Abu Dhabi

Abu Dhabi é a capital dos Emirados. O seu nome significa “pai das gazelas” e este é o Emirado com as maiores reservas de petróleo e gás e, por comparação ao vizinho Dubai, tem sido mais consciente, controlado e sustentado na loucura da construção de edifícios, parques temáticos e ideias estapafúrdias. Mas isso não quer dizer que também não tenham os seus instintos de petro ricos e não avancem megalomania afora. Exemplos: a maior Mesquita fora da Arábia Saudita, a criação de uma ilha artificial para albergar um circuito de Fórmula 1 e o parque Ferrari World, um hotel de não sei quantas estrelas tão luxuoso e distinto que é confundível com a residência oficial do sheik e, o que será a cereja no topo do bolo, previsão para os próximos anos de construir a ilha da cultura, com projectos dos maiores arquitectos do mundo para albergar o novo Guggenheim, o novo Louvre e mais um museu marítimo. Isto, faça saber-se, num país onde o maior museu não é maior do que qualquer museu de uma qualquer província de Portugal.

Abu Dhabi é mais conservadora do que o Dubai. Para nós, o tratamento especial que é dado às mulheres livrou-nos de ficar numa fila que nunca mais acabava na volta do autocarro à noite para o Dubai. Daqui até à capital é cerca de 1 hora e meia numa estrada sempre em excelentes condições e num autocarro confortável que está sempre a sair.

Em Abu Dhabi a imagem do sheik é omnipresente, com fotos por tudo o que é local. A devoção que lhe é prestada só é ultrapassada pela devoção a Alá. Comecemos então por dedicar umas linhas à Mesquita.

Como havia referido atrás, a Grande Mesquita de Abu Dhabi é a maior do mundo tirando a de Meca e Medina na Arábia Saudita. Aqui parece que entramos no reino do mármore e do ouro. Mas o branco intenso é o que domina esta imensa estrutura de minaretes, arcos e colunas, corredores, terraços e salas de oração, a uns quantos kms do centro da cidade, cerca de uma hora de autocarro. Aqui encontramos um mausoléu com o túmulo do sheik Zayed Bin Sultan Al Nahayan, onde um cântico de um grupo de 10 imans que vão lendo o Corão 24 horas por dia, todos os dias, o acompanha. Para além desta ser a maior Mesquita é também das poucas que os não muçulmanos podem visitar. As não muçulmanas, mesmo vestidas de uma forma bem comportada, observando as advertências do conservadorismo do Emirado, são obrigadas a usar uma veste que nos cobre da cabeça aos pés de um preto mais preto do que a minha avó viúva usa. E se o véu cai, como aconteceu insistentes vezes, e nos deixa uma ponta do cabelo à mostra, lá vem prontamente o senhor da Mesquita que zela pelos bons costumes avisar-nos para o compormos.

Para além do impressionante domínio do mármore e do ouro, encontramos ainda cristal de Murano e Swarovski usados para o maior candeeiro do mundo. Na grande sala de oração, com capacidade para 35000 fiéis, para alem dos deslumbrantes candeeiros, impera o tapete persa de uma soo peça que o cobre, feito por mais de 2000 mulheres no Irão, com o peso de 38 toneladas e que, como não podia deixar de ser, é o maior do mundo.

Não muito longe dali, na direcção contrária ao centro da cidade, fica a tal ilha artificial que acolhe um GP de F1, a Yas Island. O circuito está instalado numa marina, com vilas e um hotel no meio. Um hotel lindíssimo, há que acrescentar. Para quem gosta do desporto automobilístico, deve ser fantástico estar no deck de um barco, na varanda de uma vila ou no terraço do hotel a ver os carros passar em alta velocidade com o seu vruumm, vruumm característico.

Ali perto fica o Ferrari World, parque temático da marca do cavalinho rampante com atracções para todos os gostos, desde uma montanha russa à experiência de um test drive.

De volta à cidade, a sua corniche é linda e é uma maravilha caminhar ao seu longo, praias sempre bem arranjadinhas, com o mar de um azul tão intenso que só encontra rival na areia de um branco igualmente intenso. Este contraste dos elementos tem como resultado um postal irreal, sendo uma verdadeira surpresa que o Golfo Pérsico possa nos dar estas tonalidades que mais se espera encontrar nas Caraíbas ou na Polinésia.

No fim da corniche, que percorremos corajosamente durante uns kms sob um calor abrasador (ficamos com as camisolas tão coladinhas ao corpo que se fosse em Portugal de certeza que ganharíamos um convite especial para participar no concurso Miss t-shirt molhada do Correio da Manhã), fica o Emirates Palace, o tal que, se não estivéssemos em terra de petróleo em abundância, só podia ser a residência de um governante. Mas não, é um hotel cuja visita é atracção turística imperdível. Os seus salões são de um luxo só, os seus tectos hipnotizam e as suas casas de banho… bem, qualquer uma fica uma verdadeira bimba a olhar para aquelas torneiras e balcões acompanhados de ouro.

E por falar em companhia de ouro, podemos sair deste hotel com um bocado dele, uma vez que temos aqui uma espécie de ATM que em vez de nos dar notas dá-nos barras de ouro. Muito à frente…

E para o fim fica aquilo que me faz desejar voltar aos Emirados daqui a aproximadamente uma década para ver a evolução louca que não vai deixar de ter. Abu Dhabi tem como projecto fazer da ilha Saadiyat (http://www.saadiyat.ae/en) um espaço de cultura e, para isso, contratou os melhores arquitectos do mundo para projectarem as infra-estruturas que irão acolher as obras que o país não tem e que, faço ideia como €€€, irão passar a ter. Frank Ghery irá ficar com a nova filial do Guggenheim (à semelhança do que aconteceu com a de Bilbao), Jean Nouvel com o novo Louvre, Zaha Hadid com o performing arts center, Norman Foster com o museu nacional, Tadao Ando com o museu marítimo e mais, muito mais. Tudo isto já tinha ouvido sem crer muito. Mas agora vi as maquetas de sonho numa exposição no Emirates Palace (ah, esqueci de dizer que também tem um centro de exposições) e, não fosse a crise que se abateu um pouco por todo o mundo, não tendo os Emirados sido excepção, este projecto estaria para muito breve. Assim, dou-lhe a tal década.

Então ate lá.

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