Granada


Granada é um sonho. 
Nunca um provérbio foi tão certeiro, neste caso o provérbio espanhol que dita que “se não viste Granada, não viste nada”.

Que dizer de uma cidade que fica a poucas dezenas de quilómetros do mar e a outras poucas dezenas de quilómetros da montanha? A dúvida parece estar colocada entre fazer ski pela manhã e estender a toalha ao sol junto ao mar pela tarde. Acontece que pelo meio temos Granada e, em especial, a Alhambra e aí talvez a dúvida fique desfeita: porque não passar um dia inteiro nesta fortaleza / palácio / jardim (é favor não riscar o que não interessa; aqui tudo interessa)?

Apesar de ser a Alhambra que me fez querer voltar e me faz continuar a querer voltar mais e mais vezes, Granada tem por si só encantos suficientes para patrocinar uma visita.

Granada fica perto do Mar de Alborão, braço do Mediterrâneo por onde no ano 711 os mouros vindos do Norte de África entraram e daí seguiram para conquistar a Península Ibérica. Foi em Granada que permaneceram mais tempo, até 1492, quando a reconquista cristã terminou com os Reis Católicos, Fernando e Isabel, a alcançarem a união territorial e política de Espanha. De último bastião muçulmano na Península Ibérica, Granada ganhou ainda o título de cidade símbolo da reconquista. 

É, porém, o testemunho da presença árabe durante oito séculos que faz de Granada ainda hoje lugar encantado e desejado e ao contrário de outras cidades da Andaluzia os ibéricos, os romanos e os visigodos não tiveram aqui tanta influência.

Quando os mouros aqui chegaram encontraram uma comunidade judaica chamada Garnatha Alyehud. Diz-se que o nome Granada terá evoluído daqui. Ou então, hipótese mais deliciosa, o nome Granada terá surgido do facto de as casas que aqui havia estarem tão juntas umas das outras que mais pareciam caroços de romãs – romã em espanhol é, precisamente, granada. 

No princípio do século XI uma povoação mais desenvolvida começou a crescer com a fundação de um taifa independente na região. A primeira residência estabeleceu-se na coluna mais elevada da cidade, com o Rio Darro lá em baixo, a dividir as colinas do Sacromonte e Albaicín. 

Séculos depois seria o Emirado Nasrida, que havia estabelecido o seu poiso em Granada em troca da ajuda dada à reconquista de Sevilha, a elevar o esplendor e magnificência da arte islâmica a padrões nunca antes vistos. A escolha de Granada deveu-se à sua fantástica localização geográfica e sobretudo pela água em abundância que vinha quer das então neves perpétuas da Serra Nevada quer dos vários rios que por aqui existiam – a água era uma paixão da dinastia Nasrida. Hoje resta o rio Darro donde, juntamente com o bairro de Albaicín, se obtém vistas inigualáveis da Alhambra.

Com a reconquista viria também um programa de construção de uma nova arquitectura que se pretendia mais apropriada para a nova era. A catedral enorme que começou a ser construída no princípio de 1500, bem no coração da antiga medina muçulmana, é disso exemplo. Primeiro em estilo gótico, depois renascentista, só pela sua Capela Maior vale a visita. Junto à Catedral fica a Capela Real, onde antes era a Mesquita, escolhida pelos Reis Católicos para lugar do seu túmulo. A arquitectura é sóbria. O mesmo não se diga da Madrasa que apesar das muitas alterações conserva uma fachada que convida o olhar. Aqui foi fundada a universidade ainda nos tempos dos reis nasridas, daí o seu nome (madrasa vem do árabe medersa, que significa universidade corânica). Depois veio a ser o edifício do Cabildo, sede do Ayuntamiento e hoje é a sede da Real Academia de Bellas Artes.


Apesar da promessa aos muçulmanos de que seriam mantidos os seus usos e costumes, língua e liberdade religiosa, tal não foi cumprida. Estes foram forçados a baptizar-se ou a sair da cidade. Até que em 1609 foi determinada a sua expulsão definitiva. Com isso veio o declínio da agricultura e do comércio e uma evidente regressão no desenvolvimento da cidade.

Apenas com a vinda dos escritores e pintores românticos no século XIX voltou a cidade a despertar.

Hoje, a Granada de outrora, ponto de encontro do ocidente com o oriente, permanece viva. Caminhando no centro, correspondente à antiga medina, ou no bairro de Albaicín, as ruas estreitas e labirínticas estão inundadas de marroquinos, com o seu artesanato e especiarias, sendo tão fácil encontrar aqui uma casa de chá ou lugar para fumar narguilé como no outro lado do Mediterrâneo. Até as tapas tomam por aqui uma clara influência magrebina, sendo o húmus delicioso. As ofertas para escrever o nosso nome em árabe estão por todo o lado, a lembrar que a caligrafia árabe ainda permanece por aqui uma arte, ou melhor, uma dádiva divina como a entendem os muçulmanos, uma vez que o árabe é a língua sagrada porque foi nela que Deus falou a Maomé.

As perseguições dos cristãos aos muçulmanos estão hoje para trás e volvidos mais de cinco séculos voltou a ser construída uma mesquita em Granada.
Fica no bairro de Albaicín, que junta à característica de possuidor de ruas estreitas também a de dono de ruas inclinadas. Este era o antigo bairro dos mouros e bastião e refúgio das perseguições cristãs. De Baeza fugiram para aqui e daí talvez o nome que evoluiu de Albayyasin.



Este bairro, que fica diante da Alhambra e por isso daqui percebemos melhor o emaranhado de casinhas brancas, é extremamente pitoresco. A atenção tem de ser total para apreciarmos os detalhes das suas casas e as suas fontes. Os mosaicos de cores vivas abundam. 



Mas são os carmen os reis por aqui. Apesar de não termos tido a oportunidade de entrar em nenhum deles, do exterior somos capazes de imaginar a sua  essência: carmen significa parreira, mas aqui serve para designar um pátio com três árvores que têm de ser a figueira, a videira e a palmeira. Um verdadeiro jardim travestido de horta urbana. São pátios de casas particulares e acredito que os seus proprietários não achem muita piada à devassa. Mas como passar em frente dos pormenores dos puxadores das portas, das janelas enfeitadas ou dos mosaicos? Não nos deixam ver o pátio, então têm de nos aguentar à porta.


Podemos – e devemos – explorar a pé o bairro de Albaicín desde cá debaixo, começando pela Praça Nova e seguindo pelo Paseo de los Tristes junto ao Rio Darro, com a Alhambra do outro lado, e o Bañuelo mesmo aqui (os banhos árabes mais antigos da Andaluzia).




Não é dos passeios citadinos mais fáceis pelo que implica de subir. Mas é agradável e encantador ir caminhando pelas ruas, subindo-as, descobrindo becos, voltando atrás, subindo mais um pouco, entrevendo a Alhambra ao fim de uma estreita rua, deparando com um pormenor delicioso aqui e outro ali, até que chegamos ao destino, fazendo de conta que havia um só objectivo para andarmos de um lado para o outro no Albaicín: a chegada ao miradouro de San Nicolás, donde se tem uma vista soberba para a Alhambra, de tal forma que tira o pouco fôlego que nos restava da subida. 


O Albaicín, apesar de renovado (embora se veja ainda muitos edifícios em muito mau estado), conserva o ambiente mourisco de há muito. Aqui era o coração de Granada e hoje continua a pulsar forte. Antes da construção da Alhambra, era aqui que estavam os alcázares reais. Uma certa população virada para as artes, anónimos ou famosos, como escritores, músicos e pintores, deixou-se seduzir por este pedaço de terra na encosta, feito de casas brancas populares e alguns palácios em estilo mudejar.


Depois de ultrapassadas umas quantas cuestas formosamente inclinadas, no miradouro de San Nicólas encontramos, para além da paisagem soberba, um ambiente de festa protagonizado pelos jovens que o ocupam. Todas as comunidades urbanas se parecem juntar aqui, como rastas, hippies (ainda os há), vendedores de raybants e ardidas, músicos e pintores informais, dando ao ar um odor bem característico que vai para lá do mero cheiro às flores e plantas que nos rodeiam, todos eles lado a lado com os turistas. 



Aqui neste miradouro, também lado a lado mas desta vez com igrejas, fica a mais nova mesquita de Granada, a Mesquita Mayor. Inaugurada em 2003, foi a primeira mesquita a ser construída desde que o governo mouro deu lugar aos cristãos no final do século XV. O seu jardim, a que não falta uma preciosa fonte, é um lugar para nos deixarmos estar a contemplar a paisagem imensa que nos envolve: Alhambra, sim, mas também Serra Nevada, Albaicín, vale e Sacromonte.

Falamos de fonte e há que lembrar que água e Granada não vivem uma sem a outra. Dissemos anteriormente que a água era uma paixão da dinastia Nasrida e que foi a abundância de água a determinante na escolha do lugar para os mouros se estabelecerem aqui. No bairro de Albaicín, em especial, chegou a haver mais de cinquenta cisternas, das quais se conservam ainda algumas. 



Estando lá no alto de Albaicín há, então, que empreender a descida. Mais agradável, por não implicar esforço físico, o deleite continua. Mais igrejas, conventos, praças, edifícios bem apresentados. A chegada às ruas da Calderería Vieja e Calderería Nueva fazem-nos entrar num outro mundo e confundem-nos: onde estamos? Nos últimos tempos estas ruas têm-se transformado, à semelhança do centro correspondente à antiga medina, em mais um zouk, um mercado árabe. Aqui é o lugar ideal para se tomar um chá ou fumar narguilé, provar um kebab, comprar uma peça de artesanato como lâmpadas coloridas ou tão somente caminhar e sentir os odores típicos das mil e uma noites.



E, por fim, falar de Granada implica lembrar Federico Garcia Lorca. O poeta nasceu perto de Granada e perto de Granada morreu, fuzilado pelas tropas nacionalistas, a que se seguiria a Guerra Civil Espanhola. Em sua homenagem existe em Granada um parque público e uma casa museu. 

Deixo Granada com a sua poesia,

“por el agua de Granada 
sólo reman los suspiros”
(Baladilla de los tres ríos)

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