enchem todos os nossos sentidos, “uma orgia de cor”, nas palavras de Jorge Calado no seu texto na edição de 11 de Março do Expresso, por parte de “um dos raros artistas que conseguem ser simultaneamente exuberantes e económicos”.
 
Apesar de termos bilhete comprado com antecedência, chegámos cedo e começámos a formar fila antes da abertura da Tate. Às 10:00 em ponto entrámos e numa decisão mais do que acertada passámos directamente para a terceira sala de forma a contornar as muitas pessoas que enchiam desde logo a exposição. Quando no fim aqui voltámos foi impossível arranjar espaço para partilhar estas duas salas, quanto mais tentar uma olhada consentânea para com estas obras. Todavia, todas as restantes onze salas foram vistas à larga e demoradamente.
 

 

Foi possível captar e entender as técnicas usadas por Hockney, não apenas nas linhas e curvas das suas piscinas, mas sobretudo nas colagens fotográficas. Pearblossom Hwy é uma das suas obras mais famosas e como nunca a tinha visto ao vivo sempre pensei que fosse uma pintura. Nada mais errado. No princípio dos anos 80 Hockney criou uma nova técnica de colagem de fotografias. Considerando que a fotografia mais não é do que o ponto de vista de um Ciclope paralisado numa fracção de segundo, o que a impede de representar o mundo e a experiência de viver no mundo, Hockney decidiu-se a juntar diversas polaroids, resultando do seu conjunto uma imagem dinâmica que reúne todas elas.
Eis um exemplo com “Gregory Swimming”
 
 
David Hockney nasceu no Yorkshire, mas fixou-se na Califórnia nos anos sessenta. Regressou à sua terra natal já neste milénio, para acabar por voltar novamente para a Califórnia. Estas duas regiões são marcantes na sua obra e grandes e intensas pinturas mostram-nos o porquê. A zona dos Wolds, no Yorkshire natal, foi ainda inspiração para uma interessante experiência em vídeo. Através da instalação de uma câmara no exterior de um carro, Hockney realizou o mesmo caminho de estrada por um bosque nas quatro diferentes estações do ano.
 
A minha maior curiosidade era, porém, ver como David Hockney realizava as suas pinturas em IPad. Pois é. Este é um dos caminhos que tem seguido nos últimos anos. Mais uma nova técnica, mais uma nova surpresa, mais uma demonstração da sua versatilidade. 
 
No fundo, o percurso de David Hockney reúne coerentemente as suas diversas experiências motivadas pelo desejo de realizar imagens que representem a forma como nós observamos e compreendemos o mundo.

Novas Perspectivas em Bermondsey

Prosseguindo na busca de vistas, que tal este postal de Londres, com a Tower Bridge emoldurando os novos arranha-céus da cidade?
 
 
Bermondsey é um bairro a sul do Tâmisa em que muito provavelmente a esmagadora maioria dos turistas não pisam. E, no entanto, este bairro fica bem junto à Tower Bridge, um dos marcos da cidade. Pode ter uma localização central, o edifício da Câmara Municipal de Londres também fica ali perto, mas só a partir deste milénio ganhou a sua primeira (e única) estação de metro. Em contrapartida, a sua estação de comboios foi uma das primeiras da cidade. 
 
É um daqueles bairros que não se costuma fazer questão de visitar numa primeira viagem, mas que se deve visitar por representar bem a Londres de hoje. Pobre e rico na mesma medida, está na calha como o mais novo destino hipster da cidade. Antigo lugar de cais, armazéns e indústrias, arrasado na II Grande Guerra Mundial, vítima de decadência, hoje condomínios pululam, bem como cafés e restaurantes aconchegantes e lojas com carácter. Mantendo-se fiel às raízes, após uma ala preenchida por oficinas de automóveis, do outro lado do túnel da ponte por onde passam os comboios fica a Maltby Street e o seu mercado de comida de rua aos fins de semana, cujo furor é já comparado ao não muito distante Borough Food Market.
 

 

Caminhando pelo bairro é quase impossível não se dar com o The Shard e o seu topo com ar de work in progress.
 

 

Mas o mais curioso é a vista dos seus cais. A Tower Bridge fica de um lado, já sabemos desde o princípio deste post. E o que dizer desta vista de uma quase idílica casinha azul que poderia indicar estarmos numa vila banhada por água, não fosse um olhar mais atento descobrir os condomínios upa-upa de Wapping à frente e as distantes torres da Canary Wharf à direita?

Oxford

Quarta-feira, dia 29 de Dezembro, resolvi que o quarto dia em Londres seria passado um pouco longe da cidade. Fui até Oxford, desejo antigo, e confirmei o mau serviço dos transportes públicos por aqui. Tantos anos enganada, mas agora foi de vez. Comboio lento e com paragens para mudança de tripulação pior que tartarugas é igual a atraso certo. O mito da pontualidade britânica foi-se.
O dia em Oxford foi chuvoso e escuro. Ainda assim, a imponência e elegância dos seus edifícios é bem visível.

Desde sempre me habituei a ouvir falar na universidade de Oxford, a maior entre as maiores, mas o que não sabia é que não existia apenas uma Universidade de Oxford, mas antes um conjunto de prestigiados colégios que pertencem todos eles à dita Universidade de Oxford.

O centro da cidade é relativamente pequeno. A uns poucos passos da estação de comboios, depois de passarmos um pequeno canal – onde tentei entender onde se poderia fazer remo por aquelas paragens, lembrando a mítica rivalidade Oxford x Cambridge – fica logo o centro e a sua rua pedonal com comércio. Por toda à volta se vêem edifícios onde estão instalados os colégios ou que lhe servem de infra-estrutura, como bibliotecas, com as omnipresentes bicicletas à porta. Depois de caminhar pelos inúmeros parques da cidade, muitos deles dedicados especialmente ao desporto que o estudante são não só em mente tem de praticar, visitei o Christ Church e o Lady Margaret Hall.

O Christ Church porque é provavelmente o maior e mais prestigiado colégio de Oxford, o que mais formados ali transformou em primeiros-ministros britânicos (parece que foram “só” treze). Faz parte do nosso imaginário de aventuras, desde a Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll até ao Harry Potter. Tem uma catedral lindíssima dentro do próprio colégio que é a diocese de Oxford. E tem um pátio – o quadrângulo ou Tom Quad – enorme, em conformidade com a grandeza de tudo o que nos rodeia.

O Lady Margaret Hall porque foi o colégio onde Benazir estudou (a propósito, no Christ Church estudaram o seu pai e o seu filho). Este é absolutamente belíssimo, encantador e plácido, enfim, todos os adjectivos lamechas que encontremos pelo caminho servirão para o descrever. O vermelho quase ocre do seu edifício principal e mais antigo contrasta na perfeição com o verde vivo da relva do primeiro pátio. E depois, colégio adentro vem então a surpresa, os seus jardins imensos, atravessados por um rio estreitíssimo, mesmo junto ao University Parks.

Para além de uma caminhada pela cidade e pela visita a estes dois colégios, tive ainda tempo para uma espreitadela ao Ashmolean Museum, um dos mais antigos do Reino. É bastante completo e atravessa quase todos os tipos de arte, desde arqueológica, decorativa, antiga, até obras mais recentes e mesmo contemporâneas. O edifício está muitíssimo bem adaptado.

Bom, e agora que já conheço um pouco de Oxford fico a sonhar com uma futura visita à rival Cambridge.