Istambul Velha

Subindo desde a zona do porto de Eminonu, desembocamos no bairro de Sultanahmet, conhecido como a “Velha Istambul” e classificado pela Unesco como Património Mundial, primeiro local onde os antigos Bizantinos se instalaram. Aqui fica concentrada, provavelmente, a maior quantidade de monumentos extraordinários por m2 em todo o mundo. Exemplos? Aya Sofia, Mesquita Azul, Palácio Topkapi, Cisterna da Basílica. Ufa! Sem falar de um sem número de outras mesquitas e edifícios que se vão encontrando pelo caminho.

Começando pela Aya Sofia, dedicada não a uma santa qualquer mas antes à santa sabedoria (Hagia Sophia, a Divina Sabedoria em grego). Mas como começar pela grandiosa, a imponente, Aya Sofia se ela se encontra cara a cara com a Mesquita Azul, a belíssima, a extraordinária, a maior de todas as mesquitas, construída para rivalizar com a sua vizinha da frente?


Como antiguidade ainda é um posto, comecemos, então, pela Aya Sofia. E pela curiosidade de esta ser uma das 21 “finalistas” em disputa por um dos 7 lugares das “Novas 7 Maravilhas do Mundo”, em votação online. Foi construída no século VI por decisão do Imperador Justiniano, no sentido de recuperar a grandeza do Império Romano e se tornar o maior templo de toda a cristandade. Em 537 ficou concluída – o que quer dizer que tem praticamente 1500 anos (!) – e começou por ser, por influência da época, uma igreja cristã. Em 1453 foi convertida em mesquita e assim permaneceu até 1935, quando Ataturk, “o Pai dos Turcos”, fundador da Turquia moderna, decidiu que deveria converter-se em museu, talvez como parte do seu programa de separar o Estado da religião. O seu interior, com uma cúpula de cerca de 56 metros, apesar dos medalhões gigantes com inscrições em caligrafia árabe, conserva inúmeros mosaicos com motivos cristãos, os quais haviam sido cobertos durante a influência muçulmana. Hoje é visível uma plena convivência de motivos das 2 religiões.
Não obstante todo este esforço para legar Aya Sofia à história, existe quem não se deixe convencer com toda esta grandeza. Mark Twain (o pai de Tom Sawyer) defendia que a igreja / mesquita não passava do “mais velho e bafiento palheiro de todas essas terras de pagãos”. Está certo que o exterior da Aya Sofia pode discutidamente ser considerado monstruoso também no mau sentido da palavra. Mas daí a palheiro e bafiento? Afinal parece que a cruzada americana contra os “pagãos” do Médio Oriente já vem de longe.


A Mesquita Azul, bem visível das janelas da galeria da Aya Sofia, foi construída bem mais tarde, entre 1609 e 1616 (um milénio após a Aya Sofia mas, ainda assim, com a bonita idade de cerca de 400 anitos). Foi projectada em grandíssima escala pelos arquitectos muçulmanos propositadamente para rivalizar com a vizinha cristã. Causou polémica na altura por o projecto desta mesquita conter 6 minaretes – o que até aí apenas a mesquita Kaaba, em Meca, o mais sagrado lugar do islão, dispunha. A questão resolveu-se com o acrescento de um sétimo minarete a esta última.
Os turistas, como curiosos que são, e não crentes, têm uma porta especial de entrada na Mesquita Azul, nos fundos, mas podem assistir à oração. Para tal têm de cumprir as regras: calçado à porta e lenço na cabeça para elas, bem como braços e joelhos devidamente cobertos (regras comuns, aliás, à entrada em qualquer mesquita, esteja ou não em hora de oração). Quanto ao azul do nome da mesquita, este deve-se à decoração do seu interior, em azulejos de Iznik (ainda que hoje a cor azul não seja assim tão dominante, uma vez que originalmente não seria esta a decoração, pelo que tem vindo a ser reposta a antecedente). O chão da mesquita é todo ele coberto de carpetes.


Não obstante todas as grandiosas mesquitas de Istambul, a que podemos ainda acrescentar os nomes da Suleymaniye (situada imponentemente num dos pontos mais altos da cidade), da Yeni (“Nova”, apesar de ter cerca de 400 anos), da Fatih (perto do Aqueduto), a mais encantadora será a Rustem Pasa. Encontra-se escondida entre o bazar das especiarias e o imenso bazar que são as ruas que lhe servem de fronteira. Pequena mas intensamente decorada de azulejos predominantemente azuis no seu interior (esta, sim, mereceria o título de “Mesquita Azul”). A entrada é feita por um vão de escada, onde se vendem óculos e bugigangas, que vai dar a um páteo sossegado. Um mimo.


Do outro lado da rua que atravessa a Aya Sofia e a Mesquita Azul fica a Cisterna da Basilica. Já tinha sido avisada e, de facto, confirmei – apesar da concorrência feroz em Istambul, nenhum dos outros pontos fica a dever nada à Cisterna em termos de imponência, arquitectura, engenharia e deslumbre. Uma autêntica surpresa que esmaga o incauto turista, que não esperaria encontrar um exemplo desta magnitude sob a cidade. A enorme Cisterna foi construída por Justiniano para abastecer o Grande Palácio que na época ocupava quase toda a área do que hoje conhecemos por Sultanahmet. A existência ou, melhor, a redescoberta da Cisterna só aconteceu por volta de 1545, bem depois da tomada do poder da cidade pelos Otomanos, quando estudiosos mais atentos viram locais sair dali com baldes de água e alguns, até, abastecidos com pescaria. Ainda hoje, aliás, se podem vir peixinhos, peixes e peixões a nadar nas águas da Cisterna, sob os efeitos da luz que confere ao local uma atmosfera especial, quase mística, composta por cerca de 336 colunas de mármore com mais de 8 metros. No entanto, apenas 2/3 da estrutura original se encontra visível.


A não perder as cabeças de medusa em duas colunas num dos cantos do percurso.

Ali perto, nas traseiras da Aya Sofia, fica o Palácio Topkapi. Tão lindo, tão lindo que nos 4 dias em Istambul fomos lá por duas vezes, em dois dias diferentes. Está bem que o “bis” não foi nem planeado nem propositado. Quem manda comprar guias e obter documentação e depois não a ler com atenção? Assim falhou a informação de que à terça-feira o Harém está fechado. Resultado: volta ao Topkapi, praticamente colado ao nosso hotel, exclusivamente para fazer os caminhos que outrora sultões e suas concubinas fizeram.


E este é, de facto, um local que é obrigatório não se perder. A visita é necessariamente guiada e, neste caso, valeu bem a pena andar em conjunto com o rebanho. Curioso. O Harém (proibido, em Árabe) já foi o edifício mais inacessível do mundo e hoje recebe enchentes de turistas que tentam ganhar posição em cada uma das imensas salas visitáveis. A competição continua por estas bandas já que antes eram as mulheres do Harém – chegaram a ser mais de 1000 as concubinas que aqui viviam – que tentavam disputar um lugar para serem consideradas a preferida do sultão. O tour permite-nos ter uma ideia do que era a vida luxuosa dos sultões, passando pelos ricos quartos privados do sultão, salão imperial, sala de jantar de Ahmet III e pavilhões gémeos, inteiramente decorados com azulejos. E dá-nos, igualmente, uma ideia da vida das concubinas, passando e passeando pelo pátio e pelos alojamentos que em tempos foi seu, bem em frente dos pavilhões gémeos, construídos para o príncipe herdeiro (para se ir habitando a ficar perto das suas inúmeras futuras mulheres?).

Para além do Harém, muito há a admirar no Palácio Topkapi. Uma manhã exclusivamente dedicada à sua visita não é demais, pelo contrário. Construído entre 1459 e 1465, logo após os Otomanos terem conquistado Constantinopla, foi a principal residência dos sultões até 1853, quando estes decidiram mudar-se para o Palácio Dolmabahçe. São pátios e mais pátios, jardins e mais jardins, pavilhões e mais pavilhões, todos debruçados sobre uma vista maravilhosa para o Bósforo.


A chegada ao terraço que dispõe de uma “janela” aberta para este estreito é deslumbrante.


Do lado oposto, no terraço de mármore com a piscina, a vista para o Corno de Ouro e Beyoglu é também imperdível. Mas aqui é principalmente o espaço que pisamos que deslumbra. A arquitectura e os pormenores dos edifícios é puro trabalho e requinte. Este é o designado 4.º pátio que, para além da piscina, acolhe a sala da circuncisão e o pavilhão de Bagdade. Igualmente, no 3.º pátio, a sala das audiências, com os imponentes trono e divãs, é inesquecível.
Uma palavra para o mobiliário que nos oferece este museu: uma colecção de coches imperiais; cerâmica, vidro e prata e uma colecção riquíssima de porcelanas chinesas; armas e armaduras; fatos imperiais; manuscritos; uma impressionante colecção de vários objectos pertencentes ao designado “tesouro”.

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