Pelo Baixo Alentejo

Fomos para sul, rumo ao Baixo Alentejo. 
Beja, capital de distrito, foi a primeira paragem. 
Após um piquenique no seu Parque das Merendas, saímos para passear pela cidade, a antiga Pax Julia dos romanos.

Mas antes dos romanos o lugar já era povoado, graças ao seu solo rico, sempre factor de atracção das gentes. Os lusitanos andaram por cá, depois os romanos promoveram Beja a sede da região sul da Lusitânia e pacificaram as suas várias tribos. A designação Pax Julia vem dos tempos de Julio César, imperador de Roma no século I. Beja entrou então no mapa da história e tornou-se na época uma cidade importante. Após o domínio dos romanos foi tomada pelos bárbaros – os visigodos – e mais tarde pelos mouros. Dizem alguns que a actual designação “Beja” deve-se a eles, numa forma elaboradíssima e não facilmente entendível de evolução do topónimo “Pax”, mas esta é questão controversa. Até que o “nosso” D. Sancho II, em 1232, revolveu tomar a cidade e fazer com que esta entrasse na órbita cristã – até hoje.

Beja está situada numa imensa planície e isso é bem visível do seu castelo, do qual restam partes das muralhas e a Torre de Menagem (actualmente em restauro, construção do tempo de D. Dinis, que concedeu foral a Beja). Até aos nossos dias chegaram também algumas portas da cidade, as quais levam o nome das terras para as quais abrem caminho, como Porta de Mértola ou Porta de Avis.

A história de Beja é uma de evoluções e apagamentos. Apesar de ter sido local de moradia real (os pais de D. Manuel I, por exemplo, eram Duques de Beja), nem por isso chegou a ser importante em termos urbanísticos a nível nacional, sendo sempre relativamente despovoada. O que foi sempre, sim, foi lugar de convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos. Até hoje podemos caminhar pelo Bairro da Judiaria, com as suas casas seguindo a altura da muralha, e o Bairro da Mouraria, com as ruas ruas estreitas e intrincadas. O labirinto das ruas de Beja corresponde ainda a um traçado urbano medieval e só por isso vale bem a pena a visita a esta cidade. Não pode ser acusada de monumental, mas como conjunto é francamente agradável, uma cidade pequena-média portuguesa em que a sua unidade estética e arquitectónica é equilibrada.
Ao lado do seu passado mouro e medieval, não faltam os edifícios da época do Estado Novo como o dos correios e o do liceu (este último do arquitecto Pardal Monteiro). Já depois do 25 de Abril a cidade viu nasceu a Casa da Cultura, do arquitecto Raul Hestnes Ferreira. Tudo obras que não rompem nem polemizam, antes se enquadram no edificado. 

Para além de uma caminhada pelas ruas, há espaços em Beja que não podem deixar de ser visitados. Pela Rua dos Mercadores, atentos a pormenores como símbolos de antigos lojistas e janelas manuelino-mudejares que persistem, chegamos à Praça da República com as suas arcadas manuelinas. Do outro lado do centro da cidade, o Jardim Público, contíguo ao antigo Convento de São Francisco, belamente restaurado para a sua reconversão em Pousada de Portugal, é um lugar para se deixar estar. Destaque para o painel de azulejo alusivo à morte do Lidador, segundo lenda de Alexandre Herculano. Aliás, a arte azulejar em Beja é coisa séria. Vemos azulejos nas ruas, casas e edifícios, mas também nas igrejas. 

Incontornável e obrigatória é a visita ao Convento de Nossa Senhora da Conceição. Um dos primeiros onde foi aplicado o azulejo na decoração de interiores (que era comum na cultura islâmica), o Convento foi fundado em 1458 pelos Duques de Beja, pais do rei D. Manuel I. Gozou de protecção real e a sua riqueza é evidente ainda nos nossos dias. Naquele onde está hoje instalado o Museu Regional podemos encontrar uma igreja barroca do século XVII em talha dourada. Exuberância é a palavra certa para a descrever. Para além da igreja é nos dada a conhecer uma colecção de azulejos, pintura e artefactos arqueológicos. Os claustros deste antigo Convento que foi ainda lugar da Ordem de Santa Clara, pertencente aos franciscanos, não deslumbram tanto como o que está para além deles: a Sala do Capítulo cuja entrada é feita por um portal gótico brasonado que nos deixa face a face com uma decoração rica em painéis de azulejos hispano-mouriscos e pinturas murais, bem como uma abóbada belíssima. A fachada do Convento não entusiasma menos, sobretudo as gárgulas que adornam o seu topo.

Mas este Convento de Nossa Senhora da Conceição é famoso ainda por questões mais terrenas, nomeadamente pelas cartas apaixonadas que a freira Soror Mariana Alcoforado de lá escreveu ao seu amado conde soldado, o qual via passar da janela da sua cela e muito provavelmente não apenas isso. Beja tem, pois, o seu mito; um mito feito de paixão.

E tem praças, muitas, tal como igrejas, também muitas. Praças sem gente, igrejas fechadas.
Um velhote hoje reformado e viúvo, nascido no Minho e cedo imigrado em Lisboa, foi parar a Beja no início da sua idade adulta e por lá ficou. Diz que lá não há nada, não há vida, não há trabalho. Resta a mulher, sepultada no cemitério próximo de casa. Que Moura é muito melhor, gente sempre a encher os cafés. 
Fomos verificar.
E é verdade. As ruas estão mais preenchidas e os cafés também, mesmo à hora da sesta.

De Moura ficam as lendas da Moura Encantada e as suas chaminés características. É ainda terra de fontes monumentais a fazer-nos lembrar que esta é zona rica em água. 
Não falta um castelo e um centro histórico pequeno e compacto com ruas estreitas pedonais delicadamente enfeitadas com flores e diversos edifícios antigos que conservam os ricos pormenores nas suas fachadas. 

Rapidamente rumo a Serpa.
A paisagem alentejana, do Alentejo profundo, vasta e imensamente plácida, nunca monótona, é feita de oliveiras e moinhos aqui e ali.
À entrada de Serpa, numa daquelas rotundas de pretenso ordenamento do trânsito que pululam pelo nosso Portugal, uma escultura de tributo aos alentejanos que nos embalam com o Cante Alentejano, desde 2014 Património da Humanidade.

Serpa é para mim a mais bonita das cidades do Baixo Alentejo. Vista das muralhas do seu castelo, então, a vista é esmagadora. As casas brancas e a sua cobertura de telha ocre formam uma combinação perfeita, daí que o epíteto de cidade branca seja certeiro.
Serpa era uma vila muçulmana antes de D. Dinis lhe ter concedido foral em 1295 e a refundar. Antes de se tornar rei, D. Manuel I havia sido senhor de Serpa e a cidade era então uma das mais importantes do reino.

Aqui voltamos a poder ver nos dias de hoje um castelo, sua torre e muralha, mas desta vez acompanhado de um aqueduto monumental. O castelo virá desde o tempo da ocupação árabe, mas o aqueduto foi construído no final do século XVII com a finalidade de abastecimento do solar dos Condes de Ficalho. Este solar tem arquitectura discreta mas é marcante na cidade.

O símbolo de Serpa será, porém, a Torre do Relógio. Uma Torre bem alta, construída no século XIV, parte da muralha, em estilo gótico e manuelino, encimada por uns pináculos e um campanário. Bem bonita.

Para além desta sobrevivem ainda as grandiosas Portas de Moura e de Beja. E as oliveiras milenares. 
As ruas do povoado intra muralhas são esteiras e as casas pitorescas, com faixas cinzentas sobre o branco como pormenor distintivo.
Dois apartes apenas.

Um primeiro: como é que esta rocha se equilibra entre estes telhados e as muralhas?
Um segundo: agora que o nosso Aníbal se prepara para deixar as nossas vidas: a sul do concelho de Serpa fica o Pulo do Lobo, a maior queda de água do sul do nosso país, em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana. Não o visitei agora, fi-lo em tempos, seduzida pela descrição sentida do senhor; quem sabe se lá volto em breve e o encontro para lá retirado.
Precisamente em pleno Parque Natural do Vale do Guadiana fica a vila de Mértola, a última paragem neste périplo pelo Baixo Alentejo. A antiga Myrtilis é hoje considerada uma vila museu.
Não haverá povoado em Portugal onde a presença islâmica seja tão forte como a que se sente em Mértola. Para isso contribui certamente o Festival Islâmico que aqui costuma ter lugar e, sobretudo, a incansável acção do arqueólogo Cláudio Torres que insiste em nos dar a conhecer o passado histórico da vila e região através dos trabalhos do seu Campo Arqueológico. Este voltou a colocar Mértola no mapa e para além de nos revelar a nossa herança patrimonial islâmica funciona como um polo agregador das gentes da cidade e dos forasteiros, sendo igualmente um lugar onde se preservam as artes tradicionais e o artesanato e se lhes dá novas vidas.

No Campo Arqueológico, junto ao Castelo, das ruínas colocadas a descoberto podemos ficar com uma ideia de como estavam dispostas as casas de antanho. Aí perto fica a antiga Mesquita, hoje Igreja Matriz de Mértola, onde ainda hoje são identificáveis elementos islâmicos como as portas.
Do Castelo obtém-se uma vista fantástica para o casario que foi crescendo junto ao Guadiana. O branco domina sobre as águas do rio, onde se veem lá em baixo alguns a desafiar o caminho aquático nos seus caiaques. Há muitos séculos, a presença do rio era outra e foi a razão porque romanos e árabes para cá vieram. O rio era navegável e o minério de que a região era pródiga foi factor bastante para atrair esses povos, bem como diversos mercadores que para aqui vinham negociar, uma vez que a vila estava ligada a Cartago e outras cidades do Oriente. A Reconquista pelo reino de Portugal e consequente entrada para o mundo cristão veio no século XIII e três séculos mais tarde Mértola iria entrar em decadência, muito por força do desvio das rotas comerciais do Guadiana para o Sado e Tejo.

Quanto à sempre louvada gastronomia desta região do nosso país, obviamente que o piquenique de restos do Natal não foi a única reserva alimentar da viagem. Em Beja a Adega 25 de Abril é uma excelente escolha para se saborear as migas e os secretos de porco preto, bem como a simpatia do pessoal. Mas um pouco por qualquer recanto desta região pode experimentar-se ainda os tradicionais gaspacho e ensopado de borrego, acompanhados dos conceituados vinhos. 
As distâncias:
De Beja a Serpa são 29 km, de Serpa a Moura 32 km e de Beja a Mértola 52 km.
Beja fica a 177 km de Lisboa, cerca de 2h 30m de caminho.

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