Monsanto


À aproximação de Monsanto vamos vendo ao longe um cabeço com pontinhos vermelhos. Não fossem as telhas e não diríamos que aí pudesse estar uma povoação.

Este parece ser um lugar improvável para um assentamento habitacional, dada a sua geografia. Mas em tempos que já lá vão, esta encosta de granito altaneira serviu de protecção aos ataques inimigos mouros. As ruínas do Castelo, a quase 800 metros de altitude, lá estão para o provar, planície ampla toda aberta à nossa vista.



No sopé deste Castelo, que até chegou a ser mouro e depois foi dos templários, ergue-se a aldeia de Monsanto com as enormes e formosas rochas como vigia.

Ainda hoje é difícil não recordarmos o título que lhe foi atribuído em 1938 pelo então Secretariado da Propaganda Nacional do Estado Novo, o de “aldeia mais portuguesa de Portugal”.

A verdade é que Monsanto é bonita. É o pela sua localização fabulosa, pelos elementos naturais que lhe fazem companhia, pelo casario bem preservado e pela atmosfera que soube manter e até recriar.







As suas casas de pedra aproveitam os penedos ali presentes na paisagem. Umas casas estão encostadas à rocha, outras fazem uso do interior destas grutas para delas fazerem divisões, alguns pedaços das rochas são mesmo os degraus das casas. Em resumo, as rochas podem ser o chão, a parede ou o telhado das casas de Monsanto. E as rochas deixam caminhos tão estreitos tão estreitos que por vezes parece difícil conseguirmos por lá passar.





A Torre do Relógio, ou Torre de Lucano, é elegante e o seu sino vai-nos informando das horas. O galo de prata que a encima é a réplica do galardão conquistado em 1938.

Não são muitos os habitantes da aldeia de Monsanto, cerca de 80. Mas existem diversos povoados à sua volta que fazem este número subir. De qualquer das formas, para além de poucos junta-se um outro problema, o envelhecimento da população – entre 2014 e 2016 Monsanto esteve sem a escola de ensino básico. Aliás, Idanha-a-Nova, concelho a que pertence Monsanto, tem hoje quase quatro vezes menos habitantes do que tinha em 1950 e é o terceiro concelho do país com menos gente em comparação com a sua dimensão territorial. A desertificação é uma realidade nesta zona do interior de Portugal. 

Ainda assim, há quem contrarie a norma e quem volte. Como um casal jovem dos arredores de Lisboa que ali se estabeleceu para abrir uma pizzaria ou um casal de reformados que retornou à sua terra e se dedica ao artesanato local. Ele faz as cruzes, ela a marafona que as irá revestir. Mas não são os únicos a dedicarem-se à arte da confecção das típicas bonecas de trapo sem olhos e boca, recordação típica da região. Se não há crianças suficientes em Monsanto para uma uma disputa de bola, as rivalidades entre velhinhas que vendem marafonas estão ao rubro, a tal ponto que o desabafo de uma delas surge agreste: “quando ela está para ali mais ninguém vende”.


As tradições locais marcam presença com a Festa das Cruzes, celebrada a 3 Maio (dia de Santa Cruz) ou no domingo seguinte a este. As mulheres sobem até ao Castelo e vão cantando e tocando adufes, um instrumento musical tradicional da Beira Alta revestido de pele de cabra, com pequenas peças de tecidos coloridos nos cantos e com sementes no interior que lhe dão uma sonoridade característica. Das muralhas deitam um pote com flores, recriando um gesto de há séculos quando num dos muitos cercos a que os habitantes de Monsanto estiveram sujeitos nesse mesmo local um dos sitiados deitou um pote com um bezerro para mostrar que estavam bem alimentados, ajudando a que o então cerco fosse levantado.


E Monsanto retém uma aura de mistério. Aqueles penedos estão cheios de lendas. Diz-se que são o lugar de esconderijo de monstros e mouras encantadas.




Num dos penedos para os lados do castelo e para lá da Capela de São Miguel e da Necrópole, por exemplo, fica a Laje das Treze Tigelas ou das Tigelinhas da Fidalga. Aqui encontramos umas covas redondas na rocha que ora são associadas a um ancestral santuário, ora uma lenda nos explica a sua origem atribuindo-a à caridade de uma senhora nobre que aqui vinha servir sopa aos pobres. Mas para nos trazer de volta à realidade, parece que tal se deve na verdade a uma questão natural, qualquer coisa relacionada com a génese magmática da rocha que formou estas irregularidades na rocha granítica. Nada, porém, que nos faça perder o encanto por Monsanto.

E Monsanto será para sempre também o lugar onde Fernando Namora viveu o seu início de carreira como médico. Placas informam-nos a casa onde habitou e a casa onde deu consultas. Os seus livros mostram-nos a marca de outros tempos onde o território marcava indelevelmente não só a paisagem mas também a (dura) vida das pessoas. Uma excelente leitura como complemento desta viagem.

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