Pelas redondezas de Oaxaca

Na maior parte das vezes não achamos muita piada aos tours, pela pouca margem de tempo que costumam dedicar a cada visita e pelos lugares adereço que impingem aos turistas.

Mas nas viagens sempre em trânsito, constantemente de um lado para o outro, de vez em quando sabe bem descansar a cabeça e vale a pena arriscar a ser guiado, sobretudo quando o tempo não abunda. Foi assim que decidimos por um tour pela região mais próxima da capital de Oaxaca, desde aí até Hierve el Agua, a 70 kms, passando por Mitla e Santa Maria del Tule, com paragens numa loja de têxteis e numa fábrica de mezcal. E não só não nos arrependemos como recomendamos este tour.

A primeira paragem foi em Mitla, povoação famosa pelo sítio arqueológico que ganhou importância após a queda de Monte Albán. De nome original em língua zapoteca “lyobaa”, com o significado de “lugar de descanso”, as ruínas deste sítio comportam um conjunto de edifícios que no seu apogeu entre os séculos XIII e XIV acolhia as entidades religiosas e os palácios das mais altas personalidades da época zapoteca. Mas o elemento mais distintivo deste sítio são as designadas “grecas”, os seus mosaicos característicos com decorações geométricas várias que dão aos muros dos edifícios um efeito especial de movimento e luz.

De Mitla seguimos até Hierve el Agua e pelo caminho fomos apreciando a paisagem montanhosa. “Ferve a agua” é um lugar que tem tudo para ser um daqueles panoramas incríveis que se guardam na memória até ao final da vida – uma piscina de água azul debruçada num desfiladeiro acompanhado pelo recorte da montanha. Acontece que em época de Guelaguetza não é só a cidade de Oaxaca que está cheia de visitantes. É também toda a região. Ou seja, à nossa passagem o panorama incrível estava transformado num cenário preenchido por uma multidão de corpos e cabeças que quase não deixava perceber que ali havia uma piscina com água. Este é, pois, um lugar popular.

Mas se nos deixarmos levar pelo caminho de terra que está para lá desta piscina vamos ver um outro panorama igualmente incrível, feito de penhascos altos cujas rochas têm umas formas raras, resultado dos minerais que sobre elas actuam. Tudo isto num ponto altaneiro para um vale que se estende longe de forma soberba.

Após um almoço buffet tradicional esquecível, parámos em Teotitlán del Valle, a terra por excelência onde são confeccionados os têxteis, mais especificamente numa loja onde pudemos conhecer, através de uma demonstração, o modo do seu fabrico ao tear. Mais interessante ainda foi saber como se chegam às diversas cores que inundam os têxteis que são uma das imagens de marca de Oaxaca. Por exemplo, o vermelho vêm de um parasita de um insecto que costuma aborrecer os espinhos dos cactos. Mas não são só os bichos que resultam em cor, também a manipulação de outros elementos da natureza como frutas, minerais e flores nos fazem chegar às cores mais incríveis para, depois, preencherem a diversidade de desenhos e temas das várias peças de têxteis.

Se com esta demonstração por um casal de velhotes ficámos com a impressão de não haver neste tour pressão para os seus integrantes comprarem os produtos locais, com a visita à fábrica de mezcal ficámos com essa certeza. Na Fábrica de Mezcal Artesanal El Rey de Matatlán vimos o processo que leva até à forma final em que se serve esta bebida espirituosa, desde a planta do agave até à destilaria, com muitas curiosidades à mistura, e foram-nos dados a provar vários tipos de mezcal, sempre seguindo um ritual bem disposto. Se o mezcal é parte da identidade de Oaxaca – na região dos vales centrais é fabricado 60% de todo o mezcal do México -, há que, então, seguir todos os preceitos associados à toma desta bebida que se bebe maioritariamente num convívio de amigos. No nosso grupo não éramos todos amigos, nem sequer conhecidos, mas neste momento do tour já vínhamos trocando conversas e aqui, na prova de mezcal, pudemos trocar experiências e perceber que quase todos eram mexicanos, vindos de todo o lado do país, Chihuahua, Puebla, Baja California. Antes de beber o mezcal há que soltar sempre em conjunto alguma poesia, como a muito conhecida “para todo o mal, mezcal; para todo o bem, também.” E foi para o bem que provámos várias levas deste líquido num copinho pequenino – fraquinha, eu fiquei-me pela primeira prova desta aguardente que mais me pareceu saber a tabaco e só voltei às lides quando foi oferecida a prova de mezcal mais licoroso.

Esta jornada terminou em Santa Maria del Tule, um pueblo tranquilo cuja maior atracção é uma sua árvore, a Árbol del Tule, uma das maiores do mundo no que ao diâmetro de tronco diz respeito. São 14,5m e conta-se que serão necessárias 30 pessoas para a abraçar. Impressionou-me mais saber que terá 2000 anos e, principalmente, a pacatez do parque da povoação, com igreja e jardim bem cuidados, e que, esse sim, ficará na memória como fecho deste longo dia.

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