A Andaluzia pela A92

A Andaluzia é famosa pela sua Costa do Sol, paraíso dos reformados da Europa do norte endinheirada, e pelo seu passado mouro. Historicamente, o poder e cultura islâmica tiveram lugar primeiro em Córdoba, entre 756 e 1031, seguidamente em Sevilha, entre 1040 e 1248, e, por fim, em Granada, entre 1248 e 1492. Até hoje nestas três cidades testemunhamos o seu legado materializado em palácios, mesquitas, jardins e mercados. Todo um mundo de deslumbre feito de elegância e delicadeza.

Os fenícios, os romanos (Itálica, uma das cidades mais ricas do império romano, situada às portas de Sevilha, foi lugar de nascimento dos imperadores Trajano e Adriano), os visigodos e depois os muçulmanos (que aqui chegaram na sequência da disputa do trono visigodo por várias facções godas rivais), para além de árabes, berberes, judeus e espanhóis do norte, todos eles se podem considerar os ancestrais dos andaluzes. Todas juntas, estas civilizações legaram-nos diversos estilos de arquitectura, não sendo difícil encontrar num mesmo lugar uma mescla de elementos mudejares, góticos, renascentistas, barrocos ou neoclássicos. 
Se a Costa do Sol, Atlântico a transformar-se em Mediterrâneo com África à espreita, seduz muitos, a outros são as marcas do Al-Andaluz que encantam – “Al-Andaluz”, a designação que os muçulmanos atribuíram a esta região, tendo aqui exercido o seu poder por cerca de oito séculos, criando a cultura mais sofisticada e evoluída da época medieval na Europa.
Até que a reconquista cristã chegou no século XIII (e os muçulmanos remeteram-se a Granada) e, logo depois, em 1492, os reis católicos patrocinaram Cristóvão Colombo na sua busca de descoberta de novas rotas de comércio com o Oriente. O navegador deu antes com a América e a Andaluzia, sobretudo Sevilha, emergiu como uma plataforma no comércio mundial. A prosperidade da nova era permitida pelo ouro, prata e outros bens que chegavam das novas colónias espanholas do Novo Mundo tocou não apenas a Sevilha – a maior cidade espanhola até ao fim do século XVII e uma das mais ricas do mundo – mas também a vários povoados vizinhos. 
Ainda hoje, percorrendo a A92 (autopista sem portagens e de qualidade equivalente às auto-estradas pagas portuguesas) que liga Sevilha a Granada, diversas cidades há à sua beira que merecem mais do que uma breve paragem. 
Apesar de esta região ter sido habitada por inúmeros povos, foi após a descoberta da América por Colombo que cidades como Antequera e Osuna se desenvolveram e tornaram ricas, de tal forma que a opulência de outrora é ainda hoje visível.
Com o fim do século XVII veio um afrouxar desta história de pujança da Andaluzia. Má estratégia, guerras na Europa, escasseio da prata, epidemias, fracas colheitas, assoreamento do rio Guadalquivir levaram a que Cadiz, na costa andaluza, assumisse o controlo das rotas de comércio mas sem a mesma força que Sevilha havia desempenhado noutros tempos.
Nos dias de hoje a Andaluzia é mais conhecida pelo carácter expansivo das suas gentes, de quem se diz que serão pouco dadas ao trabalho (mas quem consegue trabalhar sob 45 graus sem se dedicar a umas horas de siesta pelo meio?) e mais à festa. O estigma está criado. 
A principal economia da região é o turismo, mas para além de turistas em busca da sua diversidade cultural e cosmopolitismo, a Andaluzia é terra de muitos imigrantes, prosseguindo a sua história de acolher diversas culturas e raças. 
Antes, porém, outros se deixaram encantar e inspirar por esta terra de paixão – seja pela religião católica vivida na Semana Santa, pela aficion pelos touros ou pelo flamenco dos gitanos. Sevilha é palco de “Don Juan”, de Lord Byron, e da ópera “Carmen”, de Bizet; em Sevilha nasceu Velasquez (e Felipe Gonzalez); Irving Washington voltou a colocar Alhambra no mapa com o seu “Tales of Alhambra”; Granada é a cidade de Federico Garcia Llorca e onde este morreu fuzilado durante a Guerra Cilvil espanhola; Ernest Hemingway também passou pela Andaluzia e em Ronda escreveu dos capítulos mais fortes de “Por Quem os Sinos Dobram”. 
A visita a Ronda estava nos planos iniciais desta viagem, mas foi deixada cair para um futuro passeio pela costa andaluza. Assim, para além de Sevilha e Granada, ficámo-nos por Antequera e as três mais pitorescas vilas / cidades de La Campiña: Osuna, Écija e Carmona.

Antequera fica situada numa planície entre Sevilha e Granada e é mesmo boa ideia fazer um desvio da autopista para a ir conhecer e sentir (de Sevilha a Antequera são cerca de 160km, sensivelmente 2 horas de caminho). Embora por aqui se encontrem vários exemplos de dolmens do neolítico e da idade do bronze e graças à sua excelente localização estejam presentes elementos das três maiores influências da Andaluzia (romanos, islâmicos e espanhóis), Antequera é um testemunho perfeito do esplendor e riqueza vividos entre os séculos XVI e XVIII. 

Cidade monumental, aqui encontramos as marcas típicas da Andaluzia: povoado branco, ruas estreitas, pátios recolhidos, janelas adornadas, laranjeiras em abundância. E um castelo numa colina da qual se obtém uma vista de tirar o fôlego, cidade lá em baixo onde as torres das igrejas irrompem pelos céus em número quase ainda maior do que as laranjas. Os telhados vermelhos são os coadjuvantes perfeitos neste belo cenário.

Podemos começar o passeio indo directos à colina que forma a parte alta da cidade, onde está a Alcazaba do tempo dos muçulmanos e a Colegiata de Santa Maria Mayor e a sua fachada renascentista. Descendo desde aí, por ruas inclinadas e estreitas com nomes como “Cuesta de San Judas”, as igrejas a visitar são inúmeras, com destaque para além desta para o Convento e Igreja de Carmen (possuidor de um extraordinário retábulo) e para o Museu Conventual de las Descalzas. Já cá em baixo fica a Plaza de San Sebastian com a torre de mesmo nome, aquela que se vê e sente de quase qualquer lugar por aqui. A arquitectura desta bela torre é de estilo barroco-mudejar, só para provar, se preciso fosse, que aqui todas as culturas e estilos convivem bem uns com os outros.
A região de La Campiña está situada numa planície onde se veem largos campos cultivados, não muito longe de Sevilha. Écija e Carmona foram vistas a correr debaixo de chuva (sem fotos, portanto) e não deixo de o lamentar. Écija é conhecida como “a cidade das torres” pois, à semelhança de Antequera, são muitas as suas igrejas. Desta vez as suas torres estão maioritariamente decoradas com mosaicos de cores vivas. O esplendor de outrora desta cidade para onde os comerciantes abastados dos séculos XVII e XVIII se recolhiam é ainda visível pelos palácios que aqui construíram, em estilo gótico, mudejar e barroco.
Carmona está situada numa colina donde se avista um extenso vale. Passando a monumental Puerta de Sevilla vamos caminhando pelo seu centro compacto, feito de mansões enormes, e avistamos ainda troços da muralha da antiga cidade que vem dos tempos muçulmanos, bem como a Alcazaba. Curioso que a cor dominante desta cidade parece ser já não o branco, mas antes a cor dourada dos seus palácios.
Osuna é talvez a mais bonita e encantadora das cidades de La Campiña. Situada a 90 km de Sevilha, pouco mais de uma hora de caminho, diz-se que aqui está a segunda rua mais bonita da Europa e as expectativas logo se tornam elevadas. A distinta rua é a Calle San Pedro, onde Franco Zefirelli filmou o seu Maria Callas. Os palácios sucedem-se e a exuberância do barroco é marcante.
Dois exemplos:
O edifício da Cilla del Cabildo Colegial tem na sua fachada uma representação da torre Giralda, de Sevilha, ladeada pelas mártires sevilhanas Santa Justa e Santa Rufina.
O Palácio Marqués de la Gomera, adaptado a hotel de charme, tem o brasão da família originalmente sua proprietária na fachada. O balcão que dá para a estreita rua pertence à suite do palácio / hotel.
Já na Calle Sevilla, a qual se alcança logo depois de deixarmos a Plaza Mayor, fica o Palácio de Puente Hermoso e a sua fachada com pilares entrelaçados com cachos de uvas e folhas de videira neles esculpidas.
O ornamento pode ser excessivo, mas o bom gosto e equilíbrio não deixam de ser uma realidade.

Osuna é uma cidade pequena, mas concentra um grande número de igrejas e palácios civis senhoriais. As janelas de piso térreo são outra das suas delicias. 
Assim como o arco da Calle Hornillo.
Osuna foi cidade ducal dominada pela família Téllez nos séculos XVI e XVII, os quais aqui se dignaram fundar uma universidade em 1548 (que perdurou até 1842). No topo da cidade está, imperial, como se guardasse o povoado, a Colegiata de Santa Maria de la Asunción (que não visitei, mas a qual guarda quadros de Ribera e uma capela do Panteão Ducal que dizem ser uma obra-prima).
Uma curiosidade mais apenas. Como se chamam os habitantes de Osuna? Ursaonenses, por supuesto.

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