A Avenida da Liberdade à boleia do Mexefest

Treinada desde a infância no escada acima escada abaixo da casa da avó, o avenida acima avenida abaixo dos últimos anos não passa de uma brincadeira de criança. O festival de música Vodafone Mexefest (antes Super Bock em Stock) alia a minha música preferida (indie) a umas valentes caminhadas pela minha cidade. Ou antes, por um espaço determinado da cidade de Lisboa, no caso a Avenida da Liberdade, desde o Marquês de Pombal até ao Rossio. 
Em edições anteriores (este festival teve a sua primeira edição em 2008, creio) já pudemos ouvir música no parque de estacionamento do Marquês, no átrio do ex-Bes, no terraço-bar do Hotel Tivoli, no Cabaré Maxime, no Ritz Clube, no Palácio da Independência. Espaços como este último são uma descoberta da cidade pelo que não são só a música e as caminhadas os pontos altos deste festival. É também a possibilidade de ouvirmos música em ambientes inesperados que são parte integrante do nosso património arquitectónico e cultural numa zona definida da cidade de Lisboa – a Avenida da Liberdade e sua envolvente. 
Aqui ficam as salas de espectáculo mais históricas e intemporais para quem nasceu ou viveu em Lisboa no século passado: o Coliseu dos Recreios, o Teatro Tivoli e o Cinema São Jorge.
Uma breve descrição destes espaços impõe-se: 
O Coliseu dos Recreios, na Rua das Portas de Santo Antão, foi inaugurado em 1890, fruto da ambição de um grupo de pessoas que desejava erigir a maior sala de espectáculos coberta do mundo. Os custos seriam, obviamente, altos pelo que tanto o rei como o povo teve ocasião de subscrever a colecta para esta empreitada. Polivalente como é, nesta sala já tivemos oportunidade de assistir a espectáculos de ópera, teatro, música de todos os géneros, galas e todo o tipo de eventos que se possa imaginar. É impossível para mim dizer qual a primeira vez e primeiro espectáculo a que aqui assisti. Não corro muitos riscos de errar se avançar com uma sessão de circo. Embora hoje suporte com muita dificuldade o circo, nem por isso fiquei traumatizada e é ainda mais difícil deixar passar um ano sem que haja um concerto que me entusiasme e me mova a voltar mais uma vez ao Coliseu. 2015 ficará marcado pela sublime actuação de Benjamim Clementine, integrada neste festival Vodafone Mexefest, público que encheu a sala por inteiro extasiado com a presença, voz e compassos do inglês, a tal ponto que a meio do espectáculo não conseguia deixar de patear o chão. Depois de tantos concertos a que aqui assisti, não lembro de nenhum assim.
A sala em si é bonita. A enorme cúpula em ferro é o seu ex-libris. Aliás, a introdução da arquitectura do ferro no Coliseu foi uma das pioneiras no nosso país. Os camarotes divididos por dois andares dão graciosidade à sala. A sua lotação chega aos 4000 quando a plateia recolhe as cadeiras e nos deixamos todos estar por ali, em pé.
O Cinema São Jorge, no número 175 da Avenida da Liberdade, é outro que me impossibilita imaginar qual a minha primeira presença por ali, tantos foram os filmes e concertos que lá me levaram. Estreou em 1950 e durante muitos anos foi uma sala de cinema incontornável para muitos lisboetas. A sua sala principal tem capacidade para quase 1000 pessoas. Hoje, depois de passar por um processo de recuperação, o São Jorge, sob a gestão da Egeac (empresa municipal de Lisboa) soube adaptar-se e permanece ponto obrigatório no domínio da cultura da capital (e não só, pois o Bloco de Esquerda já fez dele poiso em noite eleitoral). Ciclos de cinema decorrem lá, mas também espectáculos de música, dança e teatro. No total são três as suas salas e um café com varanda para a Avenida. Neste Vodafone Mexefest foi possível inovar e surpreender uma vez mais com a ideia do Black Room (sala escura), quinze minutos de música totalmente às escuras, ideal para nos deixarmos estar ainda mais relaxados e seguirmos o conselho de fechar os olhos para uma experiência mais plena.
O Teatro Tivoli é outro que, não querendo ser repetitiva, é parte da infância, juventude e idade adulta da maioria dos lisboetas. Continuo sem saber o primeiro espectáculo que aqui vi, mas recordo a euforia por Tom Cruise no filme Cocktail, para além de muitas peças de teatro. Situado em frente ao Cinema São Jorge, do outro lado da Avenida da Liberdade, foi criado em 1924 para ser a melhor sala de espectáculos de Portugal, tendo lá passado os maiores filmes da história do cinema (categoria onde não se inclui certamente o Cocktail), para além de teatro, música e dança.  O seu edifício está classificado como imóvel de interesse público e a sua fachada é distinta e elegante, projecto de Raul Lino. Em estilo neo-clássico, ainda que integrado no movimento modernista da época, passaria bem por um edifício de um boulevard francês. A cúpula encimada por uma pequena torre dá-lhe ainda mais graciosidade. O seu interior não é menos elegante. A sala acomoda pouco mais de 1000 pessoas e na zona do palco é possível admirar as decorações laterais e cimeiras.
Em seguida, passaremos a descrever com mais atenção aqueles espaços muito menos visitados, ou nunca visitados, que o Mexefest improvisou:
O Palácio Foz (http://www.gmcs.pt/palaciofoz/) (ou Palácio de Castelo Melhor, pertencentes originalmente aos marqueses de mesmo nome) fica nos Restauradores. Edifício de arquitectura residencial setecentista, embora objecto de grandes alterações nos séculos posteriores, em estilo neoclássico, a sua fachada é longa e aí se destacam três espaços distintos: o primeiro piso branco, o segundo piso cor de rosa e o telhado preto em mansarda com janelas de sacada. No seu interior o estilo francês é evidente, com preocupação de recriar a estética dos Luíses. Possui uma deliciosa escadaria e vários salões com ricos motivos decorativos e elementos e materiais nobres como pedra, talha, pintura, estuques, dourados, espelhos e cristais. Os tectos trabalhados são igualmente um regalo. Um verdadeiro palácio a que não falta sequer um jardim interior. Por todo lado convivemos com mobiliário e porcelana únicos e belíssimos, com o devido “favor não mexer” como aviso. Não é à toa que a nata da sociedade lisboeta de outros tempos vinha pavonear-se nos recitais e bailes que aqui frequentemente tinham lugar. Muito se perdeu quando o proprietário original deixou de poder sustentar o seu palácio no princípio do século XX. O edifício foi então espaço de clubes, salas de espectáculo, ginásio, oficina e leitaria. Hoje é património do Estado Português e vários organismos públicos estão lá instalados. O Palácio Foz é, pois, de fácil acesso e visita e já tem sido palco de algumas exposições e recitais. Desta vez foi palco do zouk bass tarraxo dos Bison e outros artistas focados na música electrónica. Não deve haver maior contraste com o mobiliário e decoração austera do Palácio. 
Inspirador, Parte I.
A par do Palácio Foz (e do Palácio da Independência, no Largo de São Domingos, numa outra edição do Mexefest), a Sociedade de Geografia de Lisboa será dos melhores locais para se descobrir na cidade. A fundação da Sociedade de Geografia de Lisboa (http://www.socgeografialisboa.pt) em 1875 é facilmente explicável pelo contexto histórico da época, uma época em que o interesse das potências europeias pelo continente africano vinha em crescendo. Criada em Portugal décadas mais tarde do que nas capitais das “rivais” Inglaterra e França, ainda assim a ideologia imperialista e o ideal expansionista era o mesmo. A exploração do continente africano impunha-se, numa altura em que a implantação portuguesa no terreno não era abundante, com uma presença apenas em algumas das suas regiões litorais (portos de escala e plataforma de embarque das riquezas do continente), e a opinião pública europeia ia mostrando interesse por África. Exploração geográfica e científica cuja informação daí resultante serviria – e serve – para um melhor conhecimento do território e suas gentes. O acervo museológico da Sociedade nos domínios da etnologia e da história é composto de mapas, planisférios, globos, fotografias, manuscritos e outros documentos com descrição exacta das expedições, artefactos vários, mobiliário, pintura, escultura e diversos instrumentos científicos, trazendo ao conhecimento europeu, e neste caso português, também o exotismo da fauna e flora do continente. O espólio da sua Biblioteca é importantíssimo para o estudo e compreensão da História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa. 
Desde 1897 a Sociedade de Geografia de Lisboa está situada num edifício da Rua das Portas de Santo Antão, bem junto ao Coliseu dos Recreios. A sua fachada discreta é bem bonita. Ao entrar seguimos por uma escadaria com vitrais, pinturas e estátuas de nomes incontornáveis da história da expansão do nosso país (realeza, navegadores, cronistas, todos lá estão representados). No segundo andar vem o deslumbre que quase nos aparta da performance que os artistas musicais nos irão oferecer. É a Sala Portugal, lugar das grandes recepções e sessões solenes e, neste caso, lugar dos concertos do Mexefest na Sociedade de Geografia de Lisboa (o brasileiro Castello Branco com a sua música intimista sentiu-se de tal forma em casa que tornou o seu público como confidente). Esta sala acompanha toda a extensão da fachada, cerca de 50 metros de comprimento por 16 de largura, rodeada a toda a volta de galerias em dois pisos superiores (o museu). O ferro intrincado das galerias e escadaria, com destaque para esta última em ziguezague tomando a forma de um losango, é de uma beleza ímpar. 
Inspirador, parte II. 
Também nas Rua das Portas de Santo Antão fica a Casa do Alentejo. Mais popular e acessível, muito por conta do seu restaurante, o que talvez não se saiba é que a Casa do Alentejo fica instalada num edifício classificado como Imóvel de Interesse Público, também designado Palácio Alverca (por ter pertencido à família País do Amaral, Viscondes de Alverca) e que antes da sua construção o terreno estava ocupado por um curral de porcos. Construído no século XVII como palácio residencial da família, não terá sofrido muito com o terramoto de 1755. No entanto, o que hoje se observa no local é muito diferente da sua arquitectura original. Com efeito, depois de ter sido ocupado por um liceu e um armazém de mobiliário, em 1919 tornou-se num dos primeiros casinos de Lisboa (o Majestic, depois Monumental Club), até que em 1932 o Grémio Alentejano (hoje Casa do Alentejo) instalou-se aqui, tendo adquirido o imóvel em 1981. Apesar de ainda conservar o brasão da família originalmente proprietária na fachada, o interior foi muito transformado para instalação do dito casino, tomando uma decoração revivalista. Destaque para os seus pátios e painéis de azulejos, bem como elementos neo-góticos, neo-árabes, neo-renascentistas e neo-rococós. É o revivalismo, já se disse. É a exuberância, tornada ainda maior quando se vê e ouve Capicua (convidada especial dos They’re Moving West) num dos salões deste Palácio. Nos salões há que observar atentamente todos os seus elementos, como o mobiliário e os candeeiros, mas há que não esquecer de olhar para as pinturas do tecto. Mas a surpresa maior é o pátio central, aberto. Num claro estilo mourisco, a que não faltam os azulejos, os arcos e a pequena fonte no centro, para além de deixar ver as janelas com varandins trabalhados no piso superior.
Ainda na mesma Rua das Portas de Santo Antão, no número 110, encontramos o Ateneu Comercial de Lisboa. Fundado em 1880 por um grupo de empregados do comércio, a data escolhida está ligada à celebração dos 300 anos da morte de Luís de Camões, o patrono do Ateneu. Para símbolo da entidade foi ainda escolhido o deus Mercúrio, presente no seu estandarte. A missão original focava-se em proporcionar educação e cultura para as classes menos abastadas da cidade, nomeadamente, aulas para os seus sócios e familiares, bem como crianças pobres, organização uma biblioteca e realização de conferências científicas e tertúlias literárias. Também a prática do desporto, em especial a ginástica, era um dos propósitos do Ateneu, o qual subsiste até hoje. Ao longo dos tempos foram várias as iniciativas em prol da sociedade por parte desta associação profissional. Em 1885 a sede do Ateneu Comercial de Lisboa fixou-se definitivamente na Rua das Portas de Santo Antão, naquele que era conhecido como Palácio Povolide ou Palácio da Anunciada (nome da rua anteriormente ao terramoto, ao qual sobreviveu). Depois do Palácio ter pertencido ao Conde de Burnay, o Ateneu viria a adquiri-lo em 1926. As suas salas não estão num excelente estado de conservação, e nem poderiam estar, pois as dificuldades que a associação tem vindo a sofrer, com processos de insolvência pelo meio ainda não resolvidos, não o permitem. No entanto, este é mais um dos espaços a (re)descobrir em Lisboa.
E a surpresa que o Mexefest nos trouxe nesta edição foi a integração de um novo espaço recém-inagurado no seu cartaz: o Tanque. O Tanque não é mais do que a piscina do Ateneu, entretanto fechada e hoje devidamente esvaziada para que possamos lá cair sem correr o risco de beber uns pirolitos. Os tempos da natação já lá vão e agora é tempo de proporcionar experiências diferentes e originais. Aqui passarão a organizar-se concertos, festas e o que mais vier à ideia dos seus novos responsáveis. Ver o funk nova-iorquino dos portuguesissímos Da Chick na pista 3 da piscina do Ateneu foi uma experiência para lá de divertida e entusiasmante. No local há também um bar.
Não muito longe daqui fica um dos espaços mais inesperados para se ouvir música não coral. É a Igreja de São Luís dos Franceses. Construção quase dois séculos anterior ao terramoto, ficou destruída à sua passagem, sendo reconstruído o seu interior na quase totalidade. É a residência religiosa e espiritual dos franceses em Portugal. Não tive oportunidade de lá entrar e assistir a um concerto, mas em ano anterior deu para sentir da porta de entrada que o ambiente será certamente especial.
Não sei se na Avenida da Liberdade morarão mais de uma vintena de pessoas. Da minha infância recordo ainda que para além dos espaços acima descritos aqui frequentava sobretudo os consultórios médicos. Da cadeira do meu dentista esforçava-me por me distrair a olhar da janela os mega-cartazes dos filmes que ocupavam quase por inteiro a fachada do Cinema Condes, hoje o Hard-Rock Lisboa. Para além deste há que recordar ainda o Éden, o Odeon, o Olimpia, o Parque Mayer, o Politeama e o Dona Maria II. Uns já eram, outros ainda cá estão para nos entreter e cultivar. E que dizer dos elevadores do Lavra, de um lado, e da Glória, do outro? As lojas das melhores marcas mundiais estão aqui presentes, mesmo que só possamos mirar as suas montras, e os quiosques no meio da Avenida, debaixo das árvores, só vêm tornar ainda mais agradável e obrigatória uma caminhada pela Avenida. Está cá tudo

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