Teotihuacan, a cidade dos deuses

Teotihuacan, ou mais especificamente Las Pirâmides, fica a pouco mais de 1 hora de autocarro das estações de metro de Autobuses del Norte ou Indios Verdes, na Cidade do México. Se optarmos por seguir até lá de transportes públicos, podemos dizer que esta é uma viagem segura em que a única coisa estranha que nos passou foi um senhor entrar a meio do caminho no autocarro com uma maquineta na mão que dirigiu ao nosso rosto não sei muito bem para quê. Confirmado que nenhum indivíduo suspeito ali viajava, assim como entrou, assim discretamente saiu. Como estas duas estações de metro já são fora do centro da cidade, o trânsito que se apanha não é demasiado. Os arredores da cidade dão nos a ver a sua extensão quase infinita. Os diversos morros que abundam na paisagem estão praticamente todos ocupados com habitações, alguns mesmo até ao cume. O mais curioso é constatar que nesta busca incessante de espaço urbanizável podemos encontrar entre o aglomerado de casas precárias mas coloridas ruas bem definidas que rasgam a direito, quer paralelamente quer perpendicularmente. Ou seja, algum ordenamento no caos.

Teotihuacan, então. Esta é uma antiga cidade, anterior aos aztecas, diz-se que a primeira cidade planeada da Mesoamérica. E que cidade. Como não conhecia nada dela, nem sequer de fotografias, a surpresa e encantamento foram enormes. São pirâmides e mais pirâmides, algumas delas de dimensão desmedida mas sempre elegantes, num enquadramento paisagístico belíssimo, um manto raso verde rodeado de vegetação que cobre os formosos montes-vulcões característicos do México.

Um pouco de história. A civilização que hoje conhecemos como Teotihuacan foi a maior do seu tempo na Mesoamérica e, crê-se, até o maior império que reinou em terras que hoje conhecemos como do México antes da chegada dos espanhóis. Terá surgido no século I, atingindo o apogeu entre os anos 450 e 650, até ao seu colapso no século VIII. Ou seja, Teotihuacan durou cerca de 900 anos. Após ser abandonada (não se sabe com certeza o porquê do seu abandono), continuou como espaço de peregrinação e os toltecas e os aztecas, que a sucederam no tempo largos séculos depois, ficaram impressionados com a sua grandeza e logo a consideraram sagrada, tendo reocupado algumas das suas áreas. O nome verdadeiro da antiga cidade é desconhecido, até porque se desconhece igualmente qual a língua que os seus habitantes originais falavam. O actual nome – Teotihuacan – é náhuatl e deve-se aos aztecas. O seu significado? Um poético “a cidade onde os homens se transformam em deuses”.

E esta cidade que viu durante séculos os homens transformarem-se em deuses, a tal que foi a primeira cidade planeada da América pré-hispânica, chegou a alcançar 23 km2, e a ter 175000 habitantes.

Entrando pela sua Porta 1, a sudoeste do recinto visitável, logo temos diante nós a Ciudadela e o Templo de Quetzalcóatl. Correndo para norte abre-se a Calzada de los Muertos, uma longa avenida hoje com 2 kms, mas que se crê ter tido pelo menos o dobro. No final da Calzada, ergue-se majestosa a Pirâmide da Lua e antes dela, ainda maior, a Pirâmide do Sol. Eis todos os grandes elementos urbanístico-arquitectónicos que Teotihuacan nos legou e que os arqueólogos têm vindo a explorar e estudar desde o início do século XX, data até à qual se pensava que os edifícios cobertos de terra e vegetação que aí estavam não fossem mais do que pequenos montes.

A área das Pirâmides é muito grande, pelo que é bom que se conte com umas 4 horas para caminhar sossegadamente – para isso há que chegar cedo – e alegremente pelo sítio.

Primeiro, então, a Ciudadela, nome dado pelos espanhóis que quando aqui chegaram lhes pareceu estarem diante de uma fortaleza. Impressiona a pacatez matinal deste grande espaço que terá sido o centro administrativo de Teotihuacan. Várias pirâmides pequenas (considerando o que haveríamos de ver depois) envolvem a Cidadela e no seu lado este encontramos o Templo de Quetzalcoatl, também conhecido como Pirâmide da Serpente Emplumada.

Este é um dos edifícios com as decorações mais belas, complexas e surpreendentes da época pré-hispânica e pensa-se que tenha estado pintado de cor intensa. É um templo dedicado à criação do tempo e nele foram encontrados cerca de 260 esqueletos humanos, pelo que é possível que o seu significado esteja associado com os dois tipos de calendário pré-hispânico: o solar de 365 dias e o ritual de 260 dias. Mais, pela posição em que os indivíduos foram encontrados crê-se que tenham sido sacrificados como oferenda, e acompanhados de colares e outros ornamentos, alguns de obsidiana, no início da construção do templo por volta dos anos 150-250.

De volta à Calzada de los Muertos, começamos a percorrê-la toda até ao seu limite norte, até à Praça da Lua, na certeza porém de que quer para lá desta praça quer o seu limite sul não foram ainda totalmente explorados, pelo que provavelmente será muito mais longa. Esta Calzada é parte fundamental da construção de Teotihuacan, constituindo o eixo principal da cidade. Toma a direcção sul-norte e está orientada ao ponto donde nasce o sol. Perpendicular a ela corre a Calzada Este-Oeste que divide a cidade em 4 partes, numa perfeita simetria. A Calzada de los Muertos foi assim chamada pelos aztecas que para aqui vieram posteriormente, porque pensavam, ainda que erradamente, que as construções à sua beira eram tumbas. Mas não, correspondem às ruínas de antigos complexos de palácios e templos e áreas político administrativas e cívico-religiosas, com as unidades residenciais das classes altas nos arredores e as da gente comum nas aforas. Ou seja, este traço urbano de ruas e quarteirões e sua ocupação estava mesmo muito bem pensado. De destacar, ainda, a forma arquitectónica das construções, feita de talude (muro inclinado) e placa (muro vertical).

A Pirâmide do Sol é, simplesmente, brutal. Brutal por ser enorme em termos métricos e brutal por ser impressionante em termos estéticos. É o edifício pré-hispânico de maiores dimensões da sua época e um dos mais importantes de toda a Mesoamérica. O seu nome deve-se às crónicas que desde o século XVI mencionam este monumento como sendo dedicado àquela divindade. A sua exploração a grande escala aconteceu a partir de 1905 por ordem de Porfirio Diaz, o general que governou o México por décadas, o qual desejava realçar a grandeza cultural do povo mexicano através das suas obras pré-hispânicas e comemorar em o Centenário da Independência do México em grande estilo.

Esta pirâmide foi construída numa só operação e tem o interior sólido, preenchido de areia e terra. A sua construção foi iniciada entre os anos 1 e 109 e é uma plataforma de 220m sobre a qual assenta uma pirâmide rodeada por um canal e o que deveriam ser 4 níveis de construção sobrepostos – digo deveriam porque os trabalhos de reconstrução que foram levados a cabo no início do século passado acabaram por erro de resultar num total de 5 níveis.

Subir ao topo da Pirâmide do Sol não é tarefa fácil, quer pelo calor, quer pelos degraus – 248 – estreitos e muito inclinados. Para piorar, estamos a uma altitude de 2300m. Mas qualquer esforço para vencer os últimos degraus é recompensado por uma vista fabulosa de todo o vale e cidade antiga, de um lado o Templo de Quetzalcoatl, do outro a Pirâmide da Lua e, pelo meio, a Calzada de los Muertos ali em baixo, inteira, em toda a sua extensão já escavada. Do alto dos 70 metros da Pirâmide do Sol parece que o ar se torna, como que por magia, menos rarefeito e uma espécie de iluminação toma conta de nós. É um ambiente incrível e só é pena que o tenhamos de dividir com magotes de colegas turistas que querem tirar a foto da praxe.

De volta à Calzada, percorrendo-a e percebendo diferentes formas e tonalidades da pedra usada para a construção dos antigos edifícios que a ladeiam, passamos pelo Mural do Puma. Descoberto durante as prospecções arqueológicas em 1963, é parte de um conjunto de plataformas e templos.

Mais animais exóticos podem ser vistos no lado contrário da Calzada, já a entrar na Praça da Lua. O Palácio de Quetzalpapálotl serviu como residência da elite da cidade de Teotihuacan. O seu nome é tão inspirador como o lugar e significa “mariposa preciosa”. No pátio central, o pátio dos pilares, vemos pórticos de entrada para as habitações principais com colunas de pedra cravadas com decorações que representam quetzales e corujas, motivos que contaram em tempos com pintura e incrustações de obsidiana.

A Pirâmide da Lua, enfim. Voltamos a não resistir subir os seus degraus a pique, mas agora forçosamente não até ao seu topo, uma vez que não é permitida a subida na sua totalidade. Mais “modesta” em grandeza do que a sua parceira Pirâmide do Sol, a Pirâmide da Lua tem uma planta rectangular, com 150m por 130m, e uma altura 42m. Foi construída em 7 etapas, entre os anos 100 e 650. É mais pequena do que a do Sol, mas à semelhança desta, na sua parte superior deve ter existido um templo.

Novamente cá em baixo, após mais um escada acima escada abaixo, a Praça da Pirâmide da Lua é um dos espaços sagrados mais importantes da cidade. Com a sua posição estratégica, aqui se iniciará a Calzada de los Muertos. Ao contrário da Pirâmide do Sol e da Ciudadela que são espaços rodeados por uma plataforma, a Praça da Lua tem uma perspectiva aberta, sendo por isso de crer que talvez fosse um lugar dedicado a cerimónias públicas, sem restrições de acesso a toda a comunidade. No seu auge, a Pirâmide da Lua estava pintada de vermelho e era dedicada à deusa da água e da fertilidade.

No recinto arqueológico existe ainda um museu onde podemos ver alguns dos objectos retirados do lugar. Mas a grandeza e o poder de Teotihuacan está, sobretudo, nas suas fantásticas e inesquecíveis pirâmides e na possibilidade de viajarmos até ao passado guiados pela história de uma das maiores civilizações pré-hispânicas, ao mesmo tempo que o fazemos num lugar com um ambiente paisagístico tão soberbo.

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