Como Andar Pela Islândia

A melhor forma de conhecer a Islândia, já que os seus encantos não estão, de todo, nas poucas cidades dignas desse título, é alugar um carro e percorrer a ilha de uma forma autónoma, com tempo (9 dias pelo menos), já que os transportes públicos não são uma opção para se chegar aos locais que mais (nos) interessam.
Claro que se vêem viajantes de bicicleta, como o holandês cinquentão que encontrámos pronto para pedalar um desvio de 6 km para lá e mais 6 km para cá de uma estrada em terra batida só para ver uma igrejinha de madeira que o Lonely Planet dizia valer a pena a visita (e valeu).

E claro que também se vêem viajantes (loucos?) a caminhar pelas estradas com a mochilona às costas, sem problemas de a encostar no apoio do parque de estacionamento do início do trilho (mais um) que se propõe executar para lá e para cá, mas desta vez com as costas mais aliviadas. A Islândia é um país seguríssimo (andámos sempre com tudo no carro, incluindo documentos e dinheiro), mas, pois é, ninguém nos contou, nós vimos o rapazinho de mochila às costas a caminho do Krafla e, umas 3 horas depois, quando já estávamos de volta dos nossos passeios, o mesmo rapazinho sem a mochila às costas – estacionada no dito parque – pronto para uma caminhada de mais de 1 hora para assistir ao fenómeno das borbulhinhas do Leirhnjúkur.
Mas, reafirmando, a melhor opção não deixa de ser o carro. E de preferência um jipe 4×4 para chegar a todo o lado e não se estar sujeito às multas do rent a car abusivamente cobradas – dizemos nós, que nos tocou essa fava – por se conduzir em estradas que eles não gostam. Porque a verdade é que tirando a Ring Road, a única “auto-estrada” de uma faixa para cada sentido, e com troços de gravilha, as estradas ainda não são de país mais rico do mundo. O que não se pode criticar, uma vez que as distâncias chegam a ser enormes, ainda que olhando para o mapa o possam não parecer. Mas basta lembrar que há que contornar o fiorde, há que subir para logo descer a montanha, há que evitar o glaciar.

Por outro lado, com o carro e com o dia longo de luz, fica mais fácil estender a jornada e procurar alojamento. O ideal é ir reservando de um dia para o outro, pelo menos. Mas, assim, acaba por não haver surpresas como a que tivemos para os lados de Akureri (a segunda cidade da Islândia) quando não encontrámos alojamento vago numa extensão de uns bons 50 km e fomos ter a um hotel à beira de um lago onde nos foi respondido que já não havia quartos disponíveis, mas que tinham salas de aula caso tivéssemos sacos cama. Sorry? Class Rooms? Sim, com quadro e carteiras e tudo. E inteirinhas só para nós duas. E num outro “hotel” calhou-nos um ginásio inteirinho com cestos de basquete de cada um dos lados, incluindo uma bola, mas incluindo também mais uma solitária mochileira. Apesar de anteriormente ter lido sobre a ideia, já a tinha esquecido. É o seguinte: como as povoações que vão aparecendo fora das poucas cidades têm escassa população (a esmagadora maioria não passa dos 100 habitantes), os miúdos têm de se concentrar em escolas e aí permanecer internos pelo menos durante a semana. Logo, as escolas têm salas de aula e ginásio, sim, mas têm também quartos, salas de estar, cozinhas, piscinas. E se no Inverno o seu uso é exclusivo dos alunos (e professores), no Verão, quando estes vão de férias, as escolas são transformadas em hotéis e aproveitadas para os turistas. Com quartos para os remediados e espaços comuns para os pelintras. A somar às pousadas da juventude que existem espalhadas um pouco por todos os cantos, estes hotéis escola são, assim, uma boa forma de se tentar poupar dinheiro num país caríssimo.

Outra forma de poupar algum dinheiro é comprar umas comidinhas simples e rápidas no supermercado, parar ao almoço para fazer um piquenique e aproveitar a cozinha do hostel para preparar o jantar. Mas esta forma de poupança é quase obrigatória, pois se o jantar para dois num restaurante sai praticamente ao mesmo preço de um quarto duplo, ao almoço pura e simplesmente não se encontram locais para o fazer. No meio do caminho escasseiam os supermercados, normalmente sempre junto a bombas de gasolina, daí que também seja boa ideia ir abastecendo de combustível com frequência para não se correr o risco de ficar parado, literalmente, no meio do nada.

A paisagem da Islândia é variada, mas os desertos abundam. Seja o deserto de mar, junto aos fiordes, seja o verdejante, com os carneiros e cavalos a brincar à vez, seja o de lava, seja o de gelo, seja o de sedimentos – o sandur, palavra islandesa que entrou para o léxico mundial. Será uma terra inóspita no Inverno, nem consigo imaginar tamanha desolação, mas bastante agradável no Verão (que não passa de um Inverno encapotado para nós, portugueses). Há sempre alguma novidade geológica ou paisagística ao virar da curva. Uma igreja a descobrir, sejam as de madeira de séculos passados, seja as de poucas décadas, de arquitectura futurista que jamais se esperariam encontrar perdidas no meio dos fiordes. As montanhas têm cores tão lindas e variadas que é impossível deixar de as admirar ou cansarmo-nos da sua presença. Os glaciares são tantos e tão extensos que se pode viajar um dia inteirinho de carro com aquelas massas de gelo sempre ao nosso lado. As quedas de água sucedem-se, de todas as formas e feitios. Há-as em todos os cantos da Islândia. E assim como não consigo escolher a minha preferida, também não consigo dizer qual das regiões da ilha mais gostei.

Um lamento, apenas: não termos ido ao interior da ilha, aquele que é descrito como o mais aterrador local, por conjugar todos os adjectivos que descrevem o isolamento e a desolação. Não foi por isso que não chegamos até lá, mas antes por falta de condições técnicas, digamos. Com isso deixamos de viver e sentir, certamente, uma experiência apaixonante. Em todos os sentidos, pois há quem diga, e no que toca aos islandeses são a maioria, que este é o local para se encontrar com os elfos e criaturas afins. Uma curiosidade para o fim, muitos islandeses não só afirmam ter visto estes seres como garantem ter mantido com eles relações sexuais. Suspeito bem que esta é a única publicidade enganosa acerca da Islândia.

Reykjavik

O único momento em que pude ver a noite da Islândia foi à chegada tardia a Reykjavik. E mesmo assim, apenas uma espécie de noite vivida no começo da madrugada.
E os edifícios baixos da capital, de 2 ou 3 pisos, bem que merecem dias soalheiros que realcem o seu colorido para que a paisagem possa ficar mais pitoresca.

Reykjavik está situada à beira do Atlântico Norte e é uma cidade que claramente foi crescendo para e pelo porto, mantendo a linha dos seus edifícios antigos, com as casas de madeira.
Mas se o espaço no mar é dominante, o espaço na cidade não o é menos. Crescendo em comprimento e não em altura, as habitações com os jardins mostram que se preocupam com a qualidade de vida, e os prédios foram deixados para o que se pode chamar de subúrbios, numa série de cidades que foram sendo criadas à volta de Reykjavik e que com ela hoje se confundem. São cerca de 270 mil habitantes (a esmagadora maioria de todos os habitantes da ilha estão aqui concentrados) que vivem numa cidade agradável, sem ser linda de morrer, com parques à medida, uma oferta de restaurantes cosmopolita e, dizem, com uma animação nocturna das mais loucas do mundo. O lago Tjornin marca uma presença forte em toda a cidade, mais evidente ainda quando observado da torre da igreja Hallgrimskirkja.
Desta vez deixámos os museus de lado e apenas dedicámos um dia para caminhar pela cidade. Dá para ficar com uma ideia, mas, óbvio, não dá para dizer que a conhecemos ou, talvez, a entendemos. Aqui fica, no entanto, um possível best of do que não deve ser perdido:

– uma voltinha idílica pelo Lago Tjornin

– caminhar pelo porto, junto ao Atlântico Norte, e parar para observar a original escultura de um barco viking, o Sólfar

– aproveitar um passeio pelo jardim de esculturas na casa estúdio de Ásmundur Sveinsson

– deambular pelo centro descobrindo as casas de madeira, cada uma da sua cor
– olhar para o céu e tentar imaginar que horas serão… ops… 21:00? Hora de jantar no restaurante Fish Market e provar a carne de baleia como entrada.

O Centro da Terra

Não é fácil imaginar como apenas cerca de 320 mil habitantes, distribuídos por um pedaço de terreno um pouco maior do que o de Portugal Continental, conseguem constituir, sustentar e incrementar uma economia auto-suficiente e autónoma (faz de conta que escrevi isto há uns meses). Mais desafiante ainda para a imaginação: não só o conseguem como ainda fazem do seu país um dos mais ricos e desenvolvidos do mundo. E vivem do quê? Cada vez mais do turismo, mas, essencialmente da pesca, da carne de cordeiro, de um pouco de leite. Quanto a recursos naturais estamos praticamente conversados – tirando magotes de energia hidroeléctrica e geotérmica, que fazem com que os islandeses tenham água quente e aquecimento das suas casas praticamente à borla.
À parte isto, o forte da Islândia são mesmo os seus fenómenos naturais – fiordes, lagos, glaciares, quedas de água de todas as formas e feitios, piscinas naturais com água naturalmente (mais do que bem) aquecida, praias de areia preta, vulcões e suas crateras, lava, sandurs (desertos de sedimentos), montanhas coloridas, géisers, canyons, parques naturais com infindáveis oportunidades de caminhadas. Terei esquecido de alguma coisa neste rol dos fenómenos da natureza que mais encantam? Então acrescento-lhe ainda as baleias, os puffins e os cavalos islandeses, belos de morrer. Só não tivemos direito a aurora boreal, mas isso a culpa é da época do ano.
Apenas umas curiosidades mais. Apesar de geologicamente a Islândia ser parte tanto da placa continental europeia como americana, pertence à Europa, mas não se livra de ter como pedaço de terra mais perto de si a Gronelândia, a 287 km, sendo a Noruega, a 970 km, o mais perto que consegue alcançar do continente europeu. É também com o idioma norueguês, segundo uma portuguesa que encontrámos por lá a trabalhar, que a sua língua é mais parecida, não tendo evoluído muito desde o tempo dos Vikings. Será por isso que não entendemos nada do que falam e escrevem? Mas se por aqui não podemos falar em movimento e juventude, que dizer da ilha de Surtsey, parte do arquipélago das Vestmannaeyjar, uma das mais recentes ilhas do mundo, cortesia de uma série de erupções havidas em 1963? Pois, pura energia e emoção, a reviver em próximos posts.

falei das fumarolas fazendo bolhinhas na terra colorida? mais um fenómeno para acrescentar à lista

Brevíssima Introdução à Viagem ao Centro da Terra

Para a Islândia, projecto antigo, só havia uma solução: reservar parte do mês de Julho, de preferência o seu início para ganhar o maior número de horas de luz em cada um dos dias. Na parte que me toca, objectivo plenamente cumprido. Como sou – e lá me mantive – uma menina bem comportadinha, não cheguei a ver mais do que um leve lusco fusco nos 12 dias que passei na ilha com vista (quase) para o Árctico.
Se a Islândia é reconhecida pelas suas paisagens naturais fantásticas, porquê começar por aqui?
Porque é mesmo esquisito andar-se um dia inteirinho sem se notar que a terra quer anoitecer, que são horas de parar a jornada de carro e ir procurar lugar para dormir. E, então, dormir de dia, por vezes com uma claridade que não se via durante o dia propriamente dito. Sim, o sol da meia-noite existe mesmo.
Quanto ao mais, e cumprindo a tradição nórdica, a Islândia é mesmo um lugar civilizado, onde tudo corre pela certa, descontando, é claro, o facto de o país ter ido à bancarrota há meses. Resultado? Menos turistas islandeses pelas praias algarvias neste Verão. E um singelo comentário: se a moeda deles desvalorizou horrores e a economia veio por aí abaixo, continuando os preços lá bem em cima (do ponto de vista desta portuguesa, é claro), como imaginar o custo de vida anterior? A viagem de avião não é barata, o aluguer de carro é estratosférico (vá que a gasolina está ao mesmo preço de Portugal, mas aí parece que o preço das nossas gasolineiras é que é abusivo), as dormidas em saco de cama nos hostels toleram-se, os piqueniques feitos dias a fio ficam por uma pechincha apenas quando comparados com o que se paga em um (qualquer) restaurante da ilha.
Mas, lá está, é aquela viagem que todos temos (devemos) de fazer. A Viagem ao Centro da Terra, como já Júlio Verne tinha escrito.