Golfinhos e bioluminiscência

Para além do surf, em Puerto Escondido há pelo menos mais duas actividades imperdíveis: sair para o mar para ver golfinhos e tartarugas e sair para assistir ao fenómeno natural da bioluminiscência. Cada um destes tours é realizado por diversas companhias, mas foi-nos aconselhado o de Omar para os golfinhos e o de Lalo para a bioluminiscência e não só não nos arrependemos como os recomendamos.

Para ver os golfinhos saímos bem cedo, 7:30, da praia de Puerto Angelito. Primeiro, o barquinho com 8 pessoas a bordo sai contornando as praias junto ao centro de Puerto Escondido, com uma passagem especial por trás da bela e poderosa onda de Zicatela. Depois segue mar alto afora em busca das tartarugas e dos golfinhos.

Tivemos a sorte de ver logo duas tartarugas em pleno momento de acasalamento. Depois, mais uma tartaruga aqui e outra ali. Talvez um golfinho ao fundo. E mais nada. Andámos assim por muito tempo no barco, de um lado para o outro. Mas depois percebemos a diferença entre se escolher um ou outro tour. Em contacto via rádio com os seus informantes, o nosso “marinheiro” foi incansável e não parou enquanto não nos descobriu uma série de golfinhos. Entusiasmado, ao fim de um tempo largo passou a anunciar-nos que o que veríamos em breve iria “bloquear a nossa mente”.

Pode não ter bloqueado, mas que a nossa mente ficou mais leve e alegre com o contágio das brincadeiras e da felicidade que as dezenas de golfinhos mostravam naquela imensidão de mar, ai isso ficou. Eram saltos e mais saltos, alguns com piruetas no ar, uma maravilha. Este é um turismo responsável, pelo que não há aqui aquela coisa de tocar e fazer festas nos golfinhos. Limitámo-nos a mergulhar no mar quente e, debaixo de água, a escutar a chiadeira que os golfinhos soltam quando dialogam uns com os outros.

O anúncio do tour da bioluminiscência parecia uma treta daquelas “venha ver luzinhas dentro de água”. Ainda assim, sem grandes expectativas, juntámo-nos a ele. Lá pelas 18:00 seguimos de carro até à Laguna Manialtepec, onde passámos para um barco.

O guia era um conhecedor do lugar e estudioso da avifauna. Começámos por descobrir as diversas aves, cada uma mais bonita do que a outra, umas a sobrevoar a laguna, outras poisadas nos ramos da flora do manguezal, tudo isto num ambiente de fim de tarde de uma tranquilidade ímpar.

O barco lá ia seguindo molengão pela laguna e, depois, pelo canal que a liga até ao mar. Aqui chegados, saímos para a areia, acendendo uma fogueira e assando uns marshmallows, o docinho favorito do Snoopy, aguardando que a noite chegasse.

Foi então que, noite cerrada, apenas percebendo o som da rica fauna local, voltámos pelo canal e laguna e nos foi sendo explicado o fenómeno da bioluminiscência, melhor apreciado sem lua e após grandes chuvadas – condições óptimas que tivemos a sorte de ter. Este fenómeno natural ocorre pela presença de microrganismos que provém do mar e se reproduzem em águas tranquilas como as desta laguna. É o designado plancton marinho, que só acontece sob algumas condições naturais. O efeito? Umas cores luminosas e fosforescentes entre o azul e o branco quando colocamos a mão na água escurecida pela noite. Parece magia, mas é pura natureza. Lá mergulhámos na escuridão e os gestos do nosso corpo em contacto com a água foram recebendo essas cores sob a forma de uns feixes e umas bolinhas assaltaram a nossa pele e escorreram por ela.

Este é um espectáculo grandioso que nos é oferecido pela natureza e faz de Puerto Escondido um lugar ainda mais inesquecível.

As praias para lá de Puerto Escondido

Alugar um carro e partir para uma jornada de um dia para conhecer algumas das praias mais afastadas de Puerto Escondido é uma boa ideia. A estrada em direcção a Huatulco, onde ficam alguns dos maiores resorts da região, é fácil de dirigir, sempre recta, e acompanhada de uma bela paisagem feita de rios que correm para o mar e vegetação tropical.

Mas não chegámos a Huatulco e ficámo-nos apenas por Puerto Ángel, a uns 75kms de Puerto Escondido.

Eis algumas das praias deste passeio:

Puerto Ángel, a melhor para se ver a dinâmica de pesca

Zipolite, com a belíssima Playa del Amor escondida no seu final

San Agustinillo, a melhor para banhos

Mazunte, a melhor para uma paragem ao almoço e assistir aos banhistas a serem enrolados nas ondas – só aqui a mana fez dois salvamentos 💪😂

Puerto Escondido

O desvio até Puerto Escondido, na costa de Oaxaca, tinha uma justificação oficial, a de descansarmos uns dias antes de retornarmos ao país e ao trabalho. Mas a verdade esteve mais na justificação oficiosa da escolha, a da mana poder surfar naquela que é uma das ondas mais famosas do México e do mundo. Há que ser honesta, no entanto, e assumir que ver os surfistas a descer a onda de Zicatela e a entrar nos seus constantes tubos foi um espectáculo que só por si mereceu atravessar o Atlântico e mais além, parando neste ponto da costa já virado para o Pacífico. Foi um passatempo muito prazeroso deixarmo-nos estar na areia e vê-los ali bem junto a nós a aparecer e a desaparecer nas ondas enormes.

Puerto Escondido é uma povoação pacata onde não se faz mais do que surfar de manhã, dar um mergulho na praia, apanhar sol, comer ceviche, apanhar sol, dar um mergulho na praia, surfar de tarde, sair para bailar.

A povoação em si é famosa pela praia de Zicatela, onde fica a tal onda tubular famosa. Por curiosidade diga-se que esta onda funciona grande parte do ano e sobretudo pela manhã e ao final da tarde. Pelo meio, não são fáceis os banhos em Zicatela, porque as ondas rebentam muito fortes mesmo à beira da areia.

Se não se vai surfar, ou se se vai surfar ondas mais pequenas e para principiantes, a escolha é a Ponta, no final dos 4kms de Zicatela.

Mas há mais praias em Puerto Escondido.

Como a Playa Principal e a Playa Marinero, no centro da povoação, onde se partilha a areia e a água com os barquinhos de pescadores e o prémio do dia.

O Andador Turístico, que liga este centro a outras praias, estava interdito aquando da nossa visita, destruído em muitos pontos pela força do mar, daí que não tivéssemos percorrido mais do que uma centena de metros.

Mas utilizando os táxis sempre baratos chegamos até uma pequena enseada protegida pelas rochas que acolhe a Playa Manzanillo e Puerto Angelito.

Mais adiante fica a Playa Carrizalillio, talvez a mais bonita, acessível depois de se descer uns quantos degraus.

A costa é longa, pelo que opções de praias não faltam e em post seguinte veremos que vale a pena sair de Puerto Escondido e explorar os seus arredores.

Pelas redondezas de Oaxaca

Na maior parte das vezes não achamos muita piada aos tours, pela pouca margem de tempo que costumam dedicar a cada visita e pelos lugares adereço que impingem aos turistas.

Mas nas viagens sempre em trânsito, constantemente de um lado para o outro, de vez em quando sabe bem descansar a cabeça e vale a pena arriscar a ser guiado, sobretudo quando o tempo não abunda. Foi assim que decidimos por um tour pela região mais próxima da capital de Oaxaca, desde aí até Hierve el Agua, a 70 kms, passando por Mitla e Santa Maria del Tule, com paragens numa loja de têxteis e numa fábrica de mezcal. E não só não nos arrependemos como recomendamos este tour.

A primeira paragem foi em Mitla, povoação famosa pelo sítio arqueológico que ganhou importância após a queda de Monte Albán. De nome original em língua zapoteca “lyobaa”, com o significado de “lugar de descanso”, as ruínas deste sítio comportam um conjunto de edifícios que no seu apogeu entre os séculos XIII e XIV acolhia as entidades religiosas e os palácios das mais altas personalidades da época zapoteca. Mas o elemento mais distintivo deste sítio são as designadas “grecas”, os seus mosaicos característicos com decorações geométricas várias que dão aos muros dos edifícios um efeito especial de movimento e luz.

De Mitla seguimos até Hierve el Agua e pelo caminho fomos apreciando a paisagem montanhosa. “Ferve a agua” é um lugar que tem tudo para ser um daqueles panoramas incríveis que se guardam na memória até ao final da vida – uma piscina de água azul debruçada num desfiladeiro acompanhado pelo recorte da montanha. Acontece que em época de Guelaguetza não é só a cidade de Oaxaca que está cheia de visitantes. É também toda a região. Ou seja, à nossa passagem o panorama incrível estava transformado num cenário preenchido por uma multidão de corpos e cabeças que quase não deixava perceber que ali havia uma piscina com água. Este é, pois, um lugar popular.

Mas se nos deixarmos levar pelo caminho de terra que está para lá desta piscina vamos ver um outro panorama igualmente incrível, feito de penhascos altos cujas rochas têm umas formas raras, resultado dos minerais que sobre elas actuam. Tudo isto num ponto altaneiro para um vale que se estende longe de forma soberba.

Após um almoço buffet tradicional esquecível, parámos em Teotitlán del Valle, a terra por excelência onde são confeccionados os têxteis, mais especificamente numa loja onde pudemos conhecer, através de uma demonstração, o modo do seu fabrico ao tear. Mais interessante ainda foi saber como se chegam às diversas cores que inundam os têxteis que são uma das imagens de marca de Oaxaca. Por exemplo, o vermelho vêm de um parasita de um insecto que costuma aborrecer os espinhos dos cactos. Mas não são só os bichos que resultam em cor, também a manipulação de outros elementos da natureza como frutas, minerais e flores nos fazem chegar às cores mais incríveis para, depois, preencherem a diversidade de desenhos e temas das várias peças de têxteis.

Se com esta demonstração por um casal de velhotes ficámos com a impressão de não haver neste tour pressão para os seus integrantes comprarem os produtos locais, com a visita à fábrica de mezcal ficámos com essa certeza. Na Fábrica de Mezcal Artesanal El Rey de Matatlán vimos o processo que leva até à forma final em que se serve esta bebida espirituosa, desde a planta do agave até à destilaria, com muitas curiosidades à mistura, e foram-nos dados a provar vários tipos de mezcal, sempre seguindo um ritual bem disposto. Se o mezcal é parte da identidade de Oaxaca – na região dos vales centrais é fabricado 60% de todo o mezcal do México -, há que, então, seguir todos os preceitos associados à toma desta bebida que se bebe maioritariamente num convívio de amigos. No nosso grupo não éramos todos amigos, nem sequer conhecidos, mas neste momento do tour já vínhamos trocando conversas e aqui, na prova de mezcal, pudemos trocar experiências e perceber que quase todos eram mexicanos, vindos de todo o lado do país, Chihuahua, Puebla, Baja California. Antes de beber o mezcal há que soltar sempre em conjunto alguma poesia, como a muito conhecida “para todo o mal, mezcal; para todo o bem, também.” E foi para o bem que provámos várias levas deste líquido num copinho pequenino – fraquinha, eu fiquei-me pela primeira prova desta aguardente que mais me pareceu saber a tabaco e só voltei às lides quando foi oferecida a prova de mezcal mais licoroso.

Esta jornada terminou em Santa Maria del Tule, um pueblo tranquilo cuja maior atracção é uma sua árvore, a Árbol del Tule, uma das maiores do mundo no que ao diâmetro de tronco diz respeito. São 14,5m e conta-se que serão necessárias 30 pessoas para a abraçar. Impressionou-me mais saber que terá 2000 anos e, principalmente, a pacatez do parque da povoação, com igreja e jardim bem cuidados, e que, esse sim, ficará na memória como fecho deste longo dia.

Monte Albán

Monte Albán é a maior cidade pré-hispânica da região de Oaxaca. Está situada sobre um conjunto de maciços montanhosos onde confluem os três vales de Oaxaca, a 1900m sobre o mar e a 300m sobre o vale. É uma daquelas implantações extraordinárias, sobranceira a todo o território, que nos faz apreciar ainda mais o engenho das antigas civilizações.

Para se chegar a Monte Albán a melhor forma é ir de táxi, uma jornada de uns vinte minutos desde o centro de Oaxaca sempre a subir. E é muito boa ideia vir cedo, pois por volta da hora do almoço o sítio começa a encher e perde a piada da sua pacatez.

O sítio arqueológico de Monte Albán é um dos mais importantes do México e o mais importante da região de Oaxaca. Com ocupação humana permanente durante cerca de 13 séculos, entre 500 a.C. e 850, foi no século XIX que se iniciaram os primeiros trabalhos de escavação do local. A zona arqueológica estende-se por 20 km2 e abarca um conjunto de três grandes montes no vale de Oaxaca: Monte Albán, Atzompa e Gallo. Este era o centro da cultura zapoteca e desde Monte Albán os zapotecas governaram os vales centrais de Oaxaca. Após o seu abandono progressivo até ao século X, não se sabendo ao certo o seu porquê, a cidade continuou sagrada para os zapotecas e os mixtecas que lhes sucederam. Seguiram-se os aztecas e, depois destes, os espanhóis, os quais fundaram Oaxaca em 1529.

A construção de Monte Albán passou por várias fases, mas desde os seus primeiros anos que esta foi uma cidade planeada, diz-se que a primeira do continente americano (embora tenhamos visto o mesmo anúncio em Teotihuacán). É um complexo de pirâmides, mercados, palácios e templos construído pelos zapotecas. Estava distribuída urbanísticamente de forma a que em cada topo – norte e sul – se erguesse uma plataforma. E sobre cada uma destas plataformas construíram-se os edifícios monumentais, incluindo pirâmides que se propunham a copiar a forma dos montes. Já as residências dos habitantes da cidade estavam distribuídas nas ladeiras, sobre a forma de terraços. Em baixo e ao centro, a Grande Praça, hoje um espaço largo sobre um manto de relva verdíssimo, 300m por 200m que correspondiam ao coração do centro cerimonial da cidade de Monte Albán.

Em cada uma das plataformas, os panoramas que se obtém são soberbos. Panoramas quer para o próprio complexo da cidade antiga de Monte Albán, com a belíssima Grande Praça em grande plano, como para os vales vizinhos, com vistas amplas de 360°. Esta implantação não foi certamente um acaso. Pelo contrário, os zapotecas privilegiavam na construção da sua cidade uma interacção com o meio ambiente e a paisagem natural que a rodeia.

Esta era uma sociedade altamente organizada que adoptou o estado como sistema de governo, dirigido pela classe sacerdotal. A economia era baseada no tributo prestado pelas demais comunidades do vale e na produção agrícola de milho e outros bens. A região era rica em recursos naturais como plantas medicinais, frutos e sementes de plantas silvestres, insectos comestíveis, animais de caça, bem como pedra, cal e adobe para a construção dos edifícios e barro para a cerâmica.

Os edifícios estavam construídos com uma disposição de forma a poder calcular-se os ciclos da agricultura. Aliás, em Monte Albán usavam já os zapotecas um sistema de calendários. Mais, terá sido das primeiras civilizações do México a usar um sistema de escrita.

O seu auge aconteceu entre os séculos IV e VII, quando a sua população chegou a atingiu 25 mil pessoas. No sítio arqueológico de Monte Albán existe um pequeno museu. E no Museu de Antropologia da Cidade do México podemos conhecer ainda mais sobre ele, vendo-se, nomeadamente, tumbas com uns frescos de cores vivas – o que não se vê in loco na própria Monte Albán. Aqui, para além das ruínas dos edifícios, apenas vemos umas poucas colunas de pedra com figuras dos Dançantes. E se em Monte Albán é visível, bem conservado, um interessante espaço feito de terraços de pedra com a forma de um campo de jogos, é no Museu de Antropologia que aprendemos melhor sobre esta ideia comum a várias civilizações pré-hispânicas.

Os terraços do Juego de Pelota não seriam lugares para os espectadores, mas antes espaços para se jogar este desporto ritual que tinha como finalidade determinar os perigos que o sol enfrentava na sua jornada diária pelo plano celeste e, assim, conjurar a sua possível destruição. Soa místico? Os zapotecas davam ainda grande importância à astronomia. Quanto a eventuais sacrifícios praticados na cidade, o nosso guia assegurou que não, ali não se fizeram nunca sacrifícios. Pois. Deve ser difícil admitir que num sítio com um ambiente tão inspirador se tivesse realizado alguma vez algo tão incompreensível para a nossa época.

As cores da Guelaguetza

Oaxaca é famosa pelos seus festivais tradicionais. Para um não mexicano talvez o mais famoso deles seja o do Dia dos Mortos, em Novembro. Mas para um oaxaquenho e para os mexicanos em geral, o Guelaguetza é aquele em que todos querem participar.

Também conhecido como “Los Lunes del Cerro” (segundas-feiras do Monte), o Guelaguetza tem lugar nas duas segundas-feiras a seguir ao dia 16 de Julho. Em 2019 calhou, por isso, nos dias 22 e 29 de Julho, mas toda a semana é de festa.

As suas raízes vêm de há muito e é uma tradição indígena que pretende honrar Centeotl, a Deusa do milho, de forma a assegurar boas colheitas (recordar o dito popular: “sin maíz, no hay país”). Quando os espanhóis chegaram, os missionários que os acompanharam tentaram acabar com este género de rituais pagãos e para isso promoveram a Festa da Virgen del Carmen, celebrada a 16 de Julho. Sem sucesso. A Guelaguetza sucede-a no calendário, mas não encontra ainda hoje rival nas festividades.

Celebrado oficialmente desde 1974, gente de todo o México, e mesmo estrangeiros, vem até Oaxaxa durante estes dias para assistir a um colorido e alegria diferentes proporcionado pelos participantes das oito regiões do estado de Oaxaca, a região mexicana com mais diversidade étnica. As várias comunidades dançam e cantam com orgulho e desfilam pelas ruas nas suas vestes típicas, hiper coloridas e hiper decoradas. É uma autêntica mostra étnico-cultural das tradições indígenas, a que não falta a gastronomia – e o mezcal – que, aliás, é um dos pontos altos de qualquer visita à cidade de Oaxaca.

Guelaguetza é uma palavra zapoteca (o grupo indígena dominante na região) que significa “oferecer”, enquanto acto de troca, de reciprocidade, daí que no final dos espectáculos de dança folclórica tradicionais que ocorrem nas praças e ruas da cidade estes terminem sempre com os participantes a atirar presentes para o público, sobretudo fruta e flores.

As cerimónias oficiais têm lugar no auditório no Cerro del Fortín e os lugares mais próximos do palco – pagos – esgotam rapidamente. Para os demais lugares – gratuitos – formam-se filas enormes para ambas as sessões – de manhã e de tarde – de ambas as segundas-feiras.

Tentámos comparar bilhete, não tentámos esperar na fila. Mas nem por isso se perde pitada do ambiente festivo. No Zócalo está montado um écran gigante que vai passando as imagens da televisão com o grande espectáculo do auditório, igualmente transmitido na rádio. E no Jardín del Pañuelito acontecem espectáculos em ponto mais pequeno de dança e música. Pelas ruas, para além das bancas de artesanato e do corrupio constante das mulheres em belos trajes tradicionais e com tranças coloridas, vamos vendo diversas paradas com muita música, cor e alegria.

Dito isto, não se pense que é apenas na cidade de Oaxaca que se sente a Guelaguetza. Não. Um pouco por todo o estado se percebe estas celebrações. Na estrada cruzamo-nos com carrinhas de caixa aberta a transportar os participantes nas suas vestes tradicionais e nas aldeias e vilas escutamos o rufar dos tambores ou um lançar de fogo de artifício e vemos as suas ruas decoradas para a festa que torna a região de Oaxaca ainda mais viva e colorida.

Oaxaca

Oaxaca é o nome do estado mais indígena do México e aquele que mais preserva as suas tradições ancestrais. E é também o nome da sua capital, provavelmente uma das cidades mais carismáticas e turísticas do país e distinguida pela Unesco como património mundial.

A diversidade do estado de Oaxaca manifesta-se na sua cultura, com uma série de etnias, mas também na sua geografia. Chegando de avião percebemos melhor os seus vales cercados de montanhas verdes. Mas mesmo caminhando pela cidade vemos que as montanhas nos rodeiam. Quando pretendemos sair dela por carro, então, nem se fala. Ou seja, Oaxaca está implantada num desses vales.

O seu nome deriva do nahuatl huaxyácac que significa “no nariz da abóbora”. Quando os espanhóis aqui chegaram e fundaram a sua cidade em 1529 chamaram-lhe Nova Antequera, mas após a independência do México o seu nome passou para Oaxaca. Em 1872, morto Benito Juaréz, um indígena nascido num pueblo local que veio a ser presidente da República por 14 anos e se tornou num dos mais considerados e amados políticos da nação, a cidade passou à actual Oaxaca de Juaréz. Curiosamente, Porfirio Díaz, outro oaxaquenho, ocuparia o mesmo cargo pouco depois e tornar-se-ia o ditador que por mais de três décadas governou o país. O porfiriato gerou tal descontentamento por parte da população que desencadeou as lutas pela Revolução Mexicana, cujo líder mais popular para nosotros, gringos será Emiliano Zapata – que não era de Oaxaca, mas entra na nossa história para gritar Viva Zapata!, relembrando John Steinbeck, Elia Kazan e Marlon Brando.

Planeámos a nossa estadia em Oaxaca há uns meses largos e só mais tarde – talvez quando tentámos perceber o porquê do preço do alojamento ser estupidamente caro – reparámos que iria coincidir com o Guelaguetza, um dos maiores festivais do México, conhecido por ser um país de fiesta permanente. A tal ponto que Octávio Paz, o seu Nobel da Literatura, dizia que “a arte da festa pode ter-se degradado em todo o lugar, mas não no México”. Ou seja, o entusiasmo tomou conta de nós.

O primeiro dia pelas ruas de Oaxaca foi fantástico, colorido, animado. Ao segundo pensámos que seria giro se conseguíssemos apreciar um pouco mais sossegadamente o ambiente colonial das ruas e edifícios. Ao terceiro dia lamentámos, definitivamente, não podermos levar uma imagem do Zócalo com menos de mil pessoas ali entulhadas.

De qualquer forma, poder partilhar a cidade com os diversos oaxaquenhos que para aqui vêm no Guelaguetza (ver post seguinte) mostrar a sua cultura e tradições foi uma oportunidade única e muito bonita.

Comecemos este périplo por Oaxaca pela Igreja de Santo Domingo, o mais belo e rico templo dominicano que alguma vez vi. A sua fachada barroca é até equilibrada e esconde o deslumbre que é o interior hiper decorado, não apenas os altares, mas toda a igreja, incluindo paredes e tectos, cortesia dos melhores artistas da época da sua construção, no século XVI.

Esta era a igreja do antigo Convento de Santo Domingo, hoje transformado em Museu das Culturas de Oaxaca. Há que demorar-nos a conhecer as múltiplas salas deste museu, instaladas nas antigas celas dos dominicanos, e, assim, a história da cidade e da região.

Ainda no Convento, os claustros e as vistas que as suas varandas proporcionam são uma beleza à parte. Sobretudo esta última, com um cenário de cortar o fôlego para as montanhas que cercam a cidade, com as suas formas poderosas mas ternas ao mesmo tempo.

E lá em baixo fica o Jardim Etnobotânico, antiga horta do Convento. A visita a este jardim é apenas efectuada em determinados horários e com um guia (prevê-se que em breve possa vir a ser de visita livre, embora igualmente paga). Os poucos horários disponíveis para a visita não devem deter-nos, uma vez que este é um dos mais fantásticos locais que a cidade tem para oferecer. A ideia do jardim tem vindo a ser posta em prática a partir de 1998, quando se começaram a plantar plantas de todo o estado, neste que é o estado do México com mais espécies. E porque as plantas escolhidas para aqui serem representadas possuem também um significado cultural, eis o nome do jardim: etnobotânico. Vemos muitas espécies diferentes, incluindo os omnipresentes cactos, sempre num ambiente exótico, incluindo o pequeno lago com os reflexos irreais das plantas.

A Calle Macedonio Alcalá segue do Convento de Santo Domingo à Catedral no Zócalo. Rua pedonal, de um lado e do outro desfilam os edifícios coloridos coloniais que fazem também a fama de Oaxaca. Igualmente, nas ruas que lhe são paralelas e perpendiculares descobrimos muitos pormenores de encantar, seja uma cor diferente, uma janela decorada com flores ou uma janela que de tão longa mais parece uma porta, até um grafitti perdido numa parede.

A arte é uma constante na cidade. Existem inúmeras lojas de artesanato – cerâmica e têxteis como elementos fortíssimos -, galerias e espaços culturais e museus. Exemplos? O Instituto de Artes Gráficas com o seu mimoso pátio, o Museu Arte Contemporâneo, o Museu dos Pintores Oaxaquenhos e o Centro Cultural San Pablo (primitivo Convento Dominicano).

O Zócalo, já se disse a começar, ficou-nos marcado pelos magotes que o Guelaguetza traz a Oaxaca e que optam por se concentrar maioritariamente na praça central da cidade. Ainda assim, deu para sentir que é uma praça bem bonita, Catedral de um lado, Palácio do Governo do outro, jardim com árvores pelo meio, edifícios com arcadas nas laterais.

A gastronomia de Oaxaca é um atractivo por si só. Experimentámos a comida de rua e a comida dos seus restaurantes da moda, que mesclam os modos de fazer tradicionais com uma re-interpretação mais moderna, mas utilizando os ingredientes de sempre. Os chapulines, espécie de gafanhotos, são um exemplo disso, vendidos quer nos mercados e nas ruas quer servidos à mesa pelos chefs.

Oaxaca é a “terra dos sete moles”. São sete as variedades de mole, cada um com a sua cor, o molho que, conta-se, é feito da mistura de 28 ingredientes, entre os quais o chocolate e o chili.

O mole pode ser o que distingue a comida de Oaxaca, mas nomes e sabores como os dos tamale, quesadilla e tlayuda não passam despercebidos. Quanto a bebidas, para os que não bebem álcool, o tejate é uma opção ao incontornável mezcal, parte da identidade de Oaxaca que se guia pelo dito: “para todo o mal, mezcal; para todo o bem, também”.

O Mercado 20 Novembro, igualmente conhecido como “mercado da comida”, ao lado da confusão esperada e desejada do Mercado Benito Juaréz, é o lugar para se experimentar o tasajo, bife na grelha do qual só sentimos a intensa fumarada, e as águas de sabores da intemporal Casilda.

Já nas ruas, há que provar uma nieve, o gelado local, antes de subir à esplanada de um rooftop. Apesar de nos ter tocado chuva inclemente com hora marcada, sempre ao final da tarde, ainda conseguimos sentir o ambiente altaneiro de terraços como o do Pitiona, Los Amantes e Casa Oaxaca, todos eles escolhas acertadas para nos despedirmos de Oaxaca.

Guanajuato

Se há lugares improváveis para se estabelecer uma cidade, o de Guanajuato é um deles. Encravado entre montes, os seus edifícios foram-se erguendo num vale. O que acontece é que o tempo fez com que as encostas desse vale fossem também sendo tomadas pela urbanização. Assim uma espécie de mini La Paz a metade da sua altitude.

Do alto do Monumento a El Pípila a vista que daí se obtém mostra com precisão essa evolução. É um confuso emaranhado de casas, todas coloridas, protegidas pelos montes ainda cobertos de verde que se sucedem ondulantes. Até à enorme estátua a Pípila sobe-se de funicular, para a mais de 2000 metros de altitude poupar pernas e coração. E aqui se descobre a personagem, que a história não tem unanimemente como real, representante da gente simples e pobre de Guanajuato, trabalhador das minas locais, que em 28 de Setembro de 1810 ateou fogo à Alhondiga – e por isso está de archote na mão – permitindo aos insurgentes a sua primeira vitória na batalha pela independência dos mexicanos face aos espanhóis.

Logo aos primeiros minutos na cidade, no lugar do monumento a Pípila aprendemos muito sobre ela. A sua geografia, a sua urbanização, a sua gente indómita.

A fundação de Guanajuato (literalmente “monte das rãs” na língua indígena local) em 1559, terra quase que perdida no meio do centro montanhoso do México, deve quase tudo aos filões de prata e outros recursos minerais valiosos que uma década antes os espanhóis haviam descoberto na região e os tinha deixado loucos. Em dois séculos, do estado de Guanajuato foi extraída 40% da prata mundial.

Descemos do topo do miradouro de Pípila, agora já não pelo seu funcionar mas a pé, pelas suas ruas estreitas e sinuosas, boas para nos perdermos no caminho. Só que este acaba por enganar pouco, é sempre para baixo. Já cá em baixo descobrimos alguns edifícios coloniais, muitas igrejas, ficamos frente a frente com as casas coloridas e percebemos que as estradas procuram vencer as ravinas e aqui e ali são forçadas a adentrar por túneis que outrora foram rios. Esta geografia é mesmo muito curiosa.

E se a piada de San Miguel de Allende é caminhar pelas ruas, o encanto de Guanajuato é descobrir as suas múltiplas praças.

Comecemos pela do Jardín de la Unión: esta praça-jardim é muito peculiar e bonita. De planta triangular, está totalmente coberta por árvores figueira-asiática e rodeada de restaurantes e bares nas laterais e a igreja de San Diego no topo. São as copas das árvores que fazem com que o jardim tenha uma cobertura natural que a protege do sol e lhe dá um ambiente idílico, ainda para mais com a companhia de um coreto.

Junto ao Jardin de la Unión fica a Basílica Colegiata de Nossa Senhora de Guanajuato e a sua Plaza de la Paz, ideal para se descansar enquanto se aprecia uma paleta, os gelados de pauzinho com todos os sabores que já se imaginou.

Um pouco mais adiante aparece a Plaza de Los Angeles com as suas escadarias que cercam uma fonte e as suas casas coloridas. É desta praça que se sobe até ao Callejón del Beso, uma daquelas tretas para turista ver, uma rua estreita onde duas varandas quase que se tocam que, conta a história, serviu de cenário para o amor tormentoso entre uma filha de boas famílias e um mineiro, que, vizinhos, aqui trocavam beijos furtivos.

E, depois, mais três praças se sucedem: a Plaza de San Fernando, a Plaza de San Roque e o Jardín de la Reforma. Todas elas pitorescas e cheias de vida, até porque ainda para mais nelas costumam assentar arraiais diversas feiras, seja de produtos de artesanato, livros ou espectáculos ao ar livre.

E com isto atravessamos quase a cidade de uma ponta à outra e chegamos até ao Mercado Hidalgo e à Alhondiga. O Mercado é imperdível, não tanto pela sua arquitectura em vidro encimada por uma torre do relógio – originalmente pensado para ser uma estação de comboio – nem pelas suas bancas de venda – quer de vegetais, frutas, carne e peixe, quer de artesanato -, mas porque aqui se pode almoçar alguns dos produtos típicos da região. Igualmente, no adjacente Mercado Gavira, também conhecido como “mercado da comida”, existe uma série de pequenos restaurantes que disputam furiosamente os clientes.

A Alhóndiga de Granaditas, hoje Museu Regional, é um enorme edifício de estilo neoclássico construído originalmente para servir de armazém de grãos e sementes que abasteciam a região. É um símbolo da cidade porque foi aqui que se deu uma das primeiras vitórias dos insurgentes em 1810, a tal em que Pípila pegou fogo a centenas de espanhóis e seus apoiantes. Após essa data foi, sucessivamente, quartel, hospital, armazém, escola, fábrica de tabaco, prisão e, enfim, museu. Juntamente com o Museu del Pueblo de Guanajuato, é um espaço para se conhecer da história de Guanajuato – cidade e estado – e da arte dos seus habitantes.

Por falar em museus e habitantes de Guanajuato, foi aqui que em 1886 nasceu Diego Rivera. A casa de sua família e onde o artista muralista marido de Frida Khalo viveu os seus primeiros anos de vida foi transformada em Museu e Casa Diego Rivera e é mais um espaço de visita obrigatória.

Há pelo menos mais dois ícones nesta cidade classificada pela Unesco como Património da Humanidade que são imperdíveis. O fantástico Teatro Juárez começou a ser construído em 1873 mas só foi inaugurado em 1903 pelo então ditador Porfirio Diaz. A sua fachada preenchida por colunas não engana, o seu interior é igualmente grandioso. Passamos pelo lobby e pelo bar, espreitamos a escadaria monumental com esculturas em mármore e entramos na deslumbrante sala principal com o seu interior mourisco.

Para nós, portugueses, outra surpresa está guardada no salão nobre que servia de foyer para os convidados mais importantes: aí descobrimos uma escultura em bronze de Camões ao lado de outros escritores como Dante e Shakespeare.

O outro ícone da cidade é o edifício central da Universidade de Guanajuato. Construído nos anos 1950s, não é ainda hoje uma unanimidade. É inegável a ruptura arquitectónica que cria quando visto ao longe, do Monumento a Pípila por exemplo, uma enorme massa branca luminosa que parece destoar do amontoado colorido dos edifícios coloniais ou casas mais modestas. Mas quando visto ali mesmo, no seu lugar, já parece não destoar assim tanto. Pelo contrário, a sua escadaria monumental (quase 100 degraus) e a sua fachada com elementos renascentistas e neogóticos, que quase chega a parecer um castelo medieval, fazem deste conjunto excêntrico um momento feliz.

Guanajuato sempre teve tradição universitária. Hoje são mais de 20000 os estudantes na cidade e o ambiente educativo e cultural que à sua volta se vive faz com que aqui se realizem eventos de nomeada. O Festival Internacional Cervantino, que se celebra anualmente em Outubro, dá fama a Guanajuato.

Outra das suas instituições são as “callejoneadas” ou “estudantinas”. Não são apenas os estudantes que saem pelas ruas a animar a cidade, também os músicos profissionais têm um papel principal neste ambiente de festa. No fim da tarde, princípio da noite, grupos de músicos ou entertainers com vestes típicas convidam quem se queira juntar (muitas das vezes vendem um “bilhete” que servirá para oferecer uma bebida) para daí seguirem pelas ruas da cidade a contar histórias e a cantar. É pura animação e é difícil resistir. Ainda para mais, por essas horas no Jardín de la Unión estão lá também os mariachis para dar música a quem a queira ouvir – e somos muitos.

Para terminar este recorrido pela cidade de Guanajuato, e sem nos afastarmos quase nada do Jardín, apresentemos aquela que para mim é a mais mimosa das praças da cidade das praças, a Plazuela del Baratillo. Não é apenas a fonte no meio rodeada de edifícios coloridos, uma repetição nestas paragens. É também o movimento singelo das suas gentes. Dia e noite há sempre alguém que monta banca na rua ou abre uma janela a vender comida ou bebidas, não necessariamente sempre a mesma pessoa e bens na mesma banca ou janela, numa recriação constante a que nos juntamos com gosto.

E sendo Guanajuato uma região rica em recursos mineiros e tendo estes tido influência até na decisão da fundação da cidade, há que não deixá-la sem conhecer pelo menos uma das suas minas. La Valenciana, a meros 5kms do centro de Guanajuato, possuiu diversas minas, entre as quais as hoje visitáveis Bocamina San Cayetano e Bocamina San Román. Descobertas em 1548, as minas de La Valenciana atingiram o auge da sua extracção de prata no século XVIII. No século XX os trabalhos tornaram-se diminutos e hoje apenas algumas minas da região ainda laboraram. Visitámos a Bocamina San Cayetano, suspensa já há dois séculos, através de uma visita guiada com um antigo mineiro. A visita não é aterradora, nada que se pareça, embora quem sofra de claustrofobia possa entender o contrário. Descemos umas dezenas de metros terra adentro e com as explicações vamos tentando imaginar como era a vida e trabalho inimagináveis dos primeiros mineiros indígenas e daqueles que os sucederam até esta mina deixar de laborar.

Na pequena La Valenciana há ainda espaço para conhecer a Igreja de San Cayetano. Este é mais um exemplo do passado glorioso da região, em que a busca incessante dos espanhóis por encontrar o seu El Dorado os fez prometer a São Caetano que se encontrassem riquezas dignas de se ver construiriam um templo em sua honra. Encontraram-nas em La Valenciana, Guanajuato, e aqui está a Igreja de San Cayetano com o seu fabuloso interior com 3 altares plenos de talha dourada.

San Miguel de Allende

San Miguel de Allende está situada nas montanhas centrais do México, a umas 4 horas de agradável viagem de autocarro desde a capital. O seu nome é uma curiosa homenagem a dois homens: Juan de San Miguel e Ignacio Allende.

Juan de San Miguel foi um frade franciscano que tinha a sua missão nos arredores da actual cidade quando, um dia, os seus cães abalaram para El Chorro em busca de um clima mais fresco e, em seguida, também o frade mudou a sua missão para aqui. E assim se fundou a cidade em 1542. Era então a San Miguel de los Chichimecas, povo de indígenas. Aqui mesmo, depois da árdua conquista por parte dos espanhóis, viriam estes a fundar em 1555 a vila a que chamaram San Miguel el Grande. As duas povoações, protegidas por rochas altas e alimentadas por águas e outros recursos naturais, tudo partilhavam, incluindo a geografia. Um cronista do século XVIII dizia então que esta vila de San Miguel el Grande gozava de “temperamento muito são, ares benignos e águas doces”.

Mas o século seguinte viria a mostrar que não eram apenas os ares e as águas da cidade que tinham um temperamento de destaque. Também os seus homens, com realce para um deles, Ignacio de Allende, mostrariam a fibra de que San Miguel era feita. A região, incluindo as povoações de Querétaro e de Dolores, para além de San Miguel el Grande, foi o berço das primeiras conspirações e insurreições, em 1810, pela independência do México face ao domínio espanhol. Os primeiros insurgentes (nome de rua, avenida, metro, tudo e mais alguma coisa, no México), Juan Aldama, o padre Miguel Hidalgo (nome que viria a ser acrescentado à actual cidade de Dolores) e Ignacio Allende, logo foram presos e executados, e demorada seria a guerra entre os rebeldes e as forças leais a Espanha. Foram precisos 11 anos para que 1821 trouxesse finalmente a independência do México e com ela o estatuto de mártir conferido a Ignacio de Allende e, pouco depois, a renomeação da sua cidade natal para San Miguel de Allende.

Depois de um ocaso e quase abandono após a Guerra da Independência, a cidade foi perdendo proeminência. Só a partir de meados do século passado é que vários artistas, entre escritores, pintores e fotógrafos, para aqui vieram, atraídos pela luz da cidade. Muitos deles americanos, incluindo o pessoal da Geração Beat – não é certo que Jack Kerouac tenha passado por San Miguel, mas Neal Cassady acabou mesmo por morrer aqui.

De qualquer forma, este quase abandono da cidade fez com que ela se preservasse intacta e serena até aos nossos dias, sendo hoje muito procurada por estrangeiros para viver ou aqui passar temporadas, principalmente americanos.

Distinguida pela Unesco como Património da Humanidade, San Miguel de Allende é, de facto, um lugar precioso. Sobretudo pela sua arquitectura colonial e a sua luz. A luz natural e a luz que emana dos seus edifícios.

A cor é o que mais seduz, uma paleta que vai do amarelo torrado, passando pelo vermelho ocre ou o vermelho vivo, à vez, até ao tom pastel rosa da Parroquia, a original igreja que é um dos grandes símbolos da cidade. Até os táxis verdes se juntam a esta espécie de arco-íris.

As ruas estreitas empedradas deixam ver casas simples, mas sempre coloridas, com elementos decorativos nas fachadas, para além das suas belas janelas e balcões, algumas embelezadas com flores. As suas esquinas possuem cruzes trabalhadas e amiúde veem-se fontes – a testemunhar a riqueza do lugar em água – que mais parecem trabalho de artista.

E muitas das vezes as casas simples dão lugar a mansões ou antigos conventos, hoje tornados serviços públicos ou hotéis. Os seus claustros e/ou pátios são mais um motivo de beleza.

Sobretudo ao redor da cidade de Guanajuato, igualmente nome do estado onde fica San Miguel de Allende, a região é rica em recursos minerais e os barões da prata tinham as suas casas precisamente em San Miguel, não só pelo clima agradável mas também porque esta ficava na rota do Camino Real que levava a dita prata até à Cidade do México.

E, depois, há uma mão cheia de igrejas. Tantas e tão juntas umas às outras que é impossível guarda-las todas na memória. O seu interior não é do mais esplêndido que já visitámos, mas as suas fachadas, coloridas como não podia deixar de ser, cativam e surpreendem pela sua originalidade ou até excentricidade.

A Parroquia, por exemplo, a tal em tons pastel rosa, também conhecida por “bolo de casamento”. A igreja é do século XVII, mas a sua torre neo-gótica com uns estranhos pináculos foi-lhe acrescentada no século XIX depois de um artista indígena local ter visto – e tentado reproduzir – a imagem de uma igreja belga num postal.

O bonito Templo do Oratório San Filipe Neri também tem a fachada em tom rosa, mas o seu estilo remete para um barroco indígena. O seu interior é provavelmente o mais bonito e rico da cidade.

Mas o vizinho Templo de La Salud, com uma concha na fachada, ganha o prémio de mais original. Depois disto, fica difícil gabar o equilíbrio do Templo de San Francisco.

A piada de San Miguel de Allende está, no entanto, em caminhar pelas suas ruas. A Calle Aldama foi até eleita pela revista Architectural Digest como a 4ª rua mais bonita do mundo. O que sei é que este é o lugar mais fotografado da cidade e é aqui que o charme de San Miguel de Allende ganha ainda mais intensidade.

Pode parecer contraditório dizer que a piada está em caminhar pelas ruas e, depois, dizer que é obrigatório visitar um dos seus muitos rooftops. Mas é isso mesmo. Uma forma de sentir San Miguel é subir até a um bar ou a um restaurante nos telhados magicamente aproveitados. O Luna Tapas Bar do Hotel Rosewood é um dos mais concorridos, um pouco mais afastado do centro, mais muitos outros, até colados à Parroquia, proporcionam bons momentos.

Para se ver uma panorâmica da cidade, vale a pena subir para lá do Parque Benito Juárez até a El Chorro, o tal lugar onde San Miguel foi fundada depois dos cães do padre de mesmo nome aqui terem vindo buscar abrigo.

De volta ao centro da cidade, um fim de tarde / noite no concorrido El Jardín, diante da Parroquia, é ideal para sentir o pulso da movida. Os mariachis animam ainda mais o ambiente com as suas serenatas a pedido.

E para se conhecer mais da história de San Miguel, junto a El Jardín fica a casa onde Allende nasceu, hoje Museu Histórico de San Miguel de Allende.

E como a cidade é poiso de artistas, não poderia deixar de ser forte em artesanato. O Mercado de Artesanias segue uma linha que vai cortando várias ruas da cidade e prolonga-se por um bom espaço, com muita oferta, e alusões aos ícones do país.

Um pouco mais afastada do centro fica a Fabrica La Aurora, outrora uma fábrica têxtil, hoje transformada em espaço que acolhe diversas galerias de arte. É esta criatividade materializada nestes dois espaços, Mercado de Artesanias e Fabrica La Aurora, um de arte popular e outro de arte mais selecta, que atrai todo o tipo de estrangeiros, sejam os artistas em busca da inspiração que San Miguel lhes oferece, sejam os meros turistas em busca do bom gosto.

Teotihuacan, a cidade dos deuses

Teotihuacan, ou mais especificamente Las Pirâmides, fica a pouco mais de 1 hora de autocarro das estações de metro de Autobuses del Norte ou Indios Verdes, na Cidade do México. Se optarmos por seguir até lá de transportes públicos, podemos dizer que esta é uma viagem segura em que a única coisa estranha que nos passou foi um senhor entrar a meio do caminho no autocarro com uma maquineta na mão que dirigiu ao nosso rosto não sei muito bem para quê. Confirmado que nenhum indivíduo suspeito ali viajava, assim como entrou, assim discretamente saiu. Como estas duas estações de metro já são fora do centro da cidade, o trânsito que se apanha não é demasiado. Os arredores da cidade dão nos a ver a sua extensão quase infinita. Os diversos morros que abundam na paisagem estão praticamente todos ocupados com habitações, alguns mesmo até ao cume. O mais curioso é constatar que nesta busca incessante de espaço urbanizável podemos encontrar entre o aglomerado de casas precárias mas coloridas ruas bem definidas que rasgam a direito, quer paralelamente quer perpendicularmente. Ou seja, algum ordenamento no caos.

Teotihuacan, então. Esta é uma antiga cidade, anterior aos aztecas, diz-se que a primeira cidade planeada da Mesoamérica. E que cidade. Como não conhecia nada dela, nem sequer de fotografias, a surpresa e encantamento foram enormes. São pirâmides e mais pirâmides, algumas delas de dimensão desmedida mas sempre elegantes, num enquadramento paisagístico belíssimo, um manto raso verde rodeado de vegetação que cobre os formosos montes-vulcões característicos do México.

Um pouco de história. A civilização que hoje conhecemos como Teotihuacan foi a maior do seu tempo na Mesoamérica e, crê-se, até o maior império que reinou em terras que hoje conhecemos como do México antes da chegada dos espanhóis. Terá surgido no século I, atingindo o apogeu entre os anos 450 e 650, até ao seu colapso no século VIII. Ou seja, Teotihuacan durou cerca de 900 anos. Após ser abandonada (não se sabe com certeza o porquê do seu abandono), continuou como espaço de peregrinação e os toltecas e os aztecas, que a sucederam no tempo largos séculos depois, ficaram impressionados com a sua grandeza e logo a consideraram sagrada, tendo reocupado algumas das suas áreas. O nome verdadeiro da antiga cidade é desconhecido, até porque se desconhece igualmente qual a língua que os seus habitantes originais falavam. O actual nome – Teotihuacan – é náhuatl e deve-se aos aztecas. O seu significado? Um poético “a cidade onde os homens se transformam em deuses”.

E esta cidade que viu durante séculos os homens transformarem-se em deuses, a tal que foi a primeira cidade planeada da América pré-hispânica, chegou a alcançar 23 km2, e a ter 175000 habitantes.

Entrando pela sua Porta 1, a sudoeste do recinto visitável, logo temos diante nós a Ciudadela e o Templo de Quetzalcóatl. Correndo para norte abre-se a Calzada de los Muertos, uma longa avenida hoje com 2 kms, mas que se crê ter tido pelo menos o dobro. No final da Calzada, ergue-se majestosa a Pirâmide da Lua e antes dela, ainda maior, a Pirâmide do Sol. Eis todos os grandes elementos urbanístico-arquitectónicos que Teotihuacan nos legou e que os arqueólogos têm vindo a explorar e estudar desde o início do século XX, data até à qual se pensava que os edifícios cobertos de terra e vegetação que aí estavam não fossem mais do que pequenos montes.

A área das Pirâmides é muito grande, pelo que é bom que se conte com umas 4 horas para caminhar sossegadamente – para isso há que chegar cedo – e alegremente pelo sítio.

Primeiro, então, a Ciudadela, nome dado pelos espanhóis que quando aqui chegaram lhes pareceu estarem diante de uma fortaleza. Impressiona a pacatez matinal deste grande espaço que terá sido o centro administrativo de Teotihuacan. Várias pirâmides pequenas (considerando o que haveríamos de ver depois) envolvem a Cidadela e no seu lado este encontramos o Templo de Quetzalcoatl, também conhecido como Pirâmide da Serpente Emplumada.

Este é um dos edifícios com as decorações mais belas, complexas e surpreendentes da época pré-hispânica e pensa-se que tenha estado pintado de cor intensa. É um templo dedicado à criação do tempo e nele foram encontrados cerca de 260 esqueletos humanos, pelo que é possível que o seu significado esteja associado com os dois tipos de calendário pré-hispânico: o solar de 365 dias e o ritual de 260 dias. Mais, pela posição em que os indivíduos foram encontrados crê-se que tenham sido sacrificados como oferenda, e acompanhados de colares e outros ornamentos, alguns de obsidiana, no início da construção do templo por volta dos anos 150-250.

De volta à Calzada de los Muertos, começamos a percorrê-la toda até ao seu limite norte, até à Praça da Lua, na certeza porém de que quer para lá desta praça quer o seu limite sul não foram ainda totalmente explorados, pelo que provavelmente será muito mais longa. Esta Calzada é parte fundamental da construção de Teotihuacan, constituindo o eixo principal da cidade. Toma a direcção sul-norte e está orientada ao ponto donde nasce o sol. Perpendicular a ela corre a Calzada Este-Oeste que divide a cidade em 4 partes, numa perfeita simetria. A Calzada de los Muertos foi assim chamada pelos aztecas que para aqui vieram posteriormente, porque pensavam, ainda que erradamente, que as construções à sua beira eram tumbas. Mas não, correspondem às ruínas de antigos complexos de palácios e templos e áreas político administrativas e cívico-religiosas, com as unidades residenciais das classes altas nos arredores e as da gente comum nas aforas. Ou seja, este traço urbano de ruas e quarteirões e sua ocupação estava mesmo muito bem pensado. De destacar, ainda, a forma arquitectónica das construções, feita de talude (muro inclinado) e placa (muro vertical).

A Pirâmide do Sol é, simplesmente, brutal. Brutal por ser enorme em termos métricos e brutal por ser impressionante em termos estéticos. É o edifício pré-hispânico de maiores dimensões da sua época e um dos mais importantes de toda a Mesoamérica. O seu nome deve-se às crónicas que desde o século XVI mencionam este monumento como sendo dedicado àquela divindade. A sua exploração a grande escala aconteceu a partir de 1905 por ordem de Porfirio Diaz, o general que governou o México por décadas, o qual desejava realçar a grandeza cultural do povo mexicano através das suas obras pré-hispânicas e comemorar em o Centenário da Independência do México em grande estilo.

Esta pirâmide foi construída numa só operação e tem o interior sólido, preenchido de areia e terra. A sua construção foi iniciada entre os anos 1 e 109 e é uma plataforma de 220m sobre a qual assenta uma pirâmide rodeada por um canal e o que deveriam ser 4 níveis de construção sobrepostos – digo deveriam porque os trabalhos de reconstrução que foram levados a cabo no início do século passado acabaram por erro de resultar num total de 5 níveis.

Subir ao topo da Pirâmide do Sol não é tarefa fácil, quer pelo calor, quer pelos degraus – 248 – estreitos e muito inclinados. Para piorar, estamos a uma altitude de 2300m. Mas qualquer esforço para vencer os últimos degraus é recompensado por uma vista fabulosa de todo o vale e cidade antiga, de um lado o Templo de Quetzalcoatl, do outro a Pirâmide da Lua e, pelo meio, a Calzada de los Muertos ali em baixo, inteira, em toda a sua extensão já escavada. Do alto dos 70 metros da Pirâmide do Sol parece que o ar se torna, como que por magia, menos rarefeito e uma espécie de iluminação toma conta de nós. É um ambiente incrível e só é pena que o tenhamos de dividir com magotes de colegas turistas que querem tirar a foto da praxe.

De volta à Calzada, percorrendo-a e percebendo diferentes formas e tonalidades da pedra usada para a construção dos antigos edifícios que a ladeiam, passamos pelo Mural do Puma. Descoberto durante as prospecções arqueológicas em 1963, é parte de um conjunto de plataformas e templos.

Mais animais exóticos podem ser vistos no lado contrário da Calzada, já a entrar na Praça da Lua. O Palácio de Quetzalpapálotl serviu como residência da elite da cidade de Teotihuacan. O seu nome é tão inspirador como o lugar e significa “mariposa preciosa”. No pátio central, o pátio dos pilares, vemos pórticos de entrada para as habitações principais com colunas de pedra cravadas com decorações que representam quetzales e corujas, motivos que contaram em tempos com pintura e incrustações de obsidiana.

A Pirâmide da Lua, enfim. Voltamos a não resistir subir os seus degraus a pique, mas agora forçosamente não até ao seu topo, uma vez que não é permitida a subida na sua totalidade. Mais “modesta” em grandeza do que a sua parceira Pirâmide do Sol, a Pirâmide da Lua tem uma planta rectangular, com 150m por 130m, e uma altura 42m. Foi construída em 7 etapas, entre os anos 100 e 650. É mais pequena do que a do Sol, mas à semelhança desta, na sua parte superior deve ter existido um templo.

Novamente cá em baixo, após mais um escada acima escada abaixo, a Praça da Pirâmide da Lua é um dos espaços sagrados mais importantes da cidade. Com a sua posição estratégica, aqui se iniciará a Calzada de los Muertos. Ao contrário da Pirâmide do Sol e da Ciudadela que são espaços rodeados por uma plataforma, a Praça da Lua tem uma perspectiva aberta, sendo por isso de crer que talvez fosse um lugar dedicado a cerimónias públicas, sem restrições de acesso a toda a comunidade. No seu auge, a Pirâmide da Lua estava pintada de vermelho e era dedicada à deusa da água e da fertilidade.

No recinto arqueológico existe ainda um museu onde podemos ver alguns dos objectos retirados do lugar. Mas a grandeza e o poder de Teotihuacan está, sobretudo, nas suas fantásticas e inesquecíveis pirâmides e na possibilidade de viajarmos até ao passado guiados pela história de uma das maiores civilizações pré-hispânicas, ao mesmo tempo que o fazemos num lugar com um ambiente paisagístico tão soberbo.