A Cidade do México

A primeira impressão da Cidade do México, doravante apenas México, como todos os mexicanos se lhe referem, é nos dada logo das nuvens, à chegada do avião. Esta vista de pássaro mostra-nos um contínuo de estradas e construções apenas interrompidas por uns quantos vulcões hoje extintos que salpicam a paisagem. Muitas das vezes, vamos percebendo com o tempo e as viagens já cá em baixo, nem os montes impedem o impulso construtivo. Todo o pedaço de terra serve e é necessário nesta cidade de mais de 20 milhões de habitantes.

À saída do aeroporto em direcção ao centro da cidade percebemos uma típica cidade latino-americana. Trânsito, estradas com arredores pouco qualificados, vendedores ambulantes em cada esquina ou mesmo no meio do asfalto – porque o trânsito lhes permite. Mas esta percepção, vamos percebendo também com o tempo, é algo precipitada. Esta não é uma cidade como as outras capitais latino-americanas. O México, apesar do seu crescimento descontrolado no século passado que foi agregando diversas povoações ao redor, fazendo delas seus bairros (e, por isso, na cidade encontramos ruas com o mesmo nome), é uma cidade organizada, monumental e bem conservada. Possui um centro histórico único, bairros residenciais com um ambiente de fazer inveja a qualquer europeu (como Condessa, Roma, Polanco e Coyoacán) e diversos museus de topo, um dos quais, o Museu Nacional de Antropologia, tão ou mais impressionante do que o Museu Britânico, o de Antropologia de Atenas ou os primos da Ilha dos Museus de Berlim. E tudo isto com uma colecção feita de objectos exclusivamente encontrados no seu país.

Tão imensa é a cidade que não se pode ter a pretensão de tudo ver. As escolhas impediram, por exemplo, de conhecer o campus da Cidade Universitária, lugar classificado pela Unesco e lugar onde numa das suas casas de banho se passa a inesquecível cena em que a Auxílio dos Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, presencia os tumultos entre a polícia e os estudantes acontecidos em 1968.

Sorte que para nos deslocarmos entre as grandes distâncias temos os táxis, baratos e seguros, mas com muita possibilidade de se apanhar trânsito na hora de ponta. Quer isso dizer que devemos recorrer ao metro em hora de ponta? Sim, por uma vez sim, para se ter uma daquelas experiências de vida. O metro do México, aquele que tem carruagens especiais para mulheres onde elas vão tranquilamente a maquiar-se durante a viagem, o metro do México, aquele onde apesar dos avisos de “proibida a presença de vendedores ambulantes nas carruagens” se aproveita para comprar e vender chicletes e brinquedos, o metro do México, esse, em hora de ponta não cabe lá sequer a figura icónica do senhor do metro de Tóquio que empurra os passageiros para dentro das carruagens. Porque na hora de ponta no metro do México os passageiros começam a amontoar-se antes de chegarem à carruagem, antes mesmo de chegarem à plataforma, digamos que aí por alturas do início dos corredores que hão-de fazer-nos chegar aí perto.

Mas foi muito antes de alguém sonhar com transportes como o metro que a actual Cidade do México se começou a desenhar.

À chegada dos espanhóis à cidade, em 1521, Hernan Cortes, depois de enganar Moctezuma (ou de este se ter deixado enganar, a história não é certa), decidiu construir a sua nova cidade no Novo Mundo precisamente em cima da cidade que tomou, a Tenochtitlan, a cidade dos Aztecas. Detalhe: os Aztecas, cuja designação rigorosa é Mexicas, tinham a sua cidade construída numa zona preenchida por vários lagos e os espanhóis, sem querer saber, construíram a sua cidade por cima dela e foram aterrando tudo à volta. Resultado: ainda hoje os chilangos tem água por baixo de si e sofrem com frequência as inundações de um péssimo planeamento urbano. Não é de admirar, pois, que muitos edifícios, qual Torre de Pisa, se vejam tortos a olho nu, para o que também terão contribuído os diversos sismos que assolaram a cidade.

Assim, o Zócalo, designação utilizada por todo o México (país) para a praça central da cidade, é, ao mesmo tempo, o centro da actual cidade e o centro da cidade pré-hispânica de Tenochtitlan. É por aqui que iniciaremos o nosso périplo pelo México.

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