Museus de Varsóvia – POLIN e Rising

Podemos visitar Varsóvia e ficarmo-nos apenas pelo seu centro histórico, via real e centro financeiro. Suspeitarmos que possa ter acontecido algo há umas quantas décadas e seguirmos viagem para a próxima paragem.
Mas se queremos conhecer parte da história da cidade convém visitar alguns museus.
O POLIN e o Rising, por exemplo.





O POLIN – Museu da História dos Judeus Polacos – abriu as suas portas apenas em 2014 e é já um museu premiado a nível internacional, tendo sido considerado o museu europeu do ano de 2016. Instalado no bairro que durante a II Guerra ficou conhecido como o “gueto de Varsóvia”, caminhando hoje pelos seus quarteirões de ruas largas e blocos de apartamentos comuns, onde aqui e ali se vão encontrando reminiscências do antigo muro do gueto, um memorial no lugar onde então partia o comboio para Treblinka (Umschlagplatz) e o Monumento aos Heróis do Gueto, olhamos para o jardim que envolve o novo museu e ao vermos os corpos quase nus estendidos relaxadamente sobre a relva aproveitando os raios de sol nesta cidade interior, como se estivessem na praia, custa-nos a acreditar que tanto sofrimento possa ter sido vivido aqui ainda não há um século. Mas a vida continua e o bom convívio com a memória é evidente. E o POLIN cá está para nos contar como tem sido a vida dos judeus polacos nos últimos 1000 anos. A fachada do museu é original, uma caixa rectangular com muito vidro que não deixa adivinhar as curvas do seu interior. Museu de arquitectura interessante, são porém os seus conteúdos que nos cativam e prendem os sentidos. Através da exposição ficamos a saber como e porquê chegaram os judeus à Polónia, a que se dedicavam e como criaram uma das maiores comunidades do mundo. A história dos judeus polacos confunde-se, assim, com a da Polónia, ainda que ao longo dos tempos tenha sido feita ao mesmo tempo de cooperação e conflito. A visita ao museu tem início com a representação de uma floresta, recriando de forma poética a chegada dos judeus a Polin, a palavra hebraica que significa Polónia e que soa algo como “descansa aqui”. E aqui se instalaram os primeiros judeus mercadores e viajantes algures no século X. A comunidade judaica foi-se expandindo porque encontrou nestas terras diversidade e mais tolerância do que outros pontos da Europa. Ao longo das oito galerias do museu vemos mapas interactivos, moedas antigas, cidades recriadas em maquetes, histórias de pessoas, uma casa judia e livros em hebraico. E uma sinagoga altamente decorada com pinturas coloridas – ponto alto visual da visita. Continuando, até uma estação de comboios foi recriada, símbolo da revolução industrial, e uma rua da cidade. As dificuldades por que passaram os judeus estão, obviamente presentes, desde as levas de emigração no final do século XIX e princípios do século XX, sobretudo para os EUA, até ao Holocausto. A vida no gueto, ali mesmo ao lado, que chegou a acolher cerca de 450000 judeus, é representada de forma brilhante. E, por fim, o pós-guerra e mais uma dúvida lancinante: ficar ou partir? Não é preciso gostar de história para se apreciar este museu.




O Museu Warsaw Rising fica instalado numa antiga estação de energia eléctrica, abriu em 2004 e rapidamente se tornou um dos locais mais populares da capital polaca, sendo considerado um dos melhores museus do país.
Visitei-o num domingo, dia de entrada gratuita, logo ao início da manhã e toda a Varsóvia parece ter tido a mesma ideia. Sabia à partida que o museu se dedicava a lembrar uma data – a da Insurgência de Varsóvia de 1944 face à ocupação nazi – e nada mais. Era tal a boa disposição e euforia das famílias que visitavam o museu que pensei, mesmo, que a Insurgência havia sido bem sucedida. Vi durante a exposição que não. Mais um sinal de excelente convivência com a memória.
Aprendi – é para isso que as viagens servem – que este museu é fantástico mas que o episódio que recorda é ao mesmo tempo um episódio glorioso e corajoso mas trágico. Varsóvia obteve como resposta à rebelião de 1944 uma fúria brutal por parte dos nazis que destruiu a sua cidade quase por inteiro. Por outro lado, e sem querer entrar em querelas históricas, não são unânimes entre os historiadores as considerações acerca deste episódio, nomeadamente as suas motivações, processo e consequências.
Adiante.
Este museu, que pretende ser um tributo àqueles que lutaram e morreram por liberar a capital e o seu país do jugo da ocupação nazi, é um museu interactivo, com vídeos, fotografias, documentos e objectos que recriam o ambiente da época, em especial dos momentos pré Insurgência, a 1 de Agosto de 1944, durante e após o evento. O som que acompanha a visita é parte importante, permitindo-nos ter uma pequena ideia da vida nos locais, seja num bar, numa casa ou numa rua a ser sobrevoada pelos aviões de guerra. Aliás, entre os objectos recriados encontra-se uma réplica do avião B24 dos aliados. No fundo, o museu presta-se a recriar e contar a história do dia-a-dia daquela época, incluindo a ocupação nazi e, também não falta, o pós-guerra sob domínio comunista. Não quero ser injusta nem fazer julgamentos a que não estou habilitada, mas fiquei com a ideia de que para este museu as duas vidas não foram muito diferentes, contando-nos que os insurgentes não só não tiveram o esperado apoio soviético durante a Insurgência como acabaram por ser acusados de colaboração com os alemães e apelidados de fascistas pela propaganda comunista que se lhe seguiu quando a Polónia do pós-guerra caiu na esfera soviética. É que a dita propaganda não queria heróis para além do povo. Ou seja, mais uma evidência da polémica que rodeia a Insurgência. Nada melhor do que uma visita a este interessante museu para se conhecer e aprender sobre a história polaca e dai tirar as suas conclusões. Ou não.

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