O Parque Olímpico

Os bilhetes para os quartos de final do basquete, disputados no Basketball Arena, davam direito a entrada no Parque Olímpico, uma vez que aquele estádio ficava lá dentro, paredes meias com a vila olímpica dos atletas.

O jogo estava marcado para as 20:00, teríamos assim um dia inteirinho para desfrutar do lugar mais importante onde os Jogos Olímpicos aconteciam. Antes, porém, saímos em Bethnal Green, também zona este londrina, bairro que começou por ser de agricultores, depois da indústria também já desaparecida, e que viu alguma da acção de Jack, o Estripador. Há cem anos era um dos bairros mais desfavorecidos de Londres. Neste século, tal como grande parte do East End londrino, foi objecto de uma gentrificacão, com a ocupação de classes mais favorecidas. Aqui perto fica o Victoria Park, enorme para os nossos padrões, talvez apenas médio para os londrinos. Mas delicioso, como sempre. Relva bem cuidada, alguns lagos, facilities para desporto. E por esta altura, este parque que costuma acolher concertos de grandes bandas, acolhia, para além de um Live Site dos olímpicos, uma exposição de fotografias intitulada “The World in London” que mostrava 204 retratos de londrinos, cada um originário de um dos 204 países representados neste Jogos. Verdade verdadinha que faltava a fotografia de representantes de uns 2 ou 3 países, como o Guam (?), mas precisa Londres de ter efectivamente um habitante de cada parte mais recôndita do planeta para ser definitivamente considerada a cidade mais cosmopolita de todo o universo?


                                    http://www.theworldinlondon.org.uk/

À conta do passeio pelo Victoria Park entrámos no tão esperado Parque Olímpico pela Victoria Gate, e não pela mais movimentada Stratford Gate (pela qual saímos). Já no metro não tínhamos sentido grande multidão (apesar de termos saído em Bethnal Green, e não directamente em Stratford, a linha para o Parque era a mesma), e a entrar no Parque Olímpico não havia mais ninguém. Ou seja, não se cumpriram os alertas insistentes para a confusão e para as demoradas revistas à ida e à entrada para os eventos olímpicos, de tal rigor que chegaram a ser comparadas aos procedimentos nos aeroportos. Foi de tal forma que chegámos a pensar que teríamos o Parque só para nós. Mas a entrada por esta porta, que nos deixou mesmo junto ao Estádio Olímpico, rapidamente nos tirou as ilusões. Logo nos estreámos na mega store e nas multidões. Ainda por cima, tivemos o rico privilegio de estar à frente do Estádio quando terminou a sessão da manhã das provas do atletismo. Missão cumprida, dúvidas desfeitas: afinal era ali que estavam 80000 das centenas de milhar de pessoas que nesse dia tinham, tal como nós, um bilhete para eventos olímpicos no parque.


Uma vez que não tínhamos bilhetes para o atletismo, muito menos para as cerimónias de abertura ou encerramento dos Jogos, limitámo-nos a desfrutar do Estádio por fora. Não será a peça de arquitectura entre o género mais deslumbrante (inevitável a lembrança do “ninho de pássaro” de Pequim 2008), mas o seu enquadramento paisagístico rivalizará certamente com qualquer outro. O Estádio em si é feito de um material ecologicamente sustentável, com uma espécie de aros saídos, e tons de branco e preto. A toda a sua volta foi aproveitado um canal já existente o qual, após algumas alterações, fez com que a zona onde está instalado o Estádio ficasse uma ilha. Aliás, canais e riozinhos é o que mais se vê no Parque. Tudo engalanado com um arranjo de flores lindíssimo, de todas as cores que a nossa imaginação permite.

 


Também o edifício onde seriam e foram disputadas as provas de natação, saltos para a água e sincronizada não será tão bonito como o de Pequim 2008, apesar de ter sido projectado pela arrojada Zaha Hadid. Ou talvez não seja bem assim. O projecto do complexo foi aclamado e ver as suas fotos entusiasma, sobretudo pela forma ondulante que o telhado toma, como uma onda. Só que, estando lá no terreno, por altura dos Jogos, apanhamos também com o acrescento temporário de duas asas para que fosse possível aumentar os lugares da assistência. Ainda para mais, com este volume extra, o London Aquatics Centre versão 2012 fica muito encravado com o Water Polo Arena. Veredicto: voltar lá uma próxima vez para ver a obra só com o corpo ondulante e mais desafogada na sua vizinhança, já que o Water Polo Arena é temporário, e, quem sabe, talvez lá entrar para dar umas braçadas.

Estas três infra-estruturas (Estádio Olímpico, Aquatics Centre e Water Polo Arena) ficam todos na mesma zona, bem acompanhados do Orbit.

Mais para diante, através de uma agradável caminhada ao longo do canal, também com a boa companhia de um muito bem conseguido enquadramento floral, chegamos à zona norte do Parque Olímpico, onde ficam o Copper Box (andebol e a esgrima no pentatlo moderno), o Riverbank Arena (hóquei no campo), o Basketball Arena (basquete e andebol), o BMX Track e o Velódromo. Pelo meio muita zona verde, com um Park Live para se assistir às provas que vão acontecendo em cada um daqueles pavilhões / arenas, muita animação e atéum palco para bandas tocarem ao vivo. Perto do Basketball Arena fica a ldeia olímpica, para os atletas.


Depois dos Jogos, e a pensar no legado que estes trarão para a comunidade, muitas destas infra-estruturas sofrerão mudanças. À parte a Copper Box, que ficará como uma arena coberta para vários desportos, e o Velódromo, lindíssimo no seu telhado e na sua forma e tão carismático como o Team GB nas bicicletas, tudo o resto será readaptado e mudará de local. Quanto ao Basketball Arena, por exemplo, falou-se, sem ainda estar certo, de que pode rumar aos Jogos do Rio em 2016.

Também o Estádio Olímpico vai ser redimensionado e ainda se discute qual o clube que irá lá jogar, havendo neste momento uma maior inclinação para que a decisão seja favorável ao vizinho West Ham United. Igualmente, como referido acima, o Aquatics Centre também irá ver a sua lotação reduzida e o Water Polo Arena desaparecerá (tudo isso para substancial melhoria da nossa visão arquitectónica).
Tudo junto, esta zona irá resultar num dos maiores parques urbanos da Europa, a aldeia olímpica dará lugar a uma série de apartamentos e a zona de Stratford ficará completamente reconvertida e revitalizada, superiormente equipada de infra-estruturas, não só desportivas, mas também habitacionais, comerciais, serviços e lazer.


Mas porque não só com edifícios se criam novas centralidades, destaque anda para a arte urbana, cuja presença é por aqui fortíssima. A obra mais simbólica será o Orbit, de Anish Kapoor, um misto de escultura e observatório. É também uma obra de engenharia civil, um intrincado ziguezague de tons avermelhados que alguns pretenderam que viesse a constituir um novo landmark para Londres ao estilo da Coluna de Trajano, em Roma, ou da Torre Eiffel, em Paris. Nem vou entrar pelas várias interpretações que outros quantos quiseram dela fazer. Dizer apenas que este novo acrescento ao skyline londrino, de 115 metros de altura, foi recebido muito bem por uns e muito mal por outros. E que o meu veredicto é: gostei, lindo, muito fotogênico ali entre o Estádio Olímpico e o Aquatics Centre da Zaha Hadid.

Por baixo deste, a caminho do Water Polo Arena, no Walk in the Olympic Park, fica uma das mais curiosas instalações de arte. É o bit fall, uma cascata de palavras surgidas da água que vai jorrando de forma precisa e certeira.


Também de palavras, ou melhor, de uma só palavra, RUN, se trata outra das instalações presentes no Parque. Fica à frente do Copper Box, as letras têm cerca de 9 metros de altura, em vidro e aço inoxidável. De dia o material desta escultura faz de espelho, mas é de noite que o jogo de luzes faz dela uma autêntica obra de arte.

Mais palavras vão sendo vistas ao longo de todo o Parque, as designadas Winning Words, com poemas que podem ser considerados incentivos desportivos.


E porque de glória se trata os Jogos, de ver e ser visto, deparamo-nos com mais um espelho, debaixo de uma ponte que nos deixa de frente para o Estádio Olímpico, onde podemos olhar para cima com soberba e vermos como estamos lindas e altivas no meio das Olimpíadas. Valha a verdade que a ponte, na hora que por lá passamos, deu mais jeito para nos abrigarmos da famosa e omnipresente chuvinha londrina.


Aqui perto fica um género de tapete colorido, a rivalizar com as flores, fácil de se perder no meio da multidão e do deslumbramento. Mas por ele vale bem a pena andar, ainda que só por uma vez, de cabeça baixa.


E, depois, porque do maior evento desportivo se trata, inevitável falar de patrocínios, uns mais discretos, outros parte também eles do espectáculo. A Coca-Cola, por exemplo, um dos parceiros comerciais, tinha um edifício todo estiloso em pleno Parque. O Coca-Cola Beatbox levava as cores vermelha e branca da marca, em placas de plástico que aliadas a uma imaginativa tecnologia musical se propunha a dar-nos… música. Depois de uma espera de uns cerca de 40 minutos na fila (ena! a atracção devia ser mesmo boa! o que acontece é que o objectivo era apenas ganhar uma garrafinha especial da Coca-Cola para a manita, bem bonita, por sinal, as duas), subimos em espiral até ao topo do edifício onde tivemos uma vista de todo o Parque Olímpico e ainda o direito a tirar uma foto com a tocha olímpica. Pelo meio fomos tocando nas ditas placas que nos iam devolvendo a gentileza produzindo um som criado por Mark Ronson que é um mix entre os sons produzidos pelos atletas na sua actividade desportiva e um beat moderno, tudo isso dando origem ao tema “Anywhere in the world”. Afinal a experiência até valeu bem a pena. Não só pelas garrafas, mas também pelo som e pela vista.

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